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domingo, 28 de julho de 2024

"Encontro" - Poema de Almada Negreiros


Gregorio Prieto (Pintor español asociado a la generación del 27, 1897-1992),
Encuentro
, 1930-31
, Museo Gregorio Prieto.


Encontro 
 
 
Que vens contar-me
se não sei ouvir senão o silêncio?
Estou parado no mundo.
Só sei escutar de longe
antigamente ou lá para o futuro.
É bem certo que existo:
chegou-me a vez de escutar.
Que queres que te diga
se não sei nada e desaprendo?
A minha paz é ignorar.
Aprendo a não saber:
que a ciência aprenda comigo
já que não soube ensinar.
O meu alimento é o silêncio do mundo
que fica no alto das montanhas
e não desce à cidade
e sobe às nuvens que andam à procura de forma
antes de desaparecer.
Para que queres que te apareça
se me agrada não ter horas a toda a hora?
A preguiça do céu entrou comigo
e prescindo da realidade como ela prescinde de mim.
Para que me lastimas
se este é o meu auge?!
Eu tive a dita de me terem roubado tudo
menos a minha torre de marfim.
Jamais os invasores levaram consigo as nossas
torres de marfim.
Levaram-me o orgulho todo
deixaram-me a memória envenenada
e intacta a torre de marfim.
Só não sei que faça da porta da torre
que dá para donde vim.
 

José Sobral de Almada Negreiros
(Poema "Encontro" publicado no Diário de Lisboa, 25 Nov. 1937) 
 

quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

“Cantiga de Amor” - Poema de Eduarda Chiote


Almada Negreiros (Artista multidisciplinar português, 1893-1970),
Bailarina
, c. 1948. Guache e grafite sobre papel, 53 × 37 cm.



Cantiga de Amor

 
Ó rosa dos sete ventos, por sete ventos
rodada,
defende-me
dos ladrões,
dos espantos doidos,
dos ventos,
e de mim. De mim também
e dos meus ventos
chorados.

Ó rosa dos sete espinhos
e no rochedo
cravados,
limpa o mar de todo o sangue, 
limpa a praia marinheira
das ondas do meu
pecado.

Limpa o coração deserto e a inocência do menino
trespassada pelo vidro da garrafa
arremessada
por veleiro sobre areia
adormecida,
por soltos cabelos
de água.

Ó rosa dos sete espinhos, por sete espinhos
rodada, traz-me o frio do céu limpo,
as nuvens da trovoada,
nos olhos do meu amor
e nas ruínas
abertas
de uma casa destelhada.

Ó rosa dos sete estrelos, por sete estrelos
rodada,
traz contigo todo o luto
desta música
inventada
no seu boné de marujo
ou no corpo não impresso de uma nota
descuidada.

Ó rosa dos sete estrelos, ó silêncio enevoado,
leva contigo
o poema, leva contigo
a palavra.
Leva contigo
o poeta
numa pérola de neve
e pela dor
fustigada
ó rosa clara de morte
ó nome do meu
amado.


Eduarda Chiote
, A Musa ao Espelho: Pathos
Pequena antologia quase inédita de poesia contemporânea portuguesa
(livro+cd), Gailivro, 2007


Descrição

A Musa ao Espelho
apresenta um espetáculo intenso e eclético. Os poemas são interpretados por José Carlos Tinoco, acompanhado por Juca Rocha (piano), Ianina Khmélik (violino), Vanessa Pires (violoncelo) e Fátima Santos (acordeão). Os temas compostos ou adaptados para cada um dos poemas acentuam a ambiência do texto, transportando o espetador através de uma viagem imaginária, visitando diferentes espaços físicos e emocionais. Obra constituída por livro com os poemas, CD audio e DVD do espetáculo em caixa.
Poemas de Ana Luísa Amaral, António Maria Lisboa, Bénedicte Houart, Carlos Poças Falcão, Daniel Jonas, Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Eduarda Chiote, Filipa Leal, Helga Moreira, Humberto R., João Luís Barreto Guimarães, João Rios, Manuel António Pina, Rosa Alice Branco e Rui Lage.
 
 
Almada NegreirosSem título, s. d. Grafite e tinta da China sobre papel.
Coleção particular em depósito no Museu Calouste Gulbenkian – 
Coleção Moderna.

 
"Sobre a terra, antes da escrita e da imprensa, existiu a poesia." 
 

quarta-feira, 24 de agosto de 2022

"Aqui Portugal" - Poema de Almada Negreiros


Francisco Smith ou Francis Smith (Pintor português, 1881–1961),
"Trecho de Lisboa com Tejo", guache sobre papel, 26 x 23 cm  


Aqui Portugal


Aqui Portugal
Bicesse
O Fim-do-Mundo mais perto de
Lisboa a da boa flordelis
e
Entre a Serra da Lua (Sintra)
As grutas e necrópole daqueles
Que nascidos em Creta
Passaram em Homero
Em Cristo
E a vista de Roma
Saíram do Mediterrâneo
E aqui ficaram e passaram
Trazendo consigo para toda a parte
A civilização da Liberdade individual
Do Homem.

Almada Negreiros 


domingo, 31 de outubro de 2021

"Esperança" - Poema de Almada Negreiros


A Engomadeira, 1938. Óleo sobre tela. 50 x 40 cm. 
Coleção particular (daqui)
 
 

Esperança


Esperança:
isto de sonhar bom para diante
eu fi-lo perfeitamente,
Para diante de tudo foi bom
bom de verdade
bem feito de sonho
podia segui-lo como realidade

Esperança:
isto de sonhar bom para diante
eu sei-o de cor.
Até reparo que tenho só esperança
nada mais do que esperança
pura esperança
esperança verdadeira
que engana
e promete
e só promete.

Esperança:
pobre mãe louca
que quer pôr o filho morto de pé?

Esperança
único que eu tenho
não me deixes sem nada
promete
engana
engano que seja
engana
não me deixes sozinho
esperança. 
 
 
 
 
 
 
"A esperança seria a maior das forças humanas, se não existisse o desespero." 
 
 
 

domingo, 24 de outubro de 2021

"Momento de Poesia" - Poema de Almada Negreiros


dos Sapatos de Ferro», 1918. Guache sobre cartão . 50,6 x 35,8 cm 
Museu Calouste Gulbenkian – Coleção Moderna.
 
 

Momento de Poesia

 
 Se escrevo ou leio ou desenho ou pinto,
logo me sinto tão atrasado
no que devo à eternidade,
que começo a empurrar para diante o tempo
e empurro-o, empurro-o à bruta
como empurra um atrasado,
até que cansado me julgo satisfeito.
(Tão gémeos são
A fadiga e a satisfação!)
Em troca, se vou por aí
sou tão inteligente a ver tudo o que não é comigo,
compreendo tão bem o que não me diz respeito,
sinto-me tão chefe do que está fora de mim,
dou conselhos tão bíblicos aos aflitos de uma aflição que não é minha,
que, sinceramente, não sei qual é melhor:
se estar sozinho em casa a dar à manivela da vida,
se ir por aí e ser Rei de tudo o que não é meu. 
 
 Lisboa, Novembro 1939

 José de Almada Negreiros,
Poemas Escolhidos
 
 

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

"A Varina" - Poema de José de Almada Negreiros



José de Almada Negreiros (Artista multidisciplinar português, 1893-1970),
Peixeiras (Tapeçaria)


A Varina


Lá na Ribeira Nova
onde nasce Lisboa inteira
na manhã de cada dia
há uma varina
e se não fosse ela
ai não sei
não sei que seria de mim!
Por ela
fiz dois versos a todas as varinas:
E vós varinas que sabeis a sal
e trazeis o mar no vosso avental!
Acho parecidos estes versos
com as varinas de Portugal.

Uma vez falei-lhe
para ouvi-la
e vê-la
ao pé.
A voz saborosa
os olhos de variar
castanhos de variar
castanhos escuros de variar
com reflexos de variar
desde a rosa
até ao verde
desde o verde
até ao mar.

Num reflexo refleti:
não dar aquele destino
ao meu destino aqui.

Lisboa, 1926
 in Poemas, Assírio & Alvim.
 

José de Almada Negreiros, Pescador (Tapeçaria)


“Do trabalho das tuas mãos comerás tranquilo e feliz.” 


segunda-feira, 21 de setembro de 2015

"Mãe!" - Poema de Almada Negreiros


Almada Negreiros, Maternidade, 1935



Mãe!


Mãe! a oleografia está a entornar o amarelo do Deserto por cima da 
minha vida. O amarelo do Deserto é mais comprido do que um dia todo! 
Mãe! eu queria ser o árabe! Eu queria raptar a menina loira! 
Eu queria saber raptar. 
Dá-me um cavalo, mãe! Até a palmeira verde está esmeralda! E o anel?! 

A minha cabeça amolece ao sol sobre a areia movediça do Deserto! 
A minha cabeça está mole como a minha almofada! 

Há uns sinais dentro da minha cabeça, como os sinais do Egípcio, 
como os sinais do Fenício. Os sinais destes já têm antecedentes e eu 
ainda vou para a vida. 

Não há muros para que haja estrada! Não há muros para pôr cartazes! 
Não está a mão de tinta preta a apontar — por aqui! 
Só há sombras do sol nas laranjeiras da outra margem, e todas as noites 
o sono chega roubado! 

Mãe! As estrelas estão a mentir. Luzem quando mentem. Mentem 
quando luzem. Estão a luzir, ou mentem? 
Já ia a cuspir para o céu! 

Mãe! a minha estrela é doida! Coube-me nas sortes a Estrela-doida! 

Mãe! dá-me um cavalo! Eu já sou o galope! Há uma palmeira, Mãe! 
O que quer dizer um anel? Tem uma esmeralda. 

Mãe! eu quero ser as três oleografias! 



in 'Antologia Poética'

domingo, 20 de setembro de 2015

"Família" - Poema de Carlos Drummond de Andrade


Família


Três meninos e duas meninas, 
sendo uma ainda de colo. 
A cozinheira preta, a copeira mulata, 
o papagaio, o gato, o cachorro, 
as galinhas gordas no palmo de horta 
e a mulher que trata de tudo. 

A espreguiçadeira, a cama, a gangorra, 
o cigarro, o trabalho, a reza, 
a goiabada na sobremesa de domingo, 
o palito nos dentes contentes, 
o gramofone rouco toda a noite 
e a mulher que trata de tudo. 

O agiota, o leiteiro, o turco, 
o médico uma vez por mês, 
o bilhete todas as semanas 
branco! mas a esperança sempre verde. 
A mulher que trata de tudo 
e a felicidade. 


 in 'Alguma Poesia'


Almada Negreiros, Duplo Retrato, 1934-36,
óleo sobre tela, 146 cm x 101 cm


"Interroguei-me muitas vezes se uma pessoa tem justificação para negligenciar a sua própria família para lutar por oportunidades para os outros."

in Manuscrito (1975)

terça-feira, 15 de setembro de 2015

"Canção da Saudade" - Texto de Almada Negreiros


Almada Negreiros, Acrobatas, 1947, Guache sobre papel, 51 × 63,5 cm
 


Canção da Saudade


Se eu fosse cego amava toda a gente.

Não é por ti que dormes em meus braços que sinto amor. Eu amo a minha irmã gémea que nasceu sem vida, 
e amo-a a fantasiá-la viva na minha idade.

Tu, meu amor, que nome é o teu? Diz onde vives, diz onde moras, diz se vives ou se já nasceste.

Eu amo aquela mão branca dependurada da amurada da galé que partia em busca de outras galés perdidas em mares longíssimos.

Eu amo um sorriso que julgo ter visto em luz do fim do dia por entre as gentes apressadas.

Eu amo aquelas mulheres formosas que indiferentes passaram a meu lado e nunca mais os meus olhos pararam nelas.

Eu amo os cemitérios - as lajes são espessas vidraças transparentes, e eu vejo deitadas em leitos floridos virgens nuas, mulheres belas rindo-se para mim.

Eu amo a noite, porque na luz fugida as silhuetas indecisas das mulheres são como as silhuetas indecisas das mulheres que vivem em meus sonhos. Eu amo a lua do lado que eu nunca vi.

Se eu fosse cego amava toda a gente


in Frisos - Revista Orpheu nº1




"Lisboa é a nitidez através do ar. Lisboa é a cor manchada dos muros. Lisboa é o musgo novo a nascer sobre o musgo seco. Lisboa é o desenho de fendas, como relâmpagos, a escorrerem pela superfície dos muros. Lisboa é a imperfeição criteriosa. Lisboa é o céu refletido."


sexta-feira, 7 de setembro de 2012

"As Palavras" - Texto de Almada Negreiros




As palavras


“Há palavras que fazem bater mais depressa o coração – todas as palavras – umas mais do que outras, qualquer mais do que todas. Conforme os lugares e as posições das palavras. Segundo o lado donde se ouvem – do lado do Sol ou do lado onde não há o Sol. Cada palavra é um pedaço do universo. Um pedaço que faz falta ao universo. Todas as palavras juntas formam o Universo. As palavras querem estar nos seus lugares!”


José de Almada Negreiros, “A Invenção do Dia Claro”
In: NEGREIROS, José de Almada. Manifestos e conferências. Lisboa: Assírio e Alvim, 2006, p. 60.



Imagens que causam ilusões de ótica

The Enigma Illusion


This illusion is a contemporary variation on the Ouchi pattern, 
by Kitaoka.


This illusion is by op artist Hajime Ouchi.


The Enigma Illusion


The Enigma Illusion


The Enigma Illusion


The Enigma Illusion


The Enigma Illusion


The Christmas Lights illusion, by visual illusion artist Gianni 
A. Sarcone, is also based on Leviant's Enigma. 


The Enigma Illusion


The Enigma Illusion


The Enigma Illusion


Um campo vetorial contínuo sobre uma esfera S2 com apenas um polo.
 

"Não sei o que é conhecer-me. Não vejo para dentro. Não acredito que eu exista por detrás de mim."

Alberto Caeiro 
(Heterónimo de Fernando Pessoa)


Evanescence - Lost in Paradise (Lyric Video)
 
 
 
“Sê tu a mudança que queres ver no mundo”. 

(Mahatma Gandhi)
 
 

segunda-feira, 9 de julho de 2012

"Reconhecimento à loucura" - Poema de Almada Negreiros


Almada Negreiros, "Autorretrato num grupo", 1925



Reconhecimento à loucura


Já alguém sentiu a loucura 
vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objetos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
Exatamente.
Como o cavalo do soneto do Ângelo de Lima?
Tal e qual.
E depois mostrar-nos o que há de vir
muito melhor do que está?
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem nem resignação?
E sentirmo-nos empurrados pelos rins
na aula de descer abismos
e fazer dos abismos descidas de recreio
e covas de encher novidade?
E de uns fazer gigantes
e de outros alienados?
E fazer frente ao impossível
atrevidamente e ganhar-lhe, e ganhar-lhe
a ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo parece perfeito
poder-se ir ainda mais além?
E isto de desencantar vidas
aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre ainda mais uma maneira para tudo?

Tu só loucura és capaz de transformar
o mundo tantas vezes quantas sejam as necessárias para olhos individuais
Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões que hão de viver juntas
Tudo, exceto tu, é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar 
a quem tas vier buscar.


Almada Negreiros 


José de Almada Negreiros, O cochilo, 1939


Artista e escritor polifacetado, José de Almada-Negreiros nasceu a 7 de abril de 1893, em S. Tomé e Príncipe, e morreu a 15 de junho de 1970, em Lisboa.
 
"Pela sua obra plástica, que o classifica entre os primeiros valores da pintura moderna; pela sua obra literária, que vibra de uma igual e poderosa originalidade; pela sua ação pessoal através de artigos e conferências - Almada-Negreiros, pintor, desenhador, vitralista, poeta, romancista, ensaísta, crítico de arte, conferencista, dramaturgo, foi, pode dizer-se que desde 1910, uma das mais notáveis figuras da cultura portuguesa e uma das que mais decisivamente contribuíram para a criação, prestígio e triunfo de uma mentalidade moderna entre nós". Assim apresenta Jorge de Sena, no primeiro volume das Líricas Portuguesas, o homem que, com Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, mais marcou plástica e literariamente a evolução da cultura contemporânea portuguesa. 
 
Órfão desde tenra idade, viajou para Lisboa com sete anos para casa de uma tia materna. Frequentou os estudos primários e liceais em Lisboa, no Colégio Jesuítico de Campolide, Liceu de Coimbra e Escola Nacional de Lisboa. Entre 1919 e 1920, seguiu estudos de pintura em Paris, aí trabalhando como bailarino de cabaré e empregado numa fábrica de velas, redigindo na capital francesa muitos dos textos e grafismos que viriam a ser célebres, como o "autorretrato". Viveu entre 1927 e 1932 em Espanha, onde realizou várias encomendas para particulares e públicos. Embora já tivesse colaborado com textos e grafismos em algumas publicações, como Portugal Artístico ou Ilustração Portuguesa, e tivesse participado com êxito no 1.º Salão do Grupo dos Humoristas Portugueses, é a sua colaboração no número 1 de Orpheu, em 1915, onde publica o texto ainda incompletamente revelador Frizos (A Cena do Ódio, destinada a Orpheu 3, só viria a ser publicada em Contemporânea), que lhe dará a base de lançamento para uma postura iconoclasta (o Manifesto Anti-Dantas, apresentado no mesmo ano, é modelar neste ataque generalizado a uma intelectualidade convencional, burguesa e passadista), tornando-se um dos principais representantes da vertente vanguardista do movimento modernista. Em 1917, participa no projeto Portugal Futurista, publicando nesse órgão do "Comité Futurista de Lisboa", que co-fundara, no mesmo ano, com Santa-Rita, o Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX, texto que já tinha sido objeto de performance pública, e os os textos simultaneístas Mima Fatáxa e Saltimbancos. Desenvolve paralelamente uma intensa atividade artística, tendo colaborado, com grafismos e com criação literária, em várias publicações, como Diário de Lisboa, Athena, Presença, Revista Portuguesa, Cadernos de Poesia, Panorama, Atlântico, Seara Nova e tendo fundado outras, como os "Cadernos de Almada-Negreiros", SW, onde, em 1935, no primeiro número, tenta equacionar, com o máximo de clareza, as relações entre civilização e cultura, entre arte e política, entre indivíduo e coletividade, aí vindo também a publicar um dos seus vários textos dramáticos, SOS, que, com Deseja-se Mulher, deveria integrar o projeto, originalmente escrito em castelhano, Tragédia da Unidade
 
Uma análise da obra de Almada-Negreiros não pode deixar de considerar a complementaridade que nela assumem as várias formas de expressão artística, nem de verificar que, independentemente do suporte escolhido (argumento e coreografia de bailados, exposições, happening, produções publicitárias, cinema, jornais manuscritos, telas, frescos, mosaicos, vitrais, painéis de azulejos, palestras radiofónicas, cenários e figurinos, cartões de tapeçaria, etc.), toda a realização artística de Almada se distingue por certos traços comuns, não necessariamente antitéticos, como a graciosidade e a irreverência, a ingenuidade e a inteligência, o populismo e o esteticismo, a abstração e o concreto. 
 
Na tentativa de encontrar a arte poética subjacente à sua atividade exclusivamente literária, Celina Silva considera que a "performance constitui o universal maior de toda a produção" de Almada-Negreiros: "evidenciando-se no literário através da adoção de uma conceção do verbal que é encarada enquanto ação", essa performance verbal que "tanto é típica da postura vanguardista quanto se revela reinstauração do verbal nos seus primórdios [...] implica um exercício da palavra-ação radicada numa postura geradora de uma ficção do eu", ao mesmo tempo que "A espontaneidade e o cunho comunicativo radicam numa ambição totalizante, eivada de otimismo e euforia, que, pela abrangência de que se reveste, aponta para um projeto de alargada receção, embora projetado por uma elite" (cf. SILVA, Celina - A Busca de Uma Poética da Ingenuidade ou a (Re)Invenção da Utopia (Reflexão Sistematizante acerca da Produção Literária de José de Almada-Negreiros, Porto, Faculdade de Letras, 1992, pp. XIII, XIV). A "poética da ingenuidade" explanada por Celina Silva, anulando qualquer descontinuidade entre a forma linguística do poema, do drama, do texto de intervenção, e a expressão do ensaio, da teoria poética ou filosófica, encontraria numa "sofistificação da simplicidade" (cf. Sena, Jorge de in Obras Completas de Almada Negreiros, vol. I, Lisboa, INCM, 1985, p. 17) o equilíbrio entre poesia e conhecimento, num autor para quem "A Poesia "conhece" e não "sabe" (Prefácio ao Livro de Qualquer Poeta).

Almada-Negreiros. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2012. [Consult. 2012-07-08].


Almada Negreiros, "Estudo Cénico - Arlequim", 1929


"Eu - sou um leitor. Sei o que sou: leio o que os outros escrevem. Faço-o até compulsivamente. É a minha rotina de há muitos anos. Sou um leitor num mundo de escritores, e isso faz-me sentir muito sozinho.[...]
Só mais uma palavra. Não escreva a responder. [...] Apareça, apenas. Eu saberei reconhece-lo/a, e você também me reconhecerá com facilidade. Seremos os únicos – na praça, no jardim, na rua, no café, onde quer que nos encontremos – sentados pacatamente, com um sorriso nos lábios e um livro, aberto, na mão." 

Rui Zink, O bicho da escrita

domingo, 4 de setembro de 2011

"Eu nunca guardei rebanhos" - Poema de Alberto Caeiro / Fernando Pessoa





I - Eu nunca guardei rebanhos


Eu nunca guardei rebanhos, 
Mas é como se os guardasse. 
Minha alma é como um pastor, 
Conhece o vento e o sol 
E anda pela mão das Estações 
A seguir e a olhar. 
Toda a paz da Natureza sem gente 
Vem sentar-se a meu lado. 
Mas eu fico triste como um pôr de sol 
Para a nossa imaginação, 
Quando esfria no fundo da planície 
E se sente a noite entrada 
Como uma borboleta pela janela. 

Mas a minha tristeza é sossego 
Porque é natural e justa 
E é o que deve estar na alma 
Quando já pensa que existe 
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso. 

Como um ruído de chocalhos 
Para além da curva da estrada, 
Os meus pensamentos são contentes. 
Só tenho pena de saber que eles são contentes, 
Porque, se o não soubesse, 
Em vez de serem contentes e tristes, 
Seriam alegres e contentes. 

Pensar incomoda como andar à chuva 
Quando o vento cresce e parece que chove mais. 

Não tenho ambições nem desejos 
Ser poeta não é uma ambição minha 
É a minha maneira de estar sozinho. 

E se desejo às vezes 
Por imaginar, ser cordeirinho 
(Ou ser o rebanho todo 
Para andar espalhado por toda a encosta 
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo), 
É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol, 
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz 
E corre um silêncio pela erva fora. 

Quando me sento a escrever versos 
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos, 
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento, 
Sinto um cajado nas mãos 
E vejo um recorte de mim 
No cimo dum outeiro, 
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias, 
Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho, 
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz 
E quer fingir que compreende. 

Saúdo todos os que me lerem, 
Tirando-lhes o chapéu largo 
Quando me vêem à minha porta 
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro. 
Saúdo-os e desejo-lhes sol, 
E chuva, quando a chuva é precisa, 
E que as suas casas tenham 
Ao pé duma janela aberta 
Uma cadeira predileta 
Onde se sentem, lendo os meus versos. 
E ao lerem os meus versos pensem 
Que sou qualquer coisa natural — 
Por exemplo, a árvore antiga 
À sombra da qual quando crianças 
Se sentavam com um baque, cansados de brincar, 
E limpavam o suor da testa quente 
Com a manga do bibe riscado. 


Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema I" 
Heterónimo de Fernando Pessoa


quarta-feira, 17 de agosto de 2011

"Um grande utensílio de amor" - Poema de Mário Cesariny


 O escultor Alberto Nunes no seu atelier, 1887, Museu do Chiado,
Museu Nacional de Arte Contemporânea
 

Um grande utensílio de amor


um grande utensílio de amor 
meia laranja de alegria 
dez toneladas de suor 
um minuto de geometria 

quatro rimas sem coração 
dois desastres sem novidade 
um preto que vai para o sertão 
um branco que vem à cidade 

uma meia-tinta no sol 
cinco dias de angústia no foro 
o cigarro a descer o paiol 
a trepanação do touro 

mil bocas a ver e a contar 
uma altura de fazer turismo 
um arranha-céus a ripar 
meia-quarta de cristianismo 

uma prancha sem porta sem escada 
um grifo nas linhas da mão 
uma Ibéria muito desgraçada 
um Rossio de solidão 


in 'Discurso Sobre a Reabilitação do Real Quotidiano'


António Ramalho - Pintor português 
(Nasceu em Mesão Frio em 1859 e faleceu em 1916)



Amadeo de Souza Cardoso - Pintor português  
(Nasceu em Amarante em 1887 e faleceu em Espinho em 1918.)



Almada Negreiros - Pintor, poeta e escritor português 
(Nasceu em S.Tomé em 1893 e morreu em Lisboa em 1970.)



Abel Manta - Pintor português
(Nasceu em Gouveia em 1888. Faleceu em 1982.)


Columbano - Pintor português 
(Nasceu em Lisboa em 1857. Faleceu em 1929.)



António Carneiro - Pintor português 
(Nasceu em Amarante em 1872. Faleceu em 1930.)


 Henrique Medina - Pintor retratista português
(Nasceu no Porto em 1901. Faleceu em 1988.)



Dominguez Alvarez - Pintor português de origem galega 
(Nasceu no Porto em 1906. Morreu em 1942.)



Artes plásticas 


As artes plásticas ou belas-artes são as formações expressivas realizadas utilizando-se de técnicas de produção que manipulam materiais para construir formas e imagens que revelem uma conceção estética e poética em um dado momento histórico. O surgimento das artes plásticas está diretamente relacionado com a evolução da espécie humana.
As artes plásticas surgiram na pré-história. Existem diversos exemplos da pintura rupestre em cavernas. Até os dias atuais há sempre uma necessidade de expressão artística utilizando novos meios. É nas artes plásticas que encontramos o uso de novos meios para a criação, invenção e apreciação estética.
A pintura refere-se genericamente à técnica de aplicar pigmento em forma líquida a uma superfície, a fim de colori-la, atribuindo-lhe matizes, tons e texturas.
Em um sentido mais específico, é a arte de pintar uma superfície, tais como papel, tela, ou uma parede (pintura mural ou de afrescos). A pintura a óleo é considerada por muitos como um dos suportes artísticos tradicionais mais importantes; grandes obras de arte, tais como a Mona Lisa, são pinturas a óleo; com o desenvolvimento tecnológico dos materiais, outras técnicas tornaram-se igualmente importantes como, por exemplo, a tinta acrílica.
Diferencia-se do desenho pelo uso dos pigmentos líquidos e do uso constante da cor, enquanto aquele apropria-se principalmente de materiais secos.
No entanto, há controvérsias sobre essa definição de pintura. Com a variedade de experiências entre diferentes meios e o uso da tecnologia digital, a ideia de que pintura não precisa se limitar à aplicação do "pigmento em forma líquida". Atualmente o conceito de pintura pode ser ampliado para a representação visual através das cores. Mesmo assim, a definição tradicional de pintura não deve ser ignorada. O concernente à pintura é pictural, pictórico, pinturesco, ou pitoresco.
Na pintura, um dos elementos fundamentais é a cor. A relação formal entre as massas coloridas presentes em uma obra constitui sua estrutura básica, guiando o olhar do espectador e propondo-lhe sensações de calor, frio, profundidade, sombra, entre outros. Estas relações estão implícitas na maior parte das obras da História da Arte e sua explicitação foi uma bandeira dos pintores abstratos ou não-figurativos. A cor é considerada por muitos artistas como a base da imagem. (daqui)