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terça-feira, 19 de abril de 2022

"Poema Relativo" - Jorge de Lima

 
Albert Eckhout (c.1610–c.1666), Natureza-morta com Bananas, goiaba e outras frutas,
Museu Nacional da Dinamarca



Poema Relativo



Vem, ó
bem-amada
Junto à minha casa
Tem um regato (até quieto o regato).

Não tem pássaros que pena!

Mas os coqueiros fazem,
Quando o vento passa,
Um barulho que às vezes parece
Bate-bate de asas.

Supõe, ó bem-amada,
Se o vento não sopra,
Podem vir borboletas
À procura das minhas jarras
Onde há flores debruçadas,
Tão debruçadas que parecem escutar.

Todos os homens têm seus crentes,
Ó bem-amada:
os que pregam o amor ao próximo
e os que pregam a morte dele.

Mas tudo é pequeno
E ligeiro no mundo, ó amada.
Só o clamor dos desgraçados
É cada vez mais imenso!

Vem, ó bem-amada.
Junto à minha casa
Tem um regato até manso.
E os teus passos podem ir devagar
Pelos caminhos:
aqui não há a inquietação
de se atravessar o asfalto.

Vem, ó bem-amada,
Porque como te disse
Se não há pássaros no meu parque,
Pode ser, se o vento
Não soprar forte
Que venham borboletas.
Tudo é relativo
E incerto no mundo.
Também tuas sobrancelhas
Parecem asas abertas.


Jorge de Lima
,
Em Bazar, ano 1, n. 4, nov. 1931. 


Albert Eckhout, Natureza-morta com melancia, abacaxi e outras frutas brasileiras.
 
 
"Quando me tornei vegetariano, poupei dois seres, o outro e eu."

Prof° Hermógenes (Natal, 1921 –  Rio de Janeiro, 2015),
Militar, escritor, professor, divulgador do hatha ioga



Albert Eckhout, Natureza-morta com Abacaxi, Mamão e Outras Frutas.

"Ser vegetariano é viver uma vida de paz, saúde e longevidade."

Sócrates (c. 470 a.C. – 399 a.C.), Filósofo da Grécia Antiga

 

 
Busto de Sócrates, cópia romana.


Sócrates, figura emblemática da filosofia, nasceu em Atenas cerca de 470 a. C. e foi considerado, segundo alguns historiadores na esteira de Cícero - que afirmou ter sido Sócrates quem «fez descer a filosofia do céu para a terra e a fez penetrar nos lares e nas praças públicas de Atenas» -, como o responsável pela transição para um novo período da filosofia grega, que se caracteriza pelo abandono das preocupações cosmológicas em favor de uma temática predominantemente antropológica.
Embora esta interpretação seja muito polémica - os temas do discurso socrático não divergem substancialmente das preocupações dos sofistas, que já haviam colocado o homem no centro da reflexão filosófica -, é pacífico reconhecer que se notabilizou pela inflexão que impôs no sentido da problematização ética.
Movido por um ideal essencialmente prático - acreditava que só a troca de ideias através do diálogo direto era relevante -, Sócrates não deixou obra escrita, tendo o seu pensamento sobrevivido graças a Platão, de quem foi mestre. Enquanto personagem central de grande parte das obras platónicas, foi louvado como um pensador que, longe de procurar impor ou defender qualquer sistema - é dele a imortal máxima « sei que nada sei» -, se orientou sobretudo para uma missão pedagógica com o objetivo de levar os concidadãos a «conhecerem-se a si mesmos», libertando-os dos preconceitos que lhes impediam o acesso à virtude, à felicidade e ao verdadeiro saber.
Este tipo de proposta colocou-o em tenaz oposição aos sofistas, cujos desígnios interesseiros e funcionalistas censurava, por colocarem indiscriminadamente o conhecimento ao serviço dos poderosos que lhes podiam pagar aulas de retórica e erística com o único objetivo de melhor defenderem os seus interesses particulares.
O método que desenvolveu visava convencer os interlocutores a rejeitar o saber aparente - «opinião», ou doxa -, desprovido de qualquer fundamento objetivo, com origem no «senso comum». Inquirindo acerca do significado e definição de conceitos como «o bem», «a virtude» ou «a felicidade» - motivo pelo qual Aristóteles o considerou como fundador da filosofia do conceito -, fazia sobressair a incoerência e a inconsistência das crenças que dirigiam as ações daqueles que não refletiam sobre a essência dos valores.
Este método ficou conhecido como «aporético» por se concluir de forma «negativa»: uma vez atingida pelo opositor a autoconsciência da sua profunda ignorância, Sócrates não propunha qualquer solução para os problemas identificados. Dotado de uma fé inquebrantável na realização da razão, acreditava que esse procedimento era suficiente para indicar o caminho do saber genuíno - a episteme.
Assim, classificava a sua filosofia como uma maiêutica (literalmente: «arte de parturejar»), ou seja, como uma forma de «trazer à luz» as almas transviadas por um conhecimento vulgar e irrefletido, cabendo posteriormente a cada um a tarefa de se elevar por si mesmo até à verdade.
No entanto, é preciso referir que a «missão socrática» não tinha por escopo a mera promoção intelectual dos que o ouviam; longe disso, ao admitir como autêntica virtude humana o conhecimento, combatendo a ignorância estava também pugnando pelo aperfeiçoamento moral dos indivíduos - o mal e as condutas injustas são apenas fruto da ignorância e a ética é correlativa à sabedoria.
A acutilância de Sócrates na crítica à sociedade ateniense da altura, dilacerada pela guerra, por uma série de conflitos internos e por uma decadência moral devida em grande parte ao relativismo propagandeado pelos sofistas, levou a que se tornasse uma personagem demasiado incómoda para ser tolerada. Em 399 a. C. foi acusado de corromper os jovens e de impiedade por não acreditar nos deuses da cidade. Enfrentando o processo que lhe moveram com a maior serenidade, recusou o exílio infamante e acabou por ser condenado à morte pela ingestão de cicuta. (Daqui)


Albert Eckhout, Natureza-morta com Abóboras e Melões.

"Os vegetais constituem alimentação suficiente para o estômago e, no entanto, o recheamos com vidas valiosas." 

Séneca (ca. 4 a.C. 65 d. C.), Filósofo estoico e um dos mais célebres advogados,
 escritores e intelectuais do Império Romano
 
 
 
Busto de Séneca, atribuído ao escultor Giuliano Finelli
(1641-1644), Museu do Prado.
 
 
Lucius Annaeus Seneca, o Jovem, filósofo, orador e trágico romano, nasceu em Córdova no ano 4 a. C. e morreu em Roma em 65 d. C.
Era o segundo filho de uma família rica. O pai, Lucius Annaeus Séneca, o Velho, tornou-se famoso em Roma como professor de Retórica.
Séneca foi levado para Roma por uma tia e treinado como orador e educado em filosofia.
A sua saúde tornou-se débil e foi para o Egito, em repouso, para casa da tia, mulher do prefeito, Gaius Galerius.
Regressado a Roma, por volta de 31 d. C., começou a sua carreira como político e advogado.
Em 41 o imperador Cláudio desterrou-o para a Córsega por acusação de adultério com a princesa Lucia Livilla, sobrinha do imperador. Aí estudou ciências naturais e filosofia e escreveu os três tratados intitulados Consolationes. Por influência de Agripina, mulher do imperador, retornou a Roma em 49, foi nomeado pretor em 50, casou com Pompeia Paulina, mulher rica, rodeou-se de um poderoso grupo de amigos e tornou-se tutor do futuro imperador Nero.
A morte de Cláudio, em 54, trouxe Séneca para a ribalta.
O primeiro discurso de Nero, escrito por Séneca, prometia liberdade para o Senado e o fim da influência das mulheres.
Agripina, mãe de Nero, entendia que a sua influência devia continuar, e havia mais inimigos.
Em 59 teve de participar no assassinato de Agripina.
Depois da morte de Burrus, em 62, Séneca sentiu que não poderia continuar. Teve autorização para se retirar e nos últimos anos da sua vida escreveu algumas das suas melhores obras filosóficas.
Em 65, os seus inimigos acusaram-no de ter tomado parte na conspiração de Piso.
Foi-lhe ordenado que se suicidasse.
Fê-lo com toda a dignidade e coragem.
Principais obras filosóficas: Apolocyntosis divi Claudii, Naturales questiones, Consolationes, De ira, De Clementia, De Tranquillitate animi, De vita beata, De constantia sapientis, De otio, De beneficiis, De brevitate vitae. (Daqui)
 
 
Albert Eckhout, Natureza-morta com cocos.


"Que horror é meter entranhas em entranhas, engordar um corpo com outro corpo, viver da morte de seres vivos!" 
 
Pitágoras (c. 570 a.C c. 495 a.C.), Matemático e filósofo grego. 
 
 


Pitágoras, natural de Samos, na Ásia Menor, onde terá nascido nos finais do século VI a. C., emigrou para Crotona, colónia grega no Sul da Itália, e aí fundou uma escola místico-filosófica com preocupações sociopolíticas, cuja influência acabou por dominar a cidade. Atendendo ao carácter hermético da sua doutrina - no interior da escola vigorava uma regra de sigilo que considerava como crime a divulgação dos ensinamentos aos não iniciados, pelo que não existiam quaisquer escritos -, assim como à aura de profeta prodigioso que acabou por o envolver, são pouco fidedignos os relatos que dele nos chegaram, além de se tornar muito difícil distinguir o que é genuinamente de Pitágoras do que foi introduzido pelos seus discípulos.
Contrariamente aos pensadores milésios, não se dedicou a especulações sobre o arkê - princípio material das coisas -, procurando sobretudo aceder ao conhecimento das estruturas formais que regem o mundo, que se podem sumariar em três grandes vertentes: harmonia matemática, doutrina dos números e dualismo cosmológico essencial.
Com base na redução da harmonia da escala musical a razões matemáticas, inferiu que todo o Universo seria harmonia e número, criando a teoria da harmonia das esferas (o Cosmos é regido por relações matemáticas). Considerava que as coisas eram números, que os corpos eram constituídos por pontos e que os números que representavam as quantidades desses pontos lhes definiam as propriedades. Acreditou ainda que o próprio número, agente de todas as modificações, estaria na origem do dualismo Limite/Ilimitado, que representava o início do processo cosmogónico (implantação do princípio masculino do Limite no seio do Ilimitado circundante, feminino, análoga à fecundação ou deposição de uma semente no solo).
Do interesse pela matemática resultaram alguns avanços científicos, sobretudo nas áreas da geometria e da aritmética (dos quais o Teorema de Pitágoras será o mais famoso).
No que diz respeito a crenças, acreditou na imortalidade e transmigração das almas, tal como no parentesco de todos os seres vivos, além de se ter dedicado à enunciação de uma série de regras éticas e religiosas que deveriam presidir à ação dos seus discípulos.
Segundo alguns testemunhos, teria sido o primeiro a usar as palavras «cosmos» e «filosofia» na aceção atual.
Apesar de a intervenção política de Pitágoras em Crotona ter sido de curta duração - os habitantes cedo se rebelaram contra o governo que instaurara -, a escola que fundou acabou por florescer e já na altura da sua morte, que deverá ter ocorrido próximo do ano de 480 a. C., se encontravam comunidades pitagóricas espalhadas por toda a Grécia, difundindo e aprofundando o pensamento do mestre, tendo contribuído dessa forma para que durante vários séculos ele fosse fonte de inspiração para muitos dos grandes nomes da filosofia. (Daqui)

 
Albert Eckhout, Natureza-morta com mandioca.

 
"Por mim discerni uma certa sublimidade na disciplina de Pitágoras, e como uma certa sabedoria secreta capacitou-o a saber, não apenas quem ele era a si mesmo, mas também o que ele tinha sido; e eu vi que ele se aproximou dos altares em estado de pureza, e não permitia que a sua barriga fosse profanada pelo partilhar da carne de animais; e que ele manteve o seu corpo puro de todas as peças de roupa tecidas de refugo de animais mortos; e que ele foi o primeiro da humanidade a conter a sua própria língua, inventando uma disciplina de silêncio descrito na frase proverbial, 'Um boi senta-se sobre ela.' Eu também vi que o seu sistema filosófico era em outros aspetos oracular e verdadeiro. Então corri a abraçar os seus sábios ensinamentos..."
 
 Apolónio de Tiana (15 d.C. – c. 100 d.C.), Filósofo neopitagórico e professor de origem grega. 
 
 
Estátua de Apolónio de Tiana de autoria de Barthélémy de Mélo 
 no Parque dos Filósofos, Versalhes.
 


Apolónio de Tiana, filósofo neopitagórico, nasceu no início do século I, no reinado de Augusto, em Tiana, cidade da Capadócia. Aos catorze anos foi para Tarso estudar gramática e retórica. O encontro com o filósofo Euxene revelou-lhe o pitagorismo. Absolutamente convicto da verdade desta doutrina, deixa o seu mestre, cuja conduta lhe parecia desadequada da teoria. Começa então um processo ascético muito austero, durante o qual empreendeu múltiplas viagens em busca das fontes do pitagorismo: Babilónia, Cáucaso, Índia, Etiópia, Egito, Grécia e Itália.
Este contemporâneo de Cristo foi venerado como um deus descido à Terra, um contraponto pagão ao cristianismo. Os habitantes da sua cidade natal chegaram mesmo a erguer-lhe um templo.
Não chegou aos nossos dias qualquer obra de Apolónio; o que sabemos dele é-nos dado quase na totalidade pelo seu biógrafo Filóstrato.
Apolónio pretendia encontrar a tradição universal original, transmitida de mestre a discípulo desde o início dos tempos, procurando reformar o culto dos seus contemporâneos, que lhe parecia demasiado rudimentar. Opõe-se por exemplo aos sacrifícios; a divindade suprema, diz Apolónio, não necessita de nada. Num espírito verdadeiramente universal, de influência pitagórica, considera a Terra inteira como uma só pátria, na qual os homens devem partilhar os bens oferecidos pela natureza. (Daqui)
 

sábado, 3 de abril de 2021

"Aos Atletas" - Poema de Carlos Drummond de Andrade


Albert GleizesLes Joueurs de football (Football Players), 1912-13,
National Gallery of Art, Washington D.C.

 

Aos Atletas

 
Os poetas haviam composto suas odes 
para saudar atletas vencedores.
A conquista brilhava entre dois toques.
Era frágil e grácil
fazer da glória ancila de nós todos.
Hoje,
manuscritos picados em soluço
chovem do terraço chuva de irrisão.
Mas eu, poeta da derrota, me levanto
sem revolta e sem pranto
para saudar os atletas vencidos.

Que importa hajam perdido?
Que importa o não-ter-sido?
Que me importa uma taça por três vezes,
se duas a provei para sentir,
coleante, no fundo, o malicioso
Mercúrio de sua perda no futuro?

É preciso xingar o Gordo e o Magro?
E o médico e o treinador e o massagista?
Que vil tristeza, essa
a espalhar-se em rancor, e não em canto
ao capricho dos deuses e da bola
que brinca no gramado
em contínua promessa
e fez um anjo e faz um ogre de Feola?

Nem valia ter ganho
a esquiva copa
e dar a volta olímpica no estádio
se fosse para tê-la em nossa copa
ternamente prenda de família
a inscrever no inventário
na coluna de mitos e baixelas
que à vizinhança humilha,
quando a taça tem asas, e, voando,
no jogo livre e sempre novo que se aprende,
a este e aquele vai-se derramando.

Oi, meu flavo canarinho,
capricha nesse trilo
tanto mais doce quanto mais tranquilo
onde estiver Bellini ou Jairzinho,
o engenhoso Tostão, o sempre Djalma Santos,
e Pelé e Gilmar,
qualquer dos que em Britânia conheceram
depois da hora radiosa
a hora dura do esporte,
sem a qual não há prémio que conforte,
pois perder é tocar alguma coisa
mais além da vitória, é encontrar-se
naquele ponto onde começa tudo
a nascer do perdido, lentamente.

Canta, canta, canarinho,
a sorte lançada entre
o laboratório de erros
e o labirinto de surpresas,
canta o conhecimento do limite,
a madura experiência a brotar da rota esperança.

Nem heróis argivos nem párias,
voltam os homens — estropiados
mas lúcidos, na justa dimensão.
Souvenirs na bagagem misturados:
o dia-sim, o dia-não.
O dia-não completa o dia-sim
na perfeita medalha. Hoje completos
são os atletas que saúdo:
nas mãos vazias eles trazem tudo
que dobra a fortaleza da alma forte.

24 de julho de 1966

Carlos Drummond de Andrade
,
do livro 'Quando é dia de futebol'
 
 
 
‘Quando é dia de futebol’ - 1ª Ed. (2002)
 
Publicados em sua maioria nos jornais Correio da Manhã e Jornal do Brasil, nos quais o autor ocupou cadeira cativa durante muitos anos, os textos de ‘Quando é dia de futebol’ mostram um Carlos Drummond de Andrade atento ao futebol em suas múltiplas variantes: o esporte, a manifestação popular, a metáfora que nos ajuda a entender a realidade brasileira. São crónicas e poemas escritos a partir da observação do autor sobre campeonatos, Copas do Mundo, rivalidades entre grandes times e lances geniais de Pelé, Mané Garrincha e outros. Selecionados por Luis Mauricio e Pedro Augusto Graña Drummond, netos do poeta, os textos oferecem um passeio - muito drummondiano, e portanto leve, inteligente e arguto - por nove Copas do Mundo: de 1954, na Suíça, até a última testemunhada pelo autor, em 1986, no México. Não são, claro, resenhas de certames nem tentativas de análise futebolística. Vão além, em seu aparente descompromisso, pois capturam no futebol aquilo que mais interessava ao autor: a capacidade que o bate-bola tem de estilizar, durante os noventa minutos de duração de uma partida, as grandes paixões humanas. ‘Confesso que o futebol me aturde, porque não sei chegar até o seu mistério’, anota o mineiro em um dos textos. Pura modéstia, como se verá na leitura deste ‘Quando é dia de futebol’, pois, se houve algum escritor brasileiro habilitado à decifração desse esporte apaixonante, foi mesmo Carlos Drummond de Andrade. (Daqui)



Leo Santana (Artista Plástico) - Estátua em bronze em tamanho natural do poeta Carlos Drummond de Andrade. 
Praia de Copacabana, Rio de Janeiro, 2002. (Daqui)
 

Escritor brasileiro, Carlos Drummond de Andrade, nasceu em Itabira, Minas Gerais, em 1902. Estudou em Belo Horizonte e diplomou-se em Farmácia, carreira que não exerceu, e fez a sua vida no Rio de Janeiro, entregando-se às letras. Aderiu ao Modernismo, no qual se distinguiu. Como poeta, estreia-se em 1930 com "Alguma Poesia", obra à qual se seguem outras que estão reunidas em "Poesia até Agora" e "Fazendeiro do Ar" (1955). Aí se encontram: "Alguma Poesia, Brejo das Almas" (1934), "Sentimento do Mundo" (1940), "José" (1942), "A Rosa do Povo" (1945), "Novos Poemas" (1948), "Claro Enigma" (1951) e "Fazendeiro do Ar", apenas com exclusão da poesia circunstancial de "Viola de Bolso" (1952). Escreve ainda "Ciclo" (1957), "Poesias" (1959) e "Lição de Loiras" (1962), reunindo, então, toda a sua produção literária em "Obras Completas" (1965). 

Na sua poesia, caldeiam-se o sarcasmo, a ironia, o humor, mas há lirismo puro e profundo, a pesquisa do «sentimento do mundo», por vezes a revelação do seu mundo interior, do seu povo, da sua paisagem, atingindo a verdadeira serenidade e pureza clássicas em muitas composições. Foge do sentimental, do patético, mas afirma uma poesia séria, de sentimento límpido e acentuado sentido trágico, transmitidos com discrição e delicadeza. É, então, uma poesia séria, meditada, que se insere no Modernismo brasileiro. É evidente a sua preocupação formal e a abordagem dos temas numa atitude anti-lírica. Tem para ele um grande relevo o mistério da palavra que considera relevadora de poesia. É evidente a sua progressiva depuração quanto ao tema. Como ficcionista, escreve "Contos de Aprendiz" (1951); como cronista e crítico, é autor de "Confissões de Mimas" (1944), "O Gerente" (1945), "Passeios na Ilha" (1952), "Fal, Amendoeira" (1957). Na prosa há humor e cepticismo, por vezes uma certa ironia e graça sem esconder a sua natural preocupação com o homem e com o autêntico. Carlos Drummond de Andrade faleceu em 1987 no Rio de Janeiro. (Daqui)
 
 

sexta-feira, 2 de abril de 2021

"Minha Casa" - Poema de Ada Ciocci Curado


Albert Bartholomé (French, 1848–1928), In The Conservatory - 
Madame Bartholomé, 1881, Musée d'Orsay, Paris


Minha casa


Minha casa hoje,
tem janelas abertas para o nascente,
para o poente,
e,
também para a larga estrada,
aquela que conduz ao limite,
pela frente.
Minha casa solitária,
Branca e alta,
embora esteja plantada em estéril campo,
é toda circundada de verde, paz e silêncio.
Nova e antiga casa,
onde o Amor e a Esperança,
ainda são uma constante.


In 'Acalanto', 1991

Albert Bartholomé, The Artist's Wife - Périe (1849–1887) Reading, 1883 
 
 
Ao amor 
 
 ...
Muito amo as criaturas, porém,
sobretudo eu amo o poeta,
por ser ele o senhor da sensibilidade,
da emoção e do sonho.
...
Enfim,
eu amo a palavra por permitir-me dizer ela
o quanto eu amo.

Ada Ciocci Curado
In 'Acalanto', 1991
 

Bartholomé's sculpture on his wife's grave at Bouillant 
near Crépy-en-Valois 
 
 
Lírico


A morte levou a poeta, 
porém 
os verbos
e os ensinamentos de amor
 por ela deixados 
na História ficaram.

Ada Ciocci Curado
In 'Acalanto', 1991
 
 

quinta-feira, 1 de abril de 2021

"A Essência não se perde" - Poema de Reynaldo Valinho Alvarez



László Moholy-Nagy
, Great machine of emotion, 1920
 


A Essência não se perde

 
Com a firmeza de passos sem retorno,
carregar o que foi dentro de si,
sem chorar a partida, sem temer
deixar o que afinal vai bem marcado
com seu selo de coisa inesquecível.
A essência não se perde, vai connosco
e extravasa dos dedos quando escrevem,
salta fora da boca quando fala,
transpira pela pele, sai dos ossos,
é lançada dos músculos em arco
e circula no sangue das artérias.
Os pagos, as querências não se perdem,
se penetram nos ossos, moram neles,
não como o minuano passageiro,
mas sim como a medula que sustenta
o circuito do corpo e o movimenta,
impedindo que pare, morra e penda
como trouxa de pano, como penca
tombada de seu pé, como o vazio,
a coisa sem recheio, a casca murcha,
o fruto despojado de si mesmo.
 

Reynaldo Valinho Alvarez, 
in 'O Solitário Gesto de Viver' 
 
 
Reynaldo Valinho Alvarez (daqui)


Reynaldo Valinho Alvarez (Rio de Janeiro, 1931), formado em Letras, Direito, Economia e Administração, publicou vinte e dois livros de poesia, dois de ficção, dois de ensaio e quinze livros para crianças e adolescentes, além de participar de mais de cinquenta coletâneas de poemas, contos e ensaios, com outros autores, e de colaborar em jornais e revistas. Foi laureado pelas principais instituições culturais do país, entre elas a Academia Brasileira de Letras, o Instituto Nacional do Livro, a Fundação Biblioteca Nacional, o Conselho Estadual de Cultura do Rio de Janeiro, a Fundação Cultural do Distrito Federal, e a Fundação Catarinense de Cultura, além de entidades em Portugal, no México, na Itália e na Espanha. Traduzido para o sueco, o italiano, o espanhol, o francês, o corso, o galego, o persa, o macedónio e o inglês, foi incluído pela crítica entre os nomes mais expressivos da poesia brasileira contemporânea, que representou em festivais internacionais na Suécia, na Macedónia, no Canadá e na Espanha.
Reynaldo Valinho Alvarez, filho de pai espanhol e mãe portuguesa, nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 1931. Viveu seus primeiros anos junto a imigrantes portugueses, espanhóis e italianos, e seus descendentes.
Cursou as quatro primeiras séries do primário no Colégio Municipal Celestino da Silva. Entre seus contemporâneos, estava o animador e empresário de comunicação Sílvio Santos. Fez o antigo ginásio e o antigo clássico no Colégio Pedro II, onde conheceu Maria José, com quem está casado há 55 anos e que com ele cursou Letras Clássicas, na Faculdade Nacional de Filosofia... (continua)
 
 
László Moholy-Nagy, Self-Portrait, 1918
Wax crayon on paper, 37.9 x 31 cm 
 
Artista multifacetado, László Moholy-Nagy nasceu em 1895, em Bácsborsód, na Hungria. Estudou Direito, desde 1913, em Budapeste, abandonando os estudos em 1918. Tinha já realizado alguns trabalhos de pintura e de desenho. Em 1919 desloca-se para Viena e, no ano seguinte, para Berlim, onde realiza a sua primeira exposição individual, em 1922. Foi professor da Bauhaus entre 1923 e 1928, tornando-se mestre da forma e do atelier de metal e chefe do curso preliminar. Deu aulas de materiais e de espaço. Realizou trabalhos de pintura, de tipografia e de fotografia e publicou vários estudos e ensaios teóricos sobre design. Entre 1928 e 1934 dirigiu um estúdio de design gráfico em Berlim. Trabalhou em filmes experimentais e fez projetos para a Ópera Kroll e para o teatro Piscator. Na década de 30 realizou uma série de esculturas denominadas Moduladores Espaciais que constituem as primeiras manifestações da arte cinética.
Emigra para Amesterdão em 1934 e viaja para Londres no ano seguinte, trabalhando aí como designer gráfico. Mais tarde, desloca-se para os Estados Unidos da América e funda, em Chicago, uma escola de artes, a New Bauhaus, em 1937, que, no ano seguinte, passaria a designar-se School of Design. Desenvolve nesta fase esculturas acrílicas e concentra-se novamente sobre a pintura em 1944, sendo exemplo desta fase o Double Loop, de 1946. Morre em Chicago em 1946. A sua obra Visions of Motion foi publicada postumamente, em 1947.
(daqui)
 
 
László Moholy-Nagy, “Double Loop”, 1946
 
[This Plexiglas sculpture consists of a series of geometric planes, incised with holes and slits, flowing in biomorphic curves to double back and enfold each other and themselves. The effects of light and viewing perspective continually transform the appearance and mood of the piece, as art critic Chi-Young Kim notes: "when you walk around the piece in person, the incisions seem to disappear and reappear depending on your vantage point." Moholy-Nagy's use of translucent plastic, combined with his awareness of the ambient effects of light and viewer positioning, is typically prescient, prefigures later movements in modern art such as the 1960s Light and Space movement.] (daqui)
 

domingo, 2 de agosto de 2020

"Cartas a Ophélia Queiroz" - Fernando Pessoa


Carolina Zambrano Enriquez, Fernando Pessoa y Heterónimos



Carta a Ophélia Queiroz  - 1 Mar. 1920


Ophelinha:

Para me mostrar o seu desprezo, ou, pelo menos, a sua indiferença real, não era preciso o disfarce transparente de um discurso tão comprido, nem da série de «razões» tão pouco sinceras como convincentes, que me escreveu. Bastava dizer-mo. Assim, entendo da mesma maneira, mas dói-me mais.

Se prefere a mim o rapaz que namora, e de quem naturalmente gosta muito, como lhe posso eu levar isso a mal? A Ophelinha pode preferir quem quiser: não tem obrigação — creio eu — de amar-me, nem, realmente necessidade (a não ser que queira divertir-se) de fingir que me ama.

Quem ama verdadeiramente não escreve cartas que parecem requerimentos de advogado. O amor não estuda tanto as coisas, nem trata os outros como réus que é preciso «entalar».

Porque não é franca para comigo? Que empenho tem em fazer sofrer quem não lhe fez mal — nem a si, nem a ninguém —, a quem tem por peso e dor bastante a própria vida isolada e triste, e não precisa de que lha venham acrescentar criando-lhe esperanças falsas, mostrando-lhe afeições fingidas, e isto sem que se perceba com que interesse, mesmo de divertimento, ou com que proveito, mesmo de troça.

Reconheço que tudo isto é cómico, e que a parte mais cómica disto tudo sou eu.

Eu-próprio acharia graça, se não a amasse tanto, e se tivesse tempo para pensar em outra coisa que não fosse no sofrimento que tem prazer em causar-me sem que eu, a não ser por amá-la, o tenha merecido, e creio bem que amá-la não é razão bastante para o merecer. Enfim...

Aí fica o «documento escrito» que me pede. Reconhece a minha assinatura o tabelião Eugénio Silva.

1.3.1920

Fernando Pessoa

Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994) - 1.


Ophélia Queiroz


Ophélia Queiroz
nasceu em Lisboa, na Rua das Trinas, no dia 14 de junho de 1900.

Filha de pais algarvios, de Lagos, é a mais nova de oito irmãos. Concluiu o primeiro grau da instrução, embora desejasse ser professora de matemática, mas procurou estar sempre atualizada estudando Francês e Inglês.

Gostava de ler, de ir ao teatro e de conviver. Passava muitas horas em casa do sobrinho, o poeta Carlos Queirós, a conviver com grandes artistas como Carlos Botelho, Vitorino Nemésio, Almada Negreiros, Olavo d'Eça Leal, Teixeira de Pascoaes, José Régio e outros.

Ophélia foi a namorada de Fernando Pessoa durante duas fases: de 1 de maio a 29 de novembro de 1920 e de 11 de setembro de 1929 a 11 de janeiro de 1930, embora o contacto entre os dois se mantenha cordial, mas esporádico, até à morte do Poeta.

A primeira fase, marcada por uma paixão sincera, termina com uma carta em que Pessoa afirma que o seu destino pertence a outra lei.

O reencontro, motivado por uma fotografia do Poeta a beber no Abel Pereira da Fonseca, oferecida a Carlos Queirós, inicia-se quando esta mostra vontade de possuir uma igual e ele lhe envia uma com a dedicatória: "Fernando Pessoa em flagrante delitro". Nesta segunda fase, nota-se uma enorme confusão de sentimentos e perturbação psíquica.

A partir de 1936 até 1955, Ophélia Queiroz trabalhou no SNI (Secretariado Nacional da Informação). Nesse ano, na Tobis, conhece Augusto Soares, um homem de Teatro, com quem casa em 1938. (Daqui)


Fernando Pessoa em 1914 


Carta a Ophélia Queiroz - 29 Nov. 1920

Ophelinha:

Agradeço a sua carta. Ela trouxe-me pena e alívio ao mesmo tempo. Pena, porque estas coisas fazem sempre pena; alívio, porque, na verdade, a única solução é essa — o não prolongarmos mais uma situação que não tem já a justificação do amor, nem de uma parte nem de outra. Da minha, ao menos, fica uma estima profunda, uma amizade inalterável. Não me nega a Ophelinha outro tanto, não é verdade?

Nem a Ophelinha, nem eu, temos culpa nisto. Só o Destino terá culpa, se o Destino fosse gente, a quem culpas se atribuíssem.

O Tempo, que envelhece as faces e os cabelos, envelhece também, mas mais depressa ainda, as afeições violentas. A maioria da gente, porque é estúpida, consegue não dar por isso, e julga que ainda ama porque contraiu o hábito de se sentir a amar. Se assim não fosse, não havia gente feliz no mundo. As criaturas superiores, porém, são privadas da possibilidade dessa ilusão, porque nem podem crer que o amor dure, nem, quando o sentem acabado, se enganam tomando por ele a estima, ou a gratidão, que ele deixou.

Estas coisas fazem sofrer, mas o sofrimento passa. Se a vida, que é tudo, passa por fim, como não hão-de passar o amor e a dor, e todas as mais coisas, que não são mais que partes da vida?

Na sua carta é injusta para comigo, mas compreendo e desculpo; decerto a escreveu com irritação, talvez mesmo com mágoa, mas, a maioria da gente — homens ou mulheres — escreveria, no seu caso, num tom ainda mais acerbo, e em termos ainda mais injustos. Mas a Ophelinha tem um feitio óptimo, e mesmo a sua irritação não consegue ter maldade. Quando casar, se não tiver a felicidade que merece, por certo que não será sua a culpa.

Quanto a mim...

O amor passou. Mas conservo-lhe uma afeição inalterável, e não esquecerei nunca — nunca, creia — nem a sua figurinha engraçada e os seus modos de pequenina, nem a sua ternura, a sua dedicação, a sua índole amorável. Pode ser que me engane, e que estas qualidades, que lhe atribuo, fossem uma ilusão minha; mas nem creio que fossem, nem, a terem sido, seria desprimor para mim que lhas atribuísse.

Não sei o que quer que lhe devolva — cartas ou que mais. Eu preferia não lhe devolver nada, e conservar as suas cartinhas como memória viva de um passado morto, como todos os passados; como alguma coisa de comovedor numa vida, como a minha, em que o progresso nos anos é par do progresso na infelicidade e na desilusão.

Peço que não faça como a gente vulgar, que é sempre reles; que não me volte a cara quando passe por si, nem tenha de mim uma recordação em que entre o rancor. Fiquemos, um perante o outro, como dois conhecidos desde a infância, que se amaram um pouco quando meninos, e, embora na vida adulta sigam outras afeições e outros caminhos, conservam sempre, num escaninho da alma, a memória profunda do seu amor antigo e inútil.

Que isto de «outras afeições» e de «outros caminhos» é consigo, Ophelinha, e não comigo. O meu destino pertence a outra Lei, de cuja existência a Ophelinha nem sabe, e está subordinado cada vez mais à obediência a Mestres que não permitem nem perdoam.

Não é necessário que compreenda isto. Basta que me conserve com carinho na sua lembrança, como eu, inalteravelmente, a conservarei na minha.

 29-11-1920

Fernando Pessoa

Cartas de Amor. Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa: Ática, 1978 (3ª ed. 1994) - 36.


 
Fernando Pessoa em 1928


Cartas a Ophélia


Ler a correspondência alheia é, alerta-nos a autoridade, atividade criminosa. Que o leitor amigo aceite, portanto, o saboroso convite a um ilícito voyeurismo: trata-se de desvendar as cartas amorosas de um dos maiores poetas do século passado, o português Fernando Pessoa. Se todo homem é um universo de percepções, sonhos e experiências, a alma multiforme de Pessoa cindiu-se numa miríade de galáxias, desveladas pela esquizofrenia literária da heteronímia. O poeta são poetas, e é esse parnaso pessoal, composto por filósofos panteístas, médicos aristocráticos, engenheiros futuristas, escrivães misantropos, que constitui um dos maiores desafios ao entendimento desse pequeno funcionário português, desse cultor da astrologia e do ocultismo, do homem metódico dado ao vício do álcool, da carne que se fez verbo, coerente com a troca de sinal da mensagem do evangelho que representou seu projeto de existência.

Nas cartas, endereçadas por Fernando Pessoa a sua amada Ophélia, é impossível não reconhecer os ecos de outra célebre epistolografia literária, aquela trocada por Franz Kafka e sua noiva, Felice Bauer; ambos, Kafka e Pessoa, foram burocratas medíocres, que consumiram a vida no processo monomaníaco de encontrar o sumo da existência, transmutada na obra (talvez não fosse de todo incorreto afirmar que, para Pessoa e Kafka, parodiando os versos do primeiro, escrever é preciso, viver não é preciso), ambos vivendo paixões fadadas ao fracasso, repletas de extremado apego e de obsessões neuróticas.

Como apontará o romancista italiano Antonio Tabucchi, estudioso dos labirintos de Pessoa, na notável introdução ao volume, devemos enfrentar as desventuras epistolares do poeta português com olho armado, e uma saudável dose de perspicaz ceticismo. Quem era tantos (ou um outro, na formulação famosa de outro poeta, Rimbaud, que no exercício de sua clarividência percebeu uma das fraturas mais fundamentais da modernidade) não pode mesmo se expressar com a naturalidade inocente de um colegial apaixonado, ou ainda: é justamente a expressão, pouco apaixonada, por vezes quase infantil, do amor de Pessoa, que nos deve fazer desconfiar que, sob a camada de gelo fino da paixão sem erotismo, reverbera um oceano de complexidade gigantesca, quase insondável. “Fausto em gabardina”, dirá Tabucchi, ao traduzir a odisseia moral do poeta e de sua Ophelia, e é mesmo isso.

Assombrado pela obsessão dos relógios, dos documentos, da confirmação de seu amor, Pessoa (Qual deles? Todos? Quem?) parece, angustiosamente, ao narrar seus pequenos acidentes domésticos, seus contratempos diários, suas indisposições físicas, perseguir um sentido de normalização, uma via de tranquilização através do Outro, a plena realização de si por intermédio do ordálio amoroso. E não é de surpreender que, tendo tornado a si mesmo personagem, e metamorfoseado sua vida em construção literária, a própria compreensão do amor, seja, para Pessoa, a de uma página artística.

Se a vida desimporta – no sentido mais pedestre que se possa atribuir a uma palavra tão eivada de sentido quanto “vida” – e se no lance de dados só a obra seja o próprio sentido das coisas, o amor só interessa, ele mesmo, como objeto poético. Daí que o amor de Pessoa seja tão casto, tão inocente, tão platonizante, tão despido de sexualidade e de carne: aqui, todo gozo se localiza no campo da palavra e da ideia: “O amor é que é essencial/ O sexo é só um acidente”, segundo a ascética formulação expressa nos versos do ortónimo.

A leitura da correspondência alheia não é atividade inocente. Muito menos se o signatário das cartas intitular-se Fernando Pessoa. (Daqui)



 
Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz. Correspondência Amorosa Completa



Correspondência Amorosa Completa
1919-1935


Este volume reúne toda a correspondência amorosa trocada entre Fernando Pessoa e sua única namorada, Ofélia Queiroz, de 1919 a 1935, com 156 cartas inéditas. Foi uma história de amor discreta, que poderia ter permanecido totalmente esquecida se Fernando e Ofélia não tivessem guardado por toda a vida as quase 350 cartas, cartões-postais, bilhetes e telegramas trocados entre eles.

Ofélia tem 19 anos e Fernando, 31, quando o namoro começa. Ela é uma moça inteligente e viva, apaixonada pelo poeta, de quem espera uma proposta de casamento. A jovem lisboeta o afoga em cartas, e chega a assinar - Ofélia ´Pessoa´ (quem me dera). Mas também sabe se prestar ao jogo dos heterónimos de Pessoa - A. A. Crosse e Álvaro de Campos são presenças recorrentes nas cartas, e Campos até mesmo assina uma das cartas de Pessoa. A forma epistolar é fundamental nessa relação, com ruptura em 1920 e curta retomada em 1929.

Para os admiradores de Fernando Pessoa, a leitura deste livro, no qual todas as imagens dos escritos na sua letra são reproduzidos pela primeira vez, faz reviver cada etapa deste episódio marcante de sua biografia, que humaniza o poeta. (Daqui)


"Fernando Pessoa em flagrante delitro": dedicatória na fotografia
 que ofereceu a Ophélia Queiroz em 1929.
 

Um dia, um conhecido disse a Fernando Pessoa (1888-1935): 
"O senhor bebe como uma esponja!"

O autor de O Livro do Desassossego terá respondido: 
"Como uma esponja, não. Como uma loja de esponjas, e com armazém anexo."

Sentado à mesa do Martinho da Arcada ou de outros cafés da Baixa lisboeta, Pessoa fumava cerca de 80 cigarros por dia e bebia - vinho, sim; whisky, em ocasiões especiais; absinto, por influência do amigo Mário de Sá-Carneiro; mas, sobretudo, bagaço e aguardente. Até trazia sempre consigo, na pasta de cabedal, uma garrafinha preta com essa bebida. Mas sem perder a compostura.

Mesmo na fotografia que enviou à namorada Ofélia, "apanhado em flagrante delitro", como ele próprio escreveu, no depósito da casa Abel Pereira da Fonseca, ali está, impecável, de copo na mão e chapéu na cabeça. (Daqui)


Fernando Pessoa na Baixa de Lisboa


“Se eu tivesse o mundo na mão, trocava-o, estou certo, por um bilhete para a Rua dos Douradores.” 

Fernando Pessoa – Livro do Desassossego


"Pedi tão pouco à vida e esse mesmo pouco a vida me negou. Uma réstia de parte do sol, um campo, um bocado de sossego com um bocado de pão, não me pesar muito o conhecer que existo, e não exigir nada dos outros nem exigirem eles nada de mim. Isto mesmo me foi negado, como quem nega a esmola não por falta de boa alma mas para não ter que desabotoar o casaco.

Escrevo, triste, no meu quarto quieto, sozinho como sempre tenho sido, sozinho como sempre serei. E penso se na minha voz, aparentemente tão pouca coisa, não incarna a substância de milhares de vozes, a fome de milhares de vidas, a paciência de milhões de almas submissas como a minha no destino quotidiano, ao sonho inútil, à esperança sem vestígios. Nestes momentos meu coração pulsa mais alto por minha consciência dele. Vivo mais porque vivo maior. Sinto na minha pessoa uma força religiosa, uma espécie de oração, uma semelhança de clamor. Mas a reacção contra mim desce-me da inteligência… Vejo-me no quarto andar alto da Rua dos Douradores, sinto-me com sono; olho, sobre o papel meio escrito, a vida vã sem beleza e o cigarro barato que esquecido estendo sobre o mata-borrão velho. Aqui eu, neste quarto, a interpelar a vida!, a dizer o que as almas sentem!, a fazer prosa como os génios e os célebres! Aqui eu assim!…"

 Fragmento do "Livro do Desassossego", a obra-prima em prosa escrita por Fernando Pessoa, através do seu semi-heterónimo Bernardo Soares. Segundo assim o definiu Fernando Pessoa, Bernardo Soares era ajudante de guarda-livros e vivia e trabalhava na Rua dos Douradores, em Lisboa.

Fonte:
Livro do Desassossego. Vol.II. Fernando Pessoa. (Organização e fixação de inéditos de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1990. - 33,34. 



Estátua de Fernando Pessoa da autoria de Lagoa Henriques, no café A Brasileira, no Chiado, Lisboa.


Em 29 de Novembro de 1935, Fernando Pessoa foi internado com o diagnóstico de cólica hepática. A sua última frase, escrita em inglês, dizia: "I know not what tomorrow will bring".

Morreu no dia 30, com 47 anos, deixando grande parte da sua obra ainda inédita.

Fernando Pessoa é considerado universalmente um dos maiores poetas de sempre.