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terça-feira, 4 de julho de 2023

"Claro e Simples" - Poema de Adolfo Casais Monteiro



Francisco Smith ou Francis Smith (Pintor português, 1881–1961), 
Largo do Menino de Deus, Lisboa, 1927



Claro e Simples


Tudo é claro para quem
olha sempre no sentido
oposto àquele onde está
aquilo que não é claro.

Tudo é simples para quem
adia sempre o momento
de olhar de frente a ameaça
de quanto não tem resposta.

Tudo é nada para quem
descreu de si e do mundo
e de olhos cegos vai dizendo:
Não há o que não entendo.
in "Voo sem Pássaro Dentro",
 Editora Ulisseia, 1954, 1ª edição.
 

Adolfo Casais Monteiro,"Voo sem Pássaro Dentro".
Poesia - Dez desenhos de Fernando Lemos, 55 pags.
Editora Ulisseia, 1954, 1ª edição.
 
 
"Procurar a verdade é uma forma de desocultar a mentira, e a fotografia é parte dessa ânsia pelo desocultamento. A importância da fotografia é a memória. Ela é reveladora da verdade e da mentira, do que está oculto." - Fernando Lemos (daqui)
 
 

sexta-feira, 26 de maio de 2017

"Não há tempo" - Poema de Fernando Lemos


Charles Demuth (1883–1935), Aucassin and Nicolette, 1921



Não há tempo 


Não há tempo 
há horas 
Não há um relógio 
há 
hábitos que 
me habitam 

O poema dói 
o ponteiro corta 
a hora que queima 
a morte simula 

respira 
para não me distrair 


in 'A única real tradição viva 
- antologia da poesia surrealista portuguesa' 



terça-feira, 11 de abril de 2017

"Mudançar" - Poema de Fernando Lemos




Mudançar


Repor 
na planta da cor brancura 
em pedra solicitada 

Reler 
por vacilação das sílabas 
em escuridão afundada 

Rever 
por olho areado com águas 
a imagem contaminada 

Reter 
no músculo oxigenado vaso 
areal terra aterrada 

Resistir 
ao cântico suado no temor 
a evolução revoltada 

Reaver 
do padre eterno esquecido 
fé febril equivocada 

Rematar 
pontilhados no voo manual 
asa de vazio blindada 

Reacordar 
quando o tempo do morto é 
vício pele reciclada 

Recomeçar 
linguajar contínua marcha 
vivente reinventada. 


 in 'Cá & Lá'


domingo, 5 de abril de 2015

"Dia de Descanso" - Poema de Fernando Lemos


fotografia surrealista p/b, 57,5 x 57,5 cm



Dia de Descanso


Hoje reservo o dia inteiro para chorar
É o domingo decadente em que muitos
esperam pela morte de pé
É o dia do sarro que vem à boca da mediocridade
circular dos gestos que andam disfarçados de gestos
dos amores que deram em estribilhos
das correrias pederásticas para o futebol em calções
mais o melhor fato e a mesquinhez nacional dos 10%
de desconto em todo o vestuário

E choro choro porque a coragem
não me falta para tudo isto e assisto
na nega de me ceder ao braço dado

Precisarei de um cansaço mas
lá estavam espertas
as mil e não sei quantas lojas abertas
para mo vender!

Mas hoje é domingo
Lá está o chão reluzente de martírio
e nem já o sonho me dá de graça o ter por não ter
já nem o amor que suponho me dá o sonho de ser

E choro de coragem isto é
as lágrimas hão de cair secas nas minhas mãos
Falo cristalinamente sozinho
procurando entre as paredes e as varandas que vão cair
algum acaso isto é
o eco, de qualquer drama vazio

Espero como quem espera
o momento de posse entre dois ponteiros
de torneira em torneira nas súplicas febris
em que me trago aquecendo as mãos nas orelhas
para as não cortar em gritos
Espero e entretanto o mundo não se cansa
de me dar drogas para dormir e criar
novelos de lã à volta do coração
Não me lastimo grito
Quero que estas correntes da boca se tornem úteis
e não ficar pr'aqui moldado estátua
em verdete de ser chorado
A tropeçar onde não há perigo
com calçado duro a pisar as nuvens
neste tão estreitado mundo

Choro hoje o dia todo e lembro-me o que disso
podem pensar os homens das ideias revolucionárias
e choro
choro de coragem e para os microfones da revolução
As lágrimas e a revolução são como a morte de cada um

Cá do meu alto não se desce por escadas mas por desalento
por amor ao chão de terra que me pisam

e choro neste dia burguês fazendo cá a minha revolução
alheia às tais guerras de papel químico

Espero sem esperança mas certo
do que espero como de saber que um homem
não chora e choro

Choro hoje porque reservei o dia inteiro para chorar
porque é domingo e o que espero não é a morte de pé
talvez a coragem de que o mundo não esteja certo

Uma vez era ainda pequeno
chorei ao ver um prédio desabitado
Moro nele mesmo aos domingos e rio-me
das revoluções que ameaçam de pôr ou tirar-me as janelas
Sei que nada adianta
Vi o prédio desabitado era eu muito pequeno
Nele me reservo hoje o dia todo à liberdade de me dar
ao choro da coragem de esperar

E espero porque mesmo que o mundo fique desabitado
um grito afinal terá assim o seu eco

Enquanto durar este domingo vou chorar gradualmente
até que a noite me venha
cobrir o corpo de abafo quente

Então sairei à procura da prostituta cega
para lhe contar junto ao peito
como as pessoas se comportam aos domingos


Fernando Lemos,
in 'Teclado Universal' 



Fernando Lemos, Autorretrato, fotografia a preto e branco, 1949


Artista plástico português, Fernando Lemos, nasceu em 1926, em Lisboa. A sua atividade estende-se a áreas como a pintura, desenho, fotografia, gravura, artes gráficas e poesia. Estudou pintura e litografia na Escola de Artes Decorativas António Arroio e, depois, pintura na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa.

Os seus tempos de adolescência foram passados dentro do meio artístico lisboeta. Aos 18 anos começou a trabalhar como desenhador de publicidade, o que aumentou o convívio com artistas e poetas. Desde cedo, Fernando Lemos definiu-se como "surrealista, pintando, desenhando, escrevendo poesia" e fotografando.

Os poucos anos que dedicou à fotografia tiveram a sua origem depois de umas férias (1947) passadas com o pintor Vespeira nas ilhas Berlengas onde realizou uma série de pinturas sobre a água. A noção de a água poder integrar a própria pintura desencadeou nela a ideia da fotografia, partindo da evidência da imagem fotográfica surgir de um elemento líquido. Em 1949 comprou uma Flexaret e começou a fotografar. Nesta altura, já o período surrealista tinha passado e a fotografia que se fazia em Portugal era meramente paisagística. A necessidade inconsciente de liberdade de expressão levou Fernando Lemos a fotografar recorrendo a processos muito utilizados na fotografia surrealista (solarização, sobreposições, impressões em negativo e positivo) construindo uma linguagem de fragmentação da imagem (algo frequente, por exemplo, em Man Ray).

 Em 1953, em virtude da sua oposição ao regime salazarista, muda se para São Paulo, Brasil, naturalizando-se brasileiro por volta de 1960. Em 1955, ganhou o prémio viagem da Fundação Bienal de São Paulo (3.a Bienal) e viaja pela Europa. Em 1962 recebe uma bolsa de estudos para o Japão, patrocinada pela Fundação Calouste Gulbenkian.

Na sua atividade como poeta e escritor integrou a redação do jornal Portugal Democrático, um jornal dedicado aos exilados políticos no Brasil, entre 1955 e 1975. Dedicou se, também, à escrita de poesia e, em 1985, publicou o livro intitulado Cá & Lá, editado pela Imprensa Nacional, Lisboa.



Fernando Lemos, Apoio I / A Dor, fotografia a preto e branco, 1949


Na sua pintura, Fernando Lemos evoluiu de um abstracionismo geométrico (anos 70) para uma pintura de "rigor" com elementos figurativos onde ressurgem formas orgânicas com um tipo de construção e composição no espaço que se pode comparar ao início da sua obra nos anos 1950. Esta pintura está enraizada na fantasia e no lirismo.

Apesar de a sua atividade atual dominante ser a de designer e pintor, foi o seu espólio fotográfico que lhe permitiu ganhar o Prémio Anual de Fotografia, concedido pelo Centro Português de Fotografia, Porto, em 2001. (Daqui)



Fernando Lemos, Apoio II / O Alívio, fotografia a preto e branco, 1949