Temporal
O tempo rasteja no telhado
depois de se fazerem filhos e dívidas,
e as dúvidas brotarem nas frestas
da porta.
O tempo trança bordados no rosto
e manchas na mão,
mas a gente não muda: ainda chove
no escuro e um pássaro começa a cantar,
um amigo morre antes dos quarenta anos,
e nossa mãe, com quase cem, nem está
nem se ausenta.
Como tudo o mais,
o tempo não tem explicação:
corrói e transfigura, expande
ou empobrece, conforme a escolha
de cada um.
(Eu, com medo e susto,
escolho a multiplicação.)
Lya Luft, em "Para não dizer adeus", 2005.
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Louisa Matthíasdóttir (Icelandic-American painter, 1917-2000),
Self-portrait with Dark Coat, 1991
suas clandestinas alegrias
que mal se refletiram desertaram
Ruy Belo, Todos os Poemas I,
Assírio & Alvim
Editor: Assírio & Alvim

