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segunda-feira, 10 de novembro de 2025

"Vénus" - Poemas de Camilo Pessanha



Raphaelle Peale (American painter of still-life, 1774–1825),
Venus Rising From the Sea - A Deception (After the Bath), ca. 1822,
The Nelson-Atkins Museum of Art.


Vénus

I

À flor da vaga, o seu cabelo verde,
Que o torvelinho enreda e desenreda...
O cheiro a carne que nos embebeda!
Em que desvios a razão se perde!

Pútrido o ventre, azul e aglutinoso,
Que a onda, crassa, num balanço alaga,
E reflui (um olfato que se embriaga)
Como em um sorvo, múrmura de gozo.

O seu esboço, na marinha turva...
De pé flutua, levemente curva;
Ficam-lhe os pés atrás, como voando...

E as ondas lutam, como feras mugem,
A lia em que a desfazem disputando,
E arrastando-a na areia, co'a salsugem.

II

Singra o navio. Sob a água clara
Vê-se o fundo do mar, de areia fina...
— Impecável figura peregrina,
A distância sem fim que nos separa!

Seixinhos da mais alva porcelana,
Conchinhas tenuemente cor de rosa,
Na fria transparência luminosa
Repousam, fundos, sob a água plana.

E a vista sonda, reconstrui, compara,
Tantos naufrágios, perdições, destroços!
— Ó fúlgida visão, linda mentira!

Róseas unhinhas que a maré partira...
Dentinhos que o vaivém desengastara...
Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos...


Camilo Pessanha, in 'Clepsidra'

 

segunda-feira, 23 de junho de 2025

"Que por ti perdi" - Poema de Joaquim Manuel Magalhães



Raphaelle Peale (American painter of still-life, 1774–1825), 
Strawberries, Nuts, and Citrus, 1822,

 

Que por ti perdi 


O mar dentro da árvore, as nuvens
dentro da terra sem fim,
a luz. A luz dentro doutra luz
que limitava as mãos e as abria
para outras mãos dentro de um olhar.

Batem na fornalha os ventos.
Um cálice de vidro grosso com o licor
de fermentação caseira. Um prato
com avelãs e nozes e folhas de medronho.
Nas margens as portadas corridas
ganham um halo de candeeiros de rua
que se difunde na fluorescência do televisor,
na palidez rubra das pequenas luzes do rádio.

A última claridade do dia mistura-se
à primeira da noite.
Este vento na auto-estrada onde rebenta a chuva
não me vai forçar o coração; nem estas sebes
ladeadas de cimento suspenderão o voo
do que sou até ao que não és. Mas será
a carícia que no cinto treme, o calor do pescoço
descoberto, os vimes da cadeira donde te levantas
quando estou quase para me sentar.

Entre veios de relva desigual,
valados por cuidar abrigam
máquinas de desolação.
Formações de patos atravessam
o vidro polido do postigo.
O dia bate no jornal pousado
sobre a manta castanha que prende
os joelhos no silêncio de interior.
Outras vezes, as persianas já corridas,
um globo de lona ilumina o livro
na pequena mesa, um arame de flores
pendurado numa trave e o armário
com os objetos de estanho e meditação.

A vida acumulou-se em roldanas ao redor de tudo,
um fumo que sobe durante a noite sobre os mapas
enrolados na parede despida, há tanto nos esquecemos
de os desdobrar, de por eles chegar aos confins
do nosso mundo. E já estamos a desaparecer. 


Joaquim Manuel Magalhães,
in 'As Escadas não têm Degraus', 1989.


Joaquim Manuel Magalhães (daqui)
 

Joaquim Manuel Magalhães é um ensaísta, poeta e professor na Faculdade de Letras de Lisboa.
Doutorou-se, em 1979, com uma tese sobre A Consequência da Literatura e do Real na Poesia de Dylan Thomas.
Codirigiu a revista As Escadas Não Têm Degraus (1989), organizou a edição da Obra Poética de Ruy Belo, da Antologia Poética de Ruy Cinatti e da Obra Poética de Bernardo de Passos. Traduziu, entre outros autores, Kavafis. Autor de duas obras críticas de referência para o estudo da poesia portuguesa contemporânea, Os Dois Crepúsculos e Um Pouco da Morte, a publicação das coletâneas de poesia, Os Dias, Pequenos Charcos e Segredos, Sebes, Aluviões, ambas de 1981, marcam uma nova etapa da poesia mais recente, permitindo a inflexão para um realismo que surpreende pelo seu ancoramento no concreto, por uma referencialidade que jazia, sobretudo na evocação da ruralidade, no imaginário coletivo, surpreendida em pequenos detalhes, em pequenos nadas da descrição. Extraordinariamente versátil e límpida, a poesia de Joaquim Manuel Magalhães impõe-se, assim, segundo David Mourão-Ferreira, "de livro para livro, pela convocação de inúmeros aspetos do mundo natural e do mundo social, através de um discurso que estabelece, entre ambos, os mais inesperados nexos de cumplicidade ou recíprocos processos de rejeição, em que "figuras" como a lítotes, a antífrase, a alusão e a catacrese desempenham papéis preponderantes, em contextos só talvez aparentemente regidos pelos princípios de uma livre associação de imagens ou de um suposto automatismo verbal (...)"(cf. MOURÃO-FERREIRA, David e SEIXO, Maria Alzira - Portugal, a Terra e o Homem, Antologia de Textos de Escritores do Século XX, II Série, Lisboa, F.C.G., 1980, p. 347).
O autor foi distinguido com o prémio 1999 para ensaio do PEN Clube Português. (daqui)

 


Raphaelle Peale, A Dessert, 1814, National Gallery of Art.
 
 
 Qual o melhor momento para o jantar? 
'Se alguém é rico, quando quiser, se é pobre, quando puder'.
  

terça-feira, 27 de maio de 2025

"Romã" - Poema de Nuno Júdice

 


Ferdinand Georg Waldmüller (Austrian painter and writer, 1793-1865),
Still Life with Fruit and Parrot, s.d.



Romã 


Tirei os bagos, um a um,
de dentro da romã. Juntei-os
no prato do poema, e construí com eles
a tua imagem para que
a pudesse morder como se ama,
até ouvir o teu riso perguntar-me: «Que
fazes?», enquanto libertavas
os seios de dentro
da camisa, para que a luz os mordesse
como se morde a romã.


Nuno Júdice, in "Poesia Reunida"

 

sexta-feira, 2 de maio de 2025

"Plano" - Poema de Nuno Júdice


 
Charles Spencelayh (English painter, 1865–1958), A Cure for Everything, 1947.


Plano 


Trabalho o poema sobre uma hipótese: o amor
que se despeja no copo da vida, até meio, como se
o pudéssemos beber de um trago. No fundo,
como o vinho turvo, deixa um gosto amargo na
boca. Pergunto onde está a transparência do
vidro, a pureza do líquido inicial, a energia
de quem procura esvaziar a garrafa; e a resposta
são estes cacos que nos cortam as mãos, a mesa
da alma suja de restos, palavras espalhadas
num cansaço de sentidos. Volto, então, à primeira
hipótese. O amor. Mas sem o gastar de uma vez,
esperando que o tempo encha o copo até cima,
para que o possa erguer à luz do teu corpo
e veja, através dele, o teu rosto inteiro.


Nuno Júdice
, in "Poesia Reunida"

 

sábado, 26 de abril de 2025

"Ainda te levarei" - Poema de Marina Colasanti


Joris van Son (Flemish painter, 1623-1667), Pronk Still Life with Fruit in a Wan-Li Porcelain Bowl,
with a Herring on a pewter Plate, a Bread Roll, Onions, a Crab and Shrimps on a Table
and a Vanitas Still Life with a Skull in a Niche,
c. 1651.


Ainda te levarei 
 

Ainda te levarei
amor
para comer nozes frescas
na montanha
e pendurar cerejas nas orelhas
como se fossem flores
ou rubis.

As nozes
meu amor
mancham os dedos
e são verdes e exatas
como ovos
mas as cerejas
ah! as cerejas
são quando a cerejeira sua
seu manso sangue.

Ainda te levarei àquela casa
onde floriam lilases
e serpentes tão claras quanto água
deslizavam ao pé das macieiras.
Te mostrarei três lagos
no horizonte
três queijos maturando
numa adega
três lesmas
escondidas sob um vaso.
Estará tudo lá
à nossa espera
morangueiras quebradas
lagartixas.

Só não estará meu medo
de menina
aquele mais escuro que os ciprestes
ecos no mato passos sobre a ponte
garras na saia vento nos cabelos
e o latejar das veias repetindo
estou sozinha
e ninguém me salva.


Marina Colasanti
, Gargantas Abertas, 1998.
 

 
Joris van Son, Sumptuous Still Life with Overturned Silver Ewer, c. 1660.


"O objetivo da nossa bonita arte não é a imitação, mas a criação."

Ralph Waldo Emerson
 
 

quinta-feira, 27 de março de 2025

"Natureza morta" - Poema de Pagu (Patrícia Galvão)

 


Jan Davidsz de Heem (Dutch still life painter, 1606–1683/1684),
Vanitas Still life with Books, a Globe, a Skull, a Violin and a Fan, c. 1650.
Musée des Beaux-Arts de Rouen


Natureza morta 


Os livros são dorsos de estantes distantes quebradas.
Estou dependurada na parede feita um quadro.
Ninguém me segurou pelos cabelos.
Puseram um prego em meu coração para que eu não me mova
Espetaram, hein? a ave na parede
Mas conservaram os meus olhos
É verdade que eles estão parados
Como os meus dedos, na mesma frase.
Espicharam-se em coágulos azuis.
Que monótono o mar!
Os meus pés não dão mais um passo.
O meu sangue chorando
As crianças gritando,
Os homens morrendo
O tempo andando
As luzes fulgindo,
As casas subindo,
O dinheiro circulando,
O dinheiro caindo.
Os namorados passando, passeando,
O lixo aumentando,
Que monótono o mar!

Procurei acender de novo o cigarro.
Por que o poeta não morre?
Por que o coração engorda?
Por que as crianças crescem?
Por que este mar idiota não cobre o telhado das casas?
Por que existem telhados e avenidas?
Por que se escrevem cartas e existe o jornal?
Que monótono o mar!
Estou espichada na tela como um monte de frutas apodrecendo.
Se eu ainda tivesse unhas
Enterraria os meus dedos nesse espaço branco
Vertem os meus olhos uma fumaça salgada
Este mar, este mar não escorre por minhas faces.
Estou com tanto frio, e não tenho ninguém...
Nem a presença dos corvos.


Pagu (Patrícia Rehder Galvão)
(Publicado com o pseudónimo Solange Sohl em 1948,
no Suplemento Literário do jornal Diário de São Paulo.)



Obras de arte de Jan Davidsz de Heem
(Natureza-morta)

Jan Davidsz de Heem, Still life with books and a lute, 1628, Rijksmuseum, Amsterdam.
 
 
Jan Davidsz de Heem, Vanitas still life with books, fruit and a flute, c. 1652.
Royal Museums of Fine Arts of Belgium
 
 
Jan Davidsz de Heem, A Table of Desserts, 1640, Musée du Louvre, Paris.
 
 
Jan Davidsz de Heem, Table, 1636 - 1650, Museo del Prado, Madrid.


Jan Davidsz de Heem, A Richly Laid Table with Parrots, c. 1650.


Jan Davidsz de Heem, Vase of Flowers, c. 1660. 
 

sábado, 7 de setembro de 2024

"Ode ao Caldo de Congro" - Poema de Pablo Neruda


Jan van Kessel, the Elder (Flemish painter, 1626-1679), Still life of fish in a harbor landscape,
possibly an allegory of the element of water, 1660
.



Ode ao Caldo de Congro


No mar
tormentoso
do Chile
vive o rosado congro,
enguia gigante
de nevada carne.

E nas panelas
chilenas,
na costa,
nasceu o caldo
grávido e suculento,
proveitoso.

Levem para a cozinha
o congro esfolado,
a sua manchada pele cede
como uma luva
e a descoberto fica
então
a uva do mar
o congro tenro
reluz
já nu,
preparado
para o nosso apetite.

Agora
pegas em
alhos,
acaricia primeiro
esse marfim
precioso,
cheira
a sua fragrância iracunda,
então
deixa o alho picado
cair com a cebola
e o tomate
até que a cebola
tenha cor de ouro.

Entretanto
cozem-se ao vapor
os régios
camarões marinhos
e quando estiverem a chegar
ao seu ponto,
quando se consolidar o sabor
num molho
formado pelo suco
do oceano
e pela água clara
que soltou a luz da cebola,
então
que entre o congro
e mergulhe na glória,
que na panela
se azeite,
se contraia e se impregne.

Já só é necessário
deixar no manjar
cair o creme
como uma rosa espessa
e ao lume
lentamente
entregar o tesouro
até que no caldo se aqueçam
as essências do Chile,
e à mesa
cheguem recém-casados
os sabores
do mar e da terra
para que nesse prato
tu conheças o céu.


Pablo Neruda, in Odes Elementares 
Tradução de Luis Pignatelli
Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1977
 

 

Oda al Caldillo de Congrio
(Poema original)
 
 
En el mar
tormentoso
de Chile
vive el rosado congrio,
gigante anguila
de nevada carne.
Y en las ollas
chilenas,
en la costa,
nació el caldillo
grávido y suculento,
provechoso.
Lleven a la cocina
el congrio desollado,
su piel manchada cede
como un guante
y al descubierto queda
entonces
el racimo del mar,
el congrio tierno
reluce
ya desnudo,
preparado
para nuestro apetito.
Ahora
recoges
ajos,
acaricia primero
ese marfil
precioso,
huele
su fragancia iracunda,
entonces
deja el ajo picado
caer con la cebolla
y el tomate
hasta que la cebolla
tenga color de oro.
Mientras tanto
se cuecen
con el vapor
los regios
camarones marinos
y cuando ya llegaron
a su punto,
cuando cuajó el sabor
en una salsa
formada por el jugo
del océano
y por el agua clara
que desprendió la luz de la cebolla,
entonces
que entre el congrio
y se sumerja en gloria,
que en la olla
se aceite,
se contraiga y se impregne.
Ya sólo es necesario
dejar en el manjar
caer la crema
como una rosa espesa,
y al fuego
lentamente
entregar el tesoro
hasta que en el caldillo
se calienten
las esencias de Chile,
y a la mesa
lleguen recién casados
los sabores
del mar y de la tierra
para que en ese plato
tú conozcas el cielo.


Pablo Neruda,  
 
 
 
PEIXES
 
       A raia, para ser boa, deve ser comida de caldeirada de pitau (Mira), menos em Maio, porque «raia em Maio, tumba à porta», e a faneca com três fff – fresca, fria e frita. Cada peixe tem a sua época: «a solha, no tempo do milho, come-a com o teu amigo», a sardinha antes da desova e o próprio caranguejo só lá para Agosto é que, assado na casca, atinge a perfeição. Mas todo o peixe regala quando sai da rede para o lume: tem um sabor único a mar, e até a reluzente savelha e o horrível cação, lavados e amanhados na maré, se tornam toleráveis. Quanto ao linguado, ao goraz, à corvina, à gordíssima sarda, à pescada e à saborosa sardinha, para não falar dos peixes hoje quase desaparecidos, do rodovalho, do peixe-rei, ignora-lhes o sabor e o delicado perfume quem os não trouxe do barco para casa, ainda a escorrer dentro do cabaz, sobre uma cama de algas e de limos. São então esplêndidos assados, fritos, de caldeirada, com um fio de azeite, ou preparados pelo próprio pescador sobre umas brasas. 
       Quando a maré vaza, os pescadores procuram a serrada para iscar os espinéis, e a praia fica a descoberto: as poças de água são joias cheias de reflexos entre o lodo, e cada penedo com a sua cabeleira escura de sargaço – verde húmido e translúcido – é um ser vivo. Em todas as poças faíscam as enguias que se metem nos aloques, o caranguejo traiçoeiro e voraz, que espera a presa na sua clausura de pedra, as mantas de pequenos peixes por criar, reluzindo quando, num movimento brusco, mostram ao mesmo tempo o ventre esbranquiçado, e um bicho mole como a lesma que se arrasta pelo limo. Há fragas enormes, roídas, veneráveis, cobertas de lapas aderentes, de mexilhões aos cachos que, sentindo gente, fecham logo a casa, e onde o azul empoça em buracos que refletem o universo: cabem lá dentro o céu, a luz e as estrelas.
 
       A toninha, que anda sempre atrás do banco da sardinha, afigura-se-me o ser mais feliz do mar. Tem a mesa sempre posta – e inesgotável. Folgam como um bando à solta de rapazes. Dão-me sempre uma impressão de liberdade e de vida deliciosa... Saltam, vê-se-lhes o dorso reluzente, mergulham e irrompem, com o costado azul a escorrer, quando menos se espera, lá ao fundo... Às vezes vêm pela barra dentro, na onda e na espuma, no jorro impetuoso, quando o mar, como um seio que cresce com volúpia e se dilata, se mete pela terra. Setembro – marés vivas.
       – As toninhas! – Alarido na Cantareira: os homens saltam nos barcos. Um à proa leva o arpão, espera o momento e joga-lho. Aquela morre, as outras fogem logo para o mar.
       Entre estes bichos e outros que conheço, pavorosos, há um salto enorme de pesadelo.
       Vi as tremelgas nos fundos espessos e lívidos entre os grandes penedos do Baleal, onde as águas têm a cor horrível das morgues. Pior que podridão – e lá para o fundo um remexer de vida misteriosa. Reparo, e de repente levanta-se de baixo uma revoada de pavor, panos vivos que arfam sacudidos, asas moles e disformes de morcegos que palpitam, dum verde indistinto e elétrico. São as tremelgas, que vêm aos milhares à superfície, não sei como nem para quê, vida que faz cismar e mete medo. Suponho o contacto com aquelas peles viscosas, com aquela vida obscura, nos subterrâneos esverdeados onde a luz não penetra – e fujo! fujo!...

Raul Brandão (1867-1930), em Os Pescadores, 1923.



Jan van Kessel, the Elder, Still Life with Fish and Marine Creatures in a Costal Landscape, 1661,
Städel Museum
 

"O primeiro homem que percebeu a analogia entre um grupo de sete peixes e um grupo de sete dias trouxe um notável avanço à história de pensamento."

Alfred North Whitehead
(1861-1947),
 in Alfred North Whitehead: An Anthology‎ - Página 381,
Filmer Stuart Cuckow Northrop - Macmillan, 1953 - 928 páginas.
 

Jan van Kessel, the Elder, Fighting dog and cat with a still life of marine animals and vegetables, c.1665.
 

"Contaram-me que os peixes não se importam de serem pescados, pois têm o sangue frio e não sentem dor. Mas não foi um peixe que me contou isso".


Heywood Broun
, Sitting on the World‎ - Página 17,
Publicado por G. P. Putnam's sons, 1924 - 276 páginas.
 
 
Jan van Kessel, the Elder, Cats with a still life of marine animals, fruit and vegetables, c.1665.
 

quinta-feira, 15 de agosto de 2024

"Mania da Solidão" - Poema de Cesare Pavese


 Dining Table (Cuadro de Comedor), 1864, Museo Soumaya.
 


Mania da Solidão


Como um jantar frugal junto à clara janela,
Na sala já está escuro mas ainda se vê o céu.
Se saísse, as ruas tranquilas deixar-me-iam
ao fim de pouco tempo em pleno campo.
Como e observo o céu — quem sabe quantas mulheres
estão a comer a esta hora — o meu corpo está tranquilo;
o trabalho atordoa o meu corpo e também as mulheres.

Lá fora, depois do jantar, as estrelas virão tocar
a terra na ancha planura. As estrelas são vivas,
mas não valem estas cerejas que como sozinho.
Vejo o céu, mas sei que entre os tetos de ferrugem
brilha já alguma luz e que, por baixo, há ruídos.
Um grande golo e o meu corpo saboreia a vida
das árvores e dos rios e sente-se desprendido de tudo.
Basta um pouco de silêncio e as coisas imobilizam-se
no seu verdadeiro sítio, como o meu corpo imóvel.

Cada coisa está isolada ante os meus sentidos,
que a aceita impassível: um cicio de silêncio.
Cada coisa na escuridão posso sabê-la,
como sei que o meu sangue circula nas veias.
A planura é água que escorre entre a erva,
um jantar de todas as coisas. Cada planta e cada pedra
vivem imóveis. Escuto os alimentos e eles alimentam-me as veias
com todas as coisas que vivem nesta planura.

A noite importa pouco. O retângulo de céu
sussurra-me todos os fragores e uma estrela miúda
debate-se no vazio, longe dos alimentos,
das casas, distinta. Não se basta a si mesma
e precisa de muitas companheiras. Aqui no escuro, sozinho,
o meu corpo está tranquilo e sente-se soberano.
 

Cesare Pavese, in "Trabalhar cansa".
Tradução e introdução de Carlos Leite.
Lisboa; Edições Cotovia.


José Agustín Arrieta, Still Life with Cat and Birds, oil on canvas, 63 x 86 cm.
 

"Nada beneficiará tanto a saúde humana e aumentará as chances de sobrevivência da vida na terra quanto a evolução para uma dieta vegetariana. A ordem de vida vegetariana, por seus efeitos físicos, influenciará o temperamento dos homens de uma tal maneira que melhorará em muito o destino da humanidade.” 
 
Albert Einstein (Nobel de Física, 1921)
 
 
José Agustín Arrieta, Dining room (Cuadro de Comedor), c. 1857 - 1859.
 

"Ser vegetariano é discordar: discordar do curso que as coisas tomaram hoje. Fome, crueldade, desperdício, guerras - precisamos nos posicionar contra essas coisas. O vegetarianismo é a minha forma de me posicionar." 
 
 Isaac Bashevis Singer (Nobel de Literatura, 1978)
 

José Agustín Arrieta, Dining Table, c. 1840 - 1860Museo Soumaya
 
 
"Um jantar! Que horrível! Estão me usando como pretexto para matar todos aqueles pobres animais. Obrigado por nada. Agora se fosse um jejum solene de três dias, em que todos ficassem sem comer animais em minha honra, eu poderia pelo menos fingir que estou desinteressado. Mas não, sacrifícios de sangue não estão na minha lista."
 
George Bernard Shaw (Nobel de Literatura, 1925), em carta de 30 de dezembro de 1929,
perante a possibilidade de ser homenageado com um banquete com grande diversidade de carnes.
 
 

Jose Agustin Arrieta, Still Life, c. 1870, San Diego Museum of Art.


"Eu não tenho dúvidas de que é parte do destino da raça humana, na sua evolução gradual, parar de comer animais, tal como as tribos selvagens deixaram de se comer umas às outras quando entraram em contacto com os mais civilizados."

Henry David Thoreau, em "Walden ou A Vida nos Bosques", 1854.

sábado, 4 de maio de 2024

"O dia inteiro" - Poema de Claudia Roquette-Pinto


(Négresse aux pivoines), 1870, Musée Fabre, Montpellier (France).
 
 

O dia inteiro

 
O dia inteiro perseguindo uma ideia:
vagalumes tontos contra a teia
das especulações, e nenhuma
floração, nem ao menos
um botão incipiente
no recorte da janela
empresta foco ao hipotético jardim.
Longe daqui, de mim
(mais para dentro)
desço no poço de silêncio
que em gerúndio vara madrugadas
ora branco (como lábios de espanto)
ora negro (como cego, como
medo atado à garganta)
segura apenas por um fio, frágil e físsil,
ínfimo ao infinito,
mínimo onde o superlativo esbarra
e é tudo de que disponho
até dispensar o sonho de um chão provável
até que meus pés se cravem
no rosto desta última flor.
 


Frédéric Bazille, Jeune femme aux pivoines (Négresse aux pivoines), 1870,
National Gallery of Art.


"O amor é a asa veloz que Deus deu à alma para que ela voe até o céu." 

"L' amore che è l'ala data da Dio all'anima per salire fino a lui."

Michelangelo Buonarroti - Citado em "Due conferenze‎" - Página 51, 
Giustino De Sanctis - Tip. Wilmant di G. Bonelli, 1886 - 105 páginas.
 
 
Frédéric Bazille, Fleurs, 1868, Musée de Grenoble.


"O sentimento é uma flor delicada; manuseá-la é machucá-la".

"El sentimiento es una flor delicada: manosearla es marchitarla."

Mariano José de Larra - Obras completas de Fígaro (don Mariano José de Larra)‎
Vol. II, Página 227, Publicado por en la Imprenta de Yenes, 1843.
 

domingo, 11 de fevereiro de 2024

"Um livro, um vaso, nada" - Poema de José Manuel Caballero Bonald


William Michael Harnett (American painter known for his trompe-l'œil still lifes of 
ordinary objects, 1848–1892), Old Models, 1892, Museum of Fine Arts Boston.
 


Um livro, um vaso, nada

 
Todas as noites deixo
entre os livros a minha solidão,
abro a porta aos oráculos,
fundo a minha alma com o fogo
do salmista.

Que contrária
vontade de perigo me desvela,
quebra a vigilante
sede de viver na minha palavra.

Todas as noites vivo inutilmente
a frustração do dia, recupero
as horas mortas da minha liberdade,
consisto no que fui.

(Mão esquecida entre os lençóis
rasga papéis, mancha o último
pedaço do meu sonho.)

Oh coração
sem ninguém – para quê
tantas páginas vãs, tantos
hinos vazios? Olha
em teu redor – que fica? Estamos
sós: toda
a vida cabe entre o calar
e o sonho. Aqui
a minha solidão é a minha alegria:
um livro, um vaso, um nada.


José Manuel Caballero Bonald,
Poesia Espanhola do Após-Guerra, Portugália.
Tradução de Egito Gonçalves
 
 
 
 


William Michael Harnett, Still Life with Three Castles Tobacco, 1880, Brooklyn Museum.
 



 
“Escrever é uma luta contínua com a palavra. Um combate que tem algo de aliança secreta.” 
(Escritor, tradutor e intelectual argentino, 19141984) 

terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

"Uma laranja para Alberto Caeiro" - Poema de Natália Correia


William Joseph McCloskey (American painter, 1859–1941), Wrapped Oranges, 1889.
Oil on canvas. Amon Carter Museum of American Art.
 


Uma laranja para Alberto Caeiro



Venho simplesmente dizer
que uma laranja é uma laranja
e comove saber que não é ave
se o fosse não seriam ambas
uma só coisa volátil e doce
de que a ave é o impulso de partir
e a laranja o instinto de ficar.

Não sei de nada mais eterno
do que haver sempre uma só coisa
e ela ser muitas diferentes
e cada coisa ternamente ocupar
só o espaço que pode rodeada
pelo espaço que a pode rodear.

Sei que depois da laranja
a laranja poderá ser até
mesmo laranja se necessária
mas cada vez que o for
sê-lo-á rigorosamente
como se de laranja fosse
a exata fome inadiável.

De ser laranja gomo a gomo
o íntimo pomo se enternece
e não cabe em si de amor
embriagada de saber
que a sua morte nos será doce. 


Natália Correia
, "O Vinho e a Lira", 1967.
 

segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

"Três no Café" - Poema de Carlos Drummond de Andrade


Albert Anker (Swiss painter and illustrator, 1831-1910), Still life with coffee, 1882.
 

 
Três no Café 

 
No café semideserto
a mosca tenta
pousar no torrão de açúcar sobre o mármore.
Enxoto-a. Insiste. Enxoto-a.
A luz é triste, amarela, desanimada.
Somos dois à espera
de que o garçom, mecânico, nos sirva.
Olho para o companheiro até a altura da gravata.
Não ouso subir ao rosto marcado.
Fixo-me na corrente do relógio
presa ao colete; velhos tempos.
Pouco falamos. O som das xícaras,
quase uma conversa. Tão raro
assim nos encontrarmos frente a frente
mais que por minutos.
Mais raro ainda,
na banalidade do café.
A mosca volta.
Já não a espanto. Queda entre nós,
partícipe de mútuo entendimento.
Então, é este o mesmo homem
de antes de eu nascer
e de amanhã e sempre?
Curvado.
Seu olhar é cansaço de existência,
ou sinto já (nem pensar) a sua morte?
Este estar juntos no café,
não hei de esquecê-lo nunca, de tão seco
e desolado — os três
eu, ele, a mosca —:
imagens de mera circunstância
ou do obscuro
irreparável sentido de viver.


Carlos Drummond de Andrade, Boitempo, 1986

Albert Anker, Still life with coffee, 1877.



Café
 
As primeiras referências ao café, bebida que se obtém após a torrefação e moagem da semente de cafezeiro, surgiram por volta do ano 800 a. C., mas algumas lendas árabes já aludiam a uma misteriosa bebida preta com poderes estimulantes. A planta do café surgiu em África, na região etíope de Kaffa, de onde se espalhou pelo Iémen, Arábia e Egito.

Uma história curiosa, de 1400, fala de um pastor do Iémen que viu umas cabras a comerem umas pequenas cerejas de um arbusto, a semente do cafezeiro, e a ficarem excitadas. Contou tudo a um monge e este, no seu convento, experimentou ferver os grãos torrados e moídos destas bagas e fez uma bebida fortificante que afastava o sono.

Em 1475, surge em Constantinopla a primeira loja de café, produto que para se espalhar pelo Mundo beneficiou, primeiro, da expansão do Islamismo e, numa segunda fase, do desenvolvimento dos negócios proporcionado pelos Descobrimentos.
Por volta de 1570, surgiram na Europa, na cidade italiana de Veneza, porto de entrada para quem vinha pelo Mediterrâneo, os primeiros comerciantes a vender café, introduzindo assim esta nova bebida nos hábitos ocidentais. É em Inglaterra, em 1652, que abre a primeira casa de café do continente europeu, seguindo-se a Itália dois anos depois.

Em 1672, cabe a Paris inaugurar a sua primeira casa de café. É precisamente em França que, pela primeira vez, se adiciona açúcar ao café, o que acontece durante o reinado de Luís XIV, a quem haviam oferecido um cafezeiro em 1713.
O mercado cresceu e exigia mais produto, mas as elevadas taxas cobradas nos portos de origem levaram os comerciantes e os cientistas a tentarem plantar café noutros territórios. Os holandeses optaram pelas suas colónias ultramarinas (Batavia e Java), os franceses investiram na Martinica (1723) e mais tarde nas Antilhas, enquanto os ingleses, os espanhóis e os portugueses tentaram a sua sorte nas zonas tropicais da Ásia e da África.

As primeiras plantações dos portugueses no Brasil foram feitas na zona norte, em 1727, mas as condições climatéricas não eram as melhores e, entre 1800 e 1850, as regiões escolhidas foram o Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, onde o sucesso foi total. O negócio do café começou, assim, a desenvolver-se de tal forma que se tornou na mais importante fonte de receitas do Brasil.

O invento da cafeteira, já em finais do século XVIII, por parte do conde de Rumford, deu um grande impulso à proliferação da bebida, ajudada ainda por uma outra cafeteira de 1802, esta da autoria do francês Descroisilles, onde dois recipientes eram separados por um filtro.

Em 1822, uma outra invenção surge em França, a máquina de café expresso, embora ainda não passasse de um protótipo. Em 1855, é apresentada numa exposição, em Paris, uma máquina mais desenvolvida, mas foi em Itália que a aperfeiçoaram. Assim, coube aos italianos, apenas em 1905, comercializar a primeira máquina expresso, precisamente no mesmo ano em que foi inventado um processo que permitia descafeinar o café. Em 1945, logo após o final da Segunda Guerra Mundial, a Itália continua a dar cartas em termos de expressos e Giovanni Gaggia apresenta uma máquina onde a água passa pelo café depois de pressionada por uma bomba de pistão. O sucesso foi notório.

Entretanto, nos finais da década de 30, o Brasil tinha-se visto a braços com um excedente de produção, que foi resolvido com ajuda da Nestlé, quando esta inventou o café instantâneo. Superada essa crise, o Brasil tornou-se o maior produtor mundial de café, embora nos últimos anos tenha de concorrer com outros países da América Latina.

O café é, atualmente, a bebida mais consumida no Mundo. O tipo de café mais comum é o arábica, representando cerca de três quartos da produção mundial, seguido do robusta, que tem o dobro da cafeína contida no primeiro. (daqui)