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quinta-feira, 21 de maio de 2026

"Uma tarde que cai" - Poema Luci Collin



Horace Pippin (American painter, 1888–1946), The Park Bench
(Man on a bench)
, 1946.


Uma tarde que cai 


Quando o vemos está sentado no banco da praça
Ela está em casa presa à trama silenciosa

Na praça pássaros e flores são sinceros
Na janela pássaros são fantasmagóricos

Com o lenço do bolso ele seca o suor da testa
Ela enxuga os olhos com a manga

Ele rosna mas só por dentro
Ela supura mas nunca aos domingos

Ele lastima porque o pão é azul
Ela suspira e a tarde muda se avelhanta

Ele pergunta se as janelas são sinceras
Ela pensa em se atirar nalguma água

São fantasmagóricos os azuis que saem dos olhos
A gangrena e a borra são absolutos

Quando o vemos está em frente à TV imaterial
Ela está de costas de bruços de borco

Ele está palitando os dentes à espera
Ela vazia

Ele está entardecente e flama
Ela boia sobre a água azulíssima

Ele tosse cospe resmunga lanceia vage
Ela fez as unhas e o bolo simples

A previsão do tempo anuncia chuva
Ela toca a pedra friíssima

Ele se ofende
Ela se ofélia


Luci Collin (n. 1964), in "Querer falar",
7 Letras, 2014.
 
 

sábado, 16 de maio de 2026

"Ontivo" - Poema de Luci Collin

 


Darío de Regoyos
(Spanish painter, 1857–1913), "La Concha, nocturno"
("La Concha at night"), c. 1905/6, Málaga, Museo Carmen Thyssen Málaga.


Ontivo

 
Nos encontraremos e eu estarei atarefada
e você estará imerecível
e eu estarei cansada para o cafezinho
e você estará exausto para um cinema
e eu estarei amorfa
e você palimpsesto
e eu estarei rendida às evidências mais ocultas
e você descompassado às vivências absolutas
e eu estarei com pressa
e você naquela hora imprevisível
e eu estarei naquela hora portentosa
e você estará naquele momento incrível
e eu estarei naquela manhã chuvosa
e você estará naquela noite audível
e eu retrocederei até auroras
e você avançará aos ocidentes
e eu compreenderei infinitudes
e você desvestirá os contratempos
e eu deslizo pela superfície e vou embora
e você mergulha mar adentro e refloresce


Luci Collin, in "Trato de silêncios",
7 Letras, 2012.
 

quarta-feira, 22 de abril de 2026

"Alinho" - Poema de Luci Collin

 


Claude Monet, Meadow with Poplars (Poplars near Argenteuil, Val-d'Oise), 1875,
Museum of Fine Arts Boston.



Alinho 


É preciso voltar
às rosas mais antigas
e suas exuberâncias
e seus frémitos de infinito
às palavras surgentes
às vozes prometidas
nos ecos do que amanhece

é preciso voltar
aos gatos que compõem a noite
às cálidas cantorias
ao flagrante do gosto
aos votos interrompidos
às garatujas nos muros
às cigarras já sem valia

voltar será sempre preciso
girar a chave de formato único
pisar nas tábuas lassas e confessas
ouvir o apelo do oco
a ascese dos líquens no tronco
fazer irromper acenos que
contem não só desfechos.

Os silêncios recuperam
a porosidade das rochas
o advento das peças da flor
o insabido da brasa
e a razão à palavra.

É preciso acalentar
o momento em que se resolve
a história do espinho

e saborear
o estremecimento.


Luci Collin
, in "Rosa que está",
Iluminuras, 2019.
 

Obras de Claude Monet
 
Claude Monet, Flowered Riverbank, Argenteuil, 1877.
 
 

Claude Monet, Flowers at Vétheuil, 1881.
 
 
 
Claude Monet, Garden in Bloom at Sainte-Adresse, 1866.


 
Claude Monet, Poppy Field in a Hollow near Giverny,
(Champ de coquelicots dans un creux près de 
Giverny), 1888.
Museum of Fine Arts Boston
 
 
 
Claude Monet, Flowering Arches (Les arceaux fleuris), Giverny, 1913,
Phoenix Art Museum.
 
 
[Em Giverny localizam-se a Casa e os Jardins de Claude Monet (Maison et Jardins de Claude Monet – Giverny) que inspiraram tantas obras do artista.]
 

sábado, 7 de março de 2026

"Deveras" - Poema de Luci Collin

 

Tarsila do Amaral (Pintora, desenhista, escultora, ilustradora, cronista
e tradutora brasileira, 1886
–1973), "Rio de Janeiro", 1923.
 

Deveras 


o poeta finge
e enquanto isso
cigarras estouram
pontes caem
azaleias claudicam
édipos ressonam
vacinas vencem
a bolsa quebra e
o poeta finge
e enquanto isso
vagalhões explodem
o pão adoece
astros desviam-se
manadas inteiras se perdem
a noite range
o vento derruba ninhos e
o poeta finge
e enquanto isso
vozes racham
veias entopem
galeões afundam
medeias abatem crias
turvam-se as corredeiras
o sapato aperta e
o poeta finge
que as mãos cheias de súbitos
não são as suas


Luci Collin, in "A palavra algo", 
Iluminuras, 2016.
 
 
Tarsila do Amaral, "São Paulo", 1924.


"Sou poeta quando entendo a voz do vento,
E me vejo fantasma e sentimento."


Teixeira de Pascoaes, do poema Humildade,
em "Vida Etérea", 1906.
 

[A obra "São Paulo", de Tarsila do Amaral, é uma pintura que faz parte de uma série conhecida como "Pau-brasil", que incluía paisagens tipicamente brasileiras, tanto rurais quanto urbanas. No que se refere à forma, Tarsila desenvolveu uma abordagem ousada, estilizada para obter figuras que poderiam transmitir o dinamismo da rápida modernização do país. Neste quadro, a artista preenche a metrópole com ícones de progresso: bombas de gasolina e um poste de eletricidade se destacam em primeiro plano; no fundo, um bonde, uma ponte de ferro, um edifício em construção e um cartaz com números expressam a chegada da modernidade.] (daqui)
 


Tarsila do Amaral, "A gare", 1925.