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segunda-feira, 22 de junho de 2026

"O espelho curvo" - Poema de Yves Bonnefoy


 
François Boucher (French painter, draughtsman and etcher, 1703–1770),
'Allegory of Painting´, 1765, National Gallery of Art.



O espelho curvo 

I

Olha-os lá, naquela encruzilhada;
Parecem hesitar depois retomam
A estrada. À frente deles o menino corre,
A braçadas colheram para os poucos vasos
Pelo campo essas flores que nem nome têm.

E o anjo está lá em cima, a observá-los
E envolto pelo vento de suas cores.
Tem um dos braços nu no pano rubro,
Parece que segura um espelho, e que a terra
Se reflete na água dessa outra margem.

E que designa agora, com o dedo
Que aponta nessa imagem um lugar?
Será outra casa ou será outro mundo,
Será mesmo uma porta, em meio à luz
Aqui mesclada às coisas e aos signos?

II

Gostam de voltar tarde, assim. Já não distinguem
O caminho sequer por entre as pedras
De onde ainda brota uma sombra ocre-rubra.
Mas estão confiantes. Junto da soleira
A relva é fácil e não existe morte.

E ei-los agora embaixo das abóbodas.
Há escuridão ali no rumor dessas folhas
Secas, que o vento que não sabe move
Por sobre as lajes, de uma sala a outra,
O que tem nome e o que é apenas coisa.

Eles vão indo, vão. Além entre as ruínas,
É o país onde as margens são tranquilas,
Os caminhos imóveis. Pelos quartos
Irão dispondo as flores, junto ao espelho
Que consume talvez, e talvez salve.


Yves Bonnefoy
 
(1923–2016), in 'Obra Poética'.
Ttradução e organização de Mário Laranjeira.
São Paulo: Editora Iluminuras, 1998.
 

 

 embaixo / em baixo
[Ortografia / Lexicografia]

A forma embaixo corresponde a um advérbio de uso comum no português do Brasil. Na norma europeia do português, este advérbio corresponde geralmente à locução adverbial em baixo (ex.: chama o teu irmão, que está lá em baixo; o rapaz andou em baixo durante uns tempos).

Não se trata propriamente de uma variação ortográfica, pois não há nenhuma determinação que recomende o uso de palavra ou locução nestes casos, mas de uma diferença entre a tradição lexicográfica portuguesa (que regista sempre a locução em baixo e não tem registo de embaixo, exceto no Grande Vocabulário da Língua Portuguesa, de José Pedro Machado) e a tradição lexicográfica brasileira (que preconiza embaixo e apenas regista em baixo como regionalismo de Portugal, nomeadamente no Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa). (daqui)

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

"O adeus" - Poema de Yves Bonnefoy



Charles Courtney Curran (American impressionist painter,
1861–1942), 'Self-Portrait', 1892


O adeus


Estamos de regresso à nossa origem.
Foi o lugar da evidência, mas rasgada.
As janelas mesclavam muitas luzes,
As escadas galgavam estrelas demais
Que são arcadas desabando, são entulhos,
O fogo parecia arder num outro mundo.

E agora voam pássaros de quarto em quarto,
Caíram as janelas, cobre-se o leito de pedras,
O lar cheio de escombros do céu a se apagarem.
Ali falávamos, à noite, em voz velada
Por causa dos rumores dos arcos, lá no entanto
Formávamos projetos: e uma barca,
Carregada de pedras rubras, se afastava
Irresistível de uma margem, e o olvido
Já deitava sua cinza sobre os sonhos
Que retomávamos sem fim, a povoar de imagens
O fogo que queimou até o último dia.

É certo, minha amiga,
Que há apenas um termo para designar
Na língua que chamamos de poesia
O sol do amanhecer e o da tarde,
Um só o grito de júbilo e o grito de angústia,
Um só o deserto rio acima e as machadadas,
Um só o leito desfeito e o céu de tempestade,
Um só a criancinha a nascer e o deus morto?

Sim, creio, quero crer, mas que sombras são essas
Que consigo carregam o espelho?
E vê, a urze pega em meio às pedras
Na via de relva ainda mal aberta
Onde iam nossos passos às árvores novas.
Parece-me hoje, aqui, que a palavra
É esse cocho partido, de que se derrama
A cada alva de chuva a água inútil.

A relva e nela a água a brilhar como um rio.
Tudo está sempre a remalhar o mundo.
O paraíso é esparso, bem o sei,
É tarefa terrestre lhe reconhecer
As flores esparzidas pela relva pobre,
Mas desapareceu o anjo, uma luz
Quem não foi de repente mais que o sol poente.

E como Adão e Eva nós caminharemos
Uma última vez pelo jardim.
Como Adão o primeiro remorso, como Eva
A primeira coragem vamos querer e não
Passar a porta baixa que se entreabre
Lá adiante, na outra ponta das cordas, colorida
Como de último raio, auguralmente.
O futuro acaso pega-se na origem
Como consente o céu a um espelho curvo,
Poderemos colher daquela luz,
Que foi daqui o milagre, a semente nas mãos
Sombrias, para outras poças no segredo
De outros campos “barrados de pedras”?

Sim, o lugar para vencer, para vencer-nos, é aqui
De onde partimos, esta noite. Aqui sem fim
Tal como aquela água que escapa do cocho. 


Yves Bonnefoy, in 'Obra Poética'.
Tradução de Mário Laranjeira



Charles Courtney Curran, 'The Artist's Father', 1911



"A beleza das coisas existe no espírito de quem as contempla."

(David Hume)

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

"A Ponte de Ferro" - Poema de Yves Bonnefoy



Willem Koekkoek (Dutch cityscape painter and marine artist, 1839–1885),
'A Morning Walk by a Dutch Canal'


A Ponte de Ferro


Existe ainda por certo ao fim de uma longa rua
Onde andava eu criança um pântano estagnado
Retângulo pesado de morte ao céu negro.

Desde então a poesia
Separou de outras águas suas águas,
Beleza alguma, ou cor a vão reter,
Por ferro ela angustia-se e por noite.

Nutre um longo
Pesar de margem morta, uma ponte de ferro
Lançada à outra margem mais noturna ainda
É sua só memória e só real amor.


Yves Bonnefoy, in 'Obra Poética'.
Tradução de Mário Laranjeira 
 


Willem Koekkoek, 'Dutch street scene by a canal' 



"A verdadeira generosidade para com o futuro consiste em dar tudo ao presente."

(Albert Camus)