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domingo, 14 de março de 2021

"Crítica da Poesia" - Poema de Luís Filipe Castro Mendes


Franz Kline (American painter, 1910-1962), Black Reflections, 1959



Crítica da Poesia

 
Que a frenética poesia me perdoe
se a um baço rumor levanto o laço,
pois que verso não há onde não soe
a música discreta doutro espaço.

Horizonte do verso é a dureza:
já mansidão não cabe neste olhar
que se pousa na faca sobre a mesa
e aprende nela o fio do seu cantar.

Mas se olhar nela pousa, como corta?
E se as palavras sabemos retomar,
quem nos devolve a chave dessa porta
onde a herança está por encerrar?

Tão longe está de nós a poesia
como nuvem nos rouba a luz do dia. 
in "Viagem de Inverno"
 
 

Franz Kline, Untitled, 1960
 

Nada tem nexo
Tudo é apenas
Um reflexo.

(Haicai / Haikai)
 

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

"De Memória" - Poema de Luís Filipe Castro Mendes


Christian Albrecht Jensen (Danish  painter, 1792–1870), Portrait of a Woman,
Birgitte Sobotker Hohlenberg, 1826,  Statens Museum for Kunst.
 


De Memória


Nunca te surpreendeu o sorriso estático
das imagens antigas? Alguma coisa aqui
tivemos de perder. Percorro dias e corpos na memória,
mas o que procuro mais é não te ver.

Quem ama quem? As máscaras trocaram-se
e a tua voz ressoa neste palco.
Trouxe versos e música para te dar,
mas o rosto que tivemos já partiu;
fiquei eu só, à beira da memória,
água do mar que não serve para beber.

Porque esta foi a paixão, o grande ato,
a tímida paixão de asas de chumbo.
Eu vi-te muitas vezes frente ao mar,
mas quem de nós para acender a cinza?
– ronda-nos a ave de presa despojada
sobre os malefícios. Aliás, coisas passadas.

Não te surpreendeu? O amor
surpreende – não convém, desarruma.
E nunca se ama ao certo quem se ama.
Procuramos apenas um brilho,
um brilho muito intenso no olhar,
um brilho que não vamos definir
e que algum dia iremos renegar.


Luís Filipe Castro Mendes
in "Modos de Música", 1996


quarta-feira, 25 de outubro de 2017

"Inscrição" - Poema de Luís Filipe Castro Mendes


Émile Bernard (1868-1941), Iron Bridges at Asnières, 1887, oil on canvas


Inscrição


Ama silenciosamente o teu destino. 
Nem pátria nem palavras memoráveis 
farão durar a luz nos teus sentidos: 
alguns objetos que te lembrem, poucos livros 
e versos que sílaba a sílaba transfiguras 
até entardecer cada palavra. 

Teces o teu tremor. E sobre a pedra 
a marca que ficar será de ausência. 


in "Os Amantes Obscuros"


Émile Bernard, Afternoon at Saint-Briac, 1887, Oil on canvas


"Somos o que fazemos, mas somos principalmente o que fazemos para mudar o que somos."



quarta-feira, 23 de agosto de 2017

"Fim do Dia" - Poema de Luís Filipe Castro Mendes


Olof Arborelius (Swedish, 1842–1915), Landscape in the Southern Alps



Fim do Dia


Aquieta-se o silêncio na folhagem, 
que em árvores teceu amor antigo; 
sobressalto transposto da viagem 
que o dia rumoroso fez consigo. 

O coração, que é sombra na paisagem, 
dá às palavras vãs outro sentido; 
e é murmúrio desfeito na aragem, 
que do entardecer recolhe abrigo. 

Ares assim se fazem de uma luz 
que torna como baço o sol poente; 
e o coração à estrema se reduz, 
como o dia se volve mais ausente. 

Recolhem-se as palavras no vagar 
que dia nem fulgor nos podem dar. 


in "Viagem de Inverno" 


domingo, 23 de julho de 2017

"Do Medo" - Poema de Luís Filipe Castro Mendes


Jan Asselijn, O Cisne Ameaçado, 1640-1650, Rijksmuseum



Do Medo


Não pode o poema 
circunscrever o medo, 
dar-lhe o rosto glorioso 
de uma fábula 
ou crer intensamente na sua aura. 
Nós permanecemos, quando 
escurece à nossa volta o frio 
do esquecimento 
e dura o vento e uma nuvem leve 
a separar-se das brumas 
nos começa a noite. 

Não pode o poema 
quase nada. A alguns inspira 
uma discreta repugnância. 
Outras vezes inclinamo-nos, reverentes, ante os epitáfios 
ou demoramo-nos a escutar as grandes chuvas 
sobre a terra. 
Quem reconhece a poesia, esse frio 
intermitente, essa 
persistência através da corrupção? 
Quase sempre a angústia 
instaura a luz por dentro das palavras 
e lhes rouba os sentidos. 
Quase sempre é o medo 
que nos conduz à poesia. 


Voltando ao medo: as asas 
prendem mais do que libertam; 
os pássaros percorrem necessariamente 
os mesmos caminhos no espaço, 
sem possibilidades de variação 
que não estejam certas com esse mesmo voo 
que sempre descrevem. 
Voltando ao medo: o poema 

desenha uma elipse em redor da tua voz 
e cerca-se de angústia 
e ervas bravias — nada mais 
pode fazer. 


Luís Filipe Castro Mendes, in "A Ilha dos Mortos"

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

"Finda" - Poema de Luís Filipe Castro Mendes





Finda


A conclusão de tudo é só a morte
e não há mais epílogo nem finda.
Não se termina o verso nem o curso
mudamos à conversa interrompida.

Não findamos o verso nem acaba
o desfazer-se o mar contra esta praia.
A conclusão de tudo é só a morte,
nem o silêncio quebra a sua amarra.

Sequer há conclusão? Sequer há morte
nas palavras deixadas pelos recantos
mais sujos e perdidos do seu norte?

Amor que nos moveu no desalento,
a pátria destes versos foi só pura
imaginação por dentro da memória.

(Mas já outras canções nos estremecem:
longe do coração começa a História.)


in “Outras Canções”


Fernand Léger, 1912, Nude Model in the Studio 
(Le modèle nu dans l'atelier)


"Um escritor chega à velhice quando suspeita que o artigo que está a escrever já tinha sido escrito por ele no passado."



segunda-feira, 3 de outubro de 2016

"Nós não somos deste mundo" - Poema de Luís Filipe Castro Mendes


Edward Robert Hughes, Night with her train of stars and her great gift of sleep, 1912



Nós não somos deste mundo


Para a solidão nascemos. Outras vozes 
nos chamam e invocam, outros corpos 
se perfilam radiosos contra a noite. 
Nós não somos daqui. Num intervalo 
de campanhas esquecidas nos dizemos, 
abrindo o coração aos de passagem. 
Mas quando a manhã chega nós partimos, 
mais livre o coração, longa a viagem. 


in "Os Amantes Obscuros"