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sábado, 18 de abril de 2026

"A Senhora de Shalott" ("The Lady of Shalott") - Poema de Alfred Tennyson


 
John William Waterhouse (English painter, 1849–1917), 
"I Am Half-Sick of Shadows, Said the Lady of Shalott", 1915,
Art Gallery of Ontario, Toronto.



A Senhora de Shalott

Parte I

Em cada margem do rio estendem-se
Longos campos de cevada e de centeio
Que vestem o mundo e confrontam o céu
E pelos campos corre uma estrada
Até às muitas torres de Camelot;
E as pessoas passam a subir e descer
Apreciando os lírios a florescer
Em torno de uma ilha ali em baixo
A Ilha de Shalott.

Os salgueiros alvejam, os álamos ondulam
Suaves brisas turvam e tremem
Por sobre a torrente que corre para sempre
Junto à ilha no meio do rio
Fluindo até Camelot.
Quatro muros pardos e quatro torres pardas
Debruçam-se sobre um espaço de flores
E a ilha silenciosa alberga sob as árvores
A Senhora de Shalott

Junto à margem, velada de salgueiros
Deslizam as pesadas barcaças puxadas
Por cavalos lentos, e sozinha
Desliza a escuna com velas de seda
Sem escuma até Camelot
Mas quem a viu acenar com a mão?
Ou ao parapeito a viu arvorar?
Será ela conhecida por toda a terra
A Senhora de Shalott?

Só os segadores ceifando cedo
Por entre as espigas da cevada
Ouvem uma canção que ecoa alegre
Claramente soprada do rio
Até às torres de Camelot
E sob a lua o ceifeiro cansado
Empilhando feixes em regos arejados
Escutando, murmura: «É a fada
A Senhora de Shalott.»

Parte II

Ali ela tece de noite e de dia
Uma teia mágica com cores alegres.
Ela ouviu um murmúrio dizer
Que uma maldição sobre si cairá
Se olhar para Camelot
Não sabe bem o que a maldição possa ser
E por isso vai tecendo constante
E nenhuns outros cuidados tem
A Senhora de Shalott.

E movendo-se por um espelho claro
Dependurado diante de si o ano todo
Sombras do mundo lhe aparecem.
Ali ela vê a estrada perto
Serpenteando até Camelot:
Ali o redemoinho do ribeiro rodopia
E ali os rústicos aldeãos de caracóis
E as capas vermelhas das vendedeiras
Passam além de Shalott.

Às vezes um bando de donzelas alegres
Um abade caminhando lento
Às vezes um pastorinho de caracóis
Ou um pajem carmesim de longos cabelos
Passam até às torres de Camelot
E às vezes pelo espelho azul
Vêm os cavaleiros, a dois e dois:
Não tem cavaleiro leal e verdadeiro
A Senhora de Shalott.

Mas na sua tapeçaria ainda se delicia
A tecer as visões mágicas do espelho
Pois muitas vezes nas noites caladas
Um funeral, com plumas e luzes
E música, entrou em Camelot
Ou quando a lua se ergueu a pique
Vieram dois jovens amantes recém casados
«Estou meio farta das sombras» disse
A Senhora de Shalott.

Parte III

A um lance de seta do átrio da alcova,
Cavalgou ele entre os feixes de cevada,
O sol saiu brilhante por entre as folhas
E flamejou sobre as luzentes grevas
Do audaz Senhor Lancelot
Um paladino de cruz vermelha ajoelhado
Diante de uma dama para sempre no escudo
Que reluzia no campo amarelo
No flanco da remota Shalott.

A rédea com joias cintilava livre,
Como algum ramo de estrelas que vemos
Dependurado da galáxia dourada.
As sinetas da rédea cantavam alegremente
Com ele a cavalgar até Camelot:
E do cinto da espada brasonado
Pendia uma poderosa corneta de prata
E com o cavalgar o arnês tilintava
No flanco da remota Shalott.

Todo, sob o tempo azul sem nuvens
Brilhava denso de joias o couro da sela.
A viseira, e a pena do elmo
Ardiam juntos como uma única chama,
Com ele a cavalgar até Camelot.
Como tantas vezes na noite púrpura
Sob os cachos de estrelas brilhantes,
Algum meteoro de cauda, rasteando luz
Move-se sobre a calma Shalott.

A testa larga e clara brilhava-lhe à luz do sol.
Com cascos polidos trotava o corcel de guerra.
De sob o seu elmo flutuavam-lhe
Os caracóis de azeviche, com ele a cavalgar,
A cavalgar até Camelot.
Da margem e do ribeiro
Ele faiscou no espelho de cristal
«Tira lira», junto ao rio,
Cantava o Senhor Lancelote.

Ela abandonou a teia, abandonou o tear:
Deu três passos a cruzar a sala
E viu os rebentos dos nenúfares:
Ela viu o elmo e a pluma
Ela olhou para Camelot.
Para longe voou a teia, e flutuou esparsa;
O espelho partiu-se de lado a lado
«A maldição caiu sobre mim» gritou
A Senhora de Shalott.

Parte IV

Lutando contra o tempestuoso vento leste
Os bosques amarelo-pálido desvaneciam-se
O largo ribeiro a lamentar-se nas margens,
Pesadamente o céu baixo começou a chover
Sobre as torres de Camelot;
Ela desceu e descobriu um barco
Abandonado a flutuar sob um salgueiro
E em torno da proa escreveu
A Senhora de Shalott.

E pela extensão baça do ribeiro
Como algum ousado vidente num transe
Vendo toda a sua própria desgraça –
Com compostura de vidro
Olhou ela para Camelot
E chegando o fim do dia
Soltou a amarra e deitou-se nele
O ribeiro largo levou-a para muito longe
A Senhora de Shalott.

Deitada, um vestido branco de neve
Ondeava solto para a direita e a esquerda
Sobre si caindo leves as folhas
Por entre os ruídos da noite
Flutuou ela até Camelot
E a proa do barco ao cortar ao longo
Dos montes de salgueiros e por entre os campos
Ouviram-na cantar a sua última canção
A Senhora de Shalott.

Ouviram um cântico, funesto, sagrado
Cantado alto, cantado lentamente
Até que o sangue se lhe gelou lentamente
E os olhos de todo se lhe escureciam
Se viraram para as torres de Camelot
Pois até alcançar com a maré
A primeira casa junto à margem
Cantando a sua canção, ela morreu
A Senhora de Shalott.

Sob as torres e as sacadas
Junto aos muros dos jardins e galerias
Uma forma brilhante, ela flutuava,
Pálida de morte, entre as casa no alto
Em silêncio até Camelot.
Até ao embarcadouro eles vieram
Cavaleiros e burgueses, senhores e damas,
E em volta da proa o nome lhe leram
A Senhora de Shalott.

Quem aqui vai? O que está aqui?
E no palácio iluminado ali perto
Morreu o som dos clamores reais
E benzeram-se com medo
Todos os cavaleiros em Camelot:
Mas Lancelote ficou a pensar um pouco
E disse: «Tem uma cara formosa
Deus na sua misericórdia deu-lhe graça
À Senhora de Shalott.»


Alfred Tennyson, in "Poems, 1842"
Tradução de
 Helena Barbas
 
 

John William Waterhouse, The Lady of Shalott Looking at Lancelot, 1894.

[This is the second of three major paintings by Waterhouse that depicts scenes from the 1832 Alfred, Lord Tennyson poem, "The Lady of Shalott", between the first – The Lady of Shalott – in 1888 and the third – I Am Half-Sick of Shadows, Said the Lady of Shalott – in 1915].
 
 

John William Waterhouse, The Lady of Shalott, 1888.


The Lady of Shalott
(Original)

Part I

On either side the river lie
Long fields of barley and of rye,
That clothe the wold and meet the sky;
And through the field the road runs by
To many-towered Camelot;
And up and down the people go,
Gazing where the lilies blow
Round an island there below,
The island of Shalott.

Willows whiten, aspens quiver,
Little breezes dusk and shiver
Through the wave that runs for ever
By the island in the river
Flowing down to Camelot.
Four grey walls, and four grey towers,
Overlook a space of flowers,
And the silent isle imbowers
The Lady of Shalott.

By the margin, willow-veiled,
Slide the heavy barges trailed
By slow horses; and unhailed
The shallop flitteth silken-sailed
Skimming down to Camelot:
But who hath seen her wave her hand?
Or at the casement seen her stand?
Or is she known in all the land,
The Lady of Shalott?

Only reapers, reaping early
In among the bearded barley,
Hear a song that echoes cheerly
From the river winding clearly,
Down to towered Camelot:
And by the moon the reaper weary,
Piling sheaves in uplands airy,
Listening, whispers “‘Tis the fairy
Lady of Shalott.”

Part II

There she weaves by night and day
A magic web with colours gay.
She has heard a whisper say,
A curse is on her if she stay
To look down to Camelot.
She knows not what the curse may be,
And so she weaveth steadily,
And little other care hath she,
The Lady of Shalott.

And moving through a mirror clear
That hangs before her all the year,
Shadows of the world appear.
There she sees the highway near
Winding down to Camelot:
There the river eddy whirls,
And there the surly village-churls,
And the red cloaks of market girls,
Pass onward from Shalott.

Sometimes a troop of damsels glad,
An abbot on an ambling pad,
Sometimes a curly shepherd-lad,
Or long-haired page in crimson clad,
Goes by to towered Camelot;
And sometimes through the mirror blue
The knights come riding two and two:
She hath no loyal knight and true,
The Lady of Shalott.

But in her web she still delights
To weave the mirror’s magic sights,
For often through the silent nights
A funeral, with plumes and lights
And music, went to Camelot:
Or when the moon was overhead,
Came two young lovers lately wed;
“I am half sick of shadows,” said
The Lady of Shalott.

Part III

A bow-shot from her bower-eaves,
He rode between the barley-sheaves,
The sun came dazzling through the leaves,
And flamed upon the brazen greaves
Of bold Sir Lancelot.
A red-cross knight for ever kneeled
To a lady in his shield,
That sparkled on the yellow field,
Beside remote Shalott.

The gemmy bridle glittered free,
Like to some branch of stars we see
Hung in the golden Galaxy.
The bridle bells rang merrily
As he rode down to Camelot:
And from his blazoned baldric slung
A mighty silver bugle hung,
And as he rode his armour rung,
Beside remote Shalott.

All in the blue unclouded weather
Thick-jewelled shone the saddle-leather,
The helmet and the helmet-feather
Burned like one burning flame together,
As he rode down to Camelot.
As often through the purple night,
Below the starry clusters bright,
Some bearded meteor, trailing light,
Moves over still Shalott.

His broad clear brow in sunlight glowed;
On burnished hooves his war-horse trode;
From underneath his helmet flowed
His coal-black curls as on he rode,
As he rode down to Camelot.
From the bank and from the river
He flashed into the crystal mirror,
“Tirra lirra,” by the river
Sang Sir Lancelot.

She left the web, she left the loom,
She made three paces through the room,
She saw the water-lily bloom,
She saw the helmet and the plume,
She looked down to Camelot.
Out flew the web and floated wide;
The mirror cracked from side to side;
“The curse is come upon me,” cried
The Lady of Shalott.

Part IV

In the stormy east-wind straining,
The pale yellow woods were waning,
The broad stream in his banks complaining,
Heavily the low sky raining
Over towered Camelot;
Down she came and found a boat
Beneath a willow left afloat,
And round about the prow she wrote
The Lady of Shalott.

And down the river’s dim expanse,
Like some bold seër in a trance
Seeing all his own mischance–
With a glassy countenance
Did she look to Camelot.
And at the closing of the day
She loosed the chain, and down she lay;
The broad stream bore her far away,
The Lady of Shalott.

Lying, robed in snowy white
That loosely flew to left and right–
The leaves upon her falling light–
Through the noises of the night
She floated down to Camelot:
And as the boat-head wound along
The willowy hills and fields among,
They heard her singing her last song,
The Lady of Shalott.

Heard a carol, mournful, holy,
Chanted loudly, chanted lowly,
Till her blood was frozen slowly,
And her eyes were darkened wholly,
Turned to towered Camelot.
For ere she reached upon the tide
The first house by the water-side,
Singing in her song she died,
The Lady of Shalott.

Under tower and balcony,
By garden-wall and gallery,
A gleaming shape she floated by,
Dead-pale between the houses high,
Silent into Camelot.
Out upon the wharfs they came,
Knight and burgher, lord and dame,
And round the prow they read her name,
The Lady of Shalott.

Who is this? and what is here?
And in the lighted palace near
Died the sound of royal cheer;
And they crossed themselves for fear,
All the knights at Camelot:
But Lancelot mused a little space;
He said, “She has a lovely face;
God in his mercy lend her grace,
The Lady of Shalott.”


Alfred Tennyson, in "Poems, 1842"




George Edward Robertson
 (British artist, 1864
1964), "The Lady of Shalott", 1900.


terça-feira, 3 de março de 2026

"Cruzar a Margem" ("Crossing the Bar") - Poema de Alfred Tennyson



Joachim Patinir also called Patenier (Flemish Renaissance painter of history and landscape subjects,
c. 1480–1524), "Landscape with Charon Crossing the Styx", c. 1515–1524, Prado, Madrid.


Cruzar a Margem


Estrela do crepúsculo e da noite,
E um claro chamamento por mim!
Que da margem não me chegue pranto
Quando eu partir para o mar,

Que a maré pareça adormecida
Cheia de mais para sons e espumas
Quando quem saiu das funduras sem fim
De novo a casa regressar.

Sino do crepúsculo e da noitinha
E depois dele apenas as trevas!
Não haja qualquer tristeza da despedida
Quando eu embarcar;

Embora das nossas raias de Tempo e Lugar
Para longe possa a maré levar-me
Espero encontrar o meu Piloto cara a cara
Quando eu a margem cruzar.


Alfred Tennyson
(Tradução de Helena Barbas)



Joachim Patinir,
 "Passage du Styx", détail: 'Charon conduisant sa barque'.

 
 
Joachim Patinir,
 "Passage du Styx", détail: 'L'enfer'.

 
 
Joachim Patinir
"Passage du Styx", détail: 'Les limbes'
 

 
Joachim Patinir, "Passage du Styx",  détail: 'Le paradis'.

Crossing the Bar
(Original)


Sunset and evening star,
And one clear call for me!
And may there be no moaning of the bar,
When I put out to sea,

But such a tide as moving seems asleep,
Too full for sound and foam,
When that which drew from out the boundless deep
Turns again home.

Twilight and evening bell,
And after that the dark!
And may there be no sadness of farewell,
When I embark;

For tho' from out our bourne of Time and Place
The flood may bear me far,
I hope to see my Pilot face to face
When I have crost the bar.


Alfred Tennyson

["Crossing the Bar" is an 1889 elegiac poem by Alfred, Lord Tennyson. The narrator uses an extended metaphor to compare death with crossing the "sandbar" between the river of life, with its outgoing "flood", and the ocean that lies beyond death, the "boundless deep", to which we return.(daqui)

 

sexta-feira, 11 de setembro de 2020

"Cristo e Madalena" - Poema de Nuno Júdice



Albert Edelfelt (Finnish painter, 1854–1905),
'Christ and Mary Magdalene', 1890, Ateneum.


Cristo e Madalena


No museu de Helsínquia, uma arrependida Madalena
atira-se aos pés de um cristo mais humano do que
é habitual. Talvez por isso os olhos de madalena
procuram os olhos de cristo, e uma hipótese de
 sorriso (ou será ironia?) abre-se nos lábios dele
mais húmidos que o habitual. Ao contrário de
quadros antigos, com a mesma madalena e o mesmo
cristo, esta tem uma fita a prender os louros
cabelos, veste um casaco de veludo, e o peito
apenas se deixa adivinhar sob uma camisa branca e
jóias de boa qualidade. Ali, no museu de Helsínquia, é
normal que esta situação não siga os modelos
canónicos: o norte não é um lugar para excessos, para
tragédias, e tanto a madalena como cristo fazem bem
em corportarem-se como burgueses. De facto, o cristo de
sandálias que estende a mão à madalena de edelfeldt,
até lhe fala com ar desprendido, como se comentasse
o tempo. Por outro lado, tudo se passa à beira de um
lago, a não ser que o que se vê seja um braço
do mar báltico, como é frequente nesta região: e
para que haveria o pintor de imaginar cenários
exóticos, quando o que interessa é dar um
fundo compreensível (percetível) ao mistério que
envolve esta cena. De facto, por que haveria cristo
de perder tempo com uma pecadora? A não ser que ela
usasse argumentos fortes na sua discussão, mais fortes
do que o banal arrependimento que, nestas situações
não parece das coisas mais consistentes. Sim: que
desgosto de amor o terá provocado?, que conflito de
 cama, que suspeita de doença, que súbito cansaço
na vida de bordel? Nada que o tempo não possa curar...
a não ser que esta troca de olhares, à luz do sol,
se prolongue para lá das árvores, do céu que se
reflete na água da dureza das pedras em que
 os seus joelhos se magoam, mesmo que o chão esteja
coberto das folhas mortas do outono. Então,
deixo-os sozinhos. Há conversas que não se podem
interromper, segredos que não se devem desvendar.


Nuno Júdice, 1999, 
 in Teoria Geral do Sentimento - Poesia Reunida 1967-2000,
 Assírio & Alvim, Lisboa: 2000, pp.925-26

Antologia de poemas dedicados a Madalena de Helena Barbas (Ler)


 
Fra Angelico (born Guido di Pietro, 
c. 1395–1455), 'Crucifixion with the Virgin
Saint John and Mary Magdalene', Monastery of San Marco in Florence.



Girolamo Savoldo (Italian High Renaissance painter, c. 1480–1485 – after 1548),
'Mary Magdalene', ca. 1535–40, oil on canvas, London, National Gallery.



Alexander Andreyevich Ivanov, 'Appearance of Jesus Christ to Mary Magdalene´, 1835,
in John 20:1–13, Mary Magdalene sees the risen Jesus alone and he tells her
"Don't touch me, for I have not yet ascended to my father" (Noli me tangere).



"Madalena – História e Mito"

  •  Introdução

"Primeiro que tudo é preciso esclarecer que a Verdade sobre Maria Madalena é que não há verdade nenhuma. Todos os mistérios com que os romances mais recentes pretendem envolver a figura são o segredo da mera ignorância dos seus autores, ou da exploração da total ausência de factos e artefactos históricos.

Em 1988, quando fiz tese de doutoramento sobre Maria Madalena na Literatura e artes portuguesas (F.C.S.H. – U.N.L.), terminei com uma frase que me surgiu arrogante e subitamente se tornou vaticinadora. Que a figura de Madalena preenchia as necessidades psicológicas típicas de um mito, que talvez estivesse a começar a encontrar o seu momento de efetivação. E assim parece estar a acontecer.

Mas os mitos também nascem, crescem e morrem. E porque o nosso tempo é de velocidades, o auge da recuperação presente de Madalena pode também corresponder ao princípio do seu fim, pelas tentativas de atribuir uma consistência física e real a uma entidade que só funcionará fora delas.

O mito, feito a partir da história, desembaraça-se dela. Sobrevive e alimenta-se da capacidade de significação infinita dos símbolos profundos a que recorre para se manifestar. Quando se procura explicá-lo, ou circunscrevê-lo a eventos concretos, está-se a cortar-lhe as asas, a reduzi-lo – a forçá-lo a regressar à tal história da qual se libertou.

Quando se tenta reencaixar a figura de Maria Madalena no contexto de onde terá saído – atribuir-lhe um corpo, um bilhete de identidade, uma relação familiar concreta, uma descendência – está a matar-se o mito e a empobrecer a figura. Ficamos, pois, também todos nós mais pobres.

Assim, o objetivo deste livro não é explicar quem foi de facto Maria Madalena há dois mil anos, mas tentar perceber e mostrar como, durante dois mil anos, um nome de uma figura que nem sequer se sabe se existiu foi, sucessivamente, atraindo a si acontecimentos e narrativas que levaram à criação, primeiro de uma lenda, depois de uma biografia imaginária.

Essa biografia é resultado das várias leituras da personagem que foram sendo feitas ao longo dos séculos por centenas de escritores e artistas plásticos, dedicados às práticas sagradas e profanas. Procurarei, a partir de textos abrigados pelas tradições portuguesa e espanhola, detetar quais os modos particulares que reveste a figuração e o mito ibéricos de Maria Madalena.

O momento primeiro em que o nome de Maria de Magdalo nos aparece é nos Evangelhos. Referida no texto tido por sagrado que inspirou e inspira religiões e seitas, foi vasto o seu público e ficou garantida a sua permanência. Olharemos para esses livros como meras narrativas literárias, parte das proto-histórias das quais omito se libertou (cap. 1.1).

No Novo Testamento – no romance de Jesus Cristo – Maria aparece como uma pecadora convertida que segue Jesus até casa de Simão, lhe unge os pés e os limpa com seus belos e longos cabelos. É também a primeira testemunha da Ressurreição – sozinha, ou na companhia de outras mulheres. E acaba por tornar-se suficientemente fascinante para se autonomizar face aos outros actores do drama evangélico.

Também não se pode esquecer que Madalena aparece referida noutras obras, como os Evangelhos Apócrifos que sempre tão bem a trataram (cap. 1.2) e que nos Evangelhos Gnósticos se encontra um atribuído a Maria (cap. 1.3). A si vai chamar também episódios da vida de outras mulheres além das que seguem o rasto de Cristo.

Encontram-se outros vestígios mais antigos, arcaicos, que deixaram igualmente a marca de um gesto insólito em narrativas judaicas. Veremos o que Madalena herda através de algumas das mais célebres cenas e mulheres da Bíblia (cap. 1.4) e os seus comentários. A sua grandeza e fama, porém, Maria deve-as a Jesus Cristo. Os vários tipos possíveis de relacionamento entre ambos estão actualmente a sustentar muita literatura espúria.

A hipótese de uma relação amorosa entre Madalena e Jesus não é novidade – na vertente profana alimentou autos e dramas na Idade Média; na vertente mística foi alimentada pelas reflexões dos Padres da Igreja, pelos comentários de Hipólito e Orígenes ao Cântico dos Cânticos de Salomão que a relacionam com a Sulamita. (cap. 1.5).

É a partir destas referências que se vão elaborar as primeiras lendas – resumidas e condensadas na Legenda Aurea de Jacopo da Varazze – (cap. 2) e se consolidam os elementos base para a construção do que se entende ser a Vita de Madalena. Aqui se incluem a polémica medieval sobre as relíquias, bem como a aceitação da sua viagem até Marselha – os modos da apropriação da Santa e dos seus restos mor tais por via francesa (cap. 2.2).

Madalena gálica vai ser aceite também em Portugal (cap. 2.3) logo desde o Flos Sanctor um publicado em 1513, um manual das vidas e milagres dos santos em português vernáculo – traduzido do castelhano – para ser usado pelos pregadores nos seus sermões.

Veremos como as narrativas interagem com a pintura, o teatro e a poesia (cap. 2.4). Pelo século XVI dá-se uma grande transformação na abordagem e representações de Madalena, principalmente em consequência das Reforma e Contra-Reforma, concentradas nas propostas do Concílio de Trento (cap. 3). Rebenta também neste momento a grande querela francesa sobre os enigmas da identidade da(s) Maria(s) evangélica(s) (cap. 3.1).

Em Itália é escrita uma nova versão da lenda – a Rosa Aurea – que vai tentar desligar Madalena da vida de Cristo, censurar e rasurar todos os momentos em que entram em diálogo – inclusive os presentes nos textos canónicos (cap. 3. 2). É também neste texto que Madalena passa a estar associada ao Graal.

A partir de todas estas contribuições torna-se possível delinear uma «biografia imaginária» de Maria Madalena, conjugando todos os episódios e todas cenas que os séculos lhe foram atribuindo (cap. 4), já que o próprio das lendas é absorverem si todos os esforços – tanto os de acrescentamento quanto os de rasura – engordar e enriquecer-se à conta deles.

Destas caracterizações exteriores e psicologizantes (cap. 4.1) começa a delinear-se uma identidade, e uma individualidade (cap.4.2) para a personagem. A partir do literário, vários autores tentam submeter Madalena ao ideário pre-tarquizante do tempo (cap. 5). Têm que se confrontar com as decisões saídas de Trento (cap. 5.1) e obedecer aos decretos (5.2).

O amor de Madalena é reconduzido ao profano (cap. 5.2.1), a sua imagem começa a invocar metáforas nacionais, torna-se Leonor (cap. 5.2.2). Enquanto mito amoroso começa a aproximar-se da figura de Inês de Casto (cap. 5.3.2). Em termos internacionais a ópera italiana recupera a castelã medieval. Exibe uma personagem algo libertina (cap. 6) que nos chega por via das traduções.

O esforço francês para criar uma epopeia magdaleniana tem eco em dois poemas nacionais diretamente inspirados por Camões. Provam estes que, literária e pictoricamente, o problema da identidade de Madalena fica resolvido desde os primórdios. O seu peso como figura, as ações e gestos que lhe são atribuídos, exigem que seja uma única personagem. Só assim pode transformar-se, inclusive, em heroína épica (cap. 7) da demanda amorosa, uma nova Inês.

Um outro caminho que reforça a recondução ao profano é o seguido pela literatura edificante (cap. 8) que procura domar Madalena tornando-a doméstica. Tudo isto a desaguar nas paródias à personagem e seus gestos: Madalena torna-se lavadeira, Leonor a caminhar «descalça pela calçada» (cap. 9).

Nos países protestantes, após a Reforma, Madalena devém símbolo da distância entre o homem e Deus. Desce até ao Sul representada como figuração da Melancolia (cap. 10). Uma herdeira da acédia, a exibição do sofrimento causado pela influência astrológica do planeta Saturno, vai transformar-se no «mal-de-vivre» e no «spleen». O espelho é o das vaidades e o crânio um espelho funesto (cap. 10.1).

Madalena converte-se na cortesã francesa ou pré-rafaelita (cap. 12). Mantém a qualificação que quase nunca a abandona – a prostituta. Carregada agora com a doença da melancolia é fácil aos nossos autores simbolistas recuperarem-na – junto com Salomé – como exemplo da figura das mulheres fatais (cap. 12.1).

Madalena fica posta em sossego durante as duas Grandes Guerras. É resgatada pelo revivalismo hippy dos anos de 1960, pelos novos feminismos, como exemplo de um poder matriarcal perdido e recuperável. Regressa em 1970 como Superstar (cap. 13), diva na ópera-rock e no cinema (cap. 13.1).
Já no século XXI há um segundo surto desencadeado pelo polémico best-seller mundial, o Código Da Vin (2003), que sobre ela dirigiu os olhos do mundo. As lendas são recuperadas e deturpadas (cap. 13.2), Madalena é associada ao Graal e aos Templários (cap. 13.3).

Rebenta a quarta querela da identidade com as pseudo-descobertas de novas relíquias (cap. 13.4) e interessantes consequências científicas. Em Portugal, caminha da lenda a uma reformulação do mito. Surge na pintura de Paula Rego que lhe chama «Bruxa Branca» e exibe-se como eremita mística em Barahona Possolo. No teatro vão ainda ecoar as paródias, surgindo negra e pulverizada.

No geral encontramos a reescrita de ecos antigos também na poesia. Na prosa, José Saramago transforma-a numa nova Diotima. Já no século XXI, por interferência das novas importações (cap. 14.1) surge-nos um ensaio. No teatro Madalena é reconduzida ao seu esplendor gnóstico (cap. 14.1.1) por Armando Nascimento Rosa; encontra uma atualização verdadeiramente inédita do seu mito no romance de Rui Zink (cap. 14.1.1).

 Em 2007 estreia-se a versão portuguesa de Jesus Cristo Super Star. Em todos os momentos irão ser dados exemplos da sua representação literária e pictórica e dos modos como foi sendo recebida em Portugal, na Península. Madalena chega-nos por importação – de França, de Itália por via de Espanha.

Far-se-á, pois, uma pequena resenha das grandes diferenças que por tal apresenta relativamente às tradições estrangeiras. Maria de Magdalo é uma figura do nosso património coletivo, exibe as marcas das mudanças e evolução dos modos de pensamento e filosofias, da história psicológica do Ocidente, pertence ao campo da História das Ideias, exige uma abordagem Comparatista.

Enquanto mito, desempenha uma função no mínimo terapêutica, e não deverá ser tratada de ânimo leve. Diz-nos Jung que, quando há coincidência em testemunhos vindos de origens diversas, quando o tema renasce após séculos de aparente desgaste, é prova que se pode estar em presença de um Arquétipo. Assim, o tema de Madalena pertencerá ao depósito das imagens proto-arcaicas do inconsciente coletivo cuja manifestação, e leitura, relevam da ordem da linguagem do sonho e/ou do sagrado."
Antonio da Correggio, 'Noli me Tangere', c. 1525, oil on canvas, 130 × 103 cm,
Museo del Prado, Madrid


Anton Raphael Mengs (German Neoclassical painter, 17281779),
 'Noli me tangere', 1770