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domingo, 6 de outubro de 2019

"Anoitecer em Outubro" - Poema de Ferreira Gullar



Théophile Alexandre Steinlen
(Swiss-born French Art Nouveau painter
and printmaker, 1859–1923), Siamese Cat and her kitten, 1920


Anoitecer em Outubro


A noite cai, chove manso lá fora
meu gato dorme
enrodilhado
na cadeira

Num dia qualquer
não existirá mais
nenhum de nós dois
para ouvir
nesta sala
a chuva que eventualmente caia
sobre as calçadas da rua Duvivier


Ferreira Gullar,
Em alguma parte alguma


 
Louis Wain (English artist, 1860–1939), Blue Cat, 1932


Perde o gato
Crónica de Carlos Drummond de Andrade
 
 
Um jornal é lido por muita gente, em muitos lugares; o que ele diz precisa interessar, senão a todos, pelo menos a um certo número de pessoas. Mas o que me brota espontaneamente da máquina, hoje, não interessa a ninguém, salvo a mim mesmo. O leitor, portanto, faça o obséquio de mudar de coluna. Trata-se de um gato.

Não é a primeira vez que o tomo para objeto de escrita. Há tempos, contei de Inácio e de sua convivência. Inácio estava na graça do crescimento, e suas atitudes faziam descobrir um encanto novo no encanto imemorial dos gatos. Mas Inácio desapareceu — e sua falta é mais importante para mim, do que as reformas do ministério.

Gatos somem no Rio de Janeiro. Dizia-se que o fenómeno se relacionava com a indústria doméstica das cuícas, localizada nos morros. Agora ouço dizer que se relaciona com a vida cara e a escassez de alimentos. À falta de uma fatia de vitela, há indivíduos que se consolam comendo carne de gato, caça tão esquiva quanto a outra.

O facto sociológico ou económico me escapa. Não é a sorte geral dos gatos que me preocupa. Concentro-me em Inácio, em seu destino não sabido. Eram duas da madrugada quando o pintor Reis Júnior, que passeia a essa hora com o seu cachimbo e o seu cão, me bateu à porta, noticioso. Em suas andanças, vira um gato cor de ouro como Inácio — cor incomum em gatos comuns — e se dispunha a ajudar-me na captura. Lá fomos sob o vento da praia, em seu encalço. E no lugar indicado, pequeno jardim fronteiro a um edifício, estava o gato. A luz não dava para identificá-lo, e ele se recusou à intimidade. Chamados afetuosos não o comoveram; tentativas de aproximação se frustaram. Ele fugia sempre, para voltar se nos via distantes. Amava. Seria iníquo apartá-lo do alvo de sua obstinada contemplação, a poucos metros. Desistimos. Se for Inácio — pensei — dentro de um ou dois dias estará de volta. Não voltou.

Um gato vive um pouco nas poltronas, no cimento ao sol, no telhado sob a lua. Vive também sobre a mesa do escritório, e o salto preciso que ele dá para atingi-la é mais do que impulso para a cultura. É o movimento civilizado de um organismo plenamente ajustado às leis físicas, e que não carece de suplemento de informação. Livros e papéis, beneficiam-se com a sua presteza austera. Mais do que a coruja, o gato é símbolo e guardião da vida intelectual.

Depois que sumiu Inácio, esses pedaços da casa se desvalorizaram. Falta-lhes a nota grave e macia de Inácio. É extraordinário como o gato “funciona” em uma casa: em silêncio, indiferente, mas adesivo e cheio de personalidade. Se se agravar a mediocridade destas crónicas, os senhores estão avisados: é falta de Inácio. Se tinham alguma coisa aproveitável era a presença de Inácio a meu lado, sua crítica muda, através dos olhos de topázio que longamente me fitavam, aprovando algum trecho feliz, ou através do sono profundo, que antecipava a reação provável dos leitores.

Poderia botar anúncio no jornal. Para quê? Ninguém está pensando em achar gatos. Se Inácio estiver vivo e não sequestrado, voltará sem explicações. É próprio do gato sair sem pedir licença, voltar sem dar satisfação. Se o roubaram, é homenagem a seu charme pessoal, misto de circunspeção e leveza; tratem-no bem, nesse caso, para justificar o roubo, e ainda porque maltratar animais é uma forma de desonestidade. Finalmente, se tiver de voltar, gostaria que o fizesse por conta própria, com suas patas; com a altivez, a serenidade e a elegância dos gatos.


Carlos Drummond de Andrade, "Perde o gato", in Cadeira de Balanço, 1966
 
 

quinta-feira, 5 de março de 2015

"Loira" - Poema de Cesário Verde



Théophile Steinlen (Swiss-born French Art Nouveau painter
and printmaker, 1859–1923), 'Il n’y est pas', 1901.
 
 
Loira


Eu descia o Chiado lentamente 
Parando junto às montras dos livreiros 
Quando passaste irónica e insolente, 
Mal pousando no chão os pés ligeiros. 

O céu nublado ameaçava chuva, 
Saía gente fina de uma igreja; 
Destacavam no traje de viúva 
Teus cabelos de um louro de cerveja. 

E a mim, um desgraçado a quem seduzem 
Comparações estranhas, sem razão, 
Lembrou-me este contraste o que produzem 
Os galões sobre os panos de um caixão. 

Eu buscava uma rima bem intensa 
Para findar uns versos com amor; 
Olhaste-me com cega indiferença 
Através do lorgnon provocador. 

Detinham-se a medir tua elegância 
Os dandies com aprumo e galhardia; 
Segui-te humildemente e a distância, 
Não fosses suspeitar que te seguia. 

E pensava de longe, triste e pobre, 
Desciam pela rua umas varinas 
Como podias conservar-te sobre 
O salto exagerado das botinas. 

E tu, sempre febril, sempre inquieta, 
Havia pela rua uns charcos de água 
Ergueste um pouco a saia sobre a anágua 
De um tecido ligeiro e violeta. 

Adorável! Na ideia de que agora 
A branda anágua a levantasse o vento 
Descobrindo uma curva sedutora, 
Cada vez caminhava mais atento. 

Mas súbito parei, sentindo bem 
Ser loucura seguir-te com empenho, 
A ti que és nobre e rica, que és alguém, 
Eu que de nada valho e nada tenho. 

Correu-me pelo corpo um calafrio, 
E tive para o teu perfil ligeiro 
Este olhar resignado do vadio 
Que fita a exposição de um confeiteiro. 

Vi perder-se na turba que passava 
O teu cabelo de ouro que faz mal; 
Não achei essa rima que buscava, 
Mas compus este quadro natural. 
 

Cesário Verde (1855–1886),
in O Livro de Cesário Verde, 1887



Sarah Brightman



"Quem ama a vida é amado por ela"

Arthur Rubinstein
[Pianista polaco naturalizado americano, 1887–1982] 
 
 

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

"Quem és tu" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen



Théophile Alexandre Steinlen (Artiste français, 1859–1923), 
Chat au Clair de Lune, c. 1900


Quem és tu 


Quem és tu que assim vens pela noite adiante, 
Pisando o luar branco dos caminhos, 
Sob o rumor das folhas inspiradas? 

A perfeição nasce do eco dos teus passos, 
E a tua presença acorda a plenitude 
A que as coisas tinham sido destinadas. 

A história da noite é o gesto dos teus braços, 
O ardor do vento a tua juventude, 
E o teu andar é a beleza das estradas.




Galeria de Théophile Alexandre Steinlen

[Théophile Alexandre Steinlen, nascido em Lausanne em 10 novembro 1859 e falecido em Paris em 14 dezembro 1923, foi um pintor, desenhista e litógrafo suíço, naturalizado francês em 1901.]


Théophile Alexandre Steinlen, Apotheosis of Cats, 1890


Théophile Alexandre Steinlen, Les deux Chats


  Théophile Alexandre Steinlen, Cat on a Cushion, Winter


   Théophile Alexandre Steinlen


 
  Théophile Alexandre Steinlen, Cinq Chats endormis, 1915.


Théophile Alexandre Steinlen


Théophile Alexandre Steinlen


 Theophile Alexandre Steinlen,  Les Joies de L'Ete, 1894



 Theophile Alexandre Steinlen


 Theophile Alexandre Steinlen,  Les Deux Meres, 1903


Theophile Alexandre Steinlen, Idyll de Faubourg


 Theophile Alexandre Steinlen, La Veillee, 1907


Theophile Alexandre Steinlen, Sur Le Seuil, 1902


Theophile Alexandre Steinlen, Gust of wind


 Théophile Alexandre Steinlen, Ball on the 14th of July


Theophile Alexandre Steinlen, Ball in a Paris Suburb


Théophile Alexandre Steinlen, Café à Léon, 1921


“Seja feliz ou infeliz, a vida é o único tesouro que o homem possui.” 

"Happy or unhappy, life is the only treasure which man possesses."

History of my life: Volumes 1-2, página 35, Harcourt, Brace & World, 1966 - 679 páginas


Sarah Brightman - Live In Vienna