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sábado, 21 de março de 2026

"As Andorinhas" - Poema de Tomás da Fonseca




As Andorinhas


Chegaram as andorinhas,
foi-se a noite e veio o dia!
Ó aves, saudades minhas,
asas brancas, levezinhas,
há quanto que eu vos não via!

Foi-se do inverno a tristeza,
veio o sol da primavera…
Ter assim tanta leveza,
ver, voando, a natureza,
vida minha, quem te dera!

Viver alto em revoadas,
fazer ninho nos beirais,
e ir convosco, aves amadas,
bem longe d’encruzilhadas
onde não voltasse mais…

Ser pequenino também
e leve como uma asa!...
Não querer mal a ninguém,
viver como filho e mãe,
nesse ninho – a nossa casa…

Velar no céu como vela
a águia que as nuvens fende…
Ver a terra a fugir dela,
porque a vida só é bela
quando do chão se desprende!

Eu voando, elas voando,
entre nuvens nas alturas…
Onde terei, como e quando,
sonho que assim vá sonhando,
bem que assim me dê ventura?

Ó andorinha palreira,
alegria dos casais,
dava a minha vida inteira
para ser asa ligeira
e ir contigo onde tu vais…

Onde tu vais, andorinha,
Que me trouxeste a alegria!
Ó ave, saudade minha,
asa branca, levezinha,
que há tanto tempo não via!


Tomás da Fonseca, in Musa pagã.
Lisboa, Livraria Portugália, 1920.



Tomás da Fonseca na biblioteca da sua casa de Mortágua, década de 50. (daqui)


Tomás da Fonseca  
[Laceiras, Mortágua, 1877 - Lisboa, 1968]  
«É o escritor anticlerical português de maior renome», conclui Lopes de Oliveira – como ele natural de Mortágua e seu companheiro, pelo menos desde a revista Risos e Lisos (Coimbra, 1897) – ao prefaciar-lhe um livro, em 1949.

Poeta, ficcionista, historiógrafo, jornalista, militante e panfletário republicano, deputado e professor, Tomás da Fonseca é conhecido sobretudo pelas suas obras de vincada feição anticlerical, sendo ignorada quase por completo toda a sua intervenção noutros domínios, nomeadamente a infatigável ação que desenvolveu em prol da instrução e da cultura ao longo de várias décadas.

Oriundo de uma família de pequenos proprietários rurais, mais rica em prole do que em fazenda (era o segundo entre sete irmãos), para frequentar a escola primária móvel, implantada havia pouco na sua região, era obrigado todos os dias a fazer uma caminhada de ida e volta de 10 quilómetros. Aos 17 anos, peito largo e musculatura rija adquiridos ao leme do arado e do alvião coube a Tomás da Fonseca ser o escolhido pelos progenitores, de entre os quatro filhos varões, para seguir a vida eclesiástica, assim se restabelecendo a tradição da linhagem de contar com um padre na família. Deste modo, entrou para o Seminário de Coimbra, o qual viria a abandonar em 1903, após um prolongado e doloroso debate no interior de uma consciência seduzida pela grandeza da doutrina mas revoltada com a perversidade e a mesquinhez da sua pátria quotidiana.

Seguindo, resolutamente, a exortação do geógrafo e racionalista Elisée Reclus, a quem se dirigirira para lhe expor o dilema religioso com que se debatia e a pedir-lhe conselho. T. da Fonseca renunciou por fim aos propósitos que então o animavam («ordenar-me e depois insurgir-me contra tudo quanto a Igreja tem de absurdo e revoltante, dando assim realidade ao personagem de Zola, o abade Pierre Frement», conforme logo após confessou no seu livro Evangelho dum Seminarista), assumindo como norma imperativa da sua vida o conselho recebido daquele sábio e libertário francês: «Sois um homem do povo, ficai com os homens do povo, combatei ao seu lado, camarada sem título nem insígnia, um igual e um livre, ao lado dos iguais e dos livres.»

Participante ativo – pela pena e pela palavra, nos jornais, nos comícios e em conferências – na ininterrupta ação política que iria conduzir alguns anos depois ao derrube da Monarquia portuguesa; deputado e mais tarde senador pelo distrito de Viseu, desde as Constituintes até 1917; chefe de gabinete do ministro do Fomento do Governo Provisório, Dr. António Luís Gomes; preso político na Penitenciária de Coimbra durante dois meses, em consequência das posições tomadas por si e por outros republicanos de Santa Comba Dão contra o consulado sidonista; resistente até ao final da vida ao regime do Estado Novo, que, em 1947, o encarcerou na prisão do Aljube, em Lisboa, por ter protestado contra a continuidade do Campo do Tarrafal – nada disto impediu, porém, o seu constante labor de paladino da instrução e da cultura do povo português, durante anos a fio, desde que à instrução e à educação decidiu dedicar a maior parte da sua longa vida.

A par dos seus escritos sobre a educação e o ensino, das visitas de estudo que empreendeu a escolas, museus e bibliotecas francesas, belgas e inglesas e da polémica travada no jornal O Mundo com João de Deus Ramos (1917) acerca do ensino religioso nas escolas, a par disto, Tomás da Fonseca consagrou-se com idêntico ardor à ação pedagógica direta. Na verdade, grande impulsionador do movimento das escolas móveis, percorreu o distrito do Viseu a pregar a boa nova da alfabetização pelo método de João de Deus (Cartilha Maternal); interveio na reforma do ensino primário e normal empreendida pelos governos republicanos (1912); apresentou ao Parlamento em 1916 um projeto de lei sobre a instrução primária (Lei nº. 429); incentivou e dinamizou, no âmbito das suas funções de deputado, a criação das comissões «Amigos da Escola», nomeadamente no seu distrito, cujos concelhos de Mortágua e Tondela percorreu em 1914, deslocando-se a todas as escolas móveis para instalar as referidas comissões; elaborou, em 1922, a instâncias do ministro da Instrução Pública, Dr. Augusto Nobre, o livro História da Civilização Relacionada com a História de Portugal; exerceu o magistério, primeiro como professor e depois como diretor da Escola Normal de Lisboa (dela foi demitido em 1918, pelo sidonismo, por visitar presos políticos na Penitenciária de Lisboa) e, tempos depois, da Escola Normal de Coimbra, da qual viria a ser afastado compulsivamente em 1934.

A sua ação pedagógica não se confinou, no entanto, ao ensino oficial; em 1925 fundou em Coimbra, com outros mestres (Álvaro Viana de Lemos, Aurélio Quintanilha, Joaquim de Carvalho e Manuel dos Reis) e alguns estudantes e trabalhadores manuais, a Universidade Livre.

É vasta e permanece dispersa a sua colaboração em jornais e em revistas. Escreveu, entre outros, nos seguintes periódicos: A Pátria (do Porto), O Mundo, A Vanguarda, Voz Pública, O Norte, República, O Povo, A Batalha, Lanterna (do Brasil), Luz e Vida, Alma Nacional, Arquivo Democrático (de que foi diretor), O Diabo e a República Portuguesa, um periódico por si fundado e de que era proprietário. Colaborou também no Guia de Portugal, Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira e ainda na obra dirigida por Lopes de Oliveira As Grandes Figuras da História da Humanidade: História Geral da Civilização. Há vários prefácios seus a livros de outros autores.
Pai do escritor «presencista», 
Branquinho da Fonseca (1905-1974).
 
Biografia de Tomás da Fonseca, in "Dicionário Cronológico de Autores Portugueses", Vol. III, Lisboa, 1994. (daqui)
  

 
Katsushika Hokusai (Japanese ukiyo-e artist of the Edo period, active as a painter
and printmaker, 1760–1849), "Hydrangea and Swallow", n.d.

 
Ukiyo-e

Ukiyo-e, ukiyo-ye ou ukiyo-ê ("retratos do mundo flutuante", em sentido literal), vulgarmente também conhecido como estampa japonesa, é um género de xilogravura e pintura que prosperou no Japão entre os séculos XVII e XIX. Destinava-se inicialmente ao consumo pela classe mercante do período Edo (1603 – 1867). Entre as mais populares temáticas abordadas, estão a beleza feminina; o teatro kabuki; os lutadores de sumo; cenas históricas e lendas populares; cenas de viagem e paisagens; fauna e flora; e erótica. (continua)

Autoproclamado "pintor louco" Katsushika Hokusai (1760–1849) desfrutou de longa e variada carreira. Seu trabalho é marcado pela falta do sentimentalismo usualmente comum ao ukiyo-e e pelo foco no formalismo de influência ocidental. Entre seus feitos, estão ilustrações para trabalhos literários de Takizawa Bakin, séries de sketchbooks — a mais famosa delas chamada Hokusai Manga (北斎漫画, esboços de Hokusai) — e sua popularização da paisagem enquanto vertente, sobretudo com a série "Trinta e Seis Vistas do Monte Fuji", que inclui seu mais conhecido trabalho, A Grande Onda de Kanagawa, que também é uma das mais famosas peças de arte japonesa de todos os tempos.
Em contraste ao trabalho dos velhos mestres, as cores de Hokusai eram arrojadas, lisas e abstratas, e suas temáticas não tinham relação com as zonas de meretrício, mas dialogavam com vida comum e o ambiente da classe trabalhadora.
Mestres consagrados, como Keisai Eisen, Utagawa Kuniyoshi e Utagawa Kunisada também seguiram os passos de Hokusai rumo às paisagens na década de 1830, produzindo trabalhados de composição ousada e impressionantes efeitos. 
(daqui)

domingo, 16 de novembro de 2025

"Quieta" - Poema de Saúl Dias (Pseudónimo de Júlio Maria dos Reis Pereira)

Quieta


Passaste 
subtil 
na tarde quieta.

O ar anil 
ondulou… 
Como uma seta 
uma ave baixou 
da velha torre 
e pousou quieta.

Eu era o esteta 
procurando 
entre fórmulas mil 
o ancoradouro, a meta…

Inúteis tentativas!…

Tudo passou… 
Tudo queimou 
o tempo vil…

Só perdurou 
o ar anil 
da tarde quieta.


Saúl Dias,
in "Obra Poética", Portugália, 1962

(Pseudónimo de Júlio Maria dos Reis Pereira
 

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

"Passarinhos" - Poema de Zalina Rolim



Charles Baptiste Schreiber
(French painter, 1845–1903),
'Girl with Hummingbird', 1877

Passarinhos


A um passarinho que andava
Cantando pelo jardim,
Foi perguntar Elisinha
— Quem é que te cuida assim?

Onde achas doce alimento,
Coisas nutritivas, sãs?
— Tenho bichinhos gostosos
Figos, laranjas, romãs.

— E quando estás fatigado,
Onde é que vais descansar?
— Qual de nós não tem seu ninho?
Nosso ninho é o nosso lar.

— E sede não sentes nunca?
— Tenho rio e ribeirão,
E gotinhas de sereno,
Que as folhas verdes me dão.

— E no inverno não te falta
Agasalho contra o frio?
— Tenho penas que me cobrem,
Tenho agasalho macio.

— E quando não há bichinhos,
Grãos e frutinhas não há?
— Há uma boa criancinha
Que pão e alpiste me dá.


Zalina Rolim

[Poetisa e educadora brasileira, 18691961]


quarta-feira, 16 de julho de 2025

"O Cão e os Pássaros" - Poema de Zalina Rolim



Henriëtte Ronner-Knip (Dutch-Belgian artist, 1821–1909),
'Cat Spying on Birds near a Sleeping Dog', 1875.
 

O Cão e os Pássaros


FEROZ é um velho cão de guarda. A gente,
Que o vê de longe, teme-lhe os olhares,
E examina a grossura da corrente
Férrea, que o liga ao muro dos seus lares.

Ninguém lhe amima o dorso largo e forte;
Ninguém procura o seu olhar profundo;
Do seu caminho fogem, de tal sorte
Que ele se vê sozinho neste mundo.

O próprio dono evita-lhe os afagos,
Olha-o receoso, e se aproxima a custo.
Do velho cão nos grandes olhos vagos,
Paira a tristeza de um castigo injusto.

Não compreende o terror por ele aceso;
Quer mostrar-se bondoso, e a cauda agita,
Mas o rumor dos ferros, que o têm preso,
Mais pavor nos corações excita.

E ele, sentindo assomos de revolta,
Tenta quebrar os elos da cadeia...
Mas, pouco a pouco, a placidez lhe volta,
E o louco instinto, devagar, sopeia.

Inclina o corpo e estende-se por terra,
Preso ao terror, que a própria força inspira;
E, silencioso, húmidos olhos cerra,
Sem mais vislumbre de despeito ou ira.

Velando à porta do casebre, sonha...
O campo é todo verde; o céu fulgura,
E erra no espaço, trêfega e risonha,
A azado vento a derramar frescura.

Nova agonia o coração lhe aperta,
Nostálgico, aspirando o fim de tudo...
Nisto, um ligeiro frémito o desperta,
E ele abre os olhos, cauteloso e mudo.

São passaritos. Ei-los! Não têm medo
Vêm partilhar com ele o magro almoço.
E, compassivo, espera imóvel, quedo,
Que eles se vão, para roer um osso.

E o velho cão de pavoroso aspeto,
Que nunca teve a graça de uns carinhos,
Sentindo o peito a transbordar de afeto,
Trémulo escuta a voz dos passarinhos.


Zalina Rolim
, em "Livro das Crianças", 1897 


Henriëtte Ronner-Knip, "Das kleine Fuhrwerk" (The Little Wagon), c. 1909.
 

"O menino que sofre e se indigne diante dos maus tratos infligidos aos animais, 
será bom e generoso com os homens." 
 
(Benjamin Franklin)



Henriëtte Ronner-Knip, "Kurze Rast" (Cart Dog at Rest), c. 1909
 

"Podemos julgar o coração de um homem pela forma como ele trata os animais."
 

quinta-feira, 26 de junho de 2025

"Irmã cotovia" - Poema de A. M. Pires Cabral

 
 
Pál Szinyei Merse (Hungarian painter and art educator, 1845–1920), Skylark, 1882.
Hungarian National Gallery
 

Irmã cotovia


Vive rente ao solo e é no solo
que faz ninho e sacia a fome
com as coisas do chão e em silêncio.

Porém, quando precisa de cantar,
muda de elemento: deixa a terra,
sobe altíssimo, até onde
nenhum outro pássaro se arrisca.

Dir-se-ia
que precisa de um palco.

Então dos limites do voo, quase imóvel,
vai derramando breves, repetidos
jorros de júbilo, assim como quem diz:
vejam como estou alto, sustentada
por tão frágeis asas.

Depois que desafogou o peito
das inadiáveis premências da voz,
apeia-se, torna ao solo,
dissimula-se na cor parda da terra,

como se nunca tivesse voado. 


A. M. Pires Cabral, in Arado, 2009


 
[A laverca, laverca-eurasiática ou laverca-comum (Alauda arvensis) é uma ave passeriforme da família dos Alaudídeos, presente em Portugal, assumindo-se como o tipo de cotovia mais comum na Europa.]
 

Cotovia
 
Na floresta fria,
Sem apego a nada,
Canta a cotovia.


Haicai de Matsuo Bashō
Tradução livre de R. D. Diéguez e Bernardo Souto.
(daqui)

segunda-feira, 3 de junho de 2024

"Um Ninho" - Poema de Afonso Simões



Charles Joshua Chaplin (French painter, 1825 - 1891), 
 Young Girl with a Nest, 1869, Museum of Fine Arts of Lyon.

 

Um Ninho


Sabeis o que é um ninho, esse pequeno lar
Onde a ventura mora em noites de luar,
Onde a brisa suspira e canta a cotovia
Desde o romper da aurora ao declinar do dia?

Sabeis o que é um ninho em dias estivais,
Perdido no rumor dos bastos salgueirais,
À borda dum riacho alegre, saltitante,
Que vai de pedra em pedra até morrer, distante?

Sabeis o que é um ninho inundado de sol,
Onde desperta o melro e dorme o rouxinol?
Não, não sabeis! Pois bem. Juntai toda a ventura
Do vosso lar ditoso: os beijos, a ternura

Duma extremosa mãe, os cuidados dum pai,
Os risos duma irmã que tanto vos distrai,
Um doce olhar de avó, vaidosa no carinho,
E ficareis sabendo o que se chama um ninho.


Afonso Simões (1866-1947), em “Folhas em Branco”, 1914
Imprensa Libanio da Silva
 

Charles Joshua Chaplin, The Bird's Nest, 1860, Private collection.


"Uma imagem vale mais que mil palavras."

"A mulher e o passarinho, com Sol ao ninho."

"Cada passarinho gosta do seu ninho."



(Provérbios portugueses)


Charles Joshua Chaplin, Feeding Doves, Private collection.


"A natureza dá a vida, mas a vida ensina a viver."

"Quem passarinhos receia, milho não semeia."

"Aves da mesma pena andam juntas."


 
 
Charles Joshua Chaplin, Young Girl with a Dove, 1850,
 Private collection.
 
 
Pomba branca, pomba branca


Pomba branca, pomba branca
Já perdi o teu voar
Naquela terra distante
Toda coberta pelo mar

Fui criança, andei descalço
Porque a terra me aquecia
Eram longos os meus sonhos
Quando a noite adormecia

Vinham barcos dos países
Eu sorria, de os sonhar
Traziam roupas, felizes
As crianças dos países
Nesses barcos a chegar

Depois mais tarde ao perder-me
Por ruas de outras cidades
Cantei meu amor ao vento
Porque sentia saudades

Saudades do meu lugar
Do primeiro amor da vida
Desse instante a aproximar
Dos campos, do meu lugar
À chegada e à partida
  (Poeta, ator, encenador, declamador e radialista português, 1924 - 1980) 



Max
- Pomba Branca, Pomba Branca


Max
 
Fadista, ator e músico popular, Maximiano de Sousa nasceu a 20 de janeiro de 1918, no Funchal, faleceu a 29 de março de 1980, em Lisboa. É o mais famoso músico madeirense a nível nacional e internacional.
Apaixonou-se pelo fado logo em criança. Alimentava o sonho de ser barbeiro, numa altura em que os salões por vezes se transformavam em autênticas tertúlias fadistas. A morte do pai, aos 14 anos, forçou-o a começar cedo a trabalhar. Seguiu o ofício de alfaiate, nunca deixando, de forma amadora, de se dedicar ao fado. Aos 16 anos, foi para os Açores, com um grupo de amadores, e ali permanece dois anos a cantar. De regresso à Madeira, começou a atuar aos fins de semana em clubes locais e boites, não só o fado, mas sobretudo êxitos da música ligeira internacional, em locais como o Hotel Bela Vista. Aos 25 anos integrou o Conjunto Tony Amaral, desempenhando as funções de vocalista e baterista.
Em 1946, partiu para Lisboa onde cimentou a sua carreira. Inicialmente, com o Conjunto Tony Amaral, em locais como o Clube Americano e o Nina. Foi com este grupo que gravou o seu primeiro disco, em 1949. Depois, ganhou notoriedade a solo, e construiu uma carreira muito profícua e aplaudida, dividindo-se entre o fado e canções populares e humorísticas. A sua popularidade levou-o também ao teatro de revista, a partir de 1952, tendo participado em peças como Saias Curtas, Cala o Bico, Peço a Palavra, Mão à Obra e Mulheres à vista.
Teve uma longa carreira internacional, com concertos na Alemanha, Brasil, Canadá, Austrália, Argentina, Venezuela, Espanha e Áustria. Mas com principal destaque nos Estados Unidos, onde viveu mais de dois anos, e chegou a participar no programa de Gourucho Marx na NBC.
Para o seu reportório de música popular, escreveu temas com tal fama que hoje se confundem com a música tradicional madeirense, como é o caso do "Bailinho da Madeira" e da "Mula da Cooperativa". No fado, também escreveu vários temas, que marcam a história da canção de Lisboa. Entre outros, "Vielas de Alfama" (com Artur Ribeiro), "Nem às Paredes Confesso" (com Artur Ribeiro e Ferrer Trindade), "Fiz Leilão de Mim" (com Artur Ribeiro) ou "Lamentos" (com Domingues Gonçalves Costa). E destacou-se na interpretação de outros temas como "A Rosinha dos Limões" (Artur Ribeiro), "A Júlia Florista" (Joaquim Pimentel/Leonor Vilar) ou "Carta de um Soldado" (José Galhardo/Raul Ferrão). Era regularmente acompanhado pelo Conjunto de Guitarras de Raul Nery.
Tem uma extensa discografia, com dezenas de EP, como era hábito na época. Destacam-se as coletâneas, editadas em CD, O Melhor de Max vol. 1 e 2, Biografias do Fado, Pomba Branca, Saudade e Bailinho da Madeira, todas com edição da Emi-Valentim de Carvalho.
Em 1979, o Governo Regional da Madeira homenageou-o num espetáculo que decorreu no Funchal. Max, que sofria do coração, morreu, de forma súbita, no ano seguinte, quando saía de um restaurante, em Lisboa. (daqui)

segunda-feira, 1 de abril de 2024

"A pega: as outras cores do mundo" - Poema de Ana Luísa Amaral


Ferdinand von Wright (Finnish painter, 1822 - 1906), Magpies round a Dead Woodgrouse, 1867,
 

A pega: as outras cores do mundo


No jardim tangente à minha casa
por entre os pássaros
que lhe habitam as árvores e cantam
em trinado desacerto,
vive uma pega

O seu nome não é um nome belo
como andorinha ou rouxinol,
que lembram odes e mornas tradições,
ou como arara, quetzal ou beija-flor,
nomes felizes com as cores inteiras
que o olho humano entende
– e ainda outras
que as entendem eles

Mas ela, elegante no corpo todo negro, a cauda longa,
só laivo a branco leve na asa e pelo peito,
parece que vestiu alta-costura
para voar pelos ramos de outono e
os telhados das casas
que estão perto

Dizem os entendidos
que reconhece ao espelho o seu reflexo,
algo que ao bicho humano
exige anos de vida

Nestes dias tão magros
em que os cavalos do apocalipse e espanto
cavalgam livres, trazendo novas pestes, guerras, fomes,
é um prazer de afago
alegria sem nome
vê-la todos os dias a voar

equilibrista bicolor,
dona do mundo


Ana Luísa Amaral
, in Mundo,
Assírio & Alvim, 2021 
 
 
Ana Luísa Amaral, "Mundo". Editor: Assírio & Alvim,
Edição/reimpressão: 12-2021.

 
Sinopse

"Mundo" – Tecendo o fio que liga o texto à vida, Ana Luísa Amaral convoca-nos para uma paisagem de sons ao compasso dos cheiros, cores que constituem este Mundo: a abelha e a flor em descanso, a mesa e a faca pousada, ou as gentes e as suas interrogações. (daqui)
 
 
Ferdinand von Wright, Pigs and Magpies, 1875, Finnish National Gallery


A Pega-rabuda ou pega-rabilonga (Pica pica) é uma ave da família Corvidae (corvos), com um aspeto inconfundível. Essa é uma das espécies de aves mais inteligentes do mundo, sendo uma das 9 espécies que podem reconhecer seu reflexo no espelho.
Os seus hábitos alimentares (come quase tudo) deram origem a que o nome da espécie – Pica – fosse dado a uma doença de comportamento humano. (daqui)
 

domingo, 18 de fevereiro de 2024

"Ficaram-me as Penas" - Poema de Cassiano Ricardo



Ferdinand von Wright (Finnish painter, 18221906), 'Jays', 1877, Finnish National Gallery.


Ficaram-me as Penas

 
O pássaro fugiu, ficaram-me as penas
da sua asa, nas mãos encantadas.
Mas, que é a vida, afinal? Um voo, apenas.
Uma lembrança e outros pequenos nadas.

Passou o vento mau, entre açucenas,
deixou-me só corolas arrancadas...
Despedem-se de mim glórias terrenas.
Fica-me aos pés a poeira das estradas.

A água correu veloz, fica-me a espuma.
Só o tempo não me deixa coisa alguma
até que da própria alma me despoje!

Desfolhados os últimos segredos,
quero agarrar a vida, que me foge,
vão-se-me as horas pelos vãos dos dedos.
 
 
[Jornalista, poeta e ensaísta brasileiro, 18941974]

 
Ferdinand von Wright, 'The Fighting Capercaillies', 1886, Finnish National Gallery (Ateneum).


"Este mundo é um inferno para os animais e nós, humanos, seus demónios."


Citado em "Wozu Religion?: Sinnfindung in Zeiten der Gier nach Macht und Geld" 
 - página 122, Eugen Drewermann, Jürgen Hoeren - Herder, 2001 - 224 páginas.
 
 
Ferdinand von Wright, 'Capercaillies courting', 1862, Finnish National Gallery.


"Agarre-se a seus sonhos, pois, se eles morrerem, a vida será como um pássaro de asa quebrada,
 incapaz de voar."
 
"Hold fast to your dreams, for if dreams die, life is a broken winged bird that cannot fly." 
 
The Collected Works of Langston Hughes - Página 409.
 Publicado por University of Missouri Press, 2001, 632 páginas.
 

domingo, 25 de fevereiro de 2018

"Com as maçãs" - Poema de Eugénio de Andrade



Charles Courtney Curran (American impressionist painter, 1861–1942),
Apple Perfume, 1911


Com as maçãs


As crianças chegam com as maçãs.
Vêm do sul,
os choupos brancos sabem o seu nome.
Também as gaivotas as conhecem:
aposto que foram elas,
estas ciganas das areias,
quem lhes mostrou o caminho.
Chegam com as maçãs:
as crianças, as abelhas.


in "Coração habitado"


Andorinha (Hirundo rustica), Springtime' by Luis-Gaspar


Sentadas num fio
estão cinco andorinhas
fugidas do frio




segunda-feira, 30 de outubro de 2017

"O gaio e o papagaio" - Poema de Leonel Neves


O Gaio-comum (Garrulus glandarius) é uma ave da família CorvidaeFotografia  de Marek Szczepanek



O gaio e o papagaio


Não sei quem teve a ideia
de contar a um velho gaio
que outra ave papagueia
e se chama papagaio.

Disse o gaio: «Papa-quê?»
Disse o outro: «Papa-gaio!»
Disse o gaio: «Pois você
diga lá a esse bicho
que, se não muda de nome,
não me escapa, ainda o lixo;

que um gaio tem muita fome,
que sou um papão de um raio,
que este velho gaio o papa,
que sou papa-papagaio.»

Quando isto contaram a
um medroso papagaio,
gaguejou: «Eu... sou... pa... pa...»
e depois teve um desmaio.

Engasgou-se a rir, o gaio,
do desmaio do papagaio.




Papagaio-verdadeiro - Amazona aestiva - conhecido vulgarmente como papagaio-verdadeiro, ajuruetê, papagaio-grego
ajurujurá, curau, papagaio-comum, papagaio-curau, papagaio-de-fronte-azul e trombeteiro, é uma ave da família Psittacidae.
É nativa do Brasil oriental. Fotografia de Jair da Costa Moreira



Papagaio gaio 


Papagaio insensato, 
que te fez assim? 
Que não sabes falar 
brasileiro 
e já sabes latim?

Papagaio insensato, 
ave agreste, do mato, 
que diabo em ti existe, 
verde-gaio, 
que nunca estás triste?

Papagaio do mato, 
se nunca estás triste, 
quem foi que te ensinou, 
por maldade, 
a palavra saudade?

Papagaio triste, 
papagaio gaio, 
quem te fez tão triste 
e tão gaio, 
triste mas verde-gaio?

Papagaio gaio, 
quem te ensinou, 
em mais 
do mato, a repetir, 
papagaio, 
tanto nome feio?

Gaio papagaio, 
gaio, gaio, gaio, 
que repetes tudo... 
Antes fosses 
um pássaro mundo.

Papagaio do mato, 
se nunca estás triste, 
quem foi que te ensinou, 
por maldade, 
a palavra saudade?

Papagaio gaio. 
Gaio, gaio, gaio.




segunda-feira, 27 de abril de 2015

"Devastação" - Crónica de José Saramago


Foto de Rui Videira, Maciço da Gralheira, Portugal
 
 
Devastação


Todos os anos exterminamos comunidades indígenas, milhares de hectares de florestas e até inúmeras palavras das nossas línguas. A cada minuto extinguimos uma espécie de aves e alguém em algum lugar recôndito contempla pela última vez na Terra uma determinada flor. Konrad Lorenz não se enganou ao dizer que somos o elo perdido entre o macaco e o ser humano. Somos isso, uma espécie que gira sem encontrar o seu horizonte, um projeto por concluir. Falou-se bastante ultimamente do genoma e, ao que parece, a única coisa que nos distancia na realidade dos animais é a nossa capacidade de esperança. Produzimos uma cultura de devastação baseada muitas vezes no engano da superioridade das raças, dos deuses, e sustentada pela desumanidade do poder económico. Sempre me pareceu incrível que uma sociedade tão pragmática como a ocidental tenha deificado coisas abstratas como esse papel chamado dinheiro e uma cadeia de imagens efémeras. Devemos fortalecer, como tantas vezes disse, a tribo da sensibilidade... 
 

José Saramago, in 'Revista Universidad de Antioquia (2001)'

segunda-feira, 16 de junho de 2014

"Como é belo seu rosto matutino" - Poema de Alberto de Lacerda


 

Como é belo seu rosto matutino 


Como é belo seu rosto matutino 
Sua plácida sombra quando anda 

Lembra florestas e lembra o mar 
O mar o sol a pique sobre o mar 

Não tive amigo assim na minha infância 
Não é isso que busco quando o vejo 
Alheio como a brisa 
Não busco nada 
Sei apenas que passa quando passa 
Seu rosto matutino 
Um som de queda de água 
Uma promessa inumana 
Uma ilha uma ilha 
Que só vento habita 
E os pássaros azuis 


Alberto de Lacerda, in 'Exílio'


 

Nós 


Falei 

Cantei 
Cantei demais 

Arrisquei quebrar 
O arco-íris 

Mas até em estilhaço 
Continuaria 
O encantamento 


Alberto de Lacerda, in 'Átrio'


Alberto Lacerda

Alberto de Lacerda foi um poeta e jornalista moçambicano nascido a 20 de setembro de 1928, em Lourenço Marques (atual Maputo), e falecido a 26 de agosto de 2007, em Londres. Viveu em África até 1946 e veio para Portugal com 18 anos. Depois de viver em Lisboa durante cinco anos, partiu para Londres em 1951, dividindo a sua residência entre Inglaterra e os Estados Unidos. Foi em Londres que escreveu grande parte da sua obra e foi editor literário. A sua primeira obra, Itinerário, data de 1941 e foi publicada em Lourenço Marques, atualmente Maputo. 
Colaborou em várias publicações periódicas, como Cadernos de Poesia, Cadernos do Meio-Dia, Unicórnio ou Colóquio Letras. Secretário de redação da revista Távola Redonda (1950-54), nascida do convívio de Alberto Lacerda com um grupo de jovens poetas, entre os quais António Manuel Couto Viana, David Mourão-Ferreira, Luís de Macedo, e que, desde o final do ano de 1949, unidos pela comunhão de ideais estéticos, apostaram numa poesia orientada para a "revalorização do lirismo", exigindo ao poeta "autenticidade e um mínimo de consciência técnica, a criação em liberdade e, também, a diligência e capacidade de admirar, criticamente, os grandes poetas portugueses de gerações anteriores a 1950. Sem reservas ideológicas ou preconceitos de ordem estética" (VIANA, António Manuel Couto - "Breve Historial" in As Folhas Poesia Távola Redonda, Boletim Cultural da F. C. G., VI série, n.o 11, outubro de 1988), abandonou a publicação a partir do oitavo fascículo, manifestando a sua dissensão com a direção da revista. Em 1951, faz a sua estreia em volume, publicando Poemas, na segunda série dos Cadernos de Poesia, uma série de composições que viriam a integrar o conjunto mais amplo de 77 Poemas, editados já em Londres e em edição bilingue. 
Na sua poesia o valor simbólico dos quatro elementos - ar, água, fogo e terra - adquirem uma outra dimensão; no dizer do próprio autor "A água/ Meu primeiro elemento/ O Fogo/ Mais tarde/ A luz/ A luz é agora/ Meu elemento lento/ Para sempre". Para além disso, a sua poesia evoca regularmente os locais que Lacerda visitou e amou, como Veneza, Austin, Chelsea ou Rio de Janeiro.
A poesia de Alberto de Lacerda inscrita nos anos 50 releva, segundo Fernando J. B. Martinho, "uma poética da intensidade e da densidade colocada ao serviço de uma "experiência do sublime" que frequentemente tematiza a trágica ambivalência, humana e divina, da condição humana. Vindo a fundar em Londres, em 1973, uma revista internacional de poesia, Alberto de Lacerda foi, além de poeta, autor de notas preliminares à obra de outros poetas, tendo, por exemplo, prefaciado os Poemas Escolhidos de Rui Cinatti, em 1951. Com a publicação de Oferenda 1 e 2, encetou a edição da sua obra poética completa. 

Alberto de Lacerda. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-06-16].


 

If

A minha intenção 
Se a tivesse 
Era interromper de vez em quando as vossas falas 
E fazer-vos voltar a cabeça silenciosos 
Na única direção em que os versos existem 


Alberto de Lacerda, in 'Palácio'