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domingo, 11 de janeiro de 2026

"Infância" e "Filtro" - Poemas de Carlos de Oliveira




Infância

I

Terra
sem uma gota
de céu.

II

Tão pequenas
a infância, a terra.
Com tão pouco
mistério.

Chamo às estrelas
rosas.

E a terra, a infância,
crescem
no seu jardim
aéreo.

III

Transmutação
do sol em oiro.

Cai em gotas,
das folhas,
a manhã deslumbrada.

IV

Chamo
a cada ramo
de árvore
uma asa.

E as árvores voam.

Mas tornam-se mais fundas
as raízes da casa,
mais densa
a terra sobre a infância.

É o outro lado
da magia.

V

E a nuvem
no céu há tantas horas,
água suspensa
porque eu quis,
desmorona-se e cai.

Caem com ela
as árvores voadoras.

VI

Céu
sem uma gota
de terra. 


Carlos de Oliveira
, in "Turismo",
Coimbra Editora, 1942.
 
 
Léon Bonnat, A little accident, unknown date.
 

Filtro 


O poema
filtra
cada imagem
já destilada
pela distância,
deixa-a
mais límpida
embora
inadequada
às coisas
que tenta
captar
no passado
indiferente. 


Carlos de Oliveira
, in "Micropaisagem",
Dom Quixote, 1968.


sábado, 26 de julho de 2025

"Sabedoria Infantil" - Poema de Carlos Vogt

 

 
Victor Gabriel Gilbert
(French social realist painter, 1847–1935),
'In the Park with Grandmother'


Sabedoria Infantil 

 
Para falar a verdade,
esta cheia de meandros, meios, caminhos, pântanos, voltas e volteios,
a verdade, enfim, que conhecemos clara
como se vista através de um biombo disfarçando intimidades.

Para falar a verdade
nua, crua, transparente e limpa
nada mais próprio que um sonho de menina.


Carlos Vogt, in 'Metalurgia',
Companhia das Letras, 1991.



Victor Gabriel Gilbert, 'Time for Lunch'


Infância 

Um gosto de amora
comida com sol. A vida
chamava-se «Agora». 


Guilherme de Almeida,
in 'Os Melhores Poemas de Guilherme de Almeida',
São Paulo, 1993
 
 

"Os Melhores Poemas de Guilherme de Almeida"
Global Editora, 3ª Edição.
 

RESUMO 

Guilherme de Almeida
(Campinas, SP, 1890 – São Paulo, SP, 1969) viveu uma longa fase da história da poesia brasileira, que se estende do período crepuscular que antecedeu o modernismo ao surgimento e consolidação de movimentos como o concretismo ou a poesia praxis, chocantes à sua sensibilidade educada nos velhos clássicos. Foi mais de meio século de atividade, em que o poeta exibiu um raro virtuosismo e domínio da língua, compondo poemas de sabor camoniano (Camoniana, 1956), recriando a atmosfera de velhos romances populares portugueses (Pequeno Romanceiro, 1957), parodiando a poesia grega clássica (A Frauta que eu Perdi, 1924), cultivando o verso parnasiano, simbolista, modernista (Meu, Raça, Encantamento, todos de 1925), mas sem nunca abandonar a nota romântica, predominante ao longo de toda a sua vasta obra. 
Os seus primeiros livros, anteriores à Semana de Arte Moderna – de Nós (1917) a Era uma Vez... (1922) –, revelam uma poesia de meios-tons, em que o agudo sentimento da beleza se harmoniza com um certo artificialismo, muito ao gosto da sociedade de então. Tanto assim que os seus livros andavam nas mãos de todas as moças. A adesão ao modernismo evidencia um desejo de se ajustar ao gosto do tempo, mas não representa nenhuma mudança significativa em sua obra. Dispensa "a rima e a métrica, mas a alma romântica continua", observa Carlos Vogt no prefácio Melhores Poemas Guilherme de Almeida. O poeta se manteve fiel às suas tendências pessoais, o que lhe foi muito benéfico. Os seus livros desfrutavam de uma popularidade a que nenhum modernista chegava perto. Essa popularidade se manteve até a última fase de sua obra, caracterizada por uma linguagem mais enxuta, menos rica de emoção, mas na qual ainda se sente, um tanto enfraquecida, a voz do velho romântico. (daqui)
 

sábado, 5 de abril de 2025

"Infância" - Poema de Henriqueta Lisboa

 


Fanny Fleury
(French painter, 1846–1923), Sleeping Baby (Bébé dort), 1884.


Infância 


E volta sempre a infância
com suas íntimas, fundas amarguras.
Oh! por que não esquecer
as amarguras
e somente lembrar o que foi suave
ao nosso coração de seis anos?

A misteriosa infância
ficou naquele quarto em desordem,
nos soluços de nossa mãe
junto ao leito onde arqueja uma criança;

nos sobrecenhos de nosso pai
examinando o termómetro: a febre subiu;
e no beijo de despedida à irmãzinha
à hora mais fria da madrugada.

A infância melancólica
ficou naqueles longos dias iguais,
a olhar o rio no quintal horas inteiras,
a ouvir o gemido dos bambus verde-negros
em luta sempre contra as ventanias!

A infância inquieta
ficou no medo da noite
quando a lamparina vacilava mortiça
e ao derredor tudo crescia escuro, escuro...

A menininha ríspida
nunca disse a ninguém que tinha medo,
porém Deus sabe como seu coração batia no escuro,
Deus sabe como seu coração ficou para sempre diante da vida
— batendo, batendo assombrado! 


Henriqueta Lisboa, in "Prisioneira da noite", 1941.


Fanny Fleury, The Lesson (La Leçon), 1880.


"Não é saudade, porque eu tenho agora a minha infância mais do que enquanto ela decorria..."

Clarice Lispector
, 'Perto do Coração Selvagem', 1943. 

segunda-feira, 3 de março de 2025

"Versos à infância" - Poema de Cruz e Sousa


Harold Harvey (Cornish impressionist painter, 1874 - 1941), Cornish Children, 1920.

 
 
Versos à infância

I

Nos roseirais, ao vir da madrugada,
Desabrocham no val todas as rosas,
Nos galhos cheios de uma luz doirada,
Meigas e frescas, rubras, perfumosas,
Nos roseirais, ao vir da madrugada.

Como em bocas cheirosas e vermelhas
Pousam beijos de amor e de ventura,
O mel lhe sugam todas as abelhas
Pousando em cima da corola pura
Como em bocas cheirosas e vermelhas.

Desde os campos, o bosque, até aos montes
Tudo renasce num jardim de flores;
E pelo azul do céu, nos horizontes,
Há os mais vivos, raros esplendores,
Desde os campos, o bosque, até aos montes.

Pelos ninhos sonoros, delicados,
Cantam e trinam muitos passarinhos
Nos altos arvoredos enflorados,
A margem verdejante dos calminhos,
Pelos ninhos sonoros, delicados.

As borboletas brancas e amarelas,
Azuis, cor de ouro, cor de prata e brasa,
Leves, ligeiras, ténues e singelas,
Abrem a fine talagarça da asa,
As borboletas brancas e amarelas.

Tudo no val acorda de desejos
À musica dos cantos mais risonhos;
E as aves soltas, peregrinos beijos,
Dizem, cantando, que através de sonhos
Tudo no val acorda de desejos.

II

Na alma da infância, tal e qual roseiras,
Abrem festões de límpida fragrância
Os sonhos e as quimeras passageiras
Que são mais próprias do vergel da infância,
Na alma da infância, tal e qual roseiras.

O pequenino coração ditoso
Canta canções de uma ave pequenina;
E é um encanto ver assim radioso
No peito de uma cândida menina
O pequenino coração ditoso.

A existência de sol das criancinhas
Lembra um pomar de frutas bem serenas,
Por onde os colibris e as andorinhas
Gozam amores sacudindo as penas,
A existência de sol das criancinhas.

Não sei dizer se adore mais crianças
Ou mais também as flores de um arbusto;
Nessas tão puras, castas semelhanças
Eu, para ser bem carinhoso e justo,
Não sei dizer se adore mais crianças.


Cruz e Sousa
, in O Livro Derradeiro
 
 
  
Harold Harvey, Pioneer of Aerial Navigation, 1913.


"Não eduques as crianças nas várias disciplinas recorrendo à força, mas como se fosse um jogo, para que também possas observar melhor qual a disposição natural de cada um."

Platão, in "A República"
 
“Não eduques as crianças nas várias disciplinas recorrendo à força, mas como se fosse um jogo, para que também possas observar melhor qual a disposição natural de cada um.” — Platão De crianças, jogos

Fonte: https://citacoes.in/autores/platao/
“Não eduques as crianças nas várias disciplinas recorrendo à força, mas como se fosse um jogo, para que também possas observar melhor qual a disposição natural de cada um.” — Platão De crianças, jogos

Fonte: https://citacoes.in/autores/platao/

quinta-feira, 9 de março de 2023

"Poeta Aprendiz" - Poema de Vinicius de Moraes


Venny Soldan-Brofeldt (Finnish, 1863–1945), Boys on a Skerry, 1898 


Poeta Aprendiz 


Ele era um menino
Valente e caprino
Um pequeno infante
Sadio e grimpante.
Anos tinha dez
E asinhas nos pés
Com chumbo e bodoque
Era plic e ploc.
O olhar verde-gaio
Parecia um raio
Para tangerina
Pião ou menina.
Seu corpo moreno
Vivia correndo
Pulava no escuro
Não importa que muro
E caía exato
Como cai um gato.
No diabolô
Que bom jogador
Bilboquê então
Era plim e plão.
Saltava de anjo
Melhor que marmanjo
E dava o mergulho
Sem fazer barulho.
No fundo do mar
Sabia encontrar
Estrelas, ouriços
E até deixa-dissos.
Às vezes nadava
Um mundo de água
E não era menino
Por nada mofino
Sendo que uma vez
Embolou com três.
Sua coleção
De achados do chão
Abundava em conchas
Botões, coisas tronchas
Seixos, caramujos
Marulhantes, cujos
Colocava ao ouvido
Com ar entendido
Rolhas, espoletas
E malacachetas
Cacos coloridos
E bolas de vidro
E dez pelo menos
Camisas-de-vênus.
Em gude de bilha
Era maravilha
E em bola de meia
Jogando de meia –
Direita ou de ponta
Passava da conta
De tanto driblar.
Amava era amar.
Amava sua ama
Nos jogos de cama
Amava as criadas
Varrendo as escadas
Amava as gurias
Da rua, vadias
Amava suas primas
Levadas e opimas
Amava suas tias
De peles macias
Amava as artistas
Das cine-revistas
Amava a mulher
A mais não poder.
Por isso fazia
Seu grão de poesia
E achava bonita
A palavra escrita.
Por isso sofria.
Da melancolia
De sonhar o poeta
Que quem sabe um dia
Poderia ser. 

Montevidéu, 02/11/1958
 
Vinicius de Moraes (Daqui)
 

Venny Soldan-Brofeldt (Finnish, 1863–1945), Grandfather's Teachings, 1902
 

A infância é uma gaveta fechada, numa antiga cómoda de velhas magias

Rio de Janeiro, 2004 

 
A infância é uma gaveta fechada, numa antiga cómoda de velhas magias.
A regra pode-se enunciar assim: espera-se que a avó entre para descansar, depois vai-se pé ante pé ver se o avô está mesmo cochilando, na cadeira de balanço...
- ou estará MORTO?
…não, não está porque a cabeça des-ca-ca-c...aiu num cochilo e se levantou de novo sozinho, assustado, dormindo e saiu uma língua da boca que lambeu o bigode branco e a cabeça foi, foi e des-ca-ca-ca-ca-caiu...
O corredor é a corrida geométrica natural para a fuga de uma gargalhada que não se contém. O avô é o mais engraçado dos homens, o avô é tão, tão, tão, tão, tão...
O medo se abate sobre o Descobridor. É a doçura do nome de Margarida, cujo retrato à meia-luz não entreviu.  
 
 

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

"Menina mal-amada" - Poema de Cora Coralina


Antonio Rotta (Italian painter, 18281903), The death of the chick, 1878,
 

Menina mal-amada


Fui levada à escola mal completados cinco anos.
Eu era medrosa e nervosa. Chorona, feia, de nenhum agrado,
menina abobada, rejeitada.
Ao nascer frustrei as esperanças de minha mãe.
Ela tinha já duas filhas, do primeiro e do segundo casamento
 com meu Pai.
Decorreu sua gestação com a doença irreversível de meu Pai,
desenganado pelos médicos.
Era justo seu desejo de um filho homem
e essa contradição da minha presença se fez sentir agravada 
com minha figura molenga, fontinelas abertas em todo crânio.
Retrato vivo do velho doente, diziam todos.
Me achei sozinha na vida. Desamada, indesejada desde sempre.
Venci vagarosamente o desamor, a decepção de minha mãe.
Valeu e muito minha madrinha de carregar – Mãe Didi.
Minha vida ao me arrastar pelo chão depois de vários trambolhões
na escada, galo na testa, gritaria e algumas palmadas, da bica d’água
passava para a cozinha em volta da Lizarda, criada da casa, como se dizia.
Cozinheira, dona dos torresmos que ela me dava e que me causavam
constantes diarreias e vómitos. Enquanto ia crescendo, lá pelo terreiro,
suja, desnuda, sem carinho e descuidada, sempre aos trambolhões
com minhas pernas moles.
Ganhei até mesmo um apelido entre outros, perna mole, pandorga,
chorona, manhosa.
Na cozinha Siá Lizarda explorava meus préstimos.
Me punha a escolher marinheiros do arroz, esse era beneficiado
nos monjolos das fazendas e traziam, além da marinhagem,
pedrinhas trituradas que davam trabalho lento de separar.
Também o feijão, embora mais fácil.
Eram meus préstimos em promessas de torresmos com farinha.

Mãe, lá em cima, não tomava conhecimento desses detalhes.
Sempre sozinha, crescendo devagar, menina inzoneira, buliçosa, malina.
Escola difícil. Dificuldade de aprender.
Fui vencendo. Afinal menina moça, depois adolescente.
Meus pruridos literários, os primeiros escritinhos, sempre rejeitada.
Não, ela não. Menina atrasada da escola da mestra Silvina…
Alguém escreve para ela… Luís do Couto, o primo.
Assim fui negada, pedrinha rejeitada, até a saída de Luís do Couto
para São José do Duro, muito longe, divisa com a Bahia.
Ele nomeado, Juiz de Direito.
Vamos ver, agora, como faz a Coralina…
Nesse tempo, já não era inzoneira. Recebi denominação maior,
alto lá! Francesa.
Passei a ser détraqué, devo dizer, isto na família.
A família limitava. Jamais um pequeno estímulo.
Somente minha bisavó e tia Nhorita.
Vou contando.

Minha mãe, muito viúva, isolava‑se
no seu mundo de frustrações,
ligada maternalmente à caçula do seu terceiro casamento.
Eu, perna mole, pandorga, moleirona, vencendo sozinha as etapas
destes primeiros tempos. Afinal, paramos no détraqué.

Tudo isso aumentava minha solidão e eu me fechava, circunscrita
no meu mundo do faz de conta…
E vamos trabalhar no pesado. Não ganhar pecha de moça romântica,
que em Goiás não achava casamento.
Tinha medo de ficar moça velha sem casar.
Me apegava demais com Santo Antônio, Santa Anna, padroeira de Goiás.
Minha madrinha para as dificuldades da vida.

Muito me valeu a escola.
Um dia, certo dia, a mestra se impacientou.
Gaguejava a lição, truncava tudo. Não dava mesmo.
A mestra se alterou de todo, perdeu a paciência,
e mandou enérgica: estende a mão.
Ela se fez gigante no meu medo maior, sem tamanho.
Mandou de novo: estende a mão.
Eu de medo encolhia o braço.

Estende a mão! Mão de Aninha, tão pequena!
A meninada, pensando nalguns avulsos para eles,
nem respirava, intimidada.
Tensa, expectante, repassada.
Era sempre assim na hora dos bolos em mãos alheias.
Aninha, estende a mão. Mão de Aninha, tão pequena.
A palmatória cresceu no meu medo, seu rodelo se fez maior,
o cabo se fez cabo de machado, a mestra se fez gigante
e o bolo estralou na pequena mão obediente.
Meu berro! e a mijada incontinente, irreprimida.
Só? Não. O coro do banco dos meninos, a vaia impiedosa.
– Mijou de medo… Mijou de medo… Mijou de medo…
A mestra bateu a régua na mesa, enfiou a palmatória na gaveta,
e, receosa de piores consequências, me mandou pra casa, toda mijada,
sofrida, humilhada, soluçando, a mão em fogo.

Em casa ganhei umas admoestações sensatas.
A metade compadecida de uma bolacha das reservas de minha bisavó,
e me valeu a biquinha d’água, o alívio à minha mão escaldada.
Ao meu soluçar respondia a casa: “é pra o seu bem, pra ocê aprender,
senão não aprende, fica burra, só servindo pro pilão”
.
Sei que todo castigo que me davam era para meu bem.
Eu não sabia que bem seria este representado por bolos na mão,
chineladas e reprimendas, sentada de castigo com a carta de ABC na mão.
O bem que eu entendia era a bolacha que me dava minha bisavó
e os biscoitos e brevidade da tia Nhorita.
Estes, entravam no meu entendimento. Do resto não tinha nenhuma noção.

Fui menina chorona, enjoada, moleirona.
Depois, inzoneira, malina.
Depois, exibida. Détraqué.
Até em francês eu fui marcada.
Sim, que aquela gente do passado,
tinha sempre à mão o seu francês.
Se souberes viver, no fim te sentirás feliz.
Envelhecer é entrar no reino da grande Paz.
Serenidade maior.
Olhar para frente e para trás,
e dizer: dever cumprido.

O que mais se pode na vida desejar?…
Sentada na margem do caminho percorrido,
ver os que passam, ansiosos, correndo, tropeçando.
E dizer baixinho:
corri tanto quanto você.
E você se quedará, um dia, como eu.
A certeza de ter vivido e vencido
a maratona da vida.

No Passado
 
Tanta coisa me faltou.
Tanta coisa desejei sem alcançar.
Hoje, nada me falta,
me faltando sempre o que não tive.

Eu era uma pobre menina mal‑amada.
Frustrei as esperanças de minha mãe, desde o meu nascimento.
Ela esperava e desejava um filho homem, vendo meu pai doente
irreversível.
Em vez, nasceu aquela que se chamaria Aninha.
Duas criaturas idosas me deram seus carinhos:
minha bisavó e minha tia Nhorita.
Minha bisavó me acudia quando das chineladas cruéis da minha mãe.
No mais, eu devia ser, hoje reconheço, menina enjoada, enfadando
as jovens da casa e elas se vingavam da minha presença aborrecida,
me pirraçando, explorando meu atraso mental, me fazendo chorar
e levar queixas doloridas para a mãe
que perdida no seu mundo de leitura e negócios não dava atenção.
Quem punia por Aninha era mesmo minha bisavó.
Me ensinava as coisas, corrigia paciente meus malfeitos de criança
e exortava minhas irmãs a me aceitarem.
Daí minha fuga para o enorme quintal onde meus sentidos foram se aguçando
para as pequenas ocorrências de que não participavam minhas irmãs.
Minhas impressões foram se acumulando lentamente
e eu passei a viver uma vida estranha de mentiras e realidades.
E fui marcada: menina inzoneira.
Sem saber o significado da palavra, acostumada ao tratamento ridicularizante,
esta palavra me doía.
Certo foi que eu engenhava coisas, inventava convivência
com cigarras,
descia na casa das formigas, brincava de roda com elas,
cantava “Senhora D. Sancha”, trocava anelzinho.
Eu contava essas coisas lá dentro, ninguém compreendia.
Chamavam, mãe: vem ver Aninha…
Mãe vinha, ralhava forte.
Não queria que eu fosse para o quintal, passava a chave no portão.
Tinha medo, fosse um ramo de loucura, sendo eu filha de velho doente.
Era nesse tempo, amarela de olhos empapuçados, lábios descorados.
Tinha boqueira, uma esfoliação entre os dedos das mãos, diziam: “Cieiro”.

Minhas irmãs tinham medo que pegasse nelas.
Não me deixavam participar de seus brinquedos.
Aparecia na casa menina de fora, minha irmã mais velha passava o braço no ombro e 
[segredava: 
“Não brinca com Aninha não. Ela tem cieiro
e pega na gente”
.
Eu ia atrás, batida, enxotada.
Infância… Daí meu repúdio invencível à palavra saudade, infância…
Infância… Hoje, será.


Cora Coralina (18891985),
in "Vintém de cobre: meias confissões de Aninha" 
(Editora Global, 1ª edição em 1983)


"Vintém de Cobre - Meias confissões de Aninha" de Cora Coralina
Editora Global (10ª Edição)
 
 
[No tempo do mil-réis, o vintém de cobre era a moeda mais desvaliosa, aquela que mal comprava um doce. Por modéstia e também um pouco por malícia (talvez muita malícia), Cora Coralina batizou com o nome da velha moeda as suas quase memórias, ou meias-confissões, como ela prefere, redigidas em versos. É um livro tumultuado, aberrante, da rotina de se fazer e ordenar um livro. Tumultuado, como foi a vida daquela que o escreveu. Vida tumultuada, cheia de esbarrões do destino que, em vez de provocar desânimo, despertaram no espírito de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Brêtas (nome verdadeiro de Cora Coralina) uma fibra de guerreira e uma sabedoria simples, por vezes meio marota, feita de respeito e piedade pelo ser humano, sobretudo pelos que sofrem, mas também com um fundo de ironia mansa e de malícia sem maldade, um humor típico da gente do interior, um sarcasmo angelical (se é que há sarcasmo entre os anjos), mistura de humildade franciscana e revolta diante das estúpidas repressões da sociedade e da dureza dos costumes antigos, sob os quais se criou, foi educada e que lhe deixou marcas tão profundas na alma: Na casa antiga, castigos corporais e humilhantes, coerção,/ atitudes impostas, ascendência férrea, obediência cega./ Filhos foram impiedosamente sacrificados e despojados./ E para alguma rebeldia indomável, lá vinha a ameaça terrível, impressionante/ da maldição da mãe, a que poucos resistiam./ Do resto prefiro não esmiuçar. 
Os poemas de Vintém de Cobre são todos escritos neste tom simples e comunicativo, num lirismo quase de toada sertaneja, ricos de experiência humana. Talvez por pudor, ou autodefesa, nunca revelam toda a dureza dos factos. Ficam nas meias-confissões. E por malícia são chamados de vintém de cobre quando, na realidade, constituem a mais pura e autêntica moeda de ouro.] (daqui)

terça-feira, 13 de agosto de 2019

"Lição" - Poema de Helena Kolody



Georgios Jakobides (Greek painter and medallist, 1853–1932),
The First Steps, 1893


Lição


A luz da lamparina dançava
frente ao ícone da Santíssima Trindade.

Paciente, a avó ensinava
a prostrar-se em reverência,
persignar-se com três dedos
e rezar em língua eslava.

De mãos postas, a menina
fielmente repetia
palavras que ela ignorava,
mas Deus entendia.


Helena Kolody, 'Poesias escolhidas'


Georgios Jakobides, The First Steps, 1889


“O indivíduo que não sabe respeitar a mínimas regras de disciplina doméstica não poderá experimentar a suprema felicidade de ser senhor de suas emoções.”

(Emídio Brasileiro)


Georgios Jakobides, The Combing of Granddaughter, 1886


“É natural que o ser humano e todos os seres da natureza busquem o bem-estar pleno, atendendo a ordem de equilíbrio das forças ou leis naturais da evolução. Os bem-estares físicos, mentais e espirituais são metas a serem conquistadas. E essas metas são geralmente denominadas de felicidade.”

(Emídio Brasileiro)


Georgios Jakobides, Cold Shower, 1898


“Um lar estruturado pela concórdia do amor é a melhor universidade que existe.”

(Emídio Brasileiro)

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

"As Musas Inquietantes" - Poema de Sylvia Plath



Garmash, 'The Music Lesson'


As Musas Inquietantes


Mãe, mãe, que tia maldosa
Ou desfigurada e hedionda
Prima insensatamente tu não
Convidaste para o meu baptizado
E em seu lugar mandou estas damas
De cabeça a lembrar ovos de passajar,
Acenar à cabeça e aos pés da cama
E ao lado esquerdo da minha alcofinha?

Mãe, tu que a nosso pedido inventavas histórias
Do Mixie Blackshort, o ursinho valente,
Mãe, onde as bruxas acabavam sempre
No forno em biscoitos, já não sei agora
Se as vias ou se tu proferias
Palavras para me livrares daquelas três damas
A acenar à noite junto à minha cama,
Sem bocas nem olhos, cabeças peladas todas cosipadas.

No furacão, quando as doze janelas
Do estúdio do pai inflaram para dentro
Como bolhas quase a rebentar, tu deste
A mim e ao mano Ovaltine e biscoitos
E ajudaste-nos a cantarolar:
"Thor está zangado; bum bum bum!
Thor está zangado, mas não vamos ligar!"
Mas aquelas damas partiram os vidros.

Quando as meninas bailavam em pontas
Agitando luzinhas como vaga-lumes
Cantando a cantiga do pirilampo, eu,
Escondida a um canto, não erguia os pés,
Pregados ao chão, de tutu a brilhar
Na sombra lançada pelas cabeças lúgubres
Das minhas madrinhas, e tu a chorar:
E a sombra alongou-se e a luz apagou-se.

Mãe, mandaste-me ter lições de piano
E elogiavas os meus arabescos
Mas os professores achavam-me os dedos
Hirtos como paus apesar das escalas
E das horas passadas a praticar,
E o ouvido embotado, um caso desesperado,
E eu aprendi, oh sim, aprendi, mas noutro lugar,
Com as musas, mãe querida, que não contrataste.

Um dia acordei e ali estavas, mãe,
A pairar no ar do mais puro azul
Num verde balão a luzir com um milhão
De flores e pássaros que nunca existiram
Nunca, nunca, nunca, em nenhum lugar.
Mas o planeta desfez-se no ar,
Bola de sabão, quando tu disseste: Vem cá!
E as companheiras de viagem então enfrentei.

E agora, dia e noite, à cabeceira, ao lado e aos pés,
Montam-me vigília com vestes de pedra,
Os rostos vazios de quando eu nasci.
Sombras alongadas no sol poente
Que nunca se apaga nem nunca se acende.
E é este o reino a que me trouxeste,
Mãe, mãe. Mas em meu semblante nada
Trairá as que me acompanham.


Sylvia Plath

Tradução de Ana Maria Chaves



Garmash, 'Dreaming with Teddy'


"Poesia é a transfiguração da realidade em beleza, pela magia das palavras."

(Helena Kolody)

segunda-feira, 3 de junho de 2019

"Infância" - Poema de Helena Kolody



Simon Glücklich (Polish-born German painter, 1863 - 1943), "Blind men’s buff" 
(Children dancing in a round), 
Date unknown. 



Infância


Aquelas tardes de Três Barras,
Plenas de sol e de cigarras!

Quando eu ficava horas perdidas
Olhando a faina das formigas
Que iam e vinham pelos carreiros,
No áspero tronco dos pessegueiros.

A chuva-de-ouro
Era um tesouro,
Quando floria.
De áureas abelhas
Toda zumbia.
Alfombra flava
O chão cobria...

O cão travesso, de nome eslavo,
Era um amigo, quase um escravo.

Merenda agreste:
Leite crioulo,
Pão feito em casa,
Com mel dourado,
Cheirando a favo.

Ao lusco-fusco, quanta alegria!
A meninada toda acorria
Para cantar, no imenso terreiro:
“Mais bom dia, Vossa Senhoria”...
“Bom barqueiro! Bom barqueiro...”
Soava a canção pelo povoado inteiro
E a própria lua cirandava e ria.

Se a tarde de domingo era tranquila,
Saía-se a flanar, em pleno sol,
No campo, recendente a camomila.
Alegria de correr até cair,
Rolar na relva como potro novo
E quase sufocar, de tanto rir!

No riacho claro, às segundas-feiras,
Batiam roupas as lavadeiras.
Também a gente lavava trapos
Nas pedras lisas, nas corredeiras;
Catava limo, topava sapos
(Ai, ai, que susto! Virgem Maria!)

Do tempo, só se sabia
Que no ano sempre existia
O bom tempo das laranjas
E o doce tempo dos figos...

Longínqua infância... Três Barras
Plena de sol e cigarras! 

in A Sombra no Rio, 1951



Simon Glücklich, "Children in the Evening#
 

Arco-íris

Arco-íris no céu.
Está sorrindo o menino
Que há pouco chorou.


Helena Kolody
(Haicai)


quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

"Poça de água" - Poema de Wisława Szymborska

                                                                                                     
Charles Courtney Curran (American impressionist painter, 1861–1942),
 Children Fishing, 1897, Private collection

Poça de água



Recordo bem este medo da infância.
Evitava as poças, sobretudo as novas, após a chuva.
Afinal, uma delas poderia não ter fundo,
ainda que parecesse igual às outras.

Ponho o pé e, de súbito, afundar-me-ei,
voando para baixo,
cada vez mais baixo,
rumo às nuvens refletidas
ou talvez mais além.

Depois a poça secar-se-á,
fechar-se-á por cima de mim,
e eu para sempre trancada — onde —
ficarei com um grito não repercutido à superfície.

Só mais tarde compreendi que
nem todas as más aventuras
cabem nas regras do mundo
e mesmo que o quisessem,
não poderiam acontecer.


Wislawa Szymborska



Charles Courtney Curran, Children by the Seashore, 1896,
 Private collection


"Todos os jardins da nossa infância são o jardim do paraíso. A pele suave desses tempos em que se corria com as pernas arqueadas soltando uma espécie de luz pela respiração. Ríamos a correr para os braços dos adultos numa entrega absoluta. Eles, os adultos, atiravam-nos ao ar e apanhavam-nos com mãos ásperas, e, talvez por isso, quando crescemos nunca mais deixamos de, esporadicamente, sonhar que voamos. E de sonhar com gigantes e anões, pois eram essas as nossas proporções."


Afonso Cruz,  O Pintor Debaixo do Lava-Loiças


Charles Courtney CurranChildren at the Shore, Date unknown


Tão pequena
E desbotada de chuva
A casa da infância!...


Paulo FranchettiHaicais


sábado, 13 de maio de 2017

"O caçador de borboletas" - Poema de Álvaro Magalhães


 
Jim Daly (American painter, born 1940), 'Daydreaming' 


O caçador de borboletas


Sorridente, ao nascer do dia,
ele sai de casa com a sua rede.
Vai caçar borboletas, mas fica preso
à frescura do rio que lhe mata a sede
ou ao encanto das flores do prado.
Vê tanta beleza à sua volta
que esquece a rede em qualquer lado
e antes de caçar já foi caçado. 

À noite, regressa a casa cansado
e estranhamente feliz
porque a sua caixa está vazia,
mas diz sempre, suspirando:
Que grande caçada e que belo dia!

Antes de entrar, limpa as botas
num tapete de compridos pelos
e sacode, distraído,
as muitas borboletas de mil cores
que lhe pousaram nos ombros, nos cabelos.


Álvaro Magalhães,
in 'O reino perdido', 2000



Jim Daly (American painter, born 1940), 'Unexpected Company'


"A casa da infância é como um rosto de mãe: contemplamo-lo como se já existisse antes de haver o Tempo."

Mia Couto'O outro pé da sereia' 

terça-feira, 14 de junho de 2016

"Minha infância" - Poema de Cora Coralina





Minha infância

(Freudiana)


Éramos quatro as filhas de minha mãe.
Entre elas ocupei sempre o pior lugar.
Duas me precederam – eram lindas, mimadas.
Devia ser a última, no entanto,
veio outra que ficou sendo a caçula.

Quando nasci, meu velho Pai agonizava,
logo após morria.
Cresci filha sem pai,
secundária na turma das irmãs.

Eu era triste, nervosa e feia.
Amarela, de rosto empalamado.
De pernas moles, caindo à toa.
Os que assim me viam – diziam:
“- Essa menina é o retrato vivo
do velho pai doente”.

Tinha medo das estórias
que ouvia, então, contar:
assombração, lobisomem, mula sem cabeça.
Almas penadas do outro mundo e do capeta.
Tinha as pernas moles
e os joelhos sempre machucados,
feridos, esfolados.
De tanto que caía.
Caía à toa.

Caía nos degraus.
Caía no lajedo do terreiro.
Chorava, importunava.
De dentro a casa comandava:
“- Levanta, moleirona”.

Minhas pernas moles desajudavam.
Gritava, gemia.
De dentro a casa respondia:
“- Levanta, pandorga”.

Caía à toa…
nos degraus da escada,
no lajeado do terreiro.
Chorava. Chamava. Reclamava.
De dentro a casa se impacientava:
” – Levanta, perna-mole…”

E a moleirona, pandorga, perna-mole
se levantava com seu próprio esforço.

Meus brinquedos…
Coquilhos de palmeira.
Bonecas de pano.
Caquinhos de louça.
Cavalinhos de forquilha.
Viagens infindáveis…
Meu mundo imaginário
mesclado à realidade.

E a casa me cortava: “menina inzoneira!”
Companhia indesejável – sempre pronta
a sair com minhas irmãs,
era de ver as arrelias
e as tramas que faziam
para saírem juntas
e me deixarem sozinha,
sempre em casa.

A rua… a rua!…
(Atração lúdica, anseio vivo da criança,
mundo sugestivo de maravilhosas descobertas)
- proibida às meninas do meu tempo.
Rígidos preconceitos familiares,
normas abusivas de educação
- emparedavam.

A rua. A ponte. Gente que passava,
o rio mesmo, correndo debaixo da janela,
eu via por um vidro quebrado, da vidraça
empanada.

Na quietude sepulcral da casa,
era proibida, incomodava, a fala alta,
a risada franca, o grito espontâneo,
a turbulência ativa das crianças.

Contenção… motivação…Comportamento estreito,
limitando, estreitando exuberâncias,
pisando sensibilidades.
A gesta dentro de mim…
Um mundo heroico, sublimado,
superposto, insuspeitado,
misturado à realidade.

E a casa alheada, sem pressentir a gestação,
acrimoniosa repisava:
” – Menina inzoneira!”
O sinapismo do ablativo
queimava.

Intimidada, diminuída. Incompreendida.
Atitudes impostas, falsas, contrafeitas.
Repreensões ferinas, humilhantes.
E o medo de falar…
E a certeza de estar sempre errando…
Aprender a ficar calada.
Menina abobada, ouvindo sem responder.

Daí, no fim da minha vida,
esta cinza que me cobre…
Este desejo obscuro, amargo, anárquico
de me esconder,
mudar o ser, não ser,
sumir, desaparecer,
e reaparecer
numa anônima criatura
sem compromisso de classe, de família.

Eu era triste, nervosa e feia.
Chorona.
Amarela de rosto empalamado,
de pernas moles, caindo à toa.
Um velho tio que assim me via
dizia:
“- Esta filha de minha sobrinha é idiota.
Melhor fora não ter nascido!”

Melhor fora não ter nascido…
Feia, medrosa e triste.
Criada à moda antiga,
- ralhos e castigos.
Espezinhada, domada.
Que trabalho imenso dei à casa
para me torcer, retorcer,
medir e desmedir.
E me fazer tão outra,
diferente,
do que eu deveria ser.
Triste, nervosa e feia.
Amarela de rosto empapuçado.
De pernas moles, caindo à toa.
Retrato vivo de um velho doente.
Indesejável entre as irmãs.

Sem carinho de Mãe.
Sem proteção de Pai…
- melhor fora não ter nascido.

E nunca realizei nada na vida.
Sempre a inferioridade me tolheu.
E foi assim, sem luta, que me acomodei
na mediocridade de meu destino.


Cora Coralina, Melhores Poemas
Seleção de Darcy França Denófrio
 
[O livro Melhores poemas - Cora Coralina, organizado por Darcy França Denófrio, mestre em Teoria Literária, reúne um repertório significativo de poemas da autora. Sobre o livro, Darcy comenta: Esta antologia segue um critério cronológico e temático, predominando, excecionalmente, o segundo sobre o primeiro. Mas, acima de tudo, um critério estético. Sem citar o nome das obras, os poemas aparecem, em cada bloco, com raras exceções, na ordem de publicação dos livros. São sete agrupamentos denominados: “Nos reinos de Goiás”, “Canto de Aninha”, “Criança no meu tempo”, “Paraíso perdido”, “Entre pedras e flores”, “Canto solidário” e “Celebrações”. (Global Editora)]
 

terça-feira, 10 de maio de 2016

"A Infância" - Poema de Olavo Bilac


Mary Cassatt, The Boating Party, 1893–94, National Gallery of Art, Washington.



A Infância


O berço em que, adormecido,
Repousa um recém-nascido,
Sob o cortinado e o véu,
Parece que representa,
Para a mamãe que o acalenta,
Um pedacinho do céu.

Que júbilo, quando, um dia,
A criança principia,
Aos tombos, a engatinhar...
Quando, agarrada às cadeiras,
Agita-se horas inteiras
Não sabendo caminhar!

Depois, a andar já começa,
E pelos móveis tropeça,
Quer correr, vacila, cai...
Depois, a boca entreabrindo,
Vai pouco a pouco sorrindo,
Dizendo: mamãe... papai...

Vai crescendo. Forte e bela,
Corre a casa, tagarela,
Tudo escuta, tudo vê...
Fica esperta e inteligente...
E dão-lhe, então, de presente
Uma carta de A.B.C...


 

Mary Cassatt, The Child's Bath (The Bath), 1893, oil on canvas.


"Sem roupa, teu corpo está nu. Sem filhos, tua vida está despida."



sexta-feira, 22 de abril de 2016

"Infância" - Poema de Rainer Maria Rilke



Albert Anker (Swiss painter and illustrator, 1831–1910),
'Schulmädchen bei den Hausaufgaben', 1879


Infância


Passa lento o tempo da escola e a sua angústia 
com esperas, com infinitas e monótonas matérias. 
Oh solidão, oh perda de tempo tão pesada... 
E então, à saída, as ruas cintilam e ressoam 
e nas praças as fontes jorram, 
e nos jardins é tão vasto o mundo —. 
E atravessar tudo isto em calções, 
diferente de como os outros vão e foram —: 
Oh tempo estranho, oh perda de tempo, 
oh solidão. 

E olhar tudo isto à distância: 
homens e mulheres; homens, homens, mulheres 
e crianças, tão diferentes e coloridas —; 
e então uma casa, e de vez em quando um cão 
e o medo surdo trocando-se pela confiança: 
Oh tristeza sem sentido, oh sonho, oh medo, 
Oh infindável abismo. 

E então jogar: à bola e ao arco, 
num jardim que manso se desvanece 
e por vezes tropeçar nos crescidos, 
cego e embrutecido na pressa de correr e agarrar, 
mas ao entardecer, com pequenos passos tímidos, 
voltar silencioso a casa, a mão agarrada com força —: 
Oh compreensão cada vez mais fugaz, 
Oh angústia, oh fardo! 

E longas horas, junto ao grande tanque cinzento, 
ajoelhar-se com um barquinho à vela; 
esquecê-lo, porque com iguais 
e mais lindas velas outros ainda percorrem os círculos, 
e ter de pensar no pequeno rosto 
pálido que no tanque parecia afogar-se — : 
oh infância, oh fugazes semelhanças. 
Para onde? Para onde? 


Rainer Maria Rilke, in "O Livro das Imagens" 
Tradução de Maria João Costa Pereira 



Albert Anker, 'Schreibender Knabe', 1883


"A casa da infância é como um rosto de mãe:
contemplamo-lo como se já existisse antes de haver o Tempo."

Mia Couto, in 'O Outro Pé da Sereia'