
Léon Bonnat (French painter, 1833–1922), Roman Girl at a Fountain, 1875.
Metropolitan Museum of Art
Infância
I
Terra
sem uma gota
de céu.
II
Tão pequenas
a infância, a terra.
Com tão pouco
mistério.
Chamo às estrelas
rosas.
E a terra, a infância,
crescem
no seu jardim
aéreo.
III
Transmutação
do sol em oiro.
Cai em gotas,
das folhas,
a manhã deslumbrada.
IV
Chamo
a cada ramo
de árvore
uma asa.
E as árvores voam.
Mas tornam-se mais fundas
as raízes da casa,
mais densa
a terra sobre a infância.
É o outro lado
da magia.
V
E a nuvem
no céu há tantas horas,
água suspensa
porque eu quis,
desmorona-se e cai.
Caem com ela
as árvores voadoras.
VI
Céu
sem uma gota
de terra.
Carlos de Oliveira, in "Turismo",
Coimbra Editora, 1942.
Léon Bonnat, A little accident, unknown date.
Filtro
O poema
filtra
cada imagem
já destilada
pela distância,
deixa-a
mais límpida
embora
inadequada
às coisas
que tenta
captar
no passado
indiferente.
Carlos de Oliveira, in "Micropaisagem",
Dom Quixote, 1968.

Sem comentários:
Enviar um comentário