domingo, 11 de janeiro de 2026

"Infância" e "Filtro" - Poemas de Carlos de Oliveira




Infância

I

Terra
sem uma gota
de céu.

II

Tão pequenas
a infância, a terra.
Com tão pouco
mistério.

Chamo às estrelas
rosas.

E a terra, a infância,
crescem
no seu jardim
aéreo.

III

Transmutação
do sol em oiro.

Cai em gotas,
das folhas,
a manhã deslumbrada.

IV

Chamo
a cada ramo
de árvore
uma asa.

E as árvores voam.

Mas tornam-se mais fundas
as raízes da casa,
mais densa
a terra sobre a infância.

É o outro lado
da magia.

V

E a nuvem
no céu há tantas horas,
água suspensa
porque eu quis,
desmorona-se e cai.

Caem com ela
as árvores voadoras.

VI

Céu
sem uma gota
de terra. 


Carlos de Oliveira
, in "Turismo",
Coimbra Editora, 1942.
 
 
Léon Bonnat, A little accident, unknown date.
 

Filtro 


O poema
filtra
cada imagem
já destilada
pela distância,
deixa-a
mais límpida
embora
inadequada
às coisas
que tenta
captar
no passado
indiferente. 


Carlos de Oliveira
, in "Micropaisagem",
Dom Quixote, 1968.


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