sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

"Delfos, Opus 12" - Poema de Pedro Tamen



John Collier (English painter and writer, 1850–1934), Priestess of Delphi, 1891,
Art Gallery of South Australia.

[In the painting, "Priestess of Delphi" by The Honorable John Collier, a priestess – the Pythia – is depicted in a trance state, seated over a fissure in the rock through which vapors rise from the underground stream. In her left hand is a sprig of laurel – in Greek mythology, Apollo’s sacred tree – and in the other hand a bowl meant to hold some of the water from the stream containing the gases.
The Pythia was the name of the high priestess of the Temple of Apollo at Delphi who also served as the oracle, also known as the Oracle of Delphi].


"Delfos, Opus 12"
 
 Poema
11 


«Penetra de alma pura no templo do deus puro.
Mergulha os membros nas águas de Castália.
Ó peregrino, só uma gota basta ao homem de boa mente.
E a água do oceano não apaga
a mancha do malvado.»
O que é pureza e é saúde,
o que em tudo respira equilibrado,
ele que detesta a sujidade
limpa a limpeza do coração já limpo.
E as Erínias enfim serão vencidas.


Pedro Tamen
, in "Delfos, Opus 12", 1987;
in "Tábua das Matérias: poesia 1956/1991",

 
 
"Tábua das Matérias" de Pedro Tamen
Sintra: Tertúlia, 1991,
1.ª ed.
 
"Tábua das Matérias" da autoria de Pedro Tamen, inclui Poema para Todos os Dias, 1956; O Sangue, a Água, o Vinho, 1958; Primeiro Livro de Lapinova, 1960; Poemas a Isto, 1962; Daniel na Cova dos Leões, 1970; Escrito de Memória, 1973; Os Quarenta e Dois Sonetos, 1973; Agora, Estar, 1975; O Aparelho Circulatório, 1978; Horácio e Coriáceo, 1981; Dentro de Momentos, 1984; Delfos, Opus 12, 1987; Inéditos e Esparsos, 1965-1991. 
As duas primeiras coletâneas coligidas têm como fio condutor um tom celebratório subtilmente tecido com símbolos eucarísticos, em composições integradas, segundo Fernando J. B. Martinho (cf. MARTINHO, Fernando J. B. - Tendências Dominantes da Poesia Portuguesa da Década de 50, Lisboa, 1996, pp. 411-416), numa unidade fundada numa estrutura compositiva triádica. 
Os volumes iniciais anunciam ainda alguns dos traços que distinguem a poética de Pedro Tamen, nomeadamente o obscurecimento da escrita pela aproximação a um certo nonsense, de cunho quase lúdico, obtido pela rutura com a estrutura logicista da frase e que o coloca na senda das aquisições surrealistas, e acresce a recriação de uma fala endereçada a um tu, destinatário da ilocução religiosa, nas primeiras obras, ou amorosa, em obras como o Primeiro Livro de Lapinova
Deste modo, na escrita de Pedro Tamen a vivacidade verbal é "fruto de um dinamismo sintático e vocabular que transgride constantemente a linearidade do discurso. [...] o poema é um organismo vivo, extremamente intenso, em que algo se passa que não podemos determinar bem mas que, na sua imediatidade, constitui uma fulguração que nos abre perspetivas na imensidade cósmica e humana." (cf. "A poesia incoativa de Pedro Tamen", in ROSA, António Ramos, A Parede Azul, Estudos sobre Poesia e Artes Plásticas, Lisboa, 1991, pp. 101-102). (daqui)
 

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