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quarta-feira, 24 de maio de 2023

"Lisboa" - Poema de António Botto


João Marques de Oliveira (Professor e pintor realista português, introdutor do naturalismo em Portugal
1853-1927), Torre de Belém, s.d., Coleção particular


 
Lisboa
 

Lisboa, berço da força
Cais das grandes aventuras
Onde embarcaram aqueles
Em madrugadas escuras
E em barcos de uma só verga
Navegando sem receio
De que o mar na sua fúria
Partisse de meio a meio
A frágil embarcação,
Lisboa das Descobertas
Pátria de espada em mão!
Lisboa rica de timbres
Mas em que um é sempre belo:
- O Sol doirando as ameias
Do seu glorioso Castelo!
Ó Lisboa das fragatas
E das manhãs outonais,
Dos marinheiros valentes
Beijando estas e aquelas
À noite pelos portais.

Lisboa desmazelada
Sem garbo, sem atitude,
E sem compostura séria;
Lisboa da fadistice
- Senhora Dona e galdéria!
Lisboa das zaragatas
Por qualquer coisa e por nada;
Lisboa dos decilitros
De tasca em tasca, vadia,
Complicante e à bofetada;
Lisboa da tradição
- Sorriso de nostalgia!
Quartel do alto heroísmo,
Lisboa chorosa e forte,
Saudosa, infeliz, cantando
Na plangência de um harmónio
Cantigas que ouviu à morte!
Lisboa dos pátios sujos
Onde se ralha e se dança
Até romper a alvorada!
Descalça, de mãos na ilharga,
Impetuosa, vibrante,
Lisboa da garotada
Jogando a bola nas ruas.
Lisboa das horas mortas
Com namoros à janela.

Lisboa dos chafarizes
Onde a água é um cantar
De nautas e mareantes;
Lisboa das guitarradas
No lirismo dos amantes!
Lisboa das melancias
Descarregadas ao Sol
E aos berros no Cais da Areia.
Lisboa das noites lindas
E onde é oiro a lua cheia!
Ó Lisboa dos mendigos
E dos velhos sem asilo;
Lisboa do céu azul
E onde o Tejo é mais tranquilo.
Lisboa de bairros tristes,
Humilde, religiosa
Sem fundos de convicção,
Lisboa do meu amor,
Essa maldita paixão!
 
 
António Botto, in "Ódio e Amor",
Lisboa, Edições Ática, 1947
 

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

"Se eu fosse alguém ou mandasse" - Poema de António Botto



Antonio Ermolao Paolett (Italian painter, 1834-1912), The bluff, 1912
 


Se eu fosse alguém ou mandasse


Se eu fosse alguém ou mandasse
Neste mundo de vileza,
Só pensava numa coisa
– Acabar com a pobreza.
Dar à vida outra feição
Mais igual, mais repartida,
Seria o meu grande sonho,
A minha grande alegria,
E a cada boca num beijo
Dar o pão de cada dia.

Quem tem muito poderia
Ter menos um bocadinho
P’ra não haver tanto pobre
A pedir no meu caminho.
Não ouvir o desalento
À noite pelas tabernas,
Nem haver gente com fome
Lutando para viver
Porque eu sou pobre também
E não lhes posso valer.

Acabar com a miséria
Mãe do crime e da loucura
Seria ensinar a ler
Os vermes da sepultura.
Mas, cingido ao fatalismo
De uma luta desigual
O que há de fazer um triste
Que só chegou a indigente?
– Renunciarmos a tudo
No futuro e no presente.

Não ouvir uma criança
Na tristeza de uma queixa
Fazer-nos sentir a morte
E o luto que ela nos deixa;
Podermos dar num sorriso
A expressão da felicidade;
Cada mortal possuir
A sua razão de ser,
– Assim gostava da vida
E gostava de viver.

Antonio Ermolao Paoletti, "Child feeding pigeons in Venice"


"Amigos verdadeiros são os que nos acodem inopinados com valedora mão nas tormentas desfeitas."

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

"Se fosses luz serias a mais bela" - Poema de António Botto


Pierre-Auguste Renoir (1841-1919), Alfred Sisley and his Wife, 1868



Se fosses luz serias a mais bela


Se fosses luz serias a mais bela
De quantas há no mundo: – a luz do dia!
- Bendito seja o teu sorriso
Que desata a inspiração
Da minha fantasia!
Se fosses flor serias o perfume
Concentrado e divino que perturba
O sentir de quem nasce para amar!
- Se desejo o teu corpo é porque tenho
Dentro de mim
A sede e a vibração de te beijar!
Se fosses água – música da terra,
Serias água pura e sempre calma!
- Mas de tudo que possas ser na vida,
Só quero, meu amor, que sejas alma!


António Botto
in Canções e outros poemas
Edições Quasi 



Pierre-Auguste Renoir, Portrait of Charles (1865-1892) 
and Georges Durand-Ruel (1866-1931), 1882



ANTÓNIO BOTTO E O IDEAL ESTÉTICO EM PORTUGAL

(Fernando Pessoa)

       António Botto é o único português, dos que conhecidamente escrevem, a quem a designação de esteta se pode aplicar sem dissonância. Com um perfeito instinto ele segue o ideal a que se tem chamado estético, e que é uma das formas, se bem que a ínfima, do ideal helénico. Segue-o, porém, a par de com o instinto, com uma perfeita inteligência, porque os ideais gregos, como são intelectuais, não podem ser seguidos inconscientemente.
       A obra de António Botto, no que realmente típica, resume-se, por ora, no seu último livro, «Canções». Que essa obra se distingue com facilidade da obra de qualquer outro poeta, português ou estrangeiro — todos, que possam ver, o podem ver. Já não é tão fácil explicar em que consiste, distintivamente, essa diferença. Algum interesse haverá em determiná-lo.

       Nasce o ideal da nossa consciência da imperfeição da vida. Tantos, portanto, serão os ideais possíveis, quantos forem os modos por que é possível ter a vida por imperfeita. A cada modo de a ter por imperfeita corresponderá, por contraste e semelhança, um conceito de perfeição. É a esse conceito de perfeição que se dá o nome de ideal.
       Por muitas que pareça que devem ser as maneiras por que se pode ter a vida por imperfeita, elas são, fundamentalmente, apenas três. Com efeito, há só três conceitos possíveis de imperfeição, e, portanto, da perfeição que se lhe opõe.
       Podemos ter qualquer coisa por imperfeita simplesmente por ela ser imperfeita; é a imperfeição que imputamos a um artefacto mal fabricado. Podemos, por contra, tê-la por imperfeita porque a imperfeicão resida, não na realização, senão na essência. Será quantitativa ou qualitativa a diferença entre a essência dessa coisa imperfeita e a essência do que consideramos perfeição; quantitativa como se disséssemos da noite, comparando-a ao dia, que é imperfeita porque é menos clara; qualitativa como se, no mesmo caso, disséssemos que a noite é imperfeita porque é o contrário do dia.
       Pelo primeiro destes critérios, aplicando-o ao conjunto da vida, tê-la-emos por imperfeita por nos parecer que falece naquilo mesmo por que se define, naquilo mesmo que parece que deveria ser. Assim, todo o corpo é imperfeito porque não é um corpo perfeito; toda a vida imperfeita porque, durando, não dura sempre; todo o prazer imperfeito porque o envelhece o cansaço; toda a compreensão imperfeita porque, quanto mais se expande, em maiores fronteiras confina com o incompreensível que a cerca. Quem sente desta maneira a imperfeição da vida, quem assim a compara com ela própria, tendo-a por infiel à sua própria natureza, força é que sinta como ideal um conceito de perfeição que se apoie na mesma vida. Este ideal de perfeição é o ideal helénico, ou o que pode assim designar-se, por terem sido os gregos antigos quem mais distintivamente o teve, quem, em verdade, o formou, de quem, por certo, ele foi herdado pelas civilizações posteriores.
       Pelo segundo destes critérios teremos a vida por imperfeita por uma deficiência quantitativa da sua essência, ou, em outras palavras, por a considerarmos inferior — inferior a qualquer coisa, ou a qualquer princípio, em o qual, em relação a ela, resida a superioridade. É esta inferioridade essencial que, neste critério, dá às coisas a imperfeição que elas mostram. Porque é vil e terreno, o corpo morre; não dura o prazer, porque é do corpo, e por isso vil, e a essência do que é vil é não poder durar; desaparece a juventude porque é um episódio desta vida passageira; murcha a beleza que vemos porque cresce na haste temporal. Só Deus, e a alma, que ele criou e se lhe assemelha, são a perfeição e a verdadeira vida. Este é o ideal a que poderemos chamar cristão, não só porque é o cristianismo a religião que mais perfeitamente o definiu, mas também porque é aquela que mais perfeitamente o definiu para nós.
       Pelo último dos mesmos critérios teremos a vida por imperfeita por a julgarmos consubstanciada com a imperfeição, isto é, não existente, porque a não existência, sendo a negação suprema, é a absoluta imperfeição. Teremos a vida por ilusória não já imperfeita, como para os gregos, por não ser perfeita, não já imperfeita, como para os cristãos, por ser vil e material; senão imperfeita por não existir, por ser mera aparência, absolutamente aparência, vil portanto, se vil, não tanto com a vileza do que é vil, quanto com a vileza do que é falso. É deste conceito de imperfeição que nasce aquela forma do ideal que nos é mais familiarmente conhecida no budismo, embora as suas manifestações houvessem surgido na Índia muito antes daquele sistema místico, filhos ambos, ele como elas, do mesmo substrato metafísico. É certo que este ideal aparece, com formas e aplicações diversas, nos espiritualistas simbólicos, ou ocultistas, de quase todas as confissões. Como, porém, foi na Índia que as manifestações formais dele distintivamente apareceram, poderemos ser imprecisos, porém não seremos inexactos, se dermos a este ideal, por conveniência, o nome de ideal índio.

       Pela própria natureza do seu ideal, é a civilização helénica essencialmente a civilização artística. Fazer arte é querer tornar o mundo mais belo, porque a obra de arte, uma vez feita, constitui beleza objectiva, beleza acrescentada à que há no mundo. Para que esta actividade lembre e preocupe, é mister haver um critério objectivo de beleza ou de perfeição. Ora, dos três critérios de perfeição só o dos gregos tem objectividade. Que impulso natural pode ter para criar obras de arte, formas que pertencem ao mundo e à vida, quem, como o cristão, tem o mundo por pó e mal, a vida por vileza e pecado, ou quem, como o místico da Índia, tem toda a Aparência por ilusão absoluta, flor que nasceu murcha na haste da Mentira? Se a criação artística não procedesse de um instinto irreprimível nas comunidades civilizadas, nunca teria havido arte índia, nem cristã. E a arte cristã, por certo, ter-se-ia aproximado mais da imperfeição estrutural e formal da arte índia, se não fosse que o helenismo é um elemento componente do cristianismo, e que a arte dos povos cristãos, tendo a dos gregos por exemplar, se guia, nas suas manifestações superiores, pelos princípios assentes como fundamentais pelo preceito e exemplo dos clássicos.

      Há, porém, uma outra razão, esta mais emotiva e profunda, para que o ideal helénico seja, de todos, o que mais directamente conduz à criação artística.
       O cristão é metafisicamente feliz. Tem os olhos da alma postos naquela perfeição divina em que não há mudança nem cessação. Pesa-lhe pouco a vileza do mundo: viver e ver são para ele um mal-estar transitório. Ao índio nada dói o haver mundo; volta para o lado o rosto, e contempla em êxtase o Todo a que nem o Nada falta. É metafisicamente feliz também.
       Outra é a vida espiritual do homem de ideal helénico. Esse vê que a vida é imperfeita, porque é imperfeita; porém não rejeita a vida, porque é na mesma vida que tem postos os olhos. Mesmo que veja no mundo dos deuses aquela beleza suprema, pela qual anseia, anseia também por essa beleza nos homens. «A raça dos deuses e dos homens é uma só», disse Píndaro; a uns deve pertencer o que aos outros pertence. Por isso, dos três idealistas, é o heleno o único que não pode rejeitar aquela vida a que chama imperfeita. O seu ideal é, portanto, humanamente o mais trágico e profundo.
       De aqui o que resulta? A carência de uma fé religiosa, de uma confiança, moral ou metafísica, no Além, reduz as almas vis ou à materialidade animal, ou à estéril ficção de um milénio do estômago — o socialismo, o anarquismo, e todos os plutocratismos invertidos que se lhes assemelham; por isso os mais cépticos dos gregos e dos romanos nunca pretenderam que se destruísse a fé religiosa das plebes por estulta e irrisória que a julgassem. Se é este, porém, o efeito do ideal puramente objectivo nas almas inferiores, nos espíritos superiores, que são os susceptíveis de criar, o efeito é outro. Não podendo buscar consolação espiritual na religião, força é que a busquem na vida. Como, porém, encontrá-la na vida, se a vida é imperfeita, e o imperfeito, por sua natureza, não pode construir ideal, porque o ideal é perfeição? Aperfeiçoando a vida, para que a sua imperfeição lhes doa menos. Aperfeiçoando-a como? Objectivamente não pode ser, porque a acção humana sobre o universo é menos que limitadíssima. É portanto só subjectivamente que se pode aperfeiçoá-la, aperfeiçoando o conceito e o sentimento dela. A consolação e o repouso, no que podem atingir-se, só a Arte, portanto, os pode dar. A Arte é, com efeito, o aperfeiçoamento subjectivo da vida.
      A calma, o equilíbrio, a harmonia, característicos distintivos, com outros, que os não contradizem, da arte grega, provam bem que não é abusiva a atribuição desta íntima direcção lógica ao caminho do instinto helénico para o ideal estético absoluto.
       Quando o heleno pretende pôr em arte o seu ideal, isto é, quando o ideal helénico assume o aspecto criador ou activo, são três as formas de manifestação por que se revela.
       Na primeira, e mais alta, dessas formas, o heleno, vendo que a vida é imperfeita, busca criar, ele, a perfeição, substituindo a arte à vida; e busca incluir em cada obra, para que a substituição seja perfeita, ou toda a vida ou um aspecto supremo da vida. É esta a forma intelectual e construtiva do ideal estético absoluto; Homero e Vergílio dos antigos, Dante e Milton dos modernos, são os representantes máximos dela. As obras destes poetas mostram a preocupação severa da perfeição absoluta, revelada tanto na estruturação harmónica de um conjunto pleno de significação, quanto na execução escrupulosa de todos os elementos seus componentes.
       Na segunda, e média, dessas formas, o heleno sentindo que a vida é imperfeita, busca aperfeiçoá-la em si próprio, vivendo-a com uma compreensão intensa, vivendo de dentro, com o espírito, a essência do transitório e do imperfeito. E esta a forma emotiva e dolorosa do ideal estético absoluto; foi este conceito da vida o que criou a tragédia, desconhecida, como espécie emotiva e estética, antes dos gregos.
       Na terceira, e ínfima, dessas formas, o heleno, vendo e sentindo vagamente a imperfeição das coisas, porém sem força espiritual, quer para construir uma perfeição que as substitua, quer para se consubstanciar emotivamente com a sua imperfeição, decide aceitá-las como se fossem perfeitas, escolhendo em cada uma aquele momento, aquele gesto, aquela passagem que de tal modo encheu a nossa capacidade de sensação que naquele momento, naquele gesto, naquela passagem, a sentimos perfeita. É esta a forma sensual do ideal estético absoluto; forma débil, porque não a energiza uma reacção da inteligência, vazia, porque a emoção lhe não dá corpo, mas por isso mesmo, porque é estética e mais nada, propriamente classificável de ideal estético, sem qualificação.
       De que maneira, por que processo reconheceremos o esteta, propriamente tal, na sua obra? Quais são os sinais necessários da aplicação do ideal estético? Como distinguiremos, se se trata de poetas, o esteta do poeta simples, que canta simplesmente o prazer e a vida, porque lhe não cabe mais na alma? Como distinguiremos o esteta do cristão revoltado, que procura o pecado só porque é pecado, e blasfema, embora subtilmente, só para ter a consciência da blasfémia? Em outras palavras, como distinguiremos o esteta do satânico menor?
      A distinção não apresenta dificuldade, desde que nos representemos com clareza em que consiste necessariamente a aplicação activa do ideal estético.
       Se o ideal estético consiste na consideração vaga de que a vida é imperfeita, e que só é perfeita, num momento feliz, a nossa sensação dela, força é que essa consideração não atinja um alto grau de absorção metafísica ou moral; porque, se for altamente metafísica haverá consciência de mais para poder haver ilusão, e, se for altamente moral, haverá dor de sobra para que a ilusão possa agradar.
       O primeiro característico da arte do esteta é pois a ausência de elementos metafísicos e morais na substância da sua ideação. Como, porém, os ideais helénicos procedem todos de uma aplicação directamente crítica da inteligência à vida, e da sensibilidade ao conteúdo dela, essa ausência de metafísica não será uma ausência de ideias metafísicas, nem essa ausência de moral uma ausência de ideias morais. Há uma ideia que, sem ser metafísica nem moral, faz, na obra do esteta, as vezes das ideias morais e metafísicas. O esteta substitui a ideia de beleza à ideia de verdade e à ideia de bem, porém dá, por isso mesmo, a essa ideia de beleza um alcance metafísico e moral. A célebre «Conclusão» da «Renascença» de Pater, o maior dos estetas europeus, é o exemplo culminante desta atitude.
       Nisto se distingue a obra do esteta da obra do artista simples, em quem os elementos metafísicos e morais são ausentes, não por diferença de ideal, senão por ausência dele.
       Se, porém, o esteta substitui a ideia de beleza à ideia de verdade e à de bem, o certo é que, por isso mesmo que as substituiu por outra, se não interessa pelas ideias de bem e de verdade. Não é por isso, propriamente, nem céptico nem imoral; o propósito de ser céptico revela uma preocupação metafísica, o de ser imoral uma preocupação ética, e o carácter negativo de ambas as preocupações não as torna menos preocupações. Nisto claramente se distingue o esteta do mau cristão decadente, como Baudelaire ou Wilde.

      Se tivermos presentes estas considerações na análise do livro de António Botto, não nos será difícil determinar que esse livro representa uma das revelações mais raras e perfeitas do ideal estético, que se podem imaginar.
       Que a substância do livro é altamente intelectual, revela-o o estudo cuidado da forma e ritmo, a escolha severa dos momentos representativos, a falta de espontaneidade emotiva que em cada verso se manifesta. Tudo é pensado, tudo é crítico e consciente. Não há, porém, como seria de esperar de uma inteligência tão constantemente empregada, metafísica nenhuma, nem explícita nem implícita, interesse nenhum pelas ideias como tais. É uma inteligência que dirige, porém não pensa; que compreende, porém não aprofunda; que guia, porém não se preocupa. Nem positivamente, nem negativamente, sugere o livro «Canções» qualquer metafísica. Duas ideias centrais governam a inspiração do poeta, e lhe servem de metafísica e de moral. São as ideias de beleza física e de prazer. A análise do conteúdo dessas duas ideias, tais quais se nos apresentam nas «Canções», revelará o esteta inequivocamente. No modo como apresenta a primeira delas, o poeta afasta-se de toda a espécie de moralidade; no modo como apresenta a segunda, de toda a espécie de imoralidade.

       Das três formas, que podemos conceber, da beleza física — a graça, a força e a perfeição — , o corpo feminino tem só a primeira, porque não pode ter a beleza da força sem quebra da sua feminilidade, isto é, sem perda do seu carácter próprio; o corpo masculino pode, sem quebra da sua masculinidade, reunir a graça e a força; a perfeição só aos corpos dos deuses, se existem, é dado tê-la. Um homem, se se guiar pelo instinto sexual, e não pelo instinto estético, cantará, como poeta, só o corpo feminino. Essa atitude representa uma preocupação exclusivamente moral. O instinto sexual, normalmente tendente para o sexo oposto, é o mais rudimentar dos instintos morais. A sexualidade é uma ética animal, a primeira e a mais instintiva das éticas. Como, porém, o esteta canta a beleza sem preocupação ética, segue que a cantará onde mais a encontre, e não onde sugestões externas à estética, como a sugestão sexual, o façam procurá-la. Como se guia, pois, só pela beleza, o esteta canta de preferência o corpo masculino, por ser o corpo humano que mais elementos de beleza, dos poucos que há, pode acumular.
       Foi assim que pensaram os gregos; foi esse pensamento que Winckelmann, fundador do estetismo na Europa, descobrindo-o neles, reproduziu, como no passo célebre que Pater transcreveu, e que parece feito para servir de prefácio a um livro como «Canções»; «Como é confessadamente a beleza do homem que tem que ser concebida sob uma ideia geral, assim tenho notado que aqueles que observam a beleza só nas mulheres, e pouco ou nada se comovem com a beleza dos homens, raras vezes têm instinto imparcial, vital, inato da beleza na arte. A pessoas como essas a beleza da arte grega parecerá sempre falha, porque a sua beleza suprema é antes masculina que feminina».
       Ora é este conceito puramente estético, da beleza física que é, como todos sabem, porque escandalizadamente se notou, uma das duas ideias inspiradoras das «Canções».

       Disse eu que António Botto se afasta de toda a moralidade no modo por que canta a beleza física, e que se afasta de toda a imoralidade no modo por que canta o prazer. De que modo canta ele o prazer? Que modo há-de cantar o prazer que, sem ser moral (porque se o fosse, estaríamos fora do caso estético), se afaste da imoralidade?
       Para com o prazer há três atitudes possíveis — aceitá-lo, rejeitá-lo, aceitá-lo com moderação. A cada uma destas atitudes correspondem graus vários de moralidade e de imoralidade, porque pode haver moralidade no modo de aceitar o prazer, e imoralidade na maneiras de rejeitá-lo. Aqui, porém, trata-se de quem aceita o prazer, e só o prazer; não temos portanto que considerar as outras hipóteses.
       Aceite o prazer, e só o prazer, de que modo pode ele ser aceite? Pode ser aceite como alegria, ou como forma da alegria, e é esta a maneira moral, porque é natural, de aceitar o prazer. Pode ser aceite como excitação, como, por assim dizer, a única forma agradável da dor, pois que toda a excitação — tomada a palavra no sentido vulgar, e não no fisiológico — tem um fundo de dor; e é esta a maneira imoral, porque é a antinatural, de aceitar o prazer. Pode, finalmente, ser aceite simplesmente como prazer, como, em sua essência, nem alegre nem triste, porém a única coisa que pode encher o vácuo absurdo da existência. Deste conceito de prazer não se pode dizer que seja moral nem imoral, logo que se não esqueça que se está considerando o prazer só, isolando-o de qualquer outro elemento da vida.
       Quem leia com atenção normal o livro «Canções», não tardará que veja, é este último o conceito que António Botto forma do prazer, que é neste sentido de compreendê-lo que ele o canta. «Canções» é um hino ao prazer, porém não ao prazer como alegria, nem como raiva, senão simplesmente como prazer. O prazer, como o poeta o canta, nem serve de despertar a alegria da vida, nem de ministrar um antídoto a uma dor substancial constante; serve apenas de encher um vácuo espiritual, a ser conceito de vida a quem não tem nenhum. Há neste livro, sim, a intuição do fundo trágico do ideal helénico, do fundo trágico de todo o prazer que sabe que não tem além. Essa intuição, porém, se é do que é trágico, não é trágica em si. Este prazer não tem a cor da alegria, nem a da dor. «A alegria» disse Nietzsche, «quer eternidade, quer profunda eternidade». Não é, nem nunca foi assim: a alegria não quer nada, e é por isso que é alegria. A dor, essa, é o contrário da alegria, como a concebia Nietzsche: quer acabar, quer não ser. O prazer, porém, quando o concebemos fora da relação essencial com a alegria ou com a dor, como concebe o autor deste livro, esse, sim, quer eternidade; porém quer a eternidade num só momento.
       Resulta destas considerações, que me esforcei por fazer lúcidas e concisas, a determinação exacta de que António Botto, no seu livro «Canções», se revela um dos tipos mais perfeitos e mais íntegros do esteta, que se podem imaginar.
      Que importância tem este facto? A de representar uma raridade. O tipo perfeito do esteta é raríssimo na civilização cristã, ou de origem cristã, e mais que raro, porque, até às «Canções», desconhecido, em Portugal. A razão dessa raridade, quer em toda a Europa, quer em Portugal, e o valor que nela haja, são relativamente fáceis de compreender.
      O ideal estético é, como se viu, uma das formas — a mais ténue e vazia — do ideal helénico; mas, por isso mesmo que é a mais ténue e vazia delas, é a mais explicitamente representativa daquele ideal. Para que apareça um tipo de esteta é necessário um meio social análogo ao meio social helénico. Ora o meio social europeu, se é certo que modernamente, e em algumas das suas manifestações, de certo modo se aproxima, tanto quanto pode ser, do meio social da Grécia antiga, é em todo o caso, radicalmente diferente dele. Segue que o aparecimento na Europa moderna de um tipo íntegro de esteta só pode dar-se por um desvio patológico, isto é, por uma inadaptação estrutural aos princípios constitutivos da civilização europeia, em que vivemos.
       Este desvio patológico é, porém, no caso dos grandes estetas europeus o elemento predisponente, se bem que, por isso mesmo, radical, do seu estetismo; a ele se acrescenta uma emergência prolongada do espírito na atmosfera helénica, que lhe cria um perpétuo contacto, ainda que só intelectual, com a Grécia antiga e os seus ideais. Da acção deste segundo elemento sobre o primeiro o esteta desabrocha. São desta origem os estetismos de Winckelmann e de Pater, quase, em verdade, os únicos tipos exactos do esteta que a civilização europeia pode apresentar. Como, porém, este estetismo tem uma base cultural, resulta que tem a plenitude e a largueza que distinguem todos os produtos culturais, em contraposição aos naturais seus semelhantes, e por isso de algum modo transcende a estreiteza específica do ideal estético, sem todavia deixar de lhe pertencer.
       Como os elementos culturais são inteiramente negativos na obra de António Botto, vemo-nos forçados a assentar em que o seu estetismo nasce de um simples desvio patológico, sem solicitação cultural eficiente. Este processo de ser esteta apresenta uma singularidade notável: é um desvio patológico sem desequilíbrio, porque todos os ideais gregos (e portanto o estético, que é um deles) são essencialmente equilibrados e harmónicos. Ora um desvio patológico equilibrado é uma de duas coisas — ou o génio ou o talento. Ambos estes fenómenos são desvios patológicos, porque, biologicamente considerados, são anormais; porém não são só anormais, porque têm uma aceitação exterior, tendo, portanto, um equilíbrio. A esse desvio equilibrado chamar-se-á génio quando é sintético, talento quando é analítico; génio quando resulta da fusão original de vários elementos, talento quando procede do isolamento original de um só elemento.
       Adentro do ideal estético, os casos de Winckelmann e de Pater representam o génio, porque a tendência para a realização cultural imanente no seu estetismo ingénito é, por sua natureza, sintética, o caso de António Botto representa o talento, porque o ideal estético, dada a sua estreiteza e vacuidade, representa já o senso estético isolado de todos os outros elementos psíquicos, e, no caso de António Botto, esteta simples, esse isolamento não se modifica, como no estetismo culto, pelo reflexo nele da multiplicidade dos objectos de cultura.
       Temos, pois, por demonstração severamente conduzida, que o livro «Canções» é uma obra de talento, tendo além desse, o valor acessório e especial de ser o único exemplo, que eu saiba, na literatura europeia, do isolamento espontâneo e absoluto do ideal estético em toda a sua vazia integridade.
       À parte este valor, que pertence àquela obra em absoluto, isto é, como obra e não como obra em português, o livro «Canções» tem, para nós em Portugal, um outro aspecto de valor, já de ordem relativa. É que é o único exemplo em Portugal da realização literária, de qualquer espécie, do ideal estético. Facilmente o verificará quem houver lido com atenção o que estabelecemos sobre os característicos do esteta. Artistas tem havido muitos em Portugal; estetas só o autor das «Canções». 

Fernando Pessoa, Textos de Crítica e de Intervenção.  Lisboa: Ática, 1980. - 119.
1ª publ. in “Contemporânea”, nº 3. Lisboa: Julho. 1922.  (Daqui)


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

"É difícil na vida achar alguém" - Poema de António Botto



Frederick Childe Hassam
(1859-1935, American Impressionist Painter), In the Park, Paris, 1889
 


É difícil na vida achar alguém


É difícil na vida achar alguém
Que seja na verdade um grande amigo;
E se assim penso - e com tristeza o digo,
É porque o sei, talvez, como ninguém. 

Se a amizade é um bem - e se esse bem
Traz o conforto de um divino abrigo,
Por mim, direi que nunca mais consigo
Iludir-me nas graças que ele tem. 

Afetos sacrifícios, lealdade! 
Tudo se apaga ou fica na memória
Se a ilusão dá lugar à realidade. 

E ai daqueles que pensam na exceção;
Acabam por ficar dentro da história
De que a vida é um sonho e uma traição.


Childe Hassam, At Sunset, 1909


Childe Hassam, A Fisherman's Cottage, 1895


  Childe Hassam, Couch on the Porch, Cos Cob, 1914


Childe Hassam, Old House Nantucket, 1882


  Childe Hassam, Paris Street Scene, c. 1889


Childe Hassam, At the Café, 1889


  Childe Hassam, Yachts Gloucester, 1889


  Childe Hassam, White Barn, 1882


  Childe Hassam, Mount Vernon Street, Boston, 1890


  Childe Hassam, Cathedral at Ronda, 1910


sábado, 16 de junho de 2012

"Meus olhos que por alguém" - Poema de António Botto


Gustav Klimt, Friso Stoclet - O cumprimento, 1904-1909 (detalhe)
 
 

Meus olhos que por alguém


Meus olhos que por alguém
deram lágrimas sem fim
já não choram por ninguém
- basta que chorem por mim.

Arrependidos e olhando
a vida como ela é,
meus olhos vão conquistando
mais fadiga e menos fé.

Sempre cheios de amargura!
Mas se as coisas são assim,
chorar alguém - que loucura!
- Basta que eu chore por mim.
 
 


Obras de Gustav Klimt

Gustav Klimt, O Chapéu de Plumas Negras


Gustav Klimt, Retrato de  Hermine Gallia, 1904. 
National Gallery, London


Pintura de Gustav Klimt 


Gustav Klimt, Adele Bloch-Bauer I


Gustav Klimt, Mäda Primavesi, 1912
Metropolitan Museum of Art, New York.
 

Pintura de Gustav Klimt
 

Pintura de Gustav Klimt


Gustav Klimt, Retrato de Emilie Flöge, 1902
 

"Qualquer novo conhecimento provoca dissoluções e novas integrações".
 
Hugo von Hofmannsthal, "O Livro dos Amigos" 


Pintura de Gustav Klimt
 
 
"As palavras desintegravam-se na minha boca como cogumelos mofados". 

 Hugo von Hofmannsthal citado em "Texto/contexto: ensaios‎" - Página 264, de Anatol Rosenfeld - publicado por Perspectiva, 1969 - 266 páginas 
 

Gustav Klimt, Expectation


- A História de Amor de Gustav Klimt -

 Emilie FlögeGustav Klimt


Grande percursor da Art Nouveau no século XX, conhecido por quadros dourados, florais e que usavam livremente da sexualidade, Klimt teve sua época mais produtiva entre o final do séuculo XIX e começo do século XX, pintando até 1918 quando morreu de apoplexia.
Mulherengo convicto e aventureiro foi aclamado em Veneza por pintar vários retratos femininos, dentre um deles o de Emilie Flöge.


Emilie Flöge, 1902


Tal dama em questão ficou conhecida por ter sido amante e grande amor de Klimt, tendo dado lenha para dois livros e um filme, a história pouco divulgada gerou um dos quadros mais famosos do pintor ” Retrato de Emilie Flöge” e consequentemente o quadro mais famoso ” O Beijo “.


 The Kiss, 1907–1908 

Emilie foi uma renomada modista veneziana, irmã da mulher do irmão de Klimt, começou a ter um romance com o pintor quando tinha 18 anos, após a morte de Ernest Klimt.
Atuantes na Secessão de Viena, grupo de artistas que variavam entre arquitetos, designs e pintores, tendo assim um relacionamento não só pessoal como profissional.
Conta-se que uma das frases mais marcantes de Klimt foi dita para Emilie antes de sua morte “Todo ano, custe o que custar, em vez de me casar vou dar uma pintura para você”, o que deixa o rumor de que eram realmente amantes.O romance durou até sua morte, tendo Emilie herdado metade dos bens e a outra metade tendo ficado para a família Klimt.
Os últimos anos do casal se passaram na Austria, porém, muitos historiadores acreditam que viviam como amigos, dormiam em camas separadas e mantinham um amor ‘fraternal’. Ambos eram discretos com a vida pessoal, após se mudarem muito se perdeu, os poucos documentos da época foram queimados pelo Governo Nazista. Quase todas as obras de Klimt foram roubadas ou tomadas, só sendo reavidos após anos e outra grande quantia foi destruída. Emilie mesmo após a morte do pintor manteve o ateliê intacto e preservou rascunhos e quadros, muitos nunca mostrados, selados a sete chaves no acervo pessoal da família.
Na época de ouro de Klimt e Flöge ambos abriram juntos uma casa de alta costura onde a grandes da aristocracia veneziana faziam questão de frequentar, com um design único os vestidos seguiam o padrão ‘solto’ da reforma dos vestidos, com estampas florais e adornos fluídos. Feminista assumida, Emilie marcou a época com seus vestidos e protagonizou uma história de amor que muito nos lembra a de Sartre com Beauvoir.
Enquanto vivo conta que podia-se ver Klimt com sua túnica solta pintando paisagens e Emilie ao seu lado, com vestidos coloridos.


Retrato de Gustav Klimt feito por Egon Schiele (1890–1918)



EGON SCHIELE - A FOME E O SEXO

Por Helena Vasconcelos

Egon Schiele, um dos expoentes máximos do expressionismo austríaco, nasceu em Junho de 1890 na estação de combóios de Tulln, onde o seu pai, Adolf, trabalhava ao serviço da Companhia de Caminhos de Ferro Austríacos e morreu em 1918, com apenas 28 anos. Durante a sua curta vida produziu uma obra importantíssima que define e prefigura, como nenhuma outra, a “malaise” de um século violento e trágico.
Na terra natal de Egon Schiele, nas margens do Danúbio, não existia nenhuma escola e, em 1901, o jovem foi enviado primeiro para Krems e depois para Klosterneuburg, nos arredores de Viena para onde toda a família se mudou devido ao estado de saúde de Adolf que morreu em 1905, depois de ter sido oficialmente consideradado louco. Na adolescência, Schiele assumiu o desaparecimento do pai como um trauma, desenvolvendo uma doentia aversão em relação à mãe a quem, à semelhança de Hamlet, culpava por não ter chorado convenientemente o marido e de quem se queixava de falta de afecto. A instabilidade emocional do jovem Egon, predispunha-o para o desenvolvimento das capacidades artísticas que manifestou desde muito cedo, embora se insurgisse contra os que o incentivavam a seguir a carreira de pintor. (“Os meus grosseiros professores foram sempre os meus piores inimigos”, gostava ele de afirmar).
Precoce, arrebatado, absolutamente seguro da sua genialidade, Schiele associava os comboios da sua infância à ideia de evasão, de viagem. Com apenas dezassete anos arrastou a sua adorada irmã Gertie, de treze anos, que lhe despertava um amor incestuoso, até Trieste e, em 1913 deslocou-se a Varsóvia, Krumau, Munique, Villach, Tarvis e Altmunster no lago Traun. A sua inquietação não lhe permitia qualquer tipo de relações estáveis mas a sua entrada para a Academia de Belas-Artes de Viena, contrariando as intenções do seu tio e tutor Leopold, foi determinante para a sua carreira. Passou brilhantemente no exame de admissão, apenas com dezaseis anos e, em 1908, expôs pela primeira vez, em Klosterneuburg.
Por essa altura, Viena, a capital do império austrohúngaro, era um lugar de grande efervescência cultural, a “cidade dos sonhos” de Musil. Mas, a par do fausto dos salões e da sumptuosidade das festas, grassavam a fome, as doenças e a pobreza extrema, criando um clima de catástrofe que culminou na 1ª Guerra Mundial. Nesse ambiente de contrastes, floresceram a arte, a ciência, a filosofia, a literatura, a música, a arquitectura. Foi nessa Viena, em que conviviam Freud, Wittgenstein, Schoenberg, Alban Berg, Anton von Webern, Gustav Mahler, Schnitzler, von Hofmannsthal, Musil, Karl Kraus, Stefan Zweig, Otto Wagner, Adolf Loos, Josef Hoffman, e muitos outros, que Schiele se instalou, aos 17 anos, sob a protecção de Gustav Klimt (1862-1918). Mas, ao contrário de Klimt, mais ligado ao Simbolismo e à chamada Arte Nova, que procurava mostrar principalmente o lado “imperial” da sociedade vienense, com as suas mulheres voluptuosas, plenas de uma sensualidade insolente, entregues a todo o tipo de prazeres, cobertas de ouro e tecidos preciosos, Egon Schiele desenhou e pintou a crueldade de um mundo em adiantado estado de decomposição. 
Principalmente nos seus desenhos é possível descortinar uma análise psicológica austera e violenta que não abrange qualquer condescendência em relação a uma sociedade que ele observava a cavar impiedosamente a sua própria sepultura. (Quem estiver interessado em aprofundar a dicotomia entre a obra de Klimt e a de Schiele – e tomar consciência de duas visões antagónicas da mesma realidade - poderá comparar o tratamento dado em relação a temas idênticos como é o caso do retrato que ambos fizeram de Frederike Maria Beer).
Em 1911, Schiele conheceu Wally Neuzil, uma jovem de dezassete anos que fora modelo de Klimt e, provavelmente, sua amante. Egon pintou e desenhou Wally naquelas que são consideradas algumas das suas melhores obras. Viveram juntos durante algum tempo, mudando-se primeiro para a pequena cidade de Krumau e mais tarde para Neulengbach, em parte para escapar ao ambiente de Viena e também para satisfazer o desejo de evasão de Schiele que sofria de fobias diversas e de mania da perseguição. Mas a forma de vida de ambos, boémia e desregrada – Schiele tinha sempre a casa cheia de crianças e jovens vadios de ambos os sexos, fugidos a maus tratos em casa ou simplesmente com fome - criou problemas em comunidades pequenas e conservadoras e eles foram sucessivamente rechaçados e perseguidos.
Schiele procurou uma verdade profunda e oculta nos olhares emaciados, e por vezes pesadamente maquilhados das mulheres, e nos corpos nus e pré púberes de crianças, revelando assim a experiência do despertar da sensualidade e da procura espiritual. O carácter explicitamente sexual e obsessivo das suas obras, as suas relações eróticas, ambíguas e desregradas, bem como o facto de ter utilizado crianças para posarem para ele, valeram-lhe uma denúncia pública. Foi preso em Abril de 1912 e a polícia apreendeu mais de cem desenhos considerados pornográficos. O processo instaurado incluía o rapto e sedução de uma criança e embora esta última acusação não tenha sido provada o juiz condenou-o por “exibir cenas eróticas num lugar onde havia crianças” e sentenciou-o a três dias de cadeia. Como punição extra, um dos seus desenhos foi queimado na sua presença, pelo próprio magistrado. Durante o tempo que passou na cadeia, Schiele produziu uma enorme quantidade de auto-retratos e colocou-se no papel de vítima injusticada, afirmando sentir-se “purificado” por aquela provação. 
A sua atitude consistentemente narcisista pode ser constatada através das suas múltiplas declarações. Em Março de 1913 escreveu à mãe o seguinte: 
“ em mim estão reunidas todas as mais belas e nobres qualidades... serei o fruto que deixará o legado da eterna vitalidade, mesmo depois da dissolução final. Como deve sentir-se imensamente feliz por ter dado à luz um ser como eu!”
A partir de 1912 as tendências exibicionistas e a jactância de Schiele foram aumentando de intensidade, principalmente depois de ter começado a trabalhar com um importante “marchand”, Hans Goltz , de Munique. Em 1914 conheceu as irmãs Adéle e Edith, pelas quais se sentiu simultaneamente atraído até acabar por se fixar em Edith, com quem se casou em 1915, a dois dias de ser chamado para a “frente” e depois de ter “despedido” sumariamente Wally a quem, no entanto, propôs que passassem férias juntos, no futuro. ( Wally recusou e acabou por morrer de tifo, no cumprimento do dever como enfermeira, durante a Guerra). 
Schiele sobreviveu a esses terríveis anos e a sua popularidade continuou a crescer tendo sido convidado, em 1918, a participar na 49ª edição da Sezession para a qual produziu um “poster” que reproduzia a cena da Ultima Ceia, com ele próprio no papel de Jesus. Mudou-se com Edith para uma casa maior e melhor mas a 19 de Outubro de 1918 Edith, que estava grávida, adoeceu com a gripe espanhola que grassava por toda a Europa. Morreu a 28 de Outubro e Egon teve a mesma sorte, três dias depois.
Schiele foi um artista condenado por denunciar a corrupção de uma sociedade hipócrita e decadente, como Sade e Oscar Wilde. Ele mais não fez do que expressar o horror do ser humano levado ao extremo da sua degradação. Para Schiele a Natureza era tanto mais fascinante quanto mais animada por um declínio irrevogável. Ao contrário de artistas como por exemplo Van Gogh, que pintou os célebres “Girassóis” como força triunfante, solar e vital, Egon preferiu ilustrar a qualidade outonal das plantas em decomposição, no processo de desintegração. Explorou sem complacência a antevisão da morte em tudo, nas belas flores já ressequidas, nos traços de fome, de vício, de devassidão, de doença em corpos ainda jovens, nas visões alucinatórias de cidades imersas em escuridão. Muitos dos corpos masculinos e femininos que desenhou, angulosos, distorcidos e de uma atroz magreza, parecem antecipar os horrores dos campos de concentração. Mas a sua sensualidade demonstra bem a fome do sexo e a ânsia do ser humano de sobreviver a todas as tragédias.

Nota: Egon Schiele deixou uma vasta obra - cerca de 250 pinturas e 2000 desenhos.Uma parte significativa do espólio encontra-se no Egon Schiele Art Center na cidade medieval de Ceský Crumlov na Republica Checa.


  Egon Schiele, Autorretrato
 
 
"Não se pode pretender que alguém conheça tudo, mas sim que, conhecendo alguma coisa, tenha conhecimento de tudo". 

Hugo von Hofmannsthal, "O Livro dos Amigos"

Hugo von Hofmannsthal, pseudónimo de Hugo Laurenz August Hofmann (1 de fevereiro de 1874, em Viena, Áustria; 15 de julho de1929, em Rodaun, Áustria) foi um escritor austríaco.
 

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

"Palavras de um avestruz todo gris" - Poema de António Botto




Palavras de um avestruz todo gris


Arrancam-me as penas
E eu sofro sem dizer nada:
- Sou ave
Bem educada.

E, se quisesse,
Podia
Morder-lhes as mãos morenas,
A esses
Que sem piedade
Me roubam as penas que me cobrem;

E, no entanto,
Sem o mais breve gemido,
O meu corpo
Vai ficando
Desguarnecido ...

E elas,
Aquelas
Que se enfeitam, doidamente,
Com estas penas formosas
- Que são minhas!
Passam por mim, desdenhosas,
Em gargalhadas mesquinhas.

Sim; eu sofro sem dizer nada:
- Sou ave
Bem educada.

Mesmo que fosse pequena
E eu te visse pobre ou nua
- Ninguém ama a sua Pátria por ser grande,
Mas sim por ser sua!




António Tomás Botto (Concavada, Abrantes, 17 de Agosto de 1897 — Rio de Janeiro, 16 de Março de 1959) foi um poeta português. 
A sua obra mais conhecida, e também a mais polémica, é o livro de poesia Canções que, pelo seu carácter abertamente homossexual, causou grande agitação nos meios religiosamente conservadores da época. Foi amigo pessoal de Fernando Pessoa que traduziu em 1930 as suas Canções para o inglês, e com quem colaborou numa Antologia de Poemas Portugueses Modernos. Homossexual assumido (apesar de ser casado com Carminda Silva), a sua obra reflete muito da sua orientação sexual e no seu conjunto será, provavelmente, o mais distinto conjunto de poesia homoerótica de língua portuguesa. Morreu atropelado em 1959 no Brasil, para onde se tinha exilado para fugir às perseguições homófobas de que foi vítima, na mais dolorosa miséria. Os seus restos mortais foram trasladados para o cemitério do Alto de São João, em Lisboa, em 1966. (Fonte: wikipédia)


Macho (esquerda) e fêmea de avestruz


"Ah, que maldade introduzir carne em nossa própria carne, engordar nossos corpos glutões empanzinando-nos com outros corpos, alimentar uma criatura viva com a morte de outra! No meio de tanta riqueza que a terra, a melhor das mães provê, nada, na verdade, te satisfaz, a não ser o comportamento dos ciclopes, que infligem dolorosos ferimentos com seus dentes cruéis! Não podes apaziguar o desejo faminto de teu estômago cruel e glutão exceto destruindo outras vidas. Enquanto o homem continuar a destruir impiedosamente os seres vivos inferiores não conhecerá a saúde e a paz. Pois enquanto os homens massacrarem os animais, a humanidade continuará matando a humanidade. Realmente, aquele que semeia morte e dor não pode colher alegria e amor." - Ovídio
 
 
Públio Ovídio 

Públio Ovídio Naso, conhecido como Ovídio nos países de língua portuguesa (Sulmona, 20 de março de 43 a.C. — Constança, Romênia, 17 ou 18 d.C.) foi um poeta romano que é mais conhecido como o autor de Heroides, Amores, e Ars Amatoria, três grandes coleções de poesia erótica, Metamorfoses, um poema hexâmetro mitológico, Fastos, sobre o calendário romano, e Tristia e Epistulae ex Ponto, duas coletâneas de poemas escritos no exílio, no mar Negro.

Ovídio foi também o autor de várias peças menores, Remedia Amoris, Medicamina Faciei Femineae, e Íbis, um longo poema sobre maldição. Também é autor de uma tragédia perdida, Medeia. É considerado um mestre do dístico elegíaco e é tradicionalmente colocado ao lado de Virgílio e Horácio como um dos três poetas canônicos da literatura latina. O estudioso Quintiliano considerava-o o último dos elegistas amorosos latinos canônicos. Sua poesia, muito imitada durante a Antiguidade tardia e a Idade Média, influenciou decisivamente a arte e a literatura europeias, particularmente Dante, Shakespeare e Milton, e permanece como uma das fontes mais importantes de mitologia clássica. Seu estilo tem caráter jocoso e inteiramente pessoal — às vezes o eu-lírico de seus poemas são o próprio Ovídio.

Escreveu sobre amor, sedução, exílio e mitologia. Estudou retórica com grandes mestres de Roma e viajou para Atenas e Ásia exercendo funções públicas com o objetivo de tornar-se um Cícero, mas, para desgosto do pai, resolveu dedicar sua vida à poesia. (Daqui)