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terça-feira, 21 de julho de 2026

"Harmonia" - Poema de Miguel Torga

  

Tove Jansson (Finland-Swedish author, novelist and comic strip author, painter
and illustrator, 1914–2001), 'Family', 1942, Private Collection.

 
Harmonia 


Feliz canto das aves,
Sem possível
Compreensão;
Feliz rumo dos astros,
Sem possível
Desvio;
Feliz fúria do vento,
Sem possível
Arrependimento.

E feliz o poeta
Que ninguém lê.
Que sozinho contempla
O nascimento e a morte
Dos seus versos.
Pai acabado que no próprio corpo
Gera os filhos
E lhes dá ternura
Do berço à sepultura.


Miguel Torga,
in 'Orfeu Rebelde', 1958

***


Tove Jansson, 'Self-portrait with Wicker Chair', 1937.
 Private Collection
 

Tove Marika Jansson (1914–2001) nasceu em Helsínquia, numa família de artistas, que fazia parte da minoria sueca na Finlândia. Estudou Artes no seu país, em Estocolmo e finalmente na Escola de Belas-Artes de Paris, tendo realizado a sua primeira exposição a solo em 1943. Tornou-se conhecida também como escritora e ilustradora. Publicou o primeiro livro dos Mumins durante a Segunda Guerra Mundial, em 1945, pois o conflito deprimia-a e por isso “quis escrever sobre qualquer coisa inocente”. No ano seguinte, editou O Cometa na Terra dos Mumins e, em 1948, A Família dos Mumins, que a tornaram famosa e a escritora finlandesa mais lida. Em 1966, recebeu o Prémio Hans Christian Andersen de literatura infantil pelo conjunto da sua obra.

 
Tove Jansson, 'The Moomins'


A Família Mumin - em sueco: Mumintrollen - ou a família Moomin, é uma família de ficção literária, criada pela escritora sueco-finlandesa Tove Jansson
A família vive numa casa no Vale dos Mumin (Mumindalen), e é composta pelo Mumin (Mumintrollet), pela Mãe Mumin (Muminmamma) e pelo Pai Mumin (Muminpappa). Como vizinhos, eles têm o tímido Sniff, a traquinas Lilla My, o vagabundo Snusmumriken, a namorada de Mumin, Snorkfröken, o vagaroso Hemulen e a nervosa Filifjonkan. Nas montanhas assustadoras a leste do vale, mora a monstruosa Mårran, e um pouco por toda a parte os incompreensíveis Hattifnattarna.  (daqui)

 
Tove Jansson
, 'A Famílias dos Mumins'
Tradução: Mafalda Eliseu
Relógio D'Água, 2015
 

Descrição 
 
 [A Família Mumin (edição brasileira) ou A Família dos Mumins (edição portuguesa)]
 
A primavera chegou ao vale dos Mumins, assim como uma cartola mágica que o Mumintroll e os seus amigos Farisco e Sniff descobrem, e que pode transformar qualquer coisa ou alguém em seja o que for. 

«Um tesouro perdido, agora redescoberto… Uma obra–prima.»
 Neil Gaiman

«Jansson era um génio de um modo subtil. Estas histórias simples estão repletas de emoções únicas, profundas e complexas, como jamais se viram em literatura para crianças ou adultos.»
 Philip Pullman 

«Tove Jansson é, sem dúvida, uma das maiores escritoras de livros para crianças.» 
 Sir Terry Pratchett (daqui)
 

'The Moomins', comic book cover by Tove Jansson. From left to right:
Sniff, Snufkin, Moominpappa, Moominmamma, Moomintroll (Moomin), 
the Mymble's daughter, Groke, Snork Maiden and Hattifatteners.



Tove Jansson, 'Moominmama, Moominpapa and Little My'



"Arte e vida se misturam.
 Fantasia e realidade se acrescentam."


Affonso Romano de Sant'Anna

[Escritor e poeta brasileiro, 1937–2025]


segunda-feira, 13 de abril de 2026

"Lírica" - Poema de Miguel Torga

 


August Malmström
(Swedish painter, 1829–1901), Children playing in garden, 1866.


Lírica 


No meu jardim aberto ao sol da vida,
Faltavas tu, humana flor da infância
Que não tive...

E o que revive
Agora
À volta da candura
Do teu rosto!

O recuado Agosto
Em que nasci
Parece o recomeço
Doutro destino;

Este, de ser menino
Ao pé de ti...


Miguel Torga (1907–1995), in Diário VIII, 1959;
in Antologia Poética; Coimbra, 4ª ed., 1994.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

"Natal Divino" - Poema de Miguel Torga

 


Di Cavalcanti
(Pintor modernista, desenhista, ilustrador, muralista e caricaturista
brasileiro, 1897–1976), Natal, 1969. Óleo sobre tela.

 Natal Divino


Natal divino ao rés-do-chão humano,
Sem um anjo a cantar a cada ouvido.
Encolhido
À lareira,
Ao que pergunto
Respondo
Com as achas que vou pondo
Na fogueira.

O mito apenas velado
Como um cadáver
Familiar…
E neve, neve, a caiar
De triste melancolia
Os caminhos onde um dia
Vi os Magos galopar…

S. Martinho de Anta, 24 de Dezembro de 1970

Miguel Torga
Diário XI 
(2-8-1968 / 6-4-1973)

 

quinta-feira, 20 de novembro de 2025

"Retrato" - Poema de Almeida Garrett



Alexander Roslin (Swedish painter, 1718-1793),
Double portrait of Roslin and his wife, 1767.



Retrato
(Num Álbum)



Ah! despreza o meu retrato
Que lhe eu queria aqui pôr!
Tem medo que lhe desfeie
O seu livro de primor? 
Pois saiba que por despique
Eu sei também ser pintor:
Com esta pena por pincel,
E a tinta do meu tinteiro,
Vou fazer o seu retrato
Aqui já de corpo inteiro.

Vamos a isto. – Sentada
Na cadeira moyen-âge,
O cabelo en châtelaines,
As mangas soltas. – É o traje.

Em longas pregas negras
Caía o veludo e arraste;
De si com desdém régio
Com o pezinho o afaste...

Nessa atitude! Está bem:
Agora mais um jeitinho;
A airosa cabeça a um lado
E o lindo pé no banquinho.

Aqui estão os contornos, são estes,
Nem Daguerre lhos tira melhor.
Este é o ar, esta a pose, eu lho juro,
E o trajar que lhe fica melhor.

Vamos agora ao difícil:
Tirar feição por feição;
Entendê-las, que é o ponto,
E dar-lhe a justa expressão.

Os olhos são cor da noite,
Da noite em seu começar,
Quando inda é jovem, incerta,
E o dia vem de acabar;

Têm uma luz que vai longe,
Que faz gosto de queimar:
É uma espécie de lume
Que serve só de abrasar.

Na boca há um sorriso amável.
Amável é... mas queria
Saber se é todo bondade
Ou se meio é zombaria.

Ninguém mo diz? O retrato
Incompleto ficará,
Que nestas duas feições
Todo o ser, toda a alma está.

Pois fiel como um espelho
É tudo o que nele fiz;
E o que lhe falta – que é muito,
Também o espelho o não diz.
 
 
Alexander Roslin (Swedish painter, 1718-1793), A portrait of Roslin's wife,
 Marie-Suzanne Giroust-Roslin, 1770.


"É instrutivo ver os vários retratos que fazem de nós pela vida fora. Com traços lisonjeiros ou desagradáveis, entram-nos sempre pelos olhos dentro como estranhos, a perturbar uma paz que tinha um rosto habitual, familiar, a que estávamos acostumados. À imagem tranquila, sobrepõem-se outras inquietantes que não servem no cartão de identidade, e, contudo, nos identificam publicamente mais até do que a que nele figura. É que não se trata de neutras fotografias. São perfis apaixonados, justos ou injustos, com as virtudes e os defeitos cruamente patenteados. Quem um dia nos lembrar, é por eles que nos lembra. Somos o que nós sabemos, e parecemos o que os outros dizem de nós."

Miguel Torga, Diário XV

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

"Um Reino Maravilhoso (Trás-os-Montes)" - Texto de Miguel Torga



Ernesto Condeixa (Pintor português, 1858–1933), A caminho da fonte, 1894.
Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado



Um Reino Maravilhoso 
(Trás-os-Montes)


Vou falar-lhes dum Reino Maravilhoso. Embora muitas pessoas digam que não, sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo. O que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade, e o coração, depois, não hesite. Ora, o que pretendo mostrar, meu e de todos os que queiram merecê-lo, não só existe, como é dos mais belos que se possam imaginar. Começa logo porque fica no cimo de Portugal, como os ninhos ficam no cimo das árvores para que a distância os torne mais impossíveis e apetecidos. E quem namora ninhos cá de baixo, se realmente é rapaz e não tem medo das alturas, depois de trepar e atingir a crista do sonho, contempla a própria bem-aventurança.
Vê-se primeiro um mar de pedras. Vagas e vagas sideradas, hirtas e hostis, contidas na sua força desmedida pela mão inexorável dum Deus criador e dominador. Tudo parado e mudo. Apenas se move e se faz ouvir o coração no peito, inquieto, a anunciar o começo duma grande hora. De repente, rasga a crosta do silêncio uma voz de franqueza desembainhada:
- Para cá do Marão, mandam os que cá estão!...
Sente-se um calafrio. A vista alarga-se de ânsia e de assombro. Que penedo falou? Que terror respeitoso se apodera de nós?
Mas de nada vale interrogar o grande oceano megalítico, porque o nume invisível ordena:
- Entre!
A gente entra, e já está no Reino Maravilhoso. 
A autoridade emana da força interior que cada qual traz do berço. Dum berço que oficialmente vai de Vila Real a Chaves, de Chaves a Bragança, de Bragança a Miranda, de Miranda a Régua.
Um mundo! Um nunca acabar de terra grossa, fragosa, bravia, que tanto se levanta a pino num ímpeto de subir ao céu, como se afunda nuns abismos de angústia, não se sabe por que telúrica contrição.
Terra-Quente e Terra-Fria. Léguas e léguas de chão raivoso, contorcido, queimado por um sol de fogo ou por um frio de neve. Serras sobrepostas a serras. Montanhas paralelas a montanhas. Nos intervalos, apertados entre os rios de água cristalina, cantantes, a matar a sede de tanta angústia. E de quando em quando, oásis da inquietação que fez tais rugas geológicas, um vale imenso, dum húmus puro, onde a vista descansa da agressão das penedias. Mas novamente o granito protesta. Novamente nos acorda para a força medular de tudo. E são outra vez serras, até perder de vista.
Não se vê por que maneira este solo é capaz de dar pão e vinho. Mas dá. Nas margens de um rio de oiro, crucificado entre o calor do céu que de cima o bebe e a sede do leito que de baixo o seca, erguem-se os muros do milagre. Em íngremes socalcos, varandins que nenhum palácio aveza, crescem as cepas como os manjericos às janelas. No Setembro, os homens deixam as eiras da Terra-Fria e descem, em rogas, a escadaria do lagar de xisto. Cantam, dançam e trabalham. Depois sobem. E daí a pouco há sol engarrafado a embebedar os quatro cantos do mundo.
A terra é a própria generosidade ao natural. Como num paraíso, basta estender a mão.
Bata-se a uma porta, rica ou pobre, e sempre a mesma voz confiada nos responde:
- Entre quem é! Sem ninguém perguntar mais nada, sem ninguém vir à janela espreitar, escancara-se a intimidade duma família inteira. O que é preciso agora é merecer a magnificência da dádiva.
Nos códigos e no catecismo o pecado de orgulho é dos piores. Talvez que os códigos e o catecismo tenham razão. Resta saber se haverá coisa mais bela nesta vida do que o puro dom de se olhar um estranho como se ele fosse um irmão bem-vindo, embora o preço da desilusão seja às vezes uma facada.
Dentro ou fora do seu dólmen (maneira que eu tenho de chamar aos buracos onde vive a maioria) estes homens não têm medo senão da pequenez. Medo de ficarem aquém do estalão por onde, desde que o mundo é mundo, se mede à hora da morte o tamanho de uma criatura.
Acossados pela necessidade e pelo amor da aventura emigram. Metem toda a quimera numa saca de retalhos, e lá vão eles. Os que ficam, cavam a vida inteira. E, quando se cansam, deitam-se no caixão com a serenidade de quem chega honradamente ao fim dum longo e trabalhoso dia. 

O nome de Trasmontano, que quer dizer filho de Trás-os-Montes, pois assim se chama o Reino Maravilhoso de que vos falei.

Miguel Torga, Excerto do livro "Portugal", 1950.
 
Trás-os-Montes e Alto Douro

Uma das onze províncias tradicionais portuguesas criadas em 1936, mas formalmente extintas em 1976, a região de Trás-os-Montes e Alto Douro situa-se no Nordeste de Portugal continental, correspondendo aos distritos de Vila Real e Bragança, bem como a quatro concelhos do distrito de Viseu e a um concelho do distrito da Guarda.

Faz fronteira com a Espanha, a norte e a leste, e confina com as províncias da Beira Alta, a sul, e do Douro Litoral e do Minho, a oeste.

O relevo desta região é formado por um conjunto de altas plataformas onduladas cortadas por vales e bacias muito profundas. O seu clima é mediterrânico com influência continental, mais agreste e frio nas áreas planálticas, mais quente nas áreas profundas encaixadas do Douro.

Além da vinha - em especial a vinha da Região Demarcada do vinho do Porto, onde a paisagem se individualiza com as suas imensas encostas e quintas -, produz culturas como o centeio, a cevada e a batata.

Esta região apresenta, nos seus principais pratos típicos, o pão e as bolas; bacalhau, alheiras, presunto, cabrito e vitela, com destaque para a posta mirandesa; peixes de rio, como a truta; grelos, feijão, cogumelos e castanhas; folares, queijadas e bolos de mel, entre outros.

Trás-os-Montes e Alto Douro foi desde muito cedo objeto de explorações mineiras. O ouro foi o primeiro metal a ser explorado, depois o estanho e o chumbo. Deficientemente servida por vias de comunicação, esta zona não tem sido um polo atrativo para a implantação de indústrias.

A região de Trás-os-Montes é uma das mais ricas em achados arqueológicos de toda a ordem e de todas as épocas. São de assinalar as estações do paleolítico da serra do Brunheiró e Bóbeda, bem como dólmenes e povoados do período Neoeneolítico. A famosa ponte de Trajano, por seu turno, é um dos melhores exemplares da arquitetura romana em Portugal.

Esta região possui um folclore muito rico, patente, por exemplo, nos seus dialetos (sendinês, mirandês, guadramilês e riodonorês). A música tradicional é uma das mais relevantes do país. São de um lirismo extremamente sóbrio e penetrante, quer os hinos sagrados e cânticos de trabalho, quer os poemas de amor e de morte em que se expande a alma do povo duriense e transmontano.

Trás-os-Montes e Alto Douro tem sido cenário e temática, berço e musa inspiradora de algumas individualidades notáveis, como, por exemplo, Guerra Junqueiro (1850–1923), Miguel Torga (1907–1995), Trindade Coelho (1861–1908) e Camilo Castelo Branco (1825–1890), entre outros. (daqui)

 
Miguel Torga (daqui)
 

Miguel Torga  
[S. Martinho de Anta/Vila Real, 1907 - Coimbra, 1995]  

Miguel Torga é o nome literário do médico Adolfo Rocha. Poeta, ensaísta, dramaturgo, romancista e contista.

Cultivou a escrita autobiográfica num extenso Diário (escrito entre 1932 e 1994) e nos seis Dias de A Criação do Mundo (publicados em 1937, 1938, 1939, 1974 e 1981), obra que o autor viria a definir como «crónica, romance, memorial e testamento». Nela narra-se a luta do menino orgulhoso contra a pobreza de um Trás-os-Montes rural que o quer escravizado, a recusa em ser criado de burgueses (Porto, 1917) e a rápida desistência de candidato a seminarista (Lamego, 1918), aspiração logo abandonada por quem já na altura manifestava relutância por qualquer género de gregarismo.

A fase crucial da sua puberdade, com a descoberta da humilhação pessoal e do instinto sexual, decorre no Brasil (1920-1925), a capinar, laçar cavalos e apanhar café na Fazenda de Santa Cruz, Minas Gerais, propriedade de um tio paterno.

Completou o Liceu em Coimbra, em apenas três épocas, e graças às mesadas que o tio ia enviando do Brasil, compensação pelo duro trabalho já realizado para ele, completou o curso de Medicina nesta cidade (1928-1933), com vinte e seis anos. Aparecem também descritos nesta obra os seus primeiros contactos com o mundo literário, nomeadamente representado pelo grupo coimbrão da revista Presença (1927-1940), de cujo grupo fundador fez parte e que se traduziram na aparição do seu primeiro livro poético, Ansiedade (1928) – expurgado, como boa parte da sua poesia da juventude, na Antologia de 1981 –, e na afirmação de uma personalidade humana marcada por um «individualismo feroz» que o levaria à polémica dissidência na revista, provocando também a cisão do grupo fundador, e à criação da revista Sinal em 1930, ano da publicação de Rampa, o seu segundo poemário.

O Diário inicia-se em 1932 precisamente com uma nota da sua passagem pela Universidade («Passo por esta Universidade como cão por vinha vindimada. Nem eu reparo nela nem ela repara em mim»), indício do desprezo por uma instituição elitista envelhecida e politicamente servil. É nesta altura que lança novos livros poéticos (Tributo, 1931 e Abismo, 1932), época marcada, aliás, pela sua participação em movimentos sediciosos e pelo relacionamento com intelectuais de notória filiação antiditatorial. Em 1934, após breves períodos de exercício da medicina em S. Martinho de Anta e em Vila Nova de Miranda do Corvo (Coimbra), Adolfo Rocha irá perfilhar o pseudónimo Miguel Torga (A Terceira Voz), identificando-se com aquele arbusto espontâneo, resistente e florido em chão agreste e com uma tradição combativa e heterodoxa espanhola (Miguel de Molinos, Miguel de Cervantes, Miguel de Unamuno).

A Guerra Civil de Espanha (1936-1939) – cujos avatares e desenlace foram seguidos neste lado da fronteira com angustiada aflição pelos intelectuais partidários da República – constituiu sem dúvida um abalo afetivo e um reativo para a revolta e a definitiva conformação do ideário democrático do poeta, assim como um motivo inspirador de boa parte dos seus Poemas Ibéricos (1952, 1965), essa lição de amor peninsular, e do conto «Requiem» (Pedras Lavradas, 1951), da mesma maneira que a subsequente repressão exercida pelo regime de Franco seria denunciada nas páginas de intervenção cívica de Fogo Preso (escritas entre 1945 e 1976 e publicadas nesta última data por óbvios motivos de censura), e a indeterminação submissa de parte do povo peninsular no relato «O Covarde» (Pedras Lavradas).

Entretanto, a sua atividade literária não decresceu: a coletânea poética O Outro Livro de Job e a fundação da revista Manifesto são anteriores à primeira viagem à Europa, em 1937. É durante este percurso que constatará a degradação da Espanha em guerra, esmagada já sob um regime de terror que glorifica Franco em retratos e dísticos estampados nos muros das cidades.

De novo em Portugal, cursa em 1938, com trinta e um anos, a especialidade de otorrinolaringologia, com Ferreira da Costa. Estabelecido em Leiria, publica a denúncia dos horrores presenciados na Europa das Ditaduras em O Quarto Dia. O volume é logo apreendido (1939) e o autor detido pela PIDE, sob uma vaga acusação de comunismo que incluía a suspeita de receção de dinheiro de Moscovo para a compra de instrumental cirúrgico. Transferido para o Limoeiro e para o Aljube de Lisboa e libertado, sem julgamento, poucos meses depois, publicou o célebre Bichos (1940), livro que integra contos parcelarmente concebidos na cadeia.

Os magistrais Contos da Montanha – que o autor deu a lume um ano antes da saída das narrativas que conformam Rua (1942) –, interpretados pelos órgãos de repressão cultural como denúncia local das penosas condições de vida do nordeste, foram igualmente apreendidos em Coimbra – o médico tinha aberto o consultório que viria a ser centro de conspiração contra o regime no Largo da Portagem – por ordem do censor Salvação Barreto. O escritor iludiu a proibição enviando um maço de provas tipográficas para o Rio de Janeiro, de modo que o livro regressou ao país e circulou clandestinamente até 1969. O poema dramático Sinfonia (1947) – publicado após os dramas naturalistas Terra Firme e Mar (1941) e a parábola dramática O Paraíso (1949) – sofreu idêntica punição.

A esposa, a lusista belga Andrée Crabbé Rocha, com quem casara civilmente em 1940, foi expulsa, devido às suas atitudes democráticas, da Faculdade de Letras de Lisboa, onde era assistente, em Junho de 1947. O médico, por sua vez, era demitido, sem qualquer justificação, do Serviço de Saúde da Casa dos Pescadores da Figueira da Foz.

As dificuldades financeiras, contudo, não vergaram a exemplar combatividade do autor: entre 1943 e 1950 publicou várias coletâneas poéticas (Lamentação, 1943; Libertação, 1944; Odes, 1946; Nihil Sibi, 1948). Estamos perante a época da mais fecunda criação: nela editaram-se os romances O Senhor Ventura (relato das aventuras de um emigrante português na China, 1943) e Vindima (denúncia da exploração do vindimador no Douro, 1945), a sua obra prima, Novos Contos da Montanha (1944), a peça O Paraíso e o livro de ensaios Portugal (1950), em paralelo com a publicação dos sucessivos volumes do Diário.

Em 1950 foi levantada ao escritor a proibição de saída do país, reiniciando assim as suas viagens a Espanha e a outros países da Europa, coroadas pelo regresso ao Brasil da sua meninice em 1954 (data da aparição da coletânea poética Penas do Purgatório), um ano antes do nascimento de Clara, a sua única filha, e da publicação de Traço de União, volume ensaístico sobre as relações culturais luso-brasileiras. Na altura desta deslocação como convidado ao Congresso de Escritores de São Paulo, a sua obra gozava já do reconhecimento internacional patenteado nas traduções em castelhano, francês, inglês, romeno...

O ano de 1950 marca também a publicação de Cântico do Homem, o poemário de maior empenhamento social do autor e uma das referências culturais do povo português, que começava a ver em Torga um símbolo cívico de oposição ao salazarismo. Oito anos mais tarde foi publicado o livro considerado cimeiro da poética torguiana: Orfeu Rebelde.

Em 1960 foi proposto pela Universidade de Montpellier para Nobel da Literatura. Novamente candidato ao Nobel em 1978, foi objeto nesta data de uma homenagem nacional, comemoração do cinquentenário da sua estreia nas letras.

A escrita do Diário seria continuada até poucos meses antes da sua morte. Nele, e juntamente com a expressão do processo de auto-conhecimento pautado pela constatação da contingência humana e a obsidiante sombra da morte, insere-se a crónica político-social da intra-história da nação e a análise do papel de Portugal na Europa contemporânea. A fase histórica mais notavelmente referenciada é a relativa ao Portugal submerso durante o regime do Estado Novo, com o qual Torga manteve o seu teimoso e continuado braço de ferro como franco-atirador espiritual em prol dos direitos humanos, e à revelação dos seus nefastos efeitos de asfixia e alienação no povo.

Encontram-se referências à participação do escritor em comícios de apoio à candidatura pessoal de Humberto Delgado (Coimbra, Maio, 1968); à assinatura de manifestos coletivos de protesto que caíram indefetivelmente nas mãos da PIDE (Coimbra, Novembro, 1965); à reação de sereno alívio perante a morte do tirano – cuja tipologia psicológica é interpretada com implacável acerto – e à nomeação de Américo Tomás como Presidente da República (Setembro, 1968); à constatação das contradições internas do regime, manifestas numa guerra colonial «fantasma» ao mesmo tempo que não hesita em convocar caricatas eleições legislativas (Outubro, 1969); à consciência do perigoso nacionalismo insurgente verificado nas suas visitas a Angola e Moçambique em 1968; à desconfiança que lhe inspira a Revolução do 25 de Abril mercê do seu antimilitarismo; à inquietação pela perda das marcas da lusitanidade em Macau e Goa, verificada na sua viagem de 1987; à satisfação evidenciada na data da dissolução do Conselho da Revolução, cuja presença tutelar se manteve até Outubro de 1982.

Nas suas páginas, o escritor, encarnação do velho anarquista, manifesta a sua oposição franca a qualquer instituição que prive o indivíduo da liberdade. É esta atitude que explica a sua indignação perante os falhanços sócio-económicos dos sucessivos governos do após 25 de Abril ou a crítica à inconsciência e à corrupção instaladas na classe política, a sua firme oposição à precipitada adesão à Comunidade Europeia, emoldurada pelos lúcidos avisos premonitórios da irresponsabilidade oficial na assinatura do tratado de Maastricht – verdadeiro atentado contra a independência da nação e o último combate que enfrentou a sua rebeldia. Em paralelo manifesta-se o ensaísmo literário e o artista que, cumprindo o preceito socrático, empreende um caminho de autognose expressado em prosa e versos.

Depois de 1981, em que lhe é atribuído o «Prémio Montaigne» da Fundação Alemã F.V.S., recebe o «Camões» (1989, na primeira convocatória), o «Vida Literária» da A.P.E. (também na sua primeira convocatória, 1992). Nesta mesma data é designado Personalidade do Ano 1991 pela Associação de Imprensa Estrangeira em Portugal e é-lhe outorgado o «Prémio de Literatura Écureuil», do Salão do Livro de Bordéus.

A partir de 1986, em que foi detetada uma doença incurável num corpo já combalido e foi submetido a mais outra intervenção cirúrgica, passou períodos internado no Hospital da Universidade e no I.P.O. de Coimbra, onde acabaria por entregar, impoluto, o seu «branco penacho de poeta» numa manhã invernal, a de 17 de Janeiro de 1995, com 87 anos. Foi nestes locais que redigiu, em parte, o vol. XVI do Diário, corajoso livro viril de adeus e exaltação do ato de viver, pautado por uma ironia sadia e sempre iluminado pela esperança no Homem, valores que levaram a Associação Internacional de Críticos Literários a laureá-lo em 1994.

O seu multitudinário funeral – de Coimbra ao cemitério da sua terra natal – foi clara expressão da dor do povo, enquanto a imprensa nacional e estrangeira, consciente da importância histórica da perda, divulgou a notícia da morte, acompanhada de depoimentos e comentários bibliográficos.

A publicação do Cântico em Honra de Miguel Torga, em 1996, supõe a continuidade da admiração, agora expressa por 85 poetas contemporâneos portugueses. Está traduzido em alemão, castelhano, chinês, francês, inglês, japonês, norueguês, polaco, romeno, servo-croata e sueco. 

 
in Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. IV, Lisboa, 1997.
  

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

"Outono" - Poema de Miguel Torga


 
Auguste-Émile Pinchart (French painter and designer, 1842–1924),
"La Libellule" ("The Dragonfly").



Outono

 
Tarde pintada
Por não sei que pintor.
Nunca vi tanta cor
Tão colorida!
Se é de morte ou de vida,
Não é comigo.
Eu, simplesmente, digo
Que há tanta fantasia
Neste dia,
Que o mundo me parece
Vestido por ciganas adivinhas,
E que gosto de o ver, e me apetece
Ter folhas, como as vinhas. 

1966

Miguel Torga, do livro: "Diário X", 
 Gráfica de Coimbra, 1968.
1.ª edição, 198 páginas. 
 

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

"Canção para a minha mãe" - Poema de Miguel Torga

 

 
Moïse Kisling
 (Peintre français d'origine polonaise, 1891-1953), 
La mère et ses enfants, 1917.
 

Canção para a minha mãe


E sem um gesto, sem um não, partias!
Assim a luz eterna se extinguia!
Sem um adeus, sequer, te despedias,
Atraiçoando a fé que nos unia!

Terra lavrada e quente,
Regaço de um poeta criador,
Ias-te embora antes do sol poente,
Triste como semente sem calor!

Ias, resignada, apodrecer
À sombra das roseiras outonais!
Cor da alegria, cântico a nascer,
Trocavas por ciprestes pinheirais!

Mas eu vim, deusa desenganada!
Vim com este condão que tu conheces,
E toquei essa carne macerada
Da vida palpitante que mereces!

Porque tu és a Mãe!
Pariste um dia aos gritos e aos arrancos,
E parirás ainda pelo tempo além,
Mesmo ser madre e de cabelos brancos!

És e serás a faia que balança ao vento
E não quebra nem cede!
Se te pediu a paz do esquecimento,
Também a força de lutar te pede!

Respira, pois, seiva da duração,
Nos meus pulmões até, se te cansaste;
Mas que eu sinta bater o coração
No peito onde em menino me embalaste.
 
S. Martinho de Anta, 13 de julho de 1946

Miguel Torga
, Diário III,
 in “Diário. Vols. I a IV”. 5ª ed.,
Lisboa: Dom Quixote, 1999.
 

quinta-feira, 5 de junho de 2025

"O Narciso" - Poema de Miguel Torga


Dirck van Baburen (Dutch painter, c. 1595–1624), 
 "Narcissus Gazing at His Reflection", Private collection.


O Narciso

 
O desenho impreciso
De cada rosto humano, refletido!
Mas, o velho Narciso
Continua fiel e debruçado
Sobre o ribeiro...
Porque há de ver-se inteiro
Quem todo se deseja revelado?

Devorador da vida lhe chamaram,
A ele, artista, sábio e pensador,
Que denodadamente se procura!

À movediça e trágica tortura
De velar dia e noite a líquida corrente
Que dilui a verdade,
Quiseram-lhe juntar a permanente
Ironia
Desse labéu de pérfida maldade
Que turva mais ainda a imagem fugidia...
 
 
Miguel Torga, Cântico do homem, 1950.
Poesia Completa (Dom Quixote, 2000), p. 388.
 

"Narcissus at the Spring" by Jan Roos (Flemish artist, 1591–1638)
depicts Narcissus gazing at his own reflection.


Narciso
 
Narciso era filho de Cefísio, rei da Fócida, e da ninfa Liríope, que era filha do Oceano e de Tétis, sua mulher. Quando já era jovem, era tão formoso, que todas as ninfas o amavam e desejavam, sem que ele se deixasse prender por nenhuma delas. A ninfa Eco, filha do Ar e da Terra, que vivia nas margens do Rio Cefísio, não tendo conseguido seduzi-lo, morreu de amor.
Tirésias, adivinho famoso, preveniu os familiares de Narciso de que este só viveria enquanto não chegasse a contemplar a sua imagem. E um dia, de regresso de uma longa caçada, sentou-se à beira de uma fonte para beber e refrescar-se e viu-se no espelho da água. Ficou tão enamorado de si próprio, que morreu extasiado.
Foi metamorfoseado em flor, à qual foi dado o seu nome. (daqui)
 
 
Jan Cossiers (Flemish painter and draughtsman, 1600–1671),
Narcissus, 17th century, Museo del Prado.
 

"O valor do homem é determinado, em primeira linha, pelo grau e pelo sentido
em que se libertou do seu ego."

Albert Einstein (Nobel de Física, 1921)
 
 
Gerard van Kuijl (Dutch Golden Age painter, 1604–1673),
Narcissus, c. 1645. John and Mable Ringling Museum of Art
 

domingo, 25 de maio de 2025

"Depoimento" - Poema de Miguel Torga


 

Depoimento

 
Foi na vida real como nos sonhos:
Nunca pisei um chão de segurança.
Procuro na lembrança
Um sólido caminho percorrido,
E vejo sempre um barco sacudido
Pelas ondas raivosas do destino.
Um barco inconsciente de menino,
Um barco temerário de rapaz,
E um barco de homem, que já não domino
Entre os rochedos onde se desfaz.

Mas o céu era belo
Quando à noite o seu dono o acendia;
E era belo o sorriso da poesia,
E belo o amor, dragão insatisfeito;
E era belo não ter dentro do peito
Nem medo, nem remorsos, nem vaidade.
Por isso digo que valeu a pena
A dura realidade
Desta viagem trágico-terrena
Sempre batida pela tempestade.


Miguel Torga
, Orfeu Rebelde, 1958.
Antologia Poética, 2.ª edição, Coimbra, 1985.

domingo, 20 de abril de 2025

"Páscoa" - Poema de Miguel Torga


Raphael (Italian painter and architect of the High Renaissance, 1483 – 1520),
 
Páscoa


Um dia de poemas na lembrança
(Também meus)
Que o passado inspirou.
A natureza inteira a florir
No mais prosaico verso.
Foguetes e folares,
Sinos a repicar,
E a carícia lasciva e paternal
Do sol progenitor
Da primavera.
Ah, quem pudera
Ser de novo
Um dos felizes
Desta aleluia!
Sentir no corpo a ressurreição.
O coração,
Milagre do milagre da energia,
A irradiar saúde e alegria
Em cada pulsação.


Miguel Torga
, in Diário XVI
 

terça-feira, 1 de outubro de 2024

"O lavrador percorrendo a vinha" - Poema de António Cabral



Elin Danielson-Gambogi
 (Finnish painter, 1861–1919), In the Vineyard II, 1898. 


O lavrador percorrendo a vinha

 
Ei-lo no meio da vinha, atento,
como se ouvisse o próprio coração.
Uma vide que toca é um músculo vibrando;
um cacho que descobre é um pensamento novo.

A terra ondula nos seus passos
e fez dele um arbusto sonhador.
Quando os seus olhos pousam num rebento
duas gotas de orvalho se iluminam.

Que ventos germinam além da montanha?
Que nuvens negras ou trovões?
Ele não sabe. Tem tempo de saber.
Esta manhã de Abril é boa, clara.

Alegremente o sol arde no rio:
amam-se as rolas no pinhal.
Ele percorre a vinha e colhe
um louro cacho de esperanças.


António Cabral
, "Poemas durienses"
 

Elin Danielson-Gambogi, In the Vineyard, 1898.
 
 
Sete notas para uma sinfonia

1

Só saberás a música do vinho,
quando ouvires o sol,
dedo a dedo na vinha,
esta guitarra.

2

No Douro só o nome é de ouro.
As verdades são mais ou menos assim.

3

Curvam-se os homens sob os cestos de uvas:
uma atitude de reverência.

4

Mudam-se os tempos, não muda a vindima:
a mesma lua sobre o pensamento.

5

Os homens põem capelas no cimo dos montes
para que os ouçam à distância.
Eis uma forma elegante
de dialogar com os mortos.

6

Se fores ao Tua,
esquece-te dos pronomes possessivos.

7

Certamente grandioso foi o pensamento
que antecedeu este rio.
Ainda se veem as escarpas e abundantes nevoeiros.
E as ideias perfilam-se em enormes socalcos.


António Cabral
, "Poemas durienses"

 
1. Só saberás a música do vinho, quando ouvires o sol, dedo a dedo na vinha, esta guitarra. 2. No Douro só o nome é de ouro. As verdades são mais ou menos assim. 3. Curvam-se os homens sob os cestos de uvas: uma atitude de reverência. 4. Mudam-se os tempos, não muda a vindima: a mesma lua sobre o pensamento. 5. Os homens põem capelas no cimo dos montes para que os ouçam à distância. Eis uma forma elegante de dialogar com os mortos. 6. Se fores ao Tua, esquece-te dos pronomes possessivos. 7. Certamente grandioso foi o pensamento que antecedeu este rio. Ainda se vêem as escarpas e abundantes nevoeiros. E as ideias perfilam-se em enormes socalcos.

© António Cabral - Todos os direitos reservados. Ler mais em: https://www.antoniocabral.com.pt/sete-notas-para-uma-sinfonia/ | ANTÓNIO CABRAL
i-lo no meio da vinha, atento, como se ouvisse o próprio coração. Uma vide que toca é um músculo vibrando; um cacho que descobre é um pensamento novo. A terra ondula nos seus passos e fez dele um arbusto sonhador. Quando os seus olhos pousam num rebento duas gotas de orvalho se iluminam. Que ventos germinam além da montanha? Que nuvens negras ou trovões? Ele não sabe. Tem tempo de saber. Esta manhã de Abril é boa, clara. Alegremente o sol arde no rio: amam-se as rolas no pinhal. Ele percorre a vinha e colhe um louro cacho de esperanças.

© António Cabral - Todos os direitos reservados. Ler mais em: https://www.antoniocabral.com.pt/o-lavrador-percorrendo-a-vinha/ | ANTÓNIO CABRAL

segunda-feira, 10 de junho de 2024

"Segundo poema da primavera" - Poema de Miguel Torga


   
Gregorio Prieto (Pintor español asociado a la generación del 27, 1897–1992),
Paisaje de Primavera, s.d., Museo Gregorio Prieto.
 

Segundo poema da primavera
 
 
A vida é generosa, quando quer.
Se gosta de quem passa.
Manda que o vento, lírico, estremeça
E lhe peneire pétalas nos ombros.

Cobre-o de amor que voa e que fecunda…

Semeado de rosas desfolhadas,
O coração do homem, fraga dura,
Transforma-se na terra das lavradas
Onde cresce ternura.


Miguel Torga, Diário IV,
Coimbra, 3ª edição, p. 193. 
 
 

Gregorio Prieto, Árbol en jardín inglés, s.d., Museo Gregorio Prieto.


Vento da primavera —
Chegam do bosque em repouso
notícias de flores.


Teruko Oda
(Haicai / Haikai / Haiku)
 

sexta-feira, 31 de maio de 2024

"Memorando" - Poema de Miguel Torga


Jakub Schikaneder (Bohemian painter, 1855–1924), Murder in the House, 1890,


Memorando


Senhor,
Se o meu tempo é de campos de concentração,
De bombas de hidrogénio e de maldição,
E de cruéis tiranos
Com pelos nos ouvidos e no coração,
Que ando eu a fazer aqui,
Funâmbulo de angústia
Com miragens de esperança?
Pois que não há lugar neste universo imundo
Para bucólicos prados de trigo e calhandras,
E foguetes festivos,
E chefes que eu eleja e destitua,
Corta lá no canhenho do destino
A humana condição de ser poeta!
Sinto em nome de todos que se calam
As vergastadas de absurdo e medo
Que consentes na alma dos mortais.
E como nada posso, senão isto:
Protestar, protestar,
Desta maneira inútil que tu vês
E o rebanho pressente,
Risco na ardósia dos obreiros laicos,
Que procuram sentido à tua obra,
O sagrado condão de dedilhar
Nas grades da gaiola que fizeste
Quando eras rapaz
E mal sonhavas quanto mal fazias.
Jovem deus criador,
Assombrado de cada imperfeição
Do barro da olaria,
Ias doirando esses desenganos
Com milagres gratuitos e originais.
Saía-te das mãos, cercada de incertezas,
A redonda amargura deste mundo;
Que remédio senão alguns harpistas
A entoar harmonias ideais!
Mas o tempo passou. Envelheceste.
Morreu-te a fantasia.
E queres a repressão dos que te negam
Ou te corrigem.
Eu e outros, perdidos neste inferno
Onde nenhum Plutão nos ouve ou nos tolera,
Somos a consciência atormentada
Pelos anjos da guarda que te servem,
A trair os irmãos, tão condenados
Como eles.
Por caridade, pois,
E divina lisura,
Apaga lá no céu
A luz que representa
A vida destas pobres criaturas
Cuja missão traíste, por decrepitude.
Bardos da luz que punham nos teus olhos
E da graça do mágico universo
Que generosamente
Como um pomo irreal viam na tua mão,
Rangem agora os dentes de revolta
A falar de justiça,
De igualdade,
E de amor,
Coisas que já nem tu
Sabes que valores são.
Risca! Risca no livro etéreo
O infeliz e belo
Nome de Orfeu!

Coimbra, 16 de dezembro de 1952 

Miguel Torga
, Diário VI (1953) 
 

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

"Poema melancólico a não sei que mulher" - Poema de Miguel Torga


 
Raimundo de Madrazo y Garreta (Spanish painter, 1841–1920),
Young Lady with a Mask and Glass of Absinthe, Unknown date.
 

Poema melancólico a não sei que mulher 
 
 
Dei-te os dias, as horas e os minutos
Destes anos de vida que passaram;
Nos meus versos ficaram
Imagens que são máscaras anónimas
Do teu rosto proibido;
A fome insatisfeita que senti
Era de ti,
Fome do instinto que não foi ouvido.

Agora retrocedo, leio os versos,
Conto as desilusões no rol do coração,
Recordo o pesadelo dos desejos,
Olho o deserto humano desolado,
E pergunto porquê, por que razão
Nas dunas do teu peito o vento passa
Sem tropeçar na graça
Do mais leve sinal da minha mão... 


Miguel Torga
, in 'Diário VII'
 
 
Raimundo de Madrazo y Garreta, Preparing for the Costume Ball, Unknown date,
 Private collection.
 
 
"Mulheres sem charme são como poetas que não leem."

"Les femmes sans charme sont comme les poètes qu'on ne lit pas."
 
Astolphe de Custine, in "Le monde comme il est" - Página 101; 
 Publicado por E. Renduel, 1835.


Raimundo de Madrazo y Garreta, Aline with a mask, Unknown date,
National Museum of Fine Arts of Cuba.


"Todo mundo diz que as mulheres são como a água. Penso que é porque a água é a fonte da vida e se adapta ao ambiente. Assim como as mulheres, a água dá de si mesma em todo lugar aonde vai para nutrir a vida."
 
  Xinran, As Boas Mulheres da China. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.