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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

"Arte poética" - Poema de José Luís Peixoto



Hans Thoma (German painter, 1839–1924), 'In the Hammock', 1876


arte poética


o poema não tem mais que o som do seu sentido,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é esculpido de sentidos e essa é a sua forma,
poema não se lê poema, lê-se pão ou flor, lê-se erva
fresca e os teus lábios, lê-se sorriso estendido em mil
árvores ou céu de punhais, ameaça, lê-se medo e procura
de cegos, lê-se mão de criança ou tu, mãe, que dormes
e me fizeste nascer de ti para ser palavras que não
se escrevem, lê-se país e mar e céu esquecido e
memória, lê-se silêncio, sim tantas vezes, poema lê-se silêncio,
lugar que não se diz e que significa, silêncio do teu
olhar doce de menina, silêncio ao domingo entre as conversas,
silêncio depois de um beijo ou de uma flor desmedida, silêncio
de ti, pai, que morreste em tudo para só existires nesse poema
calado, quem o pode negar?, que escreves sempre e sempre, em
segredo, dentro de mim e dentro de todos os que te sofrem.
o poema não é esta caneta de tinta preta, não é esta voz,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é quando eu podia dormir à tarde nas férias
do verão e o sol entrava pela janela, o poema é onde eu
fui feliz e onde eu morri tanto, o poema é quando eu não
conhecia a palavra poema, quando eu não conhecia a
letra p e comia torradas feitas no lume da cozinha do
quintal, o poema é aqui, quando levanto o olhar do papel
e deixo as minhas mãos tocarem-te, quando sei, sem rimas
e sem metáforas, que te amo, o poema será quando as crianças
e os pássaros se rebelarem e, até lá, irá sendo sempre tudo.
o poema sabe, o poema conhece-se e, a si próprio, nunca se chama
poema, a si próprio, nunca se escreve com p, o poema dentro de
si é perfume e é fumo, é um menino que corre num pomar para
abraçar o seu pai, é a exaustão e a liberdade sentida, é tudo
o que quero aprender se o que quero aprender é tudo,
é o teu olhar e o que imagino dele, é solidão e arrependimento,
não são bibliotecas a arder de versos contados porque isso são
bibliotecas a arder de versos contados e não é o poema, não é a
raiz de uma palavra que julgamos conhecer porque só podemos
conhecer o que possuímos e não possuímos nada, não é um
torrão de terra a cantar hinos e a estender muralhas entre
os versos e o mundo, o poema não é a palavra poema
porque a palavra poema é um palavra, o poema é a
carne salgada por dentro, é um olhar perdido na noite sobre
os telhados na hora em que todos dormem, é a última
lembrança de um afogado, é um pesadelo, uma angústia, esperança.
o poema não tem estrofes, tem corpo, o poema não tem versos,
tem sangue, o poema não se escreve com letras, escreve-se
com grãos de areia e beijos, pétalas e momentos, gritos e
incertezas, a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
a palavra poema existe para não ser escrita como eu existo
para não ser escrito, para não ser entendido, nem sequer por
mim próprio, ainda que o meu sentido esteja em todos os lugares
onde sou, o poema sou eu, as minhas mãos nos teus cabelos,
o poema é o meu rosto, que não vejo, e que existe porque me
olhas, o poema é o teu rosto, eu, eu não sei escrever a
palavra poema, eu, eu só sei escrever o seu sentido.


José Luís Peixoto, in 'A Criança em Ruínas' 
 


Hans Thoma, 'Under the elderberry,' 1871, Städel Museum


mil estrelas no colo


mãe, eu sei que ainda guardas mil estrelas no colo.
eu, tantas vezes, ainda acredito que mil estrelas são
todas as estrelas que existem.


José Luís Peixoto, in 'A Casa, a Escuridão'

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

"Ode ao Tempo" - Poema de Pablo Neruda


 
Hans Thoma (German painter, 1839–1924), 'A Peaceful Sunday', 1876
(The artist's mother, and an uncle), Kunsthalle Hamburg



Ode ao Tempo


A tua idade dentro de ti
crescendo,
a minha idade dentro de mim
andando.
O tempo é resoluto,
não faz soar o sino,
cresce e caminha
por dentro de nós,
aparece

no olhar
e junto às castanhas
queimadas dos teus olhos
um filamento, a pegada
de um minúsculo rio,
uma estrelinha seca
subindo para a tua boca.
Nos teus cabelos
enreda o tempo
os seus fios,
mas no meu coração
como uma madressilva
está a tua fragrância,
incandescente como o fogo.
Envelhecer vivendo
é belo
como tudo o que vivemos.
Cada dia
para nós
foi uma pedra transparente,
cada noite uma rosa negra,
e este sulco no meu ou no teu rosto
é uma pedra ou uma flor,
recordação de um relâmpago.
Gastaram-se-me os olhos na tua formosura
mas tu és os meus olhos.
Sob os meus beijos talvez tenha fatigado
os teus seios,
mas todos viram na minha alegria
o teu resplendor secreto.
Amor, o que importa
é que o tempo,
o mesmo que ergueu como duas chamas
ou espigas paralelas
o meu corpo e a tua doçura,
amanhã os mantenha
ou os desgarre
e com os seus mesmos dedos invisíveis
apague a identidade que nos separa
dando-nos a vitória
de um único ser final sob a terra.

1956

Pablo Neruda
, in 'Odes Elementares', 
Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1977.
'Tradução de Luis Pignatelli
 
 
Hans Thoma, 'Summer' (Landscape near Karlsruhe), 1891
 

 Ode
 
Por ode entende-se toda a composição poética que se relacione com o género lírico e que, cronologicamente, se liga a uma origem na poesia clássica grega.
O seu significado poderá, simplesmente, ser traduzido por "canção", levando a concluir que a ode, de início, seria um poema destinado ao acompanhamento musical, como forma de canto, individual ou em grupo - coro, canto coral. 

Relativamente aos temas que normalmente eram tratados nas odes, poder-se-á dizer que eram os mais variados, embora seja de salientar que eram sempre desenvolvidos através de pensamentos sublimes, entusiasticamente apresentados no seu estilo e linguagem castiça. 

Do grupo de cultores deste género literário de origem grega destaca-se, sobretudo, os nomes de Safo, Alceu, Anacreonte e Píndaro, tendo este último desenvolvido uma estrutura própria nas suas odes que reconhecidamente se distingue por ser aquela que não só mantém vivo o antigo carácter musical do género, como apresenta uma forma que poderá ser considerada o padrão para as bases da literatura europeia. 

Através do poeta romano Horácio chega até nós esta ode de origem grega, embora adaptada e alterada em relação à musicalidade (que com Horácio se torna quase nula) e ao ritmo que com ele apresentava uma flexibilidade e uma fluência que melhor se adaptava ao génio da língua latina. Apreendendo na perfeição os metros deste género grego, Horácio tornou-se, assim, no principal veículo de transmissão do fundo e da forma da ode - tal como hoje se conhece - para as chamadas modernas literaturas nacionais. 

Analisando em profundidade a ode horaciana vê-se que o seu conteúdo se pode distribuir tematicamente pelas chamadas odes em cívicas - que fazem, sobretudo, a exaltação dos cidadãos -, odes pastoris - as que têm como motivo central os encantos da vida rústica -, odes amorosas, báquicas ou anacreônticas - as que cantam as alegrias da existência humana, física -, e as odes privadas - aquelas que versam assuntos de natureza privada, particular e que, normalmente, são dirigidas a amigos ou familiares, onde o poeta desenvolve considerações de ordem variada, nomeadamente filosóficas ou morais. 

O conhecimento e o apreço da ode em Portugal é feito exatamente através da ode de Horácio, de tal forma apreciada que o Renascimento (século XVI) português desde logo manifestou extrema inclinação e gosto pelo cultivo deste género literário. Nomes como Sá de Miranda, António Ferreira e André Falcão de Resende tomaram a Ode horaciana como modelo artístico, imitando-lhe o ritmo, embora, obviamente, atualizando-lhe os temas tratados. 

Mais tarde, também o Neoclassicismo (Século XVIII) prova que aproveita o exemplo e a experiência da ode quinhentista do Renascimento para cantar os seus temas. Daqui se destacam os nomes de Reis Quinta (Lisboa, 1728-1770), Cruz e Silva (Lisboa, 1731 - Rio de janeiro, 1799) e Correia Garção, tendo este último aproveitado ao máximo o exemplo horaciano chegando mesmo a ultrapassá-lo, criando até uma nova categoria: a ode sacra, sempre dedicada a um santo patrono ou, simplesmente, versando motivos religiosos. 

O prestígio e a importância literária da ode é ainda visível entre os poetas modernos, destacando-se os nomes de António Botto e Miguel Torga que, mesmo conhecendo o esquema clássico das odes, dele aproveitam apenas uma parte, recriando-o quase na totalidade, adaptando e refundindo toda a sua estrutura rítmica. Também Antero de Quental, embora num tom, forma, ritmo e conteúdo radicalmente diferentes, em tempos se serviu da ode para dar nome a uma das suas obras poéticas mais conhecidas e estudadas: "Odes Modernas", publicadas em 1865. 

Sejam elas gregas, romanas (de Horácio), portuguesas renascentistas, neoclássicas ou modernas, as odes marcam, sem dúvida, uma forte linha de orientação no panorama literário desde a poesia clássica. (daqui)
 

sábado, 11 de novembro de 2017

"A Dança e a Alma" - Poema de Carlos Drummond de Andrade



Hans Thoma (German painter, 1839–1924), 'Eight dancing women with bird bodies', 1886



A Dança e a Alma


A dança? Não é movimento,
súbito gesto musical.
É concentração, num momento,
da humana graça natural.

No solo não, no éter pairamos,
nele amaríamos ficar.
A dança – não vento nos ramos:
seiva, força, perene estar.

Um estar entre céu e chão,
novo domínio conquistado,
onde busque nossa paixão
libertar-se por todo lado…

Onde a alma possa descrever
suas mais divinas parábolas
sem fugir à forma do ser,
por sobre o mistério das fábulas.


Carlos Drummond de Andrade, in Obra completa,
 Rio de Janeiro: Aguilar, 1964.