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terça-feira, 28 de abril de 2026

"Os velhos poderosos" - Crónica de Miguel Esteves Cardoso



Louis Moeller (American genre painter, 1855–1930), Conversation, undated,
oil on canvas, New Britain Museum of American Art.



Os velhos poderosos


E se a maneira como olhamos para os velhos for o contrário do que faz sentido?
E se a velhice for um jogo em que todos os anos se arranjam para os concorrentes, cada vez mais velhos, novos impedimentos e novas sobrecargas, exortando-os: "Desiste! Desanima!" Começa para aí aos 50 anos. Apetece logo desanimar. Começam a morrer pessoas de quem gostamos muito. Com surpresas. Más. Começam as doenças. Começam as dores. Começam os preconceitos. Começam os cansaços.
Cada vez que aparece o monstro – o monstro da vida, o monstro da idade com novos encolhimentos da nossa alegria de viver, ele grita-nos "Desanima! Desiste! Ao menos, entristece..." Mas os velhos picam-se. Gostam do jogo. Não é como se houvesse outro para jogar. Sentem-se desafiados: "Ai é? Ai é? Então já vais ver!"
"Então já vais ver, vida madrasta de um raio – ou julgavas que eu me deixava ir abaixo com tão pouco?"
Os velhos engolem os pais mortos, os amigos mortos, as coisas que já não podem fazer, mais a cara que os fita no espelho, com a língua de fora, e as cidades que se tornaram irreconhecíveis, e as paisagens que nunca mais voltarão, e as análises que estão cada vez piores. Engolem, enchem o peito, secam os olhos e apalpam a alma para ver se desanimou. Não desanimou. Ainda lá está. E é assim que ganham força: ainda estou de pé, ainda me rio, ainda me apetece brincar, ainda sou um gatinho.
Os velhos que não desanimaram são muito mais fortes do que os jovens que nunca foram desafiados a desanimar.
Aliás, desanimar com pouco é próprio da juventude: é um luxo deitarmo-nos abaixo com tão pouco. O monstro dos jovens não é o monstro dos velhos. Não é a morte. É pior do que a morte: o monstro dos jovens é a ignorância. E uma ignorância invencível, por muito que se leia e se viva. Leva a grandes desperdícios. Entrega-se de corpo e alma a grandes desânimos, todos redundantes.
Já os velhos sabem. Sabem e mesmo assim não desanimam. Não são só sobreviventes. São vencedores.

Crónica de Miguel Esteves Cardoso, in Jornal 'Público', 9 de Janeiro de 2026 (daqui)
 
 

Louis Moeller, The Dubious Tale, Private collection.



"Embora a memória e o raciocínio sejam duas faculdades essencialmente diferentes,
uma só se desenvolve completamente com a outra."

Jean-Jacques Rousseau (Escritor e filósofo suíço, 1712–1778),
em 'Emílio, ou da Educação', 1762.
 

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

"A Idealização do Amor" - Texto de António Lobo Antunes

 
 
Jan Steen (Dutch Golden Age painter, c. 1626–1679), "An allegory of Love"
 

A Idealização do Amor 

 
Eu estava a pensar na forma como se poderá entender o amor, à luz da minha formação. Da minha perspetiva, depende daquilo que o outro representa, se o outro é um prolongamento nosso, é uma parte nossa, como acontece muitas vezes, ou é uma idealização do eu de que falaria o Freud. No sentido psicanalítico poder-se-ia dizer que o amor corresponde ao eu ideal e, portanto, à procura de qualquer coisa de ideal que nós colocamos através de um mecanismo de identificação projetiva no outro.

Portanto, à luz de uma perspetiva científica, como é apesar de tudo a psicanalítica, o problema começa a pôr-se de uma forma um bocado diferente. Nesse sentido e na medida em que o objeto amado é sempre idealizado e nunca é um objetivo real, a gente, de facto, nunca se está a relacionar com pessoas reais, estamos sempre a relacionarmo-nos com pessoas ideias e com fantasmas. A gente vive, de facto, num mundo de fantasmas: os amigos são fantasmas que têm para nós determinada configuração, ou os pais, ou os filhos, etc.

(...) O amor é uma coisa que tem que tem que ver de tal forma com todo um mundo de fantasmas, com todo um mundo irreal, com todo um mundo inventado que nós carregamos connosco desde a infância, que até poderá haver, eventualmente, amor sem objeto. O amor não será, assim, necessariamente, uma luta corpo a corpo, ou uma luta corporal, mas pode ter que ver realmente com outras coisas, uma idealização, um desejo de encontrar qualquer coisa de perdido, nosso, que é normalmente isso que se passa, no amor neurótico, ou mesmo não neurótico. Quer dizer, é a procura de encontrarmos qualquer coisa que a nós nos falta e que tentamos encontrar no outro e nesse caso tem muito mais que ver connosco do que com a outra pessoa. Normalmente, isso passa-se assim e também não vejo que seja mau que, de facto, se passe assim. 

António Lobo Antunes, in "Diário Popular, 1979"
 

Crónica descosida porque me comovi

O facto é que me interessa muito mais um padeiro que um economista

Se ao menos a gente pudesse viver com as coisas mais simples em vez de recordar as complicadas. Voltar à pobreza do elementar: luz, água, pedra. O avô de alguém que me é querido dizia de uma pessoa boa 'É bom como o pão' e ao lado disto que maior elogio se pode fazer? A nossa língua torna-se maravilhosa com palavras como estas 'É bom como o pão' e lembro-me das mulheres que beijavam o pão duro antes de o deitar fora, da minha avó que se horrorizava ao ver um pão ao contrário: punha-o logo direito a pedir desculpa em silêncio, movendo a boca. Sempre me senti bem nas padarias: o cheiro, o lume, os padeiros enfarinhados que eu achava, acho ainda, serem anjos que se transviaram, de braços cobertos por uma poeira celeste. Tudo neles era branco até as sobrancelhas, as pestanas. O olhar branco também. Os gestos. Não olhos cegos, olhos brancos. E eu à porta a espantar-me. O eco das vozes nos tijolos, dos passos, da lenha no forno. Bom como o pão: ora toma, António. Aprende a escrever à maneira. O facto é que me interessa muito mais um padeiro que um economista. Ou um gestor.

Criaturas que, não sei porquê, me dão pena: economistas, gestores, administradores, diretores, banqueiros. Deve ser triste ganhar dinheiro assim. O que sonhará um economista, a que brincava um gestor em criança? Ou nasceram já crescidos? Imagino-os debaixo do chuveiro, de gravata, a falar ao telemóvel. E sabe-se que são velhos não pelo aspeto mas porque quando contam que arranjaram uma secretária boa se referem a um móvel. O que sonhará um economista posso imaginar mais ou menos, agora o que sonha a mulher de um economista é que me preocupa. Se eu fosse mulher de um economista sonhava com canalizadores ou mecânicos de automóvel, homens que usam as mãos e não leem revistas de golfe nos domingos de chuva. Estou a brincar. Não conheço nenhum economista, aliás. Se conhecesse abria-lhe logo a tampa a fim de espiar o que traz na barriga: cartões de crédito, canetas caras, camisas por medida? Sempre andei mal enjorcado, eu, para desespero da minha mãe: 
 
Andas tão mal enjorcado, filho.
 
António Lobo Antunes, in "Visão, 25.06.2008" (daqui) 


quinta-feira, 8 de agosto de 2019

"A Elisabeth foi-se embora" - Poema de Adília Lopes


Albert Reuss (1889-1976), Woman Reading with Mother-in-Law's Tongue, 1935.
Oil on canvas. Newlyn Art Gallery



A Elisabeth foi-se embora
(com algumas coisas de Anne Sexton)

  
Eu que já fui do pequeno almoço à loucura
eu que já adoeci a estudar morse
e a beber café com leite
não posso passar sem a Elisabeth
porque é que a despediu senhora doutora?
que mal me fazia a Elisabeth
a lavar-me a cabeça
não suporto que a senhora doutora me toque na cabeça
eu só venho cá senhora doutora
para a Elisabeth me lavar a cabeça
só ela sabe as cores os cheiros a viscosidade
de que eu gosto nos shampoos
só ela sabe como eu gosto da água quase fria
a escorrer-me pela cabeça abaixo
eu não posso passar sem a Elisabeth
não me venha dizer que o tempo cura tudo
contava com ela para o resto da vida
a Elisabeth era a princesa das raposas
precisava das mãos dela na minha cabeça
ah não haver facas que lhe cortem o
pescoço senhora doutora eu não volto
ao seu antiséptico túnel
já fui bela uma vez agora sou eu
não quero ser barulhenta e sozinha
outra vez no túnel o que fez à Elisabeth?
a Elisabeth era a princesa das raposas
porque me roubou a Elisabeth?
a Elisabeth foi-se embora
é só o que tem para me dizer senhora doutora
com uma frase dessas na cabeça
eu não quero voltar à minha vida


Adília Lopes,  
“A Elisabeth foi-se embora (com algumas coisas de Anne Sexton)”
 (retirado de “Dobra: Poesia Reunida, 1983-2007”, Assírio e Alvim, 2009) 


Albert Reuss, The artist`s wife, 1937


[A poesia de Adília Lopes é um manifesto pessoalíssimo. Ainda que possa ser lida à luz de muita Mariana Alcoforado ou Sophia, ela acontece profundamente sem previsão, genuína e indomável. O poema de Adília que mais me comove é feito de nervos. Leio “A Elizabeth foi-se embora” como um protesto amoroso, feito de uma perigosidade algo cómica, nessa dimensão trágica que nos pode provocar o riso, e parece-me sobretudo o desamparo de uma mulher que se verá eternamente como menina de bonecas, preparada para brincar com chá encenado e gatinhos. Adília Lopes é a poeta dos gatos e das baratas, não deixa de ser uma certa Alice construindo o seu mundo de fantasia que, como é bom de ver, é feito de tanta aventura e susto. Neste poema, que nos chega tão simples e sem pose, encontro essa menina algo perdida mais do que furiosa, encontro-a tristíssima. Porque isso nos provoca um riso nervoso, não sei. Depois de algumas leituras, a mim, só me faz chorar. Todo o livro “O Decote da Dama de Espadas”, onde se inclui este poema, é lindo. Uma casa de bonecas viva.]

domingo, 6 de novembro de 2016

"Desencontro" - Poema de António Gedeão


Abbott Fuller Graves, Ye Olde Time Drugge Shop, Date unknown, Private collection 



Desencontro


Que língua estrangeira é esta 
que me roça a flor do ouvido,
um vozear sem sentido
que nenhum sentido empresta?
Sussurro de vago tom,
reminiscência de esfinge,
voz que se julga, ou se finge
sentindo, e é apenas som.

Contracenamos por gestos,
por sorrisos, por olhares,
rodeios protocolares,
cumprimentos indigestos,
firmes aperto de mão,
passeios de braço dado, 
mas por som articulado,
por palavras, isso não.
Antes morrer atolado
na mais negra solidão.


Rómulo de Carvalho (pseudónimo  António Gedeão)


Abbott Fuller Graves, Fishermen in Conversation


"... Eu tenho sobre a história uma ideia que está longe de ser a mais frequente. Penso que, quem faz a história, não é o governo de uma nação. Sou eu, a vizinha do andar do lado e o merceeiro que está estabelecido com loja na esquina da rua. É o par de namorados que passa de lambreta ou o operário que vai para a oficina com a malinha do almoço. É o poeta, é o pensador, é o cientista, é tudo, toda a gente, a que sai e a que fica em casa, todos, todos, exceto os que compõem o governo. Esses só têm uma atitude permanente, que é a de, atónitos, solucionarem, ou verdadeiramente ou falsamente, os problemas que lhes são impostos..."


domingo, 28 de junho de 2015

"Maluda: A cidade e o silêncio" - Crónica de Fernando Pernes


Maluda, Porto I, Óleo sobre tela, 73x92cm, 1987, Colecção particular


Fernando Pernes 


O espetáculo urbano voltou à arte contemporânea, após as décadas de radicalismo abstrato, geométrico ou expressionista. Assim aconteceu desde o fenómeno «pop». Assim sucede nesta pintura de Maluda, diferentemente gerada num sistemático decantamento de experiências cezannianas que lentamente lhe determinaram específica originalidade. Figurativa, a pintura de Maluda absorveu da essencialidade geométrica, o primado da ordenação plástica. Do abstracionismo, reteve a exigência de um discurso anti descritivo. A essência construtiva, o ascetismo lírico, eis pois duas eloquentes constantes nos quadros de Maluda, organizados numa depuração do naturalismo e da efusão sentimental: uma busca da clareza formal a que se conjuga o culto da claridade cromática.

Nítidas e claras são pois as composições de Maluda, assumindo, entre ambos os vetores, uma óbvia relação arquitetural como sugestiva qualidade de luz solar que as torna paisagens reconhecíveis numa perspetiva de referência meridional. Nelas, há puros ritmos de formas urbanas a destacarem se na fixidez de cores frias. Cores que podem reproduzir o vermelho de telhados, o branco ou o cinzento de fachadas, o azul do firmamento ou de águas, feitos espelhos de certa densidade sensual atribuível ao «habitat» português. 
Mas aí, também nesses quadros de Maluda, a procura do essencial e do universal, tende a varrer o anedótico e o descritivo, qualquer ruído ou agitação perturbadora, até à anulação de trepidações atmosféricas. O resto, o que permanece além da pormenorização, é a visão universalizadora. E o que fica, para lá do narrativo, será então o silêncio.

Paisagens de silêncio, eis de facto como nos aparecem os quadros de Maluda, mundo do evidente e do espectral, desassombrado e insólito, significando se para melhor nos significar, a nós, habitantes possíveis destas ruas sem tráfego, destes blocos mudos e cegos que são as casas do homem pousadas entre faixas congeladas de luz evocativa do céu ou do mar. E que, anti naturalista, esta pintura de Maluda surge sobretudo poética de progressiva congelação da natureza. Daí talvez o seu eco de ressonância metafísica, tanto mais nos surpreendendo quanto ainda evidenciando a persistência de um próximo e familiar, conotável com os sítios referidos nos quadros. Com sítios que trazem memórias ou visões lisboetas, de terras alentejanas ou algarvias, simultaneamente reconhecíveis numa essencialidade cromática ou topográfica, quanto distanciados na permanência do mesmo olhar decantante do pormenor individualizador e agindo por exigências depuradoras.

De tal modo, com Maluda, a linguagem geométrica dos arquétipos plásticos surge processo de uma dramaticidade tensa, exigente da nudez na vida oculta de todos nós. Consigo, o empenho no despojamento formal redunda na desocultação de uma condição existencial progressivamente mostrando a cidade, o homem português num mundo tão cético como expresso numa intensão universalizante a repudiar o típico e o pitoresco.

Decerto a ambição do essencial e do universal foi a determinante máxima de um processo da arte moderna que Maluda soube absorver na receptividade ao que a rodeia, aos horizontes do seu quotidiano. Agora, tal sentido do próximo despoja-se de verosimilhanças tranquilizantes: abre-se para peregrinações ao invisível e ao alarme que o rigor estruturante adensa, transformando os locais vividos em espelhos de uma vivência de solidão onde nos reconhecemos. Aí, a pintura de Maluda encontra plena justificação de modernidade estética e de atualidade sociológica.

Retratos da terra que habitamos, os seus quadros retratam nos a nossa verdade que ocultamos. Aí, também as suas paisagens passam da representação à relação do mistério, subjacente no desnudar das aparências festivas. A nudez plástica das paisagens de Maluda é imagem desocultada de algo que as palavras não sabem e onde a sua pintura reencontra a sabedoria imemorial das autênticas realizações artísticas. O ser moderno é sempre a procura dessa antiquíssima eloquência. 


Fernando Pernes, in Catálogo da Exposição Individual na Galeria Dinastia, no Porto, em 1978


MaludaPorto II, Óleo sobre tela, 73x92cm, 1994, Colecção particular


“Vim do Oriente, onde nasce a luz; passei por África, onde aprendi a amar a vida; cheguei à Europa, onde estudei pintura na cidade das luzes; depois fixei-me em Lisboa. Gradualmente refiz o percurso labiríntico em direcção à luz. Cada passo revela, à sua maneira, esse jogo de sombras e de luz que é a vida e a morte, a sabedoria e a ignorância. Eu pinto. É uma aventura que não troco por nenhuma outra.”

Maluda, in Revista Galeria de Arte, nº 5, Julho/Agosto de 1996


MaludaPorto IV, Óleo sobre tela, 50x60cm, 1994, Colecção particular


"Os quadros de Maluda são um hino, um louvor à vida, ou seja à construção do abrigo humano". 



Maluda, Foto de Augusto Cabrita, Lisboa, 1973


Maria de Lourdes Ribeiro, conhecida por Maluda  (Goa, Goa Norte, Pangim, 15 de novembro de 1934 — Lisboa, 10 de fevereiro de 1999) foi uma pintora portuguesa.
Embora experimentando vários géneros, incluindo retratos, serigrafias, tapeçarias, cartazes, painéis murais, ilustrações e selos de correio, o cerne principal da pintura de Maluda está muito voltado para a síntese da paisagem urbana, no que a sua arte segue, conceptualmente, Paul Cézanne (1839-1906), o mestre do Impressionismo. Ou, como escreveu Fernando Pernes, a sua arte representa «um sistemático decantamento da experiência cezanniana».
Os quadros que pintava eram baseados principalmente nas cidades, nomeadamente na pintura de paisagens urbanas, janelas e vários outros elementos arquitetónicos. A notoriedade das suas obras pictóricas aparentemente mais simples (algumas utilizadas em selos oficiais por encomenda dos Correios portugueses), ao mesmo tempo que a promovia a uma das mais populares pintoras portuguesas das últimas décadas do século XX artístico português, também teve o efeito negativo de encobrir uma vasta obra de criação gráfica mais complexa. Na sua carreira, Maluda efetuou 24 exposições individuais e está representada em vários museus, entre os quais os da Fundação Calouste Gulbenkian e do Centro Cultural de Belém mas também em várias coleções particulares em Portugal e noutros países. (Daqui)

domingo, 8 de fevereiro de 2015

"Aprendendo a Viver" - Crónica de Clarice Lispector


Gregory Deane, "Infinity Mix" Mixed Media on Canvas Painting, 58" x 58"


Aprendendo a Viver



Thoreau era um filósofo americano que, entre coisas mais difíceis de se assimilar assim de repente, numa leitura de jornal, escreveu muitas coisas que talvez possam nos ajudar a viver de um modo mais inteligente, mais eficaz, mais bonito, menos angustiado.
Thoreau, por exemplo, desolava-se vendo seus vizinhos só pouparem e economizarem para um futuro longínquo. Que se pensasse um pouco no futuro, estava certo. Mas «melhore o momento presente», exclamava. E acrescentava: «Estamos vivos agora.» E comentava com desgosto: «Eles ficam juntando tesouros que as traças e a ferrugem irão roer e os ladrões roubar.»
A mensagem é clara: não sacrifique o dia de hoje pelo de amanhã. Se você se sente infeliz agora, tome alguma providência agora, pois só na sequência dos agoras é que você existe.
Cada um de nós, aliás, fazendo um exame de consciência, lembra-se pelo menos de vários agoras que foram perdidos e que não voltarão mais. Há momentos na vida que o arrependimento de não ter tido ou não ter sido ou não ter resolvido ou não ter aceito, há momentos na vida em que o arrependimento é profundo como uma dor profunda.
Ele queria que fizéssemos agora o que queremos fazer. A vida inteira Thoreau pregou e praticou a necessidade de fazer agora o que é mais importante para cada um de nós.
Por exemplo: para os jovens que queriam tornar-se escritores mas que contemporizavam — ou esperando uma inspiração ou se dizendo que não tinham tempo por causa de estudos ou trabalhos — ele mandava ir agora para o quarto e começar a escrever.
Impacientava-se também com os que gastam tanto tempo estudando a vida que nunca chegam a viver. «É só quando esquecemos todos os nossos conhecimentos que começamos a saber.»
E dizia esta coisa forte que nos enche de coragem: «Por que não deixamos penetrar a torrente, abrimos os portões e pomos em movimento toda a nossa engrenagem?» Só em pensar em seguir o seu conselho, sinto uma corrente de vitalidade percorrer-me o sangue. Agora, meus amigos, está sendo neste próprio instante.
Thoreau achava que o medo era a causa da ruína dos nossos momentos presentes. E também as assustadoras opiniões que nós temos de nós mesmos. Dizia ele: «A opinião pública é uma tirana débil, se comparada à opinião que temos de nós mesmos.» É verdade: mesmo as pessoas cheias de segurança aparente julgam-se tão mal que no fundo estão alarmadas. E isso, na opinião de Thoreau, é grave, pois «o que um homem pensa a respeito de si mesmo determina, ou melhor, revela seu destino».
E, por mais inesperado que isso seja, ele dizia: tenha pena de si mesmo. Isso quando se levava uma vida de desespero passivo. Ele então aconselhava um pouco menos de dureza para com eles próprios. O medo faz, segundo ele, ter-se uma covardia desnecessária. Nesse caso devia-se abrandar o julgamento de si próprio. «Creio», escreveu, «que podemos confiar em nós mesmos muito mais do que confiamos. A natureza adapta-se tão bem à nossa fraqueza quanto à nossa força.» E repetia mil vezes aos que complicavam inutilmente as coisas — e quem de nós não faz isso? —, como eu ia dizendo, ele quase gritava com quem complicava as coisas: simplifique! simplifique! 


Clarice Lispector, in Crónicas no 'Jornal do Brasil (1968)'


Gregory Deane, Red Flora, 58 "x 58"


"My art, at its best, is a continuous process of self-discovery…sometimes headlong, sometime introspective…but always dynamic. I work to create paintings that are pleasing to the eye… Paintings that are filled with energy and generosity… Paintings that are instinctive and fluid…not contrived. I paint because I do what I enjoy doing!"

 
Gregory Deane, Notas Past, 60 "x 50"


"Fui para a mata porque queria viver deliberadamente, enfrentar apenas os factos essenciais da vida e ver se não poderia aprender o que ela tinha a ensinar, em vez de, vindo a morrer, descobrir que não tinha vivido."
 
 
 

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

"O Amor não se Promete" - Texto de José Luís Nunes Martins



Ilustração de Carlos Ribeiro



O Amor não se Promete 

 
 Há uma distância fundamental entre as palavras e os gestos de cada homem. As palavras prometem mundos, os gestos constroem-nos. As palavras esclarecem pouco, os gestos definem quase tudo.

O amor é um projeto, uma construção que necessita de ser realizada a cada dia. Sem grandes discursos. Qualquer hora é tempo de amar. Se o amor é verdadeiro, não há tempos de descanso, porque o silêncio no coração dos que buscam lutar contra as trevas dos egoísmos é a paz mais profunda e o maior descanso... ainda que se cravem espinhos na carne, ainda que não sarem as feridas antigas, ainda que a esperança tenha pouco mais onde se apoiar do que nela própria.

Cada um de nós é aquilo que for capaz de ir construindo de firme e duradouro a cada dia por entre todas as tempestades da vida.

Há muito quem sonhe e passe o tempo a desejar o que não é... esperam e desesperam por algo que lhes há de chegar de fora... rejeitando quase tudo quanto são, quando, na verdade, é com o que temos e somos que devemos ser felizes, por pouco e por pior que seja... somos nós. Mas nós não somos quem somos só para nós mesmos. Eu sou quem sou, mas só o serei se for capaz de me encontrar com os outros. Ser humano é ser relacional. Ser é sempre ser com o outro. Ninguém se vê só a si quando se olha por um espelho. Ser é amar. Dar-se... sem grandes sonhos ou promessas, com pequenos gestos, na heroica coragem de acreditar que não são nem as palavras nem os desejos que nos devolvem ao céu.

Encarcerados nunca seremos autênticos, devemos pois libertar-nos de tudo quanto nos pesa, de forma especial das coisas materiais, romper com as teias dos sonhos que nos inebriam e incapacitam de sair de nós mesmos para o mundo, de criar mundo... sem esperar nada, a não ser conseguirmos chegar ao melhor de nós mesmos...

Este desprendimento não será prudente aos olhos do mundo, mas é essencial confiar e seguir adiante, até porque as coisas e as pessoas são o que são, independentemente da forma como os olhos do mundo as veem, sentem ou pensam...

Aos sonhos falta existirem de facto, realizarem-se, ou melhor, serem realizados por alguém. A existência é um dos mais belos e decisivos atributos para que algo se faça determinante da nossa felicidade. Por isso a realidade mais pobre é, ainda assim, mais bela que o sonho mais magnífico...

Quase todos os egoísmos têm nome de amor. Conscientes do que são, escondem-se. Normalmente juntam-se aos pares... fazem pouco, falam muito, prometem tudo.... entrelaçam as suas necessidades de ter mais, de estar melhor, sem cuidarem que cada homem é muito mais do que aquilo que tem ou do que forma como está... nós, humanos, não somos deste mundo... somos do lugar de onde chegámos quando nascemos e do lugar para onde havemos de ir depois da morte... um mundo de onde este faz parte, mas muito maior, muito melhor... muito mais profundo.

É pois importante procurar a vontade do outro, e encontrarmo-nos nela, sermos o melhor que ele pode receber e merecer...

Amar é arriscar tudo, sem garantia alguma. Apenas com a fé de que, no amor, nos cumprimos... Amar é desprender-se e perder-se... abrir-se e abandonar-se à vontade de ser feliz.

Só o amor permite que se cumpra a mais essencial de todas as promessas da existência: Uma vida com valor e verdade.

Quem ama não promete... dá.

José Luís Nunes Martins, in 'Amor, Silêncios e Tempestades'


segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

"Os professores" - Crónica de José Luís Peixoto


Ilustração de Renato Alarcão para "Conto de Escola" de Machado de Assis, publicado na edição especial
 "Contos Brasileiros" da revista Nova Escola, da Fundação Victor Civita



Os professores


O mundo não nasceu connosco. Essa ligeira ilusão é mais um sinal da imperfeição que nos cobre os sentidos. Chegámos num dia que não recordamos, mas que celebramos anualmente; depois, pouco a pouco, a neblina foi-se desfazendo nos objetos até que, por fim, conseguimos reconhecer-nos ao espelho. Nessa idade, não sabíamos o suficiente para percebermos que não sabíamos nada. Foi então que chegaram os professores. Traziam todo o conhecimento do mundo que nos antecedeu. Lançaram-se na tarefa de nos atualizar com o presente da nossa espécie e da nossa civilização. Essa tarefa, sabemo-lo hoje, é infinita.

O material que é trabalhado pelos professores não pode ser quantificado. Não há números ou casas decimais com suficiente precisão para medi-lo. A falta de quantificação não é culpa dos assuntos inquantificáveis, é culpa do nosso desejo de quantificar tudo. Os professores não vendem o material que trabalham, oferecem-no. Nós, com o tempo, com os anos, com a distância entre nós e nós, somos levados a acreditar que aquilo que os professores nos deram nos pertenceu desde sempre. Mais do que acharmos que esse material é nosso, achamos que nós próprios somos esse material. Por ironia ou capricho, é nesse momento que o trabalho dos professores se efetiva. O trabalho dos professores é a generosidade.

Basta um esforço mínimo da memória, basta um plim pequenino de gratidão para nos apercebermos do quanto devemos aos professores. Devemos-lhes muito daquilo que somos, devemos-lhes muito de tudo. Há algo de definitivo e eterno nessa missão, nesse verbo que é transmitido de geração em geração, ensinado. Com as suas pastas de professores, os seus blazers, os seus Ford Fiesta com cadeirinha para os filhos no banco de trás, os professores de hoje são iguais aos de ontem. O ato que praticam é igual ao que foi exercido por outros professores, com outros penteados, que existiram há séculos ou há décadas. O conhecimento que enche as páginas dos manuais aumentou e mudou, mas a essência daquilo que os professores fazem mantém-se. Essência, essa palavra que os professores recordam ciclicamente, essa mesma palavra que tendemos a esquecer.

Um ataque contra os professores é sempre um ataque contra nós próprios, contra o nosso futuro. Resistindo, os professores, pela sua prática, são os guardiões da esperança. Vemo-los a dar forma e sentido à esperança de crianças e de jovens, aceitamos essa evidência, mas falhamos perceber que são também eles que mantêm viva a esperança de que todos necessitamos para existir, para respirar, para estarmos vivos. Ai da sociedade que perdeu a esperança. Quem não tem esperança não está vivo. Mesmo que ainda respire, já morreu.

Envergonhem-se aqueles que dizem ter perdido a esperança. Envergonhem-se aqueles que dizem que não vale a pena lutar. Quando as dificuldades são maiores é quando o esforço para ultrapassá-las deve ser mais intenso. Sabemos que estamos aqui, o sangue atravessa-nos o corpo. Nascemos num dia em que quase nos pareceu ter nascido o mundo inteiro. Temos a graça de uma voz, podemos usá-la para exprimir todo o entendimento do que significa estar aqui, nesta posição. Em anos de aulas teóricas, aulas práticas, no laboratório, no ginásio, em visitas de estudo, sumários escritos no quadro no início da aula, os professores ensinaram-nos que existe vida para lá das certezas rígidas, opacas, que nos queiram apresentar. Se desligarmos a televisão por um instante, chegaremos facilmente à conclusão que, como nas aulas de matemática ou de filosofia, não há problemas que disponham de uma única solução. Da mesma maneira, não há fatalidades que não possam ser questionadas. É ao fazê-lo que se pensa e se encontra soluções.

Recusar a educação é recusar o desenvolvimento.

Se nos conseguirem convencer a desistir de deixar um mundo melhor do que aquele que encontrámos, o erro não será tanto daqueles que forem capazes de nos roubar uma aspiração tão fundamental, o erro primeiro será nosso por termos deixado que nos roubem a capacidade de sonhar, a ambição, metade da humanidade que recebemos dos nossos pais e dos nossos avós. Mas espero que não, acredito que não, não esquecemos a lição que aprendemos e que continuamos a aprender todos os dias com os professores. Tenho esperança.


Artigo de José Luís Peixoto, in revista Visão (Outubro, 2011)

sábado, 20 de setembro de 2014

"Amar é arriscar. Tudo." - Texto de José Luís Nunes Martins


Ilustração de Carlos Ribeiro


Amar é arriscar. Tudo.


O amor é algo extraordinário e muito raro. Ao contrário do que se pensa não é universal, não está ao alcance de todos, muito poucos o mantêm aqui. Chama-se amor a muita coisa, desde todos os seus fingimentos até ao seu contrário: o egoísmo.

A banalidade do gosto de ti porque gostas de mim é uma aberração intelectual e um sentimento mesquinho. Negócio estranho de contabilidade organizada. Amar na verdade, amar, é algo que poucos aguentam, prefere-se mudar o conceito de amor a trocar as voltas à vida quando esta parece tão confortável.

Amar é dar a vida a um outro. A sua. A única. Arriscar tudo. Tudo. A magnífica beleza do amor reside na total ausência de planos de contingência. Quando se ama, entrega-se a vida toda, ali, desprotegido, correndo o tremendo risco de ficar completamente só, assumindo-o com coragem e dando um passo adiante. Por isso a morte pode tão pouco diante do amor. Quase nada. Ama-se por cima da morte, porquanto o fim não é o momento em que as coisas se separam, mas o ponto em que acabam.

Não é por respirar que estamos vivos, mas é por não amar que estamos mortos.

De pouco vale viver uma vida inteira se não sentirmos que o mais valioso que temos, o que somos, não é para nós, serve precisamente para oferecermos. Sim, sem porquê nem para quê. Sim, de mãos abertas. Sim... porque, ainda além de tudo o que aqui existe, há um mundo onde vivem para sempre todos os que ousaram amar...

José Luís Nunes Martins, in 'Filosofias - 79 Reflexões'


Justin Timberlake - Mirrors


sábado, 25 de janeiro de 2014

"As crianças têm direito a não gostar de todos os professores" - Crónica de Eduardo Sá





As crianças têm direito a não gostar de todos os professores


As crianças têm direito a não gostar de todos os professores. E têm direito a dar bolas amarelas ou vermelhas, por mau comportamento, a todos aqueles que não queiram ser mágicos, porque só esses dão colo e dão regras, instigam a curiosidade e acarinham as perguntas, brincam e contam histórias enquanto ensinam.

As crianças têm, também, direito a considerar os professores como alguém que, pela sua importância, fica para sempre, como o Norte, dentro de si: pelo modo como educam, pela forma como cuidam, pela bondade com que escutam, pela maneira como se comovem e pelo jeito como se riem com as trapalhadas de quem descobre.

As crianças têm, ainda, o direito a ser reconhecidas pelo seu nome, por todos os professores, sejam quais forem as escolas que os seus pais entendam que elas devem frequentar. As crianças reconhecem que as escolas públicas e as escolas privadas são escolas, simplesmente, porque em todas elas é a diversidade dos professores que faz com que, pelo bem que eles representam, todas as crianças tenham de o usufruir. Por isso mesmo, manifestam preocupação por todos os professores que, contra a sua vontade, estão em escolas que rejeitam crianças pelo seu estatuto social ou económico, pelo seu credo ou pela sua cor, pelo sucesso ou o insucesso com que chegam, pelas médias de anos anteriores ou, até, pela configuração da sua família ou pelo seu sexo, porque as escolas são lugares plurais, que ensinam com bons exemplos, pelo modo como acolhem a pluralidade, como convivem com a diversidade e como nunca cedem à verdade. Não sendo assim, escolas amigas da exclusão são maus exemplos. E, por isso mesmo, não são boa escola nem para os professores nem para ninguém.

As crianças reconhecem que os professores lhes dão que pensar: e é por isso que os respeitam. Mesmo que, muitas vezes, haja professores que imaginem as coisas que se aprendem como produtos ultra-congelados – que não apuram a sensibilidade nem o paladar, que (mal se digerem) logo se repetem – diante dos quais só os sabichões e os sabidos (nunca as crianças que precisam de dar vários erros para aprenderem) parecem ter sucesso.

As crianças sabem, também, que os professores bonzinhos são pessoas generosas mas... desengonçadas: porque deixam que haja crianças que fazem greve de zelo aos trabalhos na aula; porque acham que são os pais que as devem ensinar acerca de tudo aquilo de que eles deixam sempre por falar na aula; e porque permitem que haja crianças que sejam, continuadamente, mal-educadas, que não estimam o bem precioso que a escola tem de ser para todos nós.

Mas é por tudo aquilo que os professores têm de precioso e de indispensável que as crianças não compreendem que eles sejam mal remunerados, desconsiderados e – às vezes, até – enxovalhados, porque quem luta pela paixão de dar a conhecer tem tanto de sábio como de aventureiro e, por isso mesmo, devia ser objeto de todos os cuidados. Porque é pela mão deles que o mundo pula e se transforma, se torna justo, se abre ao novo e à mudança, e liga curiosidade, com sensatez e com paixão.

E é por isso, também, que as crianças se preocupam com a imensa quantidade de professores que condescendam, por necessidade, com projetos educativos que, muitas vezes, são batoteiros. Onde há disciplinas de primeira e, outras, de “baixa categoria”, e onde as classificações têm de ter “pó de arroz” (porque as escolas acham que os pais estão sempre interessados em ter filhos com boas notas, mesmo que não aprendam), e onde os rankings, com um pouco de botox, mesmo que sejam mentirosos, não fazem mal a ninguém.

E preocupam-se, mais, porque muitos professores (a maioria, seguramente) têm de tolerar colegas que, sendo contra a avaliação dos professores, mal chegam à altura de avaliar os colegas, insinuam, ameaçam e retaliam. E porque muitas direções de escolas têm à sua frente pessoas carrancudas que – por espírito de missão, só pode ser – são a prova viva que quem não se afirma como autoridade, pela sabedoria e pelo sentido de justiça, não sabe escutar, não sabe ensinar nem sabe dirigir. E preocupam-se, ainda, com ministérios e com ministros que parecem não gostar dos professores. Que os imaginam rudimentares, e que os obrigam a estar na escola, mesmo que nelas não disponham de condições para trabalhar (como se um professor fosse um rebelde, mais ou menos incorrigível, diante do qual só o pulso firme do “antigo regime” parecesse educá-lo).

As crianças reconhecem que é preciso ser um bocadinho estranho para se ser professor. E escutar confissões, e abrir o coração como muitos tios e alguns pais jamais farão. E aconselhar. E recomendar. E, por um sorriso, ir à lua, e voltar. E tolerar alguns pais insolentes e mal-educados, daqueles que quanto mais omissos são mais exigem à escola aquilo que não dão. E conviverem com alguns colegas que culpam as famílias de tudo o que vai mal na escola, e se vingam nas crianças dum sistema que os alimenta sem merecerem. E com vários outros que acham que se as crianças são desatentas o problema é sempre da dosagem das gotas que as separa da sabedoria sintética e nunca daquilo que se passa na escola, daquilo com que se chega à escola ou daquilo que se espera dela.

As crianças reconhecem que um professor é o melhor amigo da insubmissão. Porque apesar de todos os maus tratos, percorrem quilómetros, todos os dias, atrás dum sonho. E pagam materiais didáticos porque os recursos das escolas são, vergonhosamente, escassos. E aceitam turmas cada vez maiores e tempos letivos que são inimigos da conversa. E horas de trabalho obscenas, a que não faltam tempos de reuniões que, dependendo dos humores de quem as marca, se prolongam e eternizam. E a ideia que as instalações escolares e os projetos educativos (que alguém concebeu num papel) fossem sempre mais importantes que a sabedoria e a humanidade dum professor. E fazem de conta que acham razoável que brincar e aprender nunca se casem na educação, e que acreditam que os alunos são tecnocratas, nunca artesãos, e que não precisam duma mestre – acutilante, arrojado e sensato – que lhe dê respostas a todos os porquês (que a escola raramente premeia e acarinha). E mais porquês, ainda.

As crianças admiram os professores! Como admiram poucas pessoas mais. E admiram a beleza com que eles as cativam, o engenho humano para o qual as despertam e as histórias que eles lhes trazem, e que sintetizam a sabedoria que a ciência e a técnica nunca conseguem abarcar. As crianças admiram os professores porque sabem que admiração supõe espanto e surpresa, supõe respeito e estima, supõe gratidão (por merecermos todas as interpelações que qualquer experiência de admiração traz ao nosso coração) e supõe, ainda, humildade (diante do reconhecimento de sermos pequeninos, ao pé de tudo aquilo que admiramos).

As crianças sabem que quem não admira não aprende. E não concilia humildade com orgulho, esperança com dor, e ambição com paciência. As crianças admiram os professores porque dão colo e dão regras, porque instigam a curiosidade e acarinham as perguntas, porque brincam e contam histórias enquanto ensinam, porque são amigos do espanto e da surpresa, da justiça e da bondade. E é por tudo isso que lembram a todos os pais, a todas as pessoas (e aos governantes, também) que, porventura, desconheçam o bem precioso que um professor pode ser, que quem não olha para cima, não admira, não cresce nem aprende. Acha-se a si própria o topo, porventura. Mas não é!

Escrito por Eduardo Sá, psicólogo português
Quarta, 22 Janeiro 2014
in Pais&Filhos


Eduardo Sá



Eduardo Sá

Psicólogo, psicoterapeuta e psicanalista, doutorado em Psicologia clínica pela Universidade de Coimbra. Seguiu a carreira de ensino, colaborando com várias instituições, tais como a Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra e o Instituto Superior de Psicologia Aplicada em Lisboa.
Divide o seu tempo ainda como responsável pela Consulta "Bebés e Crescidos" do Núcleo de Seguimento Infantil e Ação Familiar (NUSIAF) da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra.
É também um escritor conceituado, abordando temas que interessam à família e aos pais, em especial, tais como a educação e o desenvolvimento das crianças.
Entre as suas obras destacam-se: Psicologia dos Pais e do Brincar (1993), Manual de Instruções para uma Família (1999), Psicologia do Feto e do Bebé (2001) e ainda A Vida não se Aprende nos Livros (2002).

Eduardo Sá. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-01-25].


sexta-feira, 1 de novembro de 2013

"Geração à rasca - A nossa culpa" - Texto de Maria dos Anjos Polícia


 
Sherree Valentine Daines (British painter, b.1956)
 


Geração à rasca - A nossa culpa


Um dia, isto tinha de acontecer.
Existe uma geração à rasca?
Existe mais do que uma! Certamente!
Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes as agruras da vida.
Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar com frustrações.
A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também estão) à rasca são os que mais tiveram tudo.
Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.

Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a minha geração e as seguintes (atualmente entre os 30 e os 50 anos) vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós 1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor.
Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos...), mas também lhes deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de diversão, cartas de condução e 1º automóvel, depósitos de combustível cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada.
Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado com que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes.

Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego, ... A vaquinha emagreceu, feneceu, secou.

Foi então que os pais ficaram à rasca.
Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem Pavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde não se entra à borla nem se consome fiado.
Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar a pagar restaurante aos filhos, num país onde uma festa de aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a pais.
São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade, nem dos qualquer coisa phones ou pads, sempre de última geração.

São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter de dizer "não". É um "não" que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas, porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem, querem o que já ninguém lhes pode dar!

A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo menos duas décadas.

Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados.
Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na proporção do que estudou. Uma geração que coleciona diplomas com que o país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade operacional.
Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em sítio nenhum. Uma geração que tem acesso a informação sem que isso signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere.
Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que queimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que este, num tempo em que nem um nem outro abundam.
Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras.
Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável.
Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada.
Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o desespero alheio.

Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e inteligência nesta geração?
Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos!
Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no retrato coletivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e nem são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como todos nós).
Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados académicos, porque, que inveja!, que chatice!, são betinhos, cromos que só estorvam os outros (como se viu no último Prós e Contras) e, oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a subir na vida.

E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares a que alguns acham ter direito e que pelos vistos - e a acreditar no que ultimamente ouvimos de algumas almas - ocupamos injusta, imerecida e indevidamente?!!!

Novos e velhos, todos estamos à rasca.
Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens.
Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme convicção de que a culpa não é deles.
A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemos formar nem educar, nem fazer melhor, mas é uma culpa que morre solteira, porque é de todos, e a sociedade não consegue, não quer, não pode assumi-la.
Curiosamente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam. Haverá mais triste prova do nosso falhanço?
Pode ser que tudo isto não passe de alarmismo, de um exagero meu, de uma generalização injusta.
Pode ser que nada/ninguém seja assim.
 

Publicado 9th March 2011 por Assobio (Maria dos Anjos Polícia)
 
 
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