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sábado, 24 de junho de 2017

"A flor fugaz" - Poema de José Eduardo Degrazia



Ivan Kap (Italian digital artist and graphic designer, b. 1972), 'Flowers' 


A flor fugaz


Porque se despe na tarde
e convida ao sortilégio
de sua carnação madura,
pétala que apura o tempo

inventando a investidura
de planta formosa e pura,
sendo lírio ou sendo rosa,
ofertada sem mais nada

do que a vida retira
o sumo, a seiva, na selva
de um desejo realizado

em sendo frágil e fugaz,
feito o amor que foi e dura
o esplendor de seu momento. 



Ivan Kap, 'The Shy Man'


"A vida se encolhe ou se expande em proporção à própria coragem."

(Anaïs Nin)

domingo, 11 de junho de 2017

“Eros e Psique” - Poema de Fernando Pessoa


William-Adolphe Bouguereau (French painter, 1825–1905), 
'The Abduction of Psyche', c. 1895


Eros e Psique


Conta a lena que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
Do além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino –
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.
 

Fernando Pessoa, Poesias 
 

François Gérard (French painter, 1770–1837), 'Cupid and Psyche', 1798,
also known as 'Psyche Receiving Cupid's First Kiss'. 


"A única anormalidade é a incapacidade de amar."



Jacques-Louis David, 'Cupid and Psyche', 1817


Eros e Psique

William-Adolphe Bouguereau, 'Cupido' (Love on the look out), 1890
 
 
Eros, o deus grego do amor e do desejo, conhecido na mitologia romana como Cupido, é filho de Afrodite e de um dos prováveis deuses: Ares, ou Hermes, ou Zeus. Sendo o mais jovem dos deuses, Eros é geralmente representado como uma criança alada, com arco e flecha, pronto a disparar sobre o coração de deuses e de mortais, suscitando-lhes o desejo e o amor. As flechas eram de dois tipos: as douradas, de penas de pomba, que suscitavam o amor, e as flechas de chumbo, com penas de coruja, que causavam a indiferença. Frequentemente com os olhos vendados para simbolizar a cegueira do amor, Eros tornava-se perigoso para os demais, pois disparava setas em todas as direções, chegando mesmo a atingir a própria mãe, que o castigava retirando-lhe as asas e o arco. 
Uma das lendas mais conhecidas do deus do Amor é a aventura amorosa com Psique, nome que em grego significa alma. 


 Jacques-Louis David, 'Psyché Abandonné', 1795, huile sur toile,
 collection particulière


Psique era uma princesa de uma beleza tão exultante que fazia ciúmes à própria Afrodite. Esta deusa deu instruções ao filho, Eros, para punir a audácia da princesa, fazendo com que esta se apaixonasse pelo homem mais feio do mundo, e Eros obedeceu. O pai da jovem, verificando que Psique era a única das suas três filhas que ainda não tinha casado, resolveu consultar o oráculo. Este revelou-lhe que deveria preparar Psique como para uma cerimónia nupcial e, em seguida, abandoná-la numa montanha junto de um rochedo, onde um monstro, seu futuro marido, a iria buscar. Assim se passou e, enquanto aguardava resignada a sua triste sorte, Psique foi recolhida pelos braços de Zéfiro, que a levou para um lindo palácio. Psique estava quase a adormecer, quando um ser misterioso apareceu na escuridão do seu quarto e lhe disse que era o marido a quem ela estava destinada. Era o belo Eros que desempenhava o papel de marido, tentando desta forma executar o castigo que Afrodite pedira, mas, ao ver Psique, apaixonou-se imediatamente por ela. Antes de desaparecer, pouco antes do amanhecer, Eros obrigou Psique a jurar que nunca tentaria ver o seu rosto. 

Com o passar do tempo, Psique apaixonou-se pelo ser misterioso até que um dia, ao visitar as irmãs, invejosas da sua felicidade, foi instigada a ver o rosto do seu marido. Então, curiosa, Psique resolveu seguir o conselho das irmãs. Assim, enquanto o marido estava a dormir silenciosamente, Psique acendeu uma vela e, em vez do monstro, encontrou o belíssimo Eros. Aproximando-se para o ver melhor, deixou cair uma gota de cera no ombro do deus. Eros acordou e, furioso, reprimiu-a pela sua curiosidade e pela quebra da promessa que lhe tinha feito e retirou-se. Ao mesmo tempo, desapareceu o palácio e Psique encontrou-se, de novo, na montanha, onde, desgostosa, tentou suicidar-se, atirando-se a um rio, mas as águas levaram-na de volta às margens. A partir de então, vagueou pelo mundo à procura do seu amor, e, perseguida pela ira de Afrodite, foi sujeita a muitos perigos que conseguiu vencer devido a uma misteriosa proteção. Finalmente, Eros, impressionado pelo arrependimento de Psique e pela fidelidade do seu amor, implorou a Zeus que deixasse Psique juntar-se a ele. Zeus concedeu a imortalidade a Psique, Afrodite esqueceu os seus ciúmes e o casamento foi celebrado, no Olimpo, com grandes festejos. 


Jacques-Louis David, 'Cupid and Psyche in the nuptial bower', oil, 1792–93


Nos vasos gregos antigos, Psique é representada com corpo de pássaro ecabeça humana ou como uma borboleta. Uma obra de arte que popularizou o mito de Eros e Psique é a obra escultórica de Antonio Canova (1757-1822), na qual "Psique é reanimada pelo beijo de Eros", e que se encontra no Louvre, em Paris (França). (daqui)



Antonio Canova (Escultor italiano, 1757–1822), 'Psique é reanimada pelo beijo de Eros',
versão do Louvre.


"O amor nunca morre de morte natural. Ele morre porque nós não sabemos como renovar a sua fonte. 
Morre de cegueira e dos erros e das traições. Morre de doença e das feridas; morre de exaustão, 
das devastações, da falta de brilho."

Anaïs Nin

quarta-feira, 23 de julho de 2014

"O Amor o que é?" - Poema de José Jorge Letria

  

George Bernard O'Neill (Irish painter, 1828–1917), 'A Joyful Welcome', 1901



O Amor o que é?


O amor é
um nome de mulher
na boca de um homem.

O amor é
uma flor perfeita
na lapela de um homem só. 

O amor é
um continente sem fronteiras
para que tudo aconteça. 

O amor é
a alegria do corpo
sem vergonha de amar. 

O amor é
dividir somente
o que se pode partilhar. 

O amor é
uma cidade azul
no dorso de uma nuvem. 

O amor é
um rapaz loucamente
apaixonado por uma rapariga. 

O amor é
tão fácil e tão simples
que até se torna difícil. 

O amor é
tudo aquilo que um dia
ganhamos coragem para ser. 

O amor é
gostarmos de nós
e sabermos porquê. 


José Jorge Letria, in 'O Amor o que é?'


José Jorge Letria


José Jorge Letria
é um poeta, dramaturgo, ficcionista e ensaísta português nascido a 8 de junho de 1951, em Cascais. Dedicou-se desde muito cedo ao jornalismo, tendo trabalhado também como guionista e autor de programas de televisão. Foi membro da Direção da Sociedade Portuguesa de Autores e vereador da Cultura na Câmara Municipal de Cascais.
Colaborou em várias publicações - das quais se destacam, entre outras, Colóquio/Letras, Hífen, Vértice, Boca Bilíngue, Palimpsesto e Plural - tendo desempenhado, por exemplo, funções de subchefe de redação do Jornal de Letras ou de correspondente em Portugal de Delibros (Espanha).
O nome de José Jorge Letria está ligado, na criação poética e no ensaio, à canção de intervenção, tendo estado envolvido, por essa via, ao lado de José Afonso ou de Ary dos Santos, no processo revolucionário que conduziu ao 25 de abril. Embora nesse momento a arte poética exigida pelas circunstâncias históricas acentuasse a exaltação e o combate, já aí a sua obra afirmava um investimento em imagens e metáforas e uma vocação para o trabalho da língua (patente desde logo nos jogos de palavras de que parte muitas das vezes para a construção dos títulos das obras poéticas) que viriam a caracterizar as publicações seguintes.
Da sua obra literária, largamente premiada, destaca-se a poesia, que se encontra em grande parte compilada em O Fantasma da Obra (1973-1993), de 1993.
No ano de 2001, em Barcelona, foi-lhe entregue o Prémio Aula de Poesia. Seis anos depois, foi o primeiro escritor a ser galardoado com o Prémio de Poesia Nuno Júdice, instituído em Aveiro.

José Jorge Letria. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-07-23].


 
George Bernard O'Neill, 'The Sword Dance' 


"Não vemos as coisas como elas são, mas como nós somos." 
 
Anaïs Nin



George Bernard O'Neill, 'The Broken Engagement', 1860


"Ajusto-me a mim, não ao mundo." 
 
Anaïs Nin



George Bernard O'Neill, 'Grandfather's Advice' 


"O único transformador, o único alquimista que muda tudo em ouro, é o amor. 
O único antídoto contra a morte, a idade, a vida vulgar, é o amor." 
 
Anaïs Nin 
 

Portrait of Anaïs Nin, c. 1920


Anaïs Nin (21 de fevereiro de 1903 – 14 de janeiro de 1977) era uma autora francesa. Anaïs Nin tornou-se famosa pela publicação de diários pessoais, que medem um período de quarenta anos, começando quando tinha doze anos. Foi amante de Henry Miller e só permitiu que seus diários fossem publicados após a morte de seu marido Hugh Guiler.
Seus romances e narrativas, impregnados de conteúdo erótico foram profundamente influenciados pela obra de James Joyce e a psicanálise. Dentre suas obras destaca-se Delta de Vênus (1977), traduzido para todas as línguas ocidentais, aclamado pela crítica americana e europeia. 
Foi realizado no cinema em 1990 um filme, Henry & June, dirigido por Philip Kaufman, que falava do período que Anaïs Nin conheceu Henry Miller. Anaïs Nin foi interpretada pela atriz portuguesa Maria de Medeiros.
 

domingo, 19 de janeiro de 2014

"Se pudesses estar comigo vinte e quatro horas do dia" - In 'Carta de Henry Miller a Anaïs Nin, 1935'



Alfred Stevens (Belgian painter, 1823–1906), The Letter, n.d.


«Se pudesses estar comigo durante as vinte e quatro horas do dia, observar cada gesto meu, dormir comigo, comer comigo, trabalhar comigo, tudo isto não poderia ter lugar. Quando me vejo afastado de ti, penso em ti constantemente e isso dá cor a tudo o que eu diga ou faça. Se soubesses o quão fiel te sou! Não apenas fisicamente, mas mentalmente, moralmente, espiritualmente. Aqui não há qualquer tentação para mim, absolutamente nenhuma. Estou imune a Nova Iorque, aos meus velhos amigos, ao passado, a tudo. Pela primeira vez na minha vida, estou completamente centrado em outro ser... Em ti. Sinto-me capaz de dar tudo, sem ter medo de ficar exaurido ou de me ver perdido. Quando ontem escrevi no meu artigo que «se eu nunca tivesse ido para a Europa...», não era a Europa que tinha em mente, mas sim tu.

Mas não posso dizer isso ao mundo num artigo. Tu és a Europa. Pegaste em mim, um homem despedaçado, e tornaste-me completo. E não hei de desintegrar-me — não existe o menor perigo disso. Mas agora vejo-me mais sensível, mais recetivo a qualquer sinal de perigo. Se te persigo loucamente, se te imploro para ouvires, se fico à tua porta e espero por ti, não é porque esteja a tentar humilhar-me. Não há qualquer humilhação para mim nesta luta para te manter. Trata-se apenas da prova de que me encontro intensamente desperto, intensamente alerta, sôfrego, profundamente sôfrego e desesperado por te fazer perceber que o meu grande amor por ti é uma coisa terrivelmente real e bela.

Outrora, eu teria restituído à mulher qualquer sofrimento que eu tivesse de suportar. Mas agora sei que este sofrimento é o resultado do meu próprio comportamento. Sei que, no momento em que algo acontece, algo injusto, isso deve ser por culpa minha. Não é culpa aquilo que sinto, mas uma profunda humildade perante o teu amor. Não duvido de ti, Anais, de qualquer maneira que seja. Deste-me todas as provas que uma mulher pode dar a um homem. Sou eu quem tem de aprender a maneira como aceitar e guardar este amor. Cometi tantos erros estúpidos... Sem dúvida que hei-de cometer mais erros estúpidos. Mas não estou a regredir. Cada novo dia parece levar-me a um nível mais elevado. Ergueste-me até às alturas. Mantém-me lá, imploro-te.

Pensei em dizer-te isto ao telefone, mas acabo por ficar sempre tão perturbado... «Anais, não sou capaz de andar pela rua mergulhado em aflição. Não está certo. Tenho tanto para fazer e não quero destruir-me, nem uma pequena parte de mim. Tudo o que tenho é precioso e tenho tentado manter isso, de modo a poder oferecer-te».

Não ando pela rua aqui como costumava fazer antigamente. As ruas nada têm a dizer-me. Também isso era um colocar do meu Eu no mundo, em vez do desenhar do mundo no seu interior. Agora penso no meu pequeno quarto, o quarto que guardaste para mim, e não vejo a hora de estar de volta a ele, para torná-lo sagrado pelo trabalho. O mundo inteiro parece ter-se incorporado em ti — por que motivo haveria eu de sair para procurá-lo?

Sinto, ao falar com as pessoas, que há algo terrivelmente belo dentro de mim. Sinto a distância existente entre mim e os outros. Guardo essa distância. Agora sei quem sou. Já não existem dúvidas. Mas, quando te afastas de mim, por menor que seja a distância, uma escuridão desce sobre mim e sinto-me esmagado. Para nos prendermos ao que finalmente conseguimos criar entre nós, temos de mover-nos perigosa e rapidamente, com plena consciência. Atingimos algo que apenas raras pessoas conseguiram conhecer. Temos de ser verdadeiros para connosco próprios, para o melhor que conhecemos e sentimos. Se escorregares, devo levantar-te. Se eu escorregar, deves fazer o mesmo. Caso contrário, o mundo tremerá e ver-nos-emos perdidos.

Não penses, Anais, que é o medo de te perder que me faz agir de forma desesperada. Não é medo, mas antes um desejo de te possuir. Aquele que, em mim, tinha medo está morto. Esse meu Eu era passivo, negligente, inconsciente. O homem que agora sou está desperto e ativo; ele salta, luta e não há de abandonar a sua firmeza. Há uma diferença, não vês? O meu velho Eu teria apodrecido na cama, ou ter-se-ia embebedado, ou vagueado pelas ruas, ou procurado um velho amigo. Nunca poderei voltar a fazer estas coisas. Tudo isto era um escudo que me permitia desfrutar a dor e o sofrimento, os quais, na altura, eu provavelmente queria.

Agora não quero qualquer tortura auto-imposta. Hei de colocar-me sempre perante ti, face a face, rapidamente, diretamente. Não hei de permitir que um único erro, um único acidente, se transforme num mal-entendido. Não hei de permitir que uma única erva daninha cresça neste jardim que estamos a construir. Terrivelmente, a vida é demasiado curta para tudo aquilo que desejamos fruir juntos. Temos de agarrar o tempo e apertar-lhe o pescoço. Temos de viver no interior um do outro.

Quando te telefonei, não estava certo de que iria conseguir apanhar-te. Telefonei duas vezes entretanto, e informaram-me de que não estavas. Estava encharcado em suor. Percorri a tua rua para cima e para baixo, dei uma volta ao quarteirão, andei à procura em restaurantes, voltei e fiquei à tua porta. Se não te tivesse apanhado por telefone ia enviar-te um telegrama, e depois voltar para te escrever uma carta de entrega especial. Procurei na lista telefónica o nome Guiler, pensando que poderia apanhar-te em tua casa — em vossa casa. Não consegui encontrar o endereço. E, caso tivesse esperado por ti esta noite e não te tivesse encontrado, teria procurado pelo Rank e teria tentado retirar-lhe a informação — à força, se necessário.

Eu não era capaz de imaginar onde poderias estar, o que estarias a fazer. Não era capaz de acreditar que ainda estavas zangada comigo, mas apenas que estavas a afastar-te de mim, magoada, desnorteada, sem esperanças no meu amor. É nessa altura que Nova Iorque me parece monstruosa - a sua dimensão, os recantos, a desesperança de encontrar a pessoa pela qual se procura freneticamente. Tornamo-nos uma palha, um fio soprado pelo vento, dilacerados por cada memória, amaldiçoados, perdidos, incompletos, arremessados na ventania. Dizes que estavas a chorar. Também eu estava a chorar, a andar pelas ruas com as lágrimas a caírem-me pela cara. Oh, porquê? Porquê? Porque temos de sofrer? Seremos tão sensíveis, estaremos tão expostos a cada dardo? Isto é simultaneamente belo e terrível. Mas é como se se tratasse de gémeos a tentarem afastar-se. Deixa que nos unamos, de forma absoluta. Muda-te para dentro de mim, Anais, e fica lá, nunca saias de lá, nem num pensamento que seja.

Tanto tu quanto eu já passámos por tantas experiências terríveis e angustiantes! Não podemos afogar tudo isso no nosso amor? Agora sabes que eu não tenho falsas ideias sobre ti, que te aceitei enquanto mulher, enquanto minha mulher. Não me castigues por ser lento. Mais vale agradecer às estrelas por termos saído das dificuldades vitoriosos. Uma vez disse-te numa carta o quão certo eu estava acerca do facto de o destino de uma pessoa estar no seu interior e não fora de si, nas estrelas. Cada vez mais sinto isso. E tu? E tu? Também deves sentir, porque a tua carta diz isso. O ousado salto que deste... O que poderia isso ser senão a resposta a um ditame interior? Tinhas de saltar por mim, para me mostrar o caminho. Provaste aquilo que te disse que era uma maravilhosa afirmação (recordas-te?): «Nenhuma ousadia é fatal». Viste-a nas notas que estavam sobre a minha mesa na Villa Seurat. Lembro-me bem de tudo aquilo que alguma vez notaste. Consigo ver a luz no teu rosto, as tuas mãos ávidas, os teus gestos graciosos e semelhantes aos de um pássaro. És como a própria luz para mim — por onde quer que passes, há sempre um brilho ofuscante.

Perdoas-me por escrever tudo isto, em vez de estar a trabalhar? Não será isto, a nossa vida, mais importante do que o trabalho? Trabalho! Trabalho! Para que estou a trabalhar? Originalmente, eu deveria ter uma opinião terrivelmente exagerada de mim mesmo, um amor terrivelmente exagerado por mim mesmo; tornei o trabalho um fetiche e tentei desculpá-lo por meio de inúmeras mentiras e engodos. Estava a erigir um monumento a mágoas passadas. Mas, agora tudo isso acabou. Tenho o rosto virado na direção do futuro, alegremente. O trabalho tornar-se-á mais natural; deixará de ser um fim em si mesmo. Eu estava a tornar-me inumano. Mas tu salvaste-me.

Agora dou-me conta de que sou um ser humano completo; e, como ser humano que sou, devo ser mais para ti do que o maior artista que se possa imaginar. Nada se perdeu com esta mudança. Pelo contrário: tudo está ganho. Não és uma rival do meu trabalho. Não és a musa que é sacrificada. Quão intensamente cônscio estou, e quão agradecido a ti, por teres realizado este milagre! Trata-se de uma criação tua, perfeitamente humana, conseguida por meio da mais amarga das batalhas. O que tu alcançaste é nada menos que heroico. Se fosses uma mera mulher, terias falhado. És uma artista - na vida -, e que melhor elogio poderia fazer-te? Eu era apenas artista nas palavras, ao passo que na vida, era um cruel falhanço. Palavras, palavras... Como elas são capazes de sufocar a alma! Deem-me a mulher e as palavras hão de ocupar o seu próprio lugar. Eu era um escravo das palavras. Agora vou passar a usá-las.

Por vezes, penso que a minha vinda para aqui deveria ter este único resultado definitivo: o de que a minha personalidade será sentida e reconhecida. Penso, se é que posso esperar uma recompensa devida, que, uma vez que tiver convencido as pessoas da minha integridade, qualquer coisa que eu faça ou diga, qualquer coisa que escreva, irá encontrar a sua aprovação. As pessoas não poderão ignorar-me quando souberem quem sou, quando conhecerem a minha sinceridade, a minha seriedade. Já não tenho qualquer desejo de ser o bobo, o injuriado, o negligenciado. Anseio agora por conquistar as pessoas, estar à sua frente e falar-lhes, convencê-las. Já não se trata de uma questão de literatura mas da minha vida, da minha vida contigo. Sinto-o de uma maneira tão forte que tenho a certeza de que isso deve fazer-se sentir.

Talvez eu acabe por ser muito, muito mais simples. Cada palavra deve queimar. As palavras estão repletas do meu sangue, da minha paixão por ti, da minha fome de vida, de mais vida, da vida eterna. Tu deste-me vida, Anais. És a chama que tenho acesa dentro de mim. E eu sou o guardião dessa chama. Também eu tenho uma função sagrada.

Oh, não vês, não conheces, não acreditas em tudo o que te escrevo? Não é tudo claro, verdadeiro e justo? Não ficarás comigo, dentro de mim, para sempre? Venho de uma tremenda distância só para te encontrar. Dizer que te amo não basta. É mais, mais. Sonda dentro de mim, escava tudo o que se encontra dentro de mim. Sinto-me inesgotavelmente rico.»


Henry Miller
, in "Carta de Henry Miller a Anais Nin, 1935"



Foto de Henry Miller em 1940, por Carl Van Vechten
 

Henry Valentine Miller (Manhattan, New York, 26 de Dezembro de 1891 – Los Angeles, 7 de Junho de 1980), foi um escritor norte-americano.
Seu estilo é caracterizado pela mistura de autobiografia com ficção. Muitas vezes lembrado como escritor pornográfico, escreveu também livros de viagem e ensaios sobre literatura e arte. O autor foi homenageado pelo célebre crítico Otto Maria Carpeaux em prefácio para o livro O Mundo do Sexo, editora Pallas 1975, Rio de Janeiro.
Uma de suas amantes foi a escritora Anaïs Nin. Há um filme ficcional sobre o período da vida em que eles se conheceram, Henry and June, baseado nos diários de Anaïs.

Henry Miller tornou-se um clássico quando publicou a trilogia "Sexus, Plexus, Nexus", que ele chamou "A Crucificação Encarnada". Como nos outros livros, esses romances narram trechos de sua própria vida, embora ele negasse. Sobre seu processo, declarou: "fiz uso, ao longo desses livros, de irruptivos assaltos ao inconsciente, tais como sonhos, fantasia, burlesco, trocadilhos pantagruélicos, etc, que emprestam à narrativa um caráter caótico, excêntrico, perplexo". Tudo isso é verdade, mas também o é que Miller vivia na pândega e descrevia isso.

Embora a obra de Henry Miller se tenha tornado, para parte do público e crítica, sinónimo de literatura erótica, há também muitas passagens filosóficas em seu livros mais famosos, obras nada obscenas ou lascivas. Por exemplo, "Big Sur e As Laranjas de Hieronimus Bosch" tem como eixo principal a narrativa prosaica dos dias em que a personagem autobiográfica de Miller vive, com sua penúltima mulher e filhos, na isolada, pacata e "mística" região de Big Sur, na Califórnia (EUA). O mote da obra é um descrição repleta de digressões e recortes de episódios já narrados em outros livros com o fim de comparar as peculiaridades "puras" de Big Sur com os que detêm completamente as confortáveis benesses e também as tragédias comportamentais da pós-modernidade.

Outra obra que passa longe de temas e motivos eróticos é "Colosso de Marússia". O livro baseia-se numa viagem feita pelo autor à Grécia, antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial, em 1939. Na verdade, vê-se, ao longo de todo o livro, um Miller deslumbrado com a magnanimidade da cultura ancestral grega, assim como faz uso das descrições e análises do povo grego para contrapor a simplicidade à "civilização da guerra" - representada, muitas vezes, por referências ao nova-iorquino médio.



Foto de Anaïs Nin, na déc. de 1970, por Elsa Dorfman.
 

Anaïs Nin (21 de fevereiro de 1903, Neuilly, perto de Paris — 14 de janeiro de 1977, Los Angeles) batizada Angela Anaïs Juana Antolina Rosa Edelmira Nin y Culmell, foi uma autora nascida em França.
Anaïs Nin tornou-se famosa pela publicação de diários pessoais, que medem um período de quarenta anos, começando quando tinha doze anos. Foi amante de Henry Miller e só permitiu que seus diários fossem publicados após a morte de seu marido Hugh Guiler.
Seus romances e narrativas, impregnados de conteúdo erótico foram profundamente influenciados pela obra de James Joyce e a psicanálise. Dentre suas obras destaca-se Delta de Vênus (1977), traduzido para todas as línguas ocidentais, aclamado pela crítica americana e europeia.
Foi realizado no cinema em 1990 um filme, Henry & June, dirigido por Philip Kaufman, que falava do período que Anaïs Nin conheceu Henry Miller. Anaïs Nin foi interpretada pela atriz portuguesa Maria de Medeiros.