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terça-feira, 5 de maio de 2026

"Rio abaixo" - Poema de Olavo Bilac



Winslow Homer (American landscape painter and illustrator, 1836–1910),
"The Blue Boat', 1892, Museum of Fine Arts Boston.

["The Blue Boat" is a work by Winslow Homer done in his favorite medium of watercolor, measuring about 15.1 by 21.5 inches. It is an outdoor scene depicting 2 men fishing from a small blue canoe. It is a work that is alive with color and motion, and the artist's perspective of a viewer some distance away allows for the addition of rich detail for the sky, the water, and the land.
The watercolor work was completed in 1892. It is thus a later product of his long career in naturalism, done after he had earned a reputation as one of the great American painters.
As an independent and successful artist, Homer painted the subjects of his choice. He lived near the sea for most of the latter half of his life, and many of his major works reflect his lifelong interest in related topics such as the sea, beaches, boats, and bathers.]
 (daqui)
 

Rio Abaixo


Treme o rio, a rolar, de vaga em vaga...
Quase noite. Ao sabor do curso lento
Da água, que as margens em redor alaga,
Seguimos. Curva os bambuais o vento.

Vivo, há pouco, de púrpura, sangrento,
Desmaia agora o Ocaso. A noite apaga
A derradeira luz do firmamento...
Rola o rio, a tremer, de vaga em vaga.

Um silêncio tristíssimo por tudo
Se espalha. Mas a lua lentamente
Surge na fímbria do horizonte mudo:

E o seu reflexo pálido, embebido
Como um gládio de prata na corrente,
Rasga o seio do rio adormecido.


Olavo Bilac
, in "Poesias, 1884/1887", 1ª. ed. 1888
(Inclui Panóplias - Via-Láctea - Sarças de fogo),
Poema integrante da série Sarças de Fogo.


sexta-feira, 27 de março de 2026

"A Mocidade" - Poema de Olavo Bilac

 


Viggo Johansen
(Danish painter, 1851-1935), Children Painting Spring Flowers, 1894.
Skagens Museum


A Mocidade 


A mocidade é como a primavera!
A alma, cheia de flores resplandece,
Crê no Bem, ama a vida, sonha e espera,
E a desventura facilmente esquece.

É a idade da força e da beleza:
Olha o futuro, e inda não tem passado:
E, encarando de frente a Natureza,
Não tem receio do trabalho ousado.

Ama a vigília, aborrecendo o sono;
Tem projetos de glória, ama a Quimera;
E ainda não dá frutos como o outono,
Pois só dá flores como a primavera!


Olavo Bilac
, em Poesias Infantis, 1904.
 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

"O Rio" - Poema de Olavo Bilac

 

 
André Derain (French artist, painter, sculptor and co-founder, with Henri Matisse,
of Fauvism, 1880–1954), The River, 1912.


O Rio 



Da mata no seio umbroso,
No verde seio da serra,
Nasce o rio generoso,
Que é a providência da terra.

Nasce humilde; e, pequenino,
Foge ao sol abrasador;
É um fio d'água, tão fino,
Que desliza sem rumor.

Entre as pedras se insinua,
Ganha corpo, abre caminho,
Já canta, já tumultua,
Num alegre borburinho.

Agora ao sol, que o prateia,
Todo se entrega, a sorrir;
Avança, as rochas ladeia,
Some-se, torna a surgir.

Recebe outras águas, desce
As encostas de uma em uma,
Engrossa as vagas, e cresce,
Galga os penedos, e espuma.

Agora, indómito e ousado,
Transpõe furnas e grotões,
Vence abismos, despenhado
Em saltos e cachoeirões.

E corre, galopa, cheio
De força; de vaga em vaga,
Chega ao vale, alarga o seio,
Cava a terra, o campo alaga...

Expande-se, abre-se, ingente,
Por cem léguas, a cantar,
Até que cai finalmente,
No seio vasto do mar...

Mas na triunfal majestade
Dessa marcha vitoriosa,
Quanto amor, quanta bondade
Na sua alma generosa!

A cada passo que dava
O nobre rio, feliz
Mais uma árvore criava,
Dando vida a uma raiz.

Quantas dádivas e quantas
Esmolas pelos caminhos!
Matava a sede das plantas
E a sede dos passarinhos...

Fonte de força e fartura,
Foi bem, foi saúde e pão:
Dava às cidades frescura,
Fecundidade ao sertão...

E um nobre exemplo sadio
Nas suas águas se encerra;
Devemos ser como o rio,
Que é a providência da terra:

Bendito aquele que é forte,
E desconhece o rancor,
E, em vez de servir a morte,
Ama a vida, e serve o Amor!


Olavo Bilac
, em Poesias Infantis
 

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

"Fio do frio" - Poema de Irene Lucília Andrade


 
Max Römer (Pintor de origem alemã que viveu na ilha da Madeira, 1878-1960),
Sé Catedral do Funchal, 1927.


Fio do frio


Os dias de dezembro
não são sempre os dias de dezembro
e a certeza do olhar
não está no sol em ausência
ou no fio de frio que se estende
entre rosas e pomares
dum lado a outro dum inverno tardio,
às vezes a chuva vem cedo e o fogo do céu
rasga as árvores, às vezes perde-se
o termo das estradas no nevoeiro
e o fim das tardes arrepia-se escuro
nos pés dos vagabundos.
Não está no hábito com que à boca
chega a vontade duma palavra útil
ou apenas dum bocejo, digo azul essa
não é a cor destas horas,
não está aqui nem se torna visível a sombra
ou o passo que imprime a diferença, o som
ou a janela equivalente à luz que falta
a música que acende uma memória doce
às formas que dão ao coração
o ensejo dos astros e distantes amores.
Nada está aqui que me diga dezembro
porque dezembro é um hálito sagrado
e o prodígio aponta o indizível.

Porque dezembro é também coisa tão simples
como os galos, o sótão
o altar da infância aconchegado
de ensaião e acácias
porque em dezembro se trazia
estrelas na algibeira
e um fruto no céu a dispersar o medo. 
 

Irene Lucília Andrade
,
Fio de dezembro. Margem 2.
Funchal. N.º 10 (Dez. 1998).

[Irene Lucília Mendes de Andrade (Funchal, 6 de fevereiro de 1938) é uma escritora, poetisa e artista plástica portuguesa, natural da ilha da Madeira. É considerada uma das personalidades mais importantes da literatura contemporânea madeirense.]

 

"O único meio de criar homens livres é educá-los, outro modo ainda não se inventou,
 e com certeza nunca se inventará." 

Olavo Bilac, Obra reunida - Página 517
Alexei Bueno
- Editora Nova Aguilar, 1996.
 

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

"A um Violinista" - Poema de Olavo Bilac

 


Anne Vallayer-Coster (French painter, 1744–1818), Portrait of a Violinist, 1773,
Nationalmuseum, Stockholm.


A um Violinista

I

Quando do teu violino, as asas entreabrindo
Mansamente no espaço, iam-se as notas quérulas,
Anjos de olhos azuis, às duas mãos partindo
Os seus cofres de pérolas,

- Minhas crenças de amor, esquecidas em calma
No fundo da memória, ouvindo-as recebiam
Novo alento, e outra vez do oceano de minh'alma,
Arquipélago verde, à tona apareciam.

E eu via rutilar o meu amor perdido,
Belo, de nova luz e novo encanto cheio,
E um corpo, que supunha há muito consumido,
Agitar-se de novo e oferecer-me o seio.

Tudo ressuscitava ao teu influxo, artista!
E minh'alma revia, alucinada e louca,
Olhos, cujo fulgor me entontecia a vista,
Lábios, cujo sabor me entontecia a boca.

Oh milagre! E, feliz, ajoelhava-me, em pranto,
Como quem, por acaso, um dia, entrando as portas
De um cemitério, vai achar vivas a um canto
As suas ilusões que acreditava mortas,

E ficava a pensar... como se não partia
Essa fraca madeira ao teu toque violento,
Quando com tanta febre a paixão se estorcia
Dentro do pequenino e frágil instrumento!

Porque, nesse instrumento, unidos num só peito,
Todos os corações da terra palpitavam;
E havia dentro dele, em lágrimas desfeito,
O amor universal de todos os que amavam,

Rio largo de sons, tapetado de flores,
A harmonia do céu jorrava ampla e sonora;
E, boiando e cantando, alegrias e dores
Iam corrente em fora...

A Primavera rindo esfolhava as capelas,
E entornava no chão as ânforas cheirosas:
E a canção acordava as rosas e as estrelas,
E enchia de desejo as estrelas e as rosas.

E a água verde do mar, e a água fresca dos rios,
E as ilhas de esmeralda, e o céu resplandecente,
E a cordilheira, e o vale, e os matagais sombrios,
Crespos, e a rocha bruta exposta ao sol ardente:

- Tudo, ouvindo essa voz, tudo cantava e amava!
O amor, caudal de fogo atropelada e acesa,
Entrava pelo sangue e pela seiva entrava,
E ia de corpo em corpo enchendo a Natureza!

E ei-lo triste, no chão, inanimado e frio,
O teu pobre violino, o teu amor primeiro:
E inda nas cordas há, como um leve arrepio,
A última vibração do arpejo derradeiro...

Como, ígneas e imortais, num redemoinho insano,
Longe, a torvelinhar em céus inacessíveis,
Pairam constelações virgens do olhar humano,
Nebulosas sem fim de mundos invisíveis:

- Assim no teu violino, artista! adormecido
À espera do teu arco, em grupos vaporosos,
Dorme, como num céu que não alcança o ouvido,
Um mundo interior de sons misteriosos...

Suspendam-me ao ar livre esse doce instrumento!
Deixem-no ao sol, em glória, em delirante festa!
E ele se embeberá dos perfumes que o vento
Traz dos frescos desvãos do vale e da floresta.

Os pássaros virão tecer nele os seus ninhos!
As rosas se abrirão em suas cordas rotas!
E ele derramará sobre os verdes caminhos
Da antiga melodia as esquecidas notas!

Hão de as aves cantar, hão de cantar as flores...
Os astros sorrirão de amor na imensa esfera...
E a terra acordará para os novos amores
De nova primavera!

II

Porque, como Terpandro acrescentou à lira,
Para a tornar mais doce, uma corda mais pura,
Que é a corda onde a paixão desprezada suspira,
E, em lágrimas, a arder, suspira a desventura;

Também desse instrumento às quatro cordas de ouro,
O Desespero, o Amor, a Cólera, a Piedade,
- Tu, nobre alma, chorando acrescentaste o choro
Eterno e a eterna dor da corda da Saudade

É saudade o que sinto, e me enche de ais a boca,
E me arrebata o sonho, e os nervos me fustiga,
Quando te ouço tocar: saudade ansiosa e louca
Do primitivo amor e da beleza antiga...

Para trás! para trás! Basta um simples arpejo,
Basta uma nota só... Todo o espaço estremece:
E, dando aos pés do amado o derradeiro beijo
Quase morta de dor, Madalena aparece...

Ao luar de Verona, a amorosa cabeça
De Julieta desmaia entre os braços do amante:
Não tarda que a alvorada em fogo resplandeça,
E na devesa em flor a cotovia cante...

Viúva triste, que à paz do claustro pede alivio,
Para a sua viuvez, para o seu luto imenso,
Branca, sob o livor do escapulário níveo,
Heloísa ergue as mãos, numa nuvem de incenso...

E na suave espiral das melodias puras,
Vão fugindo, fugindo os vultos infelizes,
Mostrando ao meu amor as suas amarguras,
Mostrando ao meu olhar as suas cicatrizes.

Canta! o rio de sons que do seio te brota
E, entre os parcéis da dor, corre, cascateando,
E vai, de vaga em vaga, e vai, de nota em nota,
Ao sabor da corrente os sonhos arrastando;

Que pelo vale espalha a cabeleira inquieta,
Refrescando os rosais, e, em leve burburinho,
Um gracejo segreda a cada borboleta,
E segreda um queixume a cada passarinho;

Que a todo o desconforto e a todo o sofrimento
Abre maternalmente o regaço das águas,
- É o rio perfumado e azul do Esquecimento,
Onde se vão banhar todas as minhas mágoas.


Olavo Bilac
, in Alma Inquieta 
 
 
 
Anne Vallayer-CosterA Lady Writing and her Daughter, 1775


"Há uma cor que não vem nos dicionários. É essa indefinível cor que têm todos os retratos, os figurinos da última estação, a voz das velhas damas, os primeiros sapatos, certas tabuletas, certas ruazinhas laterais: - a cor do tempo..."
 
Mário Quintana, in Sapato Florido, 1948.

quarta-feira, 30 de julho de 2025

"O Boi" - Poema de Olavo Bilac

 


António da Silva Porto
 (Pintor português, 1850-1893), A Salmeja, 1884, óleo sobre tela.
Museu de José Malhoa



O Boi


Quando ainda no céu não se percebe a aurora,
E ainda está molhando as árvores o orvalho,
Sai pelo campo afora
O boi, para o trabalho.

Com que calma obedece!
Caminha sem parar:
E o sol, quando aparece,
Já o encontra, robusto e manso, a trabalhar.

Forte e meigo animal! Que bondade serena
Tem na doce expressão da face resignada!
Nem se revolta, quando o lavrador, sem pena,
Para o instigar, lhe crava a ponta da aguilhada.

Cai-lhe de rijo o sol sobre o largo cachaço;
Zumbem moscas sobre ele, e picam-no sem dó;
Porém, indiferente às dores e ao cansaço,
Caminha o grande boi, numa nuvem de pó.

Lá vai pausadamente o grande boi marchando...
E, por ele puxado,
Larga e profundamente o solo retalhando,
Vai o possante arado.

Desce a noite. O luar fulgura sobre os campos.
Cessa a vida rural.
Há estrelas no céu. Na terra há pirilampos.
E o boi, para dormir, regressa ao seu curral... 


Olavo Bilac, em Poesias infantis.
RJ: Francisco Alves, 1929.




Tomás da Anunciação (Pintor português, 1818–1879)O Vitelo, 1871.
Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado



"Até que alguém ame um animal, uma parte da sua alma permanece adormecida."

Anatole France

(Nobel de Literatura, 1921)



Retrato de Tomás José da Anunciação, 1860's,
gravura de Joaquim Pedro de Sousa,
no Museu do Chiado

Tomás José da Anunciação, pintor português, nascido em 1818 e falecido em 1879, estudou pintura em Portugal com Norberto José Ribeiro, António Manuel da Fonseca e Benjamim Comte, e em França com Palizzi e Yvon. Destacou-se sobretudo no âmbito da pintura de animais, apesar de ter pintado também paisagens e feito cópias de quadros antigos.
A sua obra, revelando minuciosamente os detalhes mais ínfimos, manifesta influências tanto do romantismo como do naturalismo realista. Participou em exposições como as 3.ª e 4.ª Exposições Trienais da Academia Real de Belas Artes, em 1852 e 1856, na 1.ª Exposição da Sociedade Promotora de Belas-Artes, na Exposição Universal de Paris (1867) e na Exposição de Madrid (1871).
Foi diretor da Real Galeria de Pintura do Palácio Nacional da Ajuda, professor de Pintura da Paisagem e de Desenho do Antigo na Real Academia de Belas-Artes e seu diretor interino.
O seu quadro mais conhecido é "O Vitelo" (1871), que se encontra no Museu Nacional de Arte Contemporânea, mas também se encontram outras obras deste pintor noutros museus como a Casa-Museu dos Patudos de Alpiarça, o Museu Grão-Vasco de Viseu e o Solar do Monteiro-Mor do Juncal, na Extremadura. (daqui)

 

terça-feira, 24 de junho de 2025

"Junho" - Poema de Olavo Bilac

 


Alberto da Veiga Guignard (Pintor e professor brasileiro, 1896-1962), 
"Tarde de São João", 1959. Óleo sobre tela,  30 x 40 cm. 


Junho 
 

Coro de crianças:

Passem os meses desfilando!
Venha cada um por sua vez!
Dancemos todos, escutando
O que nos conta cada mês!

Junho:

Em chamas alvissareiras,
Ardem, crepitam fogueiras...
— E os balões de S. João
Vão luzir, entre as neblinas,
Como estrelas pequeninas,
Entre as outras, na amplidão.

Não há casinha modesta
Que não se atavie, em festa,
Nestas noites, a brilhar:
Não se recordam tristezas . . .
Estalam bichas chinesas,
Estouram foguetes no ar.

Fogos alegres, pistolas,
Bombas! ao som das violas,
Ardei! cantai! crepitai!
Num largo e claro sorriso.
Seja a terra um paraíso!
Folgai, crianças, folgai!

Coro de crianças:

Aí vem Julho, o mês do frio...
Vamos os corpos aquecer,
Acelerando o rodopio...
— Pode outro mês aparecer!


Olavo Bilac
, em Poesias infantis.
RJ: Francisco Alves. 1929.
 
 
 Óleo sobre tela, 61 x 46 cm. Museu de Arte da Pampulha


Quando vieste da festa


Quando vieste da festa,
Vinhas cansada e contente.
A minha pergunta é esta:
Foi da festa ou foi da gente?

s.d.

Fernando Pessoa, Quadras ao Gosto Popular.

(Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.)
Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). - 61.
 

quarta-feira, 4 de junho de 2025

"Meio-Dia" - Poema de Olavo Bilac



Pedro Weingärtner (Pintor, desenhista e gravurista brasileiro, 1853 –1929), 
Cena campestre, s. d. Coleção particular.
 

Meio-Dia


Meio-dia. Sol a pino.
Corre de manso o regato.
Na igreja repica o sino;
Cheiram as ervas do mato.

Na árvore canta a cigarra;
Há recreio nas escolas:
Tira-se, numa algazarra,
A merenda das sacolas.

O lavrador pousa a enxada
No chão, descansa um momento,
E enxuga a fronte suada,
Contemplando o firmamento.

Nas casas ferve a panela
Sobre o fogão, nas cozinhas;
A mulher chega à janela,
Atira milho às galinhas.

Meio-dia! O sol escalda,
E brilha, em toda a pureza,
Nos campos cor de esmeralda,
E no céu cor de turquesa...

E a voz do sino, ecoando
Longe, de atalho em atalho,
Vai pelos campos, cantando
A Vida, a Luz, o Trabalho! 


Olavo Bilac
, em 'Poesias infantis'.
RJ: Francisco Alves, 1929.

segunda-feira, 5 de maio de 2025

"A Língua Portuguesa" - Poema de Olavo Bilac


 
António Ramalho ou Ramalho Júnior (Pintor português, 1859 - 1916), 
 Camões lendo os "Lusíadas" a D. Sebastião, em litografia de 1893.


A Língua Portuguesa

 
Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela…

Amo-te assim, desconhecida e obscura
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: «Meu filho!»
E em que Camões chorou, no exílio amargo
O génio sem ventura e o amor sem brilho!


Olavo Bilac
, in "Poesias"


Comissão UNESCO endossa 5 de Maio como Dia Mundial da Língua Portuguesa (daqui)

 

Dia Mundial da Língua Portuguesa

A data de 5 de Maio foi oficialmente estabelecida em 2009 pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) - uma organização intergovernamental, parceira oficial da UNESCO desde 2000, que reúne os povos que têm a língua portuguesa como um dos fundamentos da sua identidade específica - para celebrar a língua portuguesa e as culturas lusófonas. Em 2019, a 40ª sessão da Conferência Geral da UNESCO decidiu proclamar o dia 5 de Maio de cada ano como "Dia Mundial da Língua Portuguesa".

A língua portuguesa é não só uma das línguas mais difundidas no mundo, com mais de 265 milhões de falantes espalhados por todos os continentes, como é também a língua mais falada no hemisfério sul. O português continua a ser, hoje, uma das principais línguas de comunicação internacional, e uma língua com uma forte extensão geográfica, destinada a aumentar.

Os Dias consagrados às línguas faladas em todo o mundo celebram anualmente o multilinguismo e a diversidade cultural, e constituem uma oportunidade para sensibilizar a comunidade internacional para a história, a cultura e a utilização de cada uma destas línguas. O multilinguismo, um valor central das Nações Unidas e uma área de importância estratégica para a UNESCO, é um fator essencial para uma comunicação harmoniosa entre os povos, promovendo a unidade na diversidade, a compreensão internacional, a tolerância e o diálogo. (daqui)

 

quarta-feira, 5 de março de 2025

"O Pássaro Cativo" - Poema de Olavo Bilac

 

  
Vitor Hugo Matos (Arquiteto e ilustrador português),
"Estudo para a Liberdade"



O Pássaro Cativo 


Armas, num galho de árvore, o alçapão;
E, em breve, uma avezinha descuidada,
Batendo as asas cai na escravidão.

Dás-lhe então, por esplêndida morada,
A gaiola dourada;
Dás-lhe alpiste, e água fresca, e ovos, e tudo:
Porque é que, tendo tudo, há de ficar
O passarinho mudo,
Arrepiado e triste, sem cantar?

É que, criança, os pássaros não falam.
Só gorjeando a sua dor exalam,
Sem que os homens os possam entender;
Se os pássaros falassem,
Talvez os teus ouvidos escutassem
Este cativo pássaro dizer:

“Não quero o teu alpiste!
Gosto mais do alimento que procuro
Na mata livre em que a voar me viste;
Tenho água fresca num recanto escuro
Da selva em que nasci;

Da mata entre os verdores,
Tenho frutos e flores,
Sem precisar de ti!
Não quero a tua esplêndida gaiola!
Pois nenhuma riqueza me consola

De haver perdido aquilo que perdi ...
Prefiro o ninho humilde, construído
De folhas secas, plácido, e escondido
Entre os galhos das árvores amigas ...

Solta-me ao vento e ao sol!
Com que direito à escravidão me obrigas?
Quero saudar as pompas do arrebol!
Quero, ao cair da tarde,
Entoar minhas tristíssimas cantigas!
Por que me prendes? Solta-me covarde!
Deus me deu por gaiola a imensidade:
Não me roubes a minha liberdade ...
Quero voar! voar! ...’’

Estas coisas o pássaro diria,
Se pudesse falar.
E a tua alma, criança, tremeria,
Vendo tanta aflição:
E a tua mão tremendo, lhe abriria
A porta da prisão...


Olavo Bilac, em "Poesias infantis",
Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1929.

 

Vitor Hugo Matos, "Liberdade"


"A palavra é o instrumento irresistível da conquista da liberdade."

(Ruy Barbosa)

domingo, 25 de junho de 2023

"Os Pobres" - Poema de Olavo Bilac



Manuel Henrique Pinto
(Pintor português, 1853-1912), "As velhas" ou "As velhas do café", 1903
(Figueiró dos Vinhos, Portugal)




Os Pobres


Aí vêm pelos caminhos,
Descalços, e pés no chão,
Os pobres que andam sozinhos,
Implorando compaixão.

Vivem sem cama e sem teto,
Na fome e na solidão:
Pedem um pouco de afeto,
Pedem um pouco de pão.

São tímidos? São covardes?
Têm pejo? Têm confusão?
Parai para os encontrardes,
E dai-lhes a vossa mão!

Guiai-lhes os tristes passos!
Dai-lhes, sem hesitação,
O apoio de vossos braços,
Metade de vosso pão!

Não receeis que, algum dia,
Vos assalte a ingratidão:
O prémio está na alegria
Que tereis no coração.

Protegei os desgraçados,
Órfãos de toda a afeição:
E sereis abençoados
Por um pedaço de pão... 
 
 
Olavo Bilac
, in Antologia poética


Olavo Bilac, Antologia poética, 1997
 Coleção L&PM

 

Resumo 
 
Quem escreveu In extremis, Hino à tarde e outros poemas desse nível é um grande poeta, teve a alma vibrando de beleza. Esta seleção pretende fazer justiça a Olavo Bilac. Para ele eram tão fáceis a expressão e a palavra, escrita ou falada, que a bem dizer teve o direito de se demorar no âmbito delas, sem aprofundar uma visão da vida, a pregar o dever de ser bom, instruído, trabalhador, patriota e amar. Com isso todos estavam de acordo e adotaram o poeta, jornalista e orador que o sabia dizer tão bem. (...) Realmente, ninguém tem na língua verso mais plástico e musical. Nem Bocage, nem Guerra Junqueiro, nem Vicente de Carvalho. E essa música, nos momentos de êxtase que são vários, já é música das esferas, vai ao cerne da vida. - Paulo Hecker Filho (daqui)



Olavo Bilac
 
Nasce em 1865 no Rio de Janeiro. Seu nome completo, Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac, dá um verso alexandrino, o que sempre foi tomado popularmente como um sinal de sua vocação. Obtém matrícula na Faculdade de Medicina aos 15 anos, vai até o quinto ano, passa a Direito, mas não termina nenhum curso superior, tinha mais o que fazer. E fazia: escrevia e vivia sem parar, em rodas boémias, literaturas, amores. Aos 21, um soneto em francês, o que era chique e não incomum na época, sai com o “Ora (direis) ouvir estrelas”. É o sucesso, que logo o tornaria o mais conhecido e benquisto homem de letras do país de todos os tempos, até a morte em 1918 (de edema pulmonar por insuficiência cardíaca, tinha gasto o coração...).

A prosa é inacabável, inclusive com contos e um romance, “O esqueleto”, mas mais artigos, conferências, crónicas, e que reúne em vida em vários volumes, alguns em colaboração, com Coelho Neto, Pardal Mallet, até com o Eça iniciou brincando um romance. Em verso, edita “Poesias” em 1988, com a “Profissão de fé”, em que, num eco de “L´art” de Théophile Gautier, empunha a bandeira da Arte e dá o poeta como ourives; não param de criticar, mas ele até podia, pelo poeta que era além do ou­rives... Seguiam-se, no volume, “Panóplias”, “Via Láctea” e “Sarças de fogo”. A segunda é uma série de 35 sonetos, dados aqui na íntegra, e que, na maioria, cantam um amor, com uma perfeição que impressiona, ainda mais se lembrarmos que tinha apenas 23 anos. Apesar da repercussão, a segunda edição de “Poesias” só vem em 1902, acrescentada de “Alma inquieta”, “As viagens” e “O caçador de esmeraldas”, tentativa de poema épico procurada, verbal, mas que acha inspiração para o fim, aqui reproduzido. De 1904 são as “Poesias infantis”, de que o Brasil aprendeu e ainda hoje sabe de cor tantos versos. Por fim, o livro que o grande sensual quer com a solenidade do crepúsculo, “Tarde”, em 1919, no ano seguinte de sua morte, mas cujas provas ainda revisou.

Texto de Paulo Hecker Filho. Em Antologia Poética (L&PM POCKET, v.38) (daqui)


quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

"Baladas Românticas" - Poema de Olavo Bilac




Hans Zatzka (Austrian, 1859–1945), Blumenreigen,
Dancing Amongst the Flowers, ca. 1900 



Baladas Românticas


Como era verde este caminho!
Que calmo o céu! que verde o mar!
E, entre festões, de ninho em ninho,
A Primavera a gorjear!...
Inda me exalta, como um vinho,
Esta fatal recordação!
Secou a flor, ficou o espinho...
Como me pesa a solidão!

Órfão de amor e de carinho,
Órfão da luz do teu olhar,
- Verde também, verde-marinho,
Que eu nunca mais hei de olvidar!
Sob a camisa, alva de linho,
Te palpitava o coração...
Ai! coração! peno e definho,
Longe de ti, na solidão!

Oh! tu, mais branca do que o arminho,
Mais pálida do que o luar!
- Da sepultura me avizinho,
Sempre que volto a este lugar...
E digo a cada passarinho:
"Não cantes mais! que essa canção
Vem me lembrar que estou sozinho,
No exílio desta solidão!"

No teu jardim, que desalinho!
Que falta faz a tua mão!
Como inda é verde este caminho...
Mas como o afeia a solidão!
 
 
Olavo Bilac, in “Poesias”
 
 
 
Joseph Bernard (French, 1864-1933), Allegory of Spring
 


Primavera 


As flores abrindo
no vento da primavera
como gargalhadas
 
 
É primavera –
sobre a montanha sem nome
névoa da manhã.
 
 
Vai-se a primavera –
choram as aves e há lágrimas 
nos olhos dos peixes. 
 

Matsuo Bashō
(Haicai / Haikai / Haiku)

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

"Velhas Árvores" - Poema de Olavo Bilac


George Goodwin Kilburne (British painter, 1839-1924), The Picnic, c. 1900 (watercolour) 
 

Velhas Árvores



Olha estas velhas árvores, mais belas
Do que as árvores novas, mais amigas:
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas…

O homem, a fera, e o inseto, à sombra delas
Vivem, livres de fomes e fadigas;
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E os amores das aves tagarelas.

Não choremos, amigo, a mocidade!
Envelheçamos rindo! envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem:

Na glória da alegria e da bondade,
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem!

 
Olavo Bilac, in “Poesias”
Editora Martin Claret, S.P., 2003, p. 138.


George Goodwin Kilburne, The family picnic (watercolour)


"Árvores são poemas que a terra escreve para o céu. Nós as derrubamos e as transformamos em papel para registar todo o nosso vazio." 
 
(Khalil Gibran)

Árvores são poemas que a terra escreve para o céu. Nós as derrubamos e as transformamos em papel para registrar todo nosso vazio.

Fonte: https://citacoes.in/citacoes/602952-khalil-gibran-arvores-sao-poemas-que-a-terra-escreve-para-o-ceu/

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

"Dualismo" - Soneto de Olavo Bilac


 
Peder Mørk Mønsted (Danish painter, 1859–1941), The Cloister, Taormina, 1885.
 


 Dualismo

 
Não és bom, nem és mau: és triste e humano...
Vives ansiando em maldições e preces,
Como se, a arder, no coração tivesses
O tumulto e o clamor de um largo oceano. 

Pobre, no bem como no mal, padeces;
E, rolando num vórtice vesano,
Oscilas entre a crença e o desengano,
Entre esperanças e desinteresses. 

Capaz de horrores e de ações sublimes,
Não ficas das virtudes satisfeito,
Nem te arrependes, infeliz, dos crimes: 

E, no perpétuo ideal que te devora,
Residem juntamente no teu peito
Um demónio que ruge e um deus que chora.
 

Olavo Bilac, in "Poesias"
 
 
Peder Mørk Mønsted, Temple of the Sibyl at Tivoli, 1884. 
 

Dualismo:
(dualismo in Dicionário infopédia da Língua Portuguesa)
 
1. Carácter do que comporta duas realidades ou dois elementos independentes; dualidade

2. Reunião de dois estados autónomos sob a mesma autoridade

3. Filosofia - doutrina que admite, no domínio considerado, dois elementos irredutíveis e independentes (a natureza e a graça, a matéria e a energia, a alma e o corpo, o bem e o mal, etc.)

4. Doutrina metafísica que admite, no Universo, duas substâncias ou dois mundos irredutíveis 

 
Peder Mørk Mønsted, View from Kolding Lake towards Koldinghus, 1880, oil on canvas.

 
Ar
 
É da liberdade destes ventos 
que me faço.
 
Pássaro-meu corpo 
(máquina de viver), 
bebe o mel feroz do ar 
nunca o sossego. 
 
 
 

terça-feira, 20 de outubro de 2020

"Via-Láctea" - 7 Sonetos (XXIX a XXXV) de Olavo Bilac


William McGregor Paxton, The String of Pearls, 1908


Sonetos 

XXIX

Por tanto tempo, desvairado e aflito,
Fitei naquela noite o firmamento,
 Que inda hoje mesmo, quando acaso o fito, 
Tudo aquilo me vem ao pensamento.
 
 Saí, no peito o derradeiro grito
 Calcando a custo, sem chorar, violento... 
E o céu fulgia plácido e infinito,
 E havia um choro no rumor do vento...
 
 Piedoso céu, que a minha dor sentiste!
 A áurea esfera da lua o ocaso entrava,
 Rompendo as leves nuvens transparentes;
 
 E sobre mim, silenciosa e triste, 
 A via-láctea se desenrolava
 Como um jorro de lágrimas ardentes. 
 
XXX 
 
Ao coração que sofre, separado
 Do teu, no exílio em que a chorar me vejo,
 Não basta o afeto simples e sagrado
 Com que das desventuras me protejo.
 
 Não me basta saber que sou amado, 
Nem só desejo o teu amor: desejo
 Ter nos braços teu corpo delicado, 
Ter na boca a doçura de teu beijo.
 
 E as justas ambições que me consomem
 Não me envergonham: pois maior baixeza
 Não há que a terra pelo céu trocar;
 
 E mais eleva o coração de um homem
 Ser de homem sempre e, na maior pureza,
 Ficar na terra e humanamente amar. 
 
XXXI
 
 Longe de ti, se escuto, porventura,
 Teu nome, que uma boca indiferente
 Entre outros nomes de mulher murmura,
 Sobe-me o pranto aos olhos, de repente... 
 
Tal aquele, que, mísero, a tortura
 Sofre de amargo exílio, e tristemente
 A linguagem natal, maviosa e pura,
 Ouve falada por estranha gente.
 
 Porque teu nome é para mim o nome
 De uma pátria distante e idolatrada,
 Cuja saudade ardente me consome:
 
 E ouvi-lo é ver a eterna primavera
 E a eterna luz da terra abençoada,
 Onde, entre flores, teu amor me espera. 
 
XXXII
 A um poeta
 
 Leio-te: - o pranto dos meus olhos rola:
 - Do seu cabelo o delicado cheiro,
 Da sua voz o timbre prazenteiro,
 Tudo do livro sinto que se evola...
 
 Todo o nosso romance: - a doce esmola
 Do seu primeiro olhar, o seu primeiro 
Sorriso, - neste poema verdadeiro, 
Tudo ao meu triste olhar se desenrola.
 
 Sinto animar-se todo o meu passado:
 E quanto mais as páginas folheio,
 Mais vejo em tudo aquele vulto amado.
 
 Ouço junto de mim bater-lhe o seio, 
E cuido vê-la, plácida, a meu lado,
 Lendo comigo a página que leio. 

XXXIII
 
 Como quisesse livre ser, deixando
 As paragens natais, espaço em fora,
 A ave, ao bafejo tépido da aurora,
 Abriu as asas e partiu cantando.
 
 Estranhos climas, longes céus, cortando
 Nuvens e nuvens, percorreu: e, agora
 Que morre o sol, suspende o voo, e chora,
 E chora, a vida antiga recordando...
 
 E logo, o olhar volvendo compungido 
Atrás, volta saudosa do carinho,
 Do calor da primeira habitação...
 
 Assim por largo tempo andei perdido:
 Ah! que alegria ver de novo o ninho,
 Ver-te, e beijar-te a pequenina mão! 

XXXIV
 
 Quando adivinha que vou vê-la, e à escada
 Ouve-me a voz e o meu andar conhece,
 Fica pálida, assusta-se, estremece,
 E não sei por que foge envergonhada.
 
 Volta depois. À porta, alvoroçada,
 Sorrindo, em fogo as faces, aparece:
 E talvez entendendo a muda prece
 De meus olhos, adianta-se apressada.
 
 Corre, delira, multiplica os passos; 
E o chão, sob os seus passos murmurando, 
Segue-a de um hino, de um rumor de festa...
 
 E ah! que desejo de a tomar nos braços,
 O movimento rápido sustando
 Das duas asas que a paixão lhe empresta. 

XXXV 
 
Pouco me pesa que mofeis sorrindo
 Destes versos puríssimos e santos:
 Porque, nisto de amor e íntimos prantos,
 Dos louvores do público prescindo. 
 
Homens de bronze! um haverá, de tantos,
 (Talvez um só) que, esta paixão sentindo,
 Aqui demore o olhar, vendo e medindo
 O alcance e o sentimento destes cantos.
 
 Será esse o meu público. E, decerto, 
Esse dirá: "Pode viver tranquilo
 Quem assim ama, sendo assim amado!
 
"E, trémulo, de lágrimas coberto,
 Há de estimar quem lhe contou aquilo
 Que nunca ouviu com tanto ardor contado.


Olavo Bilac
in "Via-Láctea", 1888
 
 
Olavo Bilac
 
 
Olavo Braz Martins dos Guimarães Bilac, jornalista, poeta, inspetor de ensino, nasceu no Rio de Janeiro, em 16 de dezembro de 1865, e faleceu, na mesma cidade, em 28 de dezembro de 1918, com apenas 53 anos.
 
Eram seus pais o Dr. Braz Martins dos Guimarães Bilac e D. Delfina Belmira dos Guimarães Bilac. Após os estudos primários e secundários, matriculou-se na Faculdade de Medicina no Rio de Janeiro, mas desistiu no 4º. ano. Tentou, a seguir, o curso de Direito em São Paulo, mas não passou do primeiro ano. Dedicou-se desde cedo ao jornalismo e à literatura. Teve intensa participação na política e em campanhas cívicas, das quais a mais famosa foi em favor do serviço militar obrigatório. 
 
Um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, criou a Cadeira nº. 15, que tem como patrono Gonçalves Dias. Fundou vários jornais, de vida mais ou menos efémera, como A Cigarra, O Meio, A Rua
Na seção “Semana” da Gazeta de Notícias, substituiu Machado de Assis, trabalhando ali durante anos. É o autor da letra do Hino à Bandeira
Fazendo jornalismo político nos começos da República, foi um dos perseguidos por Floriano Peixoto. Teve que se esconder em Minas Gerais, quando frequentou a casa de Afonso Arinos em Ouro Preto. 
 
No regresso ao Rio, foi preso. Em 1891, foi nomeado oficial da Secretaria do Interior do Estado do Rio e em 1898, inspetor escolar do Distrito Federal, cargo em que se aposentou, pouco antes de falecer. Foi também delegado em conferências diplomáticas e, em 1907, secretário do prefeito do Distrito Federal. Em 1916, fundou a Liga de Defesa Nacional.
 
Olavo Bilac não constituiu família, seu grande amor foi Amélia de Oliveira irmã do poeta Alberto de Oliveira. Chegaram a ficar noivos, mas por causa do outro irmão dela o noivado foi desfeito. (Com a morte do pai, o irmão de Amélia que assumiu o posto de patriarca da família, impediu o noivado com Bilac, alegando que o poeta era muito boémio para a sua irmã. Ambos sofreram com essa decisão, nenhum se casou posteriormente e continuaram trocando poemas de amor.) Essa paixão inspirou boa parte dos sonetos da Via Láctea, composto por 35 sonetos. 
 
A obra poética de Olavo Bilac enquadra-se no Parnasianismo, que teve na década de 1880 a fase mais fecunda. Embora não tenha sido o primeiro a caracterizar o movimento parnasiano, só em 1888 publicou Poesias, tornando-se o mais típico dos parnasianos brasileiros, ao lado de Alberto de Oliveira e Raimundo Correia.

Fundindo o Parnasianismo francês e a tradição lusitana, Olavo Bilac deu preferência às formas fixas do lirismo, especialmente ao soneto. Nas duas primeiras décadas do século XX, seus sonetos de chave de ouro eram decorados e declamados em toda parte, nos saraus e salões literários comuns na época.
 
Nas Poesias encontram-se os famosos sonetos de “Via-Láctea” e a “Profissão de Fé”, na qual codificou o seu credo estético, que se distingue pelo culto do estilo, pela pureza da forma e da linguagem e pela simplicidade como resultado do lavor. 

Ao lado do poeta lírico, há nele um poeta de tonalidade épica, de que é expressão o poema “O caçador de esmeraldas”, celebrando os feitos, a desilusão e morte do bandeirante Fernão Dias Pais. 

Bilac foi, no seu tempo, um dos poetas brasileiros mais populares e mais lidos do país, tendo sido eleito o “Príncipe dos Poetas Brasileiros”, no concurso que a revista Fon-fon lançou em 1º. de março de 1913.
 
Alguns anos mais tarde, os poetas parnasianos seriam o principal alvo do Modernismo. Apesar da reação modernista contra a sua poesia, Olavo Bilac tem lugar de destaque na literatura brasileira, como dos mais típicos e perfeitos dentro do Parnasianismo brasileiro. Foi notável conferencista, numa época de moda das conferências no Rio de Janeiro, e produziu também contos e crónicas. (Daqui)