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domingo, 2 de março de 2025

"Estações do Ano" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen



Veloso Salgado (Pintor português, 1864–1945), Juventude (Youth), 1923,
Museu José Malhoa, Caldas da Rainha, Portugal.
 

Estações do Ano


Primeiro vem Janeiro
Suas longínquas metas
São Julho e são Agosto
Luz de sal e de setas

A praia onde o vento
Desfralda as barracas
E vira os guarda-sóis
Ficou na infância antiga
Cuja memória passa
Pela rua à tarde
Como uma cantiga

O verão onde hoje moro
É mais duro e mais quente
Perdeu-se a frescura
Do verão adolescente

Aqui onde estou
Entre cal e sal
Sob o peso do sol
Nenhuma folha bole
Na manhã parada
E o mar é de metal
Como um peixe-espada 


Sophia de Mello Breyner Andresen,
in "O Nome das Coisas", 1977.

 

 
Sophia de Mello Breyner Andresen
retratada por Bottelho (1964–2014). 
 

Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu no Porto em 1919, mas viveu grande parte da sua vida em Lisboa, onde morre em 2004. Considerada como uma das maiores escritoras portuguesas, foi a primeira mulher a receber o Prémio Camões.
O Mar é transversal à vida e obra da poeta: a Praia da Granja subentende os primeiros anos da sua vida e adolescência; o Algarve a vida adulta e a passagem do Mar revolto do norte para o soalheiro sul. A Grécia, mais do que uma idade, representa o encontro com um ideal de beleza que percorre toda sua poesia, porque o gosto pela Grécia parte do seu gosto pelo Mar, levando-a a apaixonar-se pela cultura helénica muito antes de visitar a Grécia. (daqui)


Veloso Salgado, Autorretrato, 1931. 

José Veloso Salgado, pintor português, nasceu a 2 de abril de 1864, em Ourense, e faleceu a 22 de julho de 1945, em Lisboa. Foi professor na Escola de Belas Artes de Lisboa.
Executou variadíssimas obras que marcaram a pintura da sua época. Merecem destaque Amor e Psique, os painéis decorativos do Palácio da Bolsa e a Alegoria às Cortes de 1820, no Palácio de S. Bento. De sua autoria são igualmente o pano de boca e decoração do Teatro Politeama, em Lisboa. (daqui)


Veloso Salgado, Retrato de Senhora, 1917.
 

Porque nasci no Porto
 
Nasci no Porto. 
 
A cidade, os seus arredores, as praias próximas, descendo para o sul, permanecem para mim a pátria dentro da pátria, a Terra materna, o lugar primordial que me funda. 

Ali estão as tílias enormes, as manhãs de nevoeiro, as praias saturadas de maresia, os rochedos cobertos de algas e anémonas, as primaveras botticellianas, os plátanos, a cerejeira, as camélias. 

Ali o rio, as casas em cascata, os barcos deslizando rente à rua nas tardes cor de frio do inverno. 

Ali o cais, a Ribeira, os rostos, as vozes, os gritos, os gestos. Uma beleza funda, grave, rude e rouca. Escadas, arcadas, ruelas abrindo para o labirinto do fundo do mar da cidade. E, aqui e além, um rosto emergindo do fundo do mar da vida. 

Porque ali é a cidade onde pela primeira vez encontrei os rostos de silêncio e de paciência cuja interrogação permanece. 

Porque ali é o lugar onde para mim começaram todos os maravilhamentos e todas as angústias. 

Cidade onde sonhei cidades distantes, cidade que habitei e percorri na ilimitada disponibilidade interior da adolescência. 

Descia pelo Campo Alegre, passava a Igreja de Lordelo, seguia entre muros de jardins fechados. 

Através das grades de ferro dos portões viam-se rododendros, buxos, cameleiras. 

Depois surgia um rio e ao longo do rio eu caminhava sobre os cais de pedra, até à barra, até aos rochedos onde se espraiam as ondas. 

Histórias de naufrágios, de barcos perdidos, de navios encalhados. Por isso nas noites de temporal se rezava pelos pescadores. Ouvia-se ao longe o tumulto do mar onde navegavam os pequenos barcos da Aguda tentando chegar à praia. Quando a trovoada estava próxima, a luz apagava-se. Então se acendiam velas e se rezava a Magnífica. […]
 
Porque nasci no Porto sei o nome das flores e das árvores e não escapo a um certo bairrismo. Mas escapei ao provincianismo da capital.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Eugénio de Andrade,
Daqui Houve Nome Portugal
, Antologia de verso e prosa sobre o Porto.
 

terça-feira, 14 de janeiro de 2025

"Não nasci por acaso nestas pedras" - Poema de José Gomes Ferreira


Mota Urgeiro (Pintor português, n. 1946), Porto, Avenida dos Aliados, s.d.


  Poema


(O Eugénio de Andrade espera-me num Café.
Atravesso as ruas do Porto – a cidade onde nasci – 
com os punhos cerrados de dor.) 


Não nasci por acaso nestas pedras
mas para aprender dureza,
lume excedido,
coragem de mãos lúcidas.

Aqui no avesso da construção dos tempos
a palavra liberdade
é menos secreta.

Anda nos olhos da rua
pega lanças aos gestos,
tira punhais das lágrimas,
conclui as manhãs.

E principalmente
não cheira a museu azedo
ou musgo embalado
pela chuva da boca dos mortos.

Começa nos cabelos das crianças
para me sentir mais nascido nestas pedras.

Porto
– cidade de luz de granito.

Tristeza de luz viril
com punhos de grito.


José Gomes Ferreira
,
"Daqui houve nome Portugal" - Antologia de verso e prosa sobre o Porto,
organizada e prefaciada por
Eugénio de Andrade,
Editorial Inova, 1968.
 


Mota Urgeiro, Mercado da Ribeira, Porto, s.d..
 
 
"O Porto ergue-se em anfiteatro sobre o esteiro do Douro e reclina-se no seu leito de granito. Guardador de três províncias e tendo nas mãos as chaves dos haveres delas, o seu aspeto é severo e altivo, como o de mordomo de casa abastada."
 
Alexandre Herculano (Escritor, historiador, jornalista e poeta português, 1810–1877)
 

sábado, 22 de junho de 2024

"Toponímia" - Poema de Inês Lourenço

 
Armando Aguiar (Pintor português, n. 1964), Porto, s.d., óleo sobre tela.
 
 
Toponímia


Mudam-se os tempos. Já
não sabemos as matinais canções
nem habitamos vilas morenas.
Toleramos serventes de pedreiro louros,
de preferência não legalizados. Queremos
um grande apartamento em condomínio
fechado, um ferrari, uma piscina, um topo
de gama de uma coisa qualquer.

Temos ruas, temos praças e pontes
com nome de revolução. Como todos
os países temos hino - nação valente
imortal. Tivemos canela e diamantes,
santos, barregãs e dinastias de
tiranos e servos. Andámos muito
no mar, trocando rotas e poderes,
escravos, inquisições e cruzes.

Agora, neste estreito
quadrilátero, de onde saímos
e mal regressámos, sem índias nem
quinto império - salvou-se o manuscrito do
Luís Vaz a nado - restam-nos a sardinha
e a conquilha - ao que consta cercadas
de barcos espanhóis - o bacalhau
que já não vem da Terra Nova, a memória
dos pescadores de baleias, esgotada a captura
nas ilhas.

Também temos o treze
de Maio, o negócio clandestino
das abortadeiras, a broa de Avintes,
os tintos, por enquanto de marca e
o leitão da Bairrada e o Benfica e
o Sporting e o Futebol
Clube do Porto.

Temos ruas, temos praças e
pontes com nome de revolução,
topónimos nebulosos que a distância
apagará. Apenas aquela rua
chamada Cantor Zeca Afonso
poderá surpreender o transeunte
se acrescentarem o aviso:

nunca quis uma rua
só para si.


Inês Lourenço, in Logros Consentidos, 
Editor: & etc, 2005.
 
 

Armando Aguiar
, Porto, s.d., óleo sobre tela.
 
 
Porto

 
"Toda a cidade, com as agulhas dos templos, as torres cinzentas, os pátios e os muros em que se cavam escadas, varandas com os seus restos de tapetes de quarto dependurados e o estripado dos seus interiores ao sol fresco, tem toda ela uma forma, uma alma de muralha."

Há como que seteiras, fendas, passadiços e bocais de pontes diante dos nossos olhos assestados sobre essa tremenda presença de rocha, caliça e betão armado. Uma ravina profunda marca o entalhe do rio, cujas águas verdes da primavera refletem o crescente da sombra dos rabelos de velas enfunadas.

O sol parece baixo sobre a cidade segregada da pedreira; uma transcendência de melancolia paira e comove-nos. A muralha infunde em nós essa doce tristeza europeia, um orgulho de atividade, um desenho de pompas escravas, um sonho económico e uma impraticável fé de liberdade.

A muralha cresce com os seus pequenos palácios da beira-mar, os seus bairros insubstituíveis de lata e de papel, as suas casa bancárias, os crimes de venalidade e de injúria, e os alegres pais de família com uma mulher em cada braço.

Atrás das suas pedras há a nobreza mourisca, há o judeu caviloso e astuto, o fenício do grande comércio, o homem da Lusitânia criticador e inerte. Ela é a muralha povoada de funcionários e mestres de obras, de colegiais, de artistas ingleses colonialistas – e pelo capital.

A sua alma é funda e profética, os seus costumes rigorosos mas não severos – e há mais espírito na sua gente de ilha, na sua gente crua de sentimento e afeiçoada à desgraça, que nos altos patíbulos da raça onde se convertem os grandes a um passatempo de serões.

Ela é a muralha, com a cintura rodeada de nevoeiros, generosa e tímida, com a sua coroa provinciana e a luva suja na mão descalça.”

Agustina Bessa-Luís, no livro A Muralha, 1957
 

segunda-feira, 11 de março de 2024

"A Bucólica Margem" - Poema de Egipto Gonçalves

 
 
Armando Aguiar (Pintor português, n. 1964), Rio Douro, Porto e Vila Nova de Gaia, s.d.


A Bucólica Margem


Sento-me então a olhar o rio,
os pensamentos formam cardumes
que contra a corrente se insurgem
mas as águas são inexoráveis;
olhando-as, a superfície cintila,
propaga-se como se fossem notas
de um piano na garupa de um cavalo
que se dirige para o mar.

O Douro bebe as cores da cidade,
sobre elas eu abro o coração
em que te encontras, as colinas
emolduram as raízes que à terra
nos ligam. Para os meus olhos
é momento de pausa: as coisas
que interrogo não resistem à maré,
não dão respostas; perdem-se no mar
como tudo o que a memória não reteve.

Mas este rio
já foi longamente folheado, nele
escrevemos
o romance que nos deu uma casa,
nos cortou o cabelo, nos afastou
das rugas, nos entregou o azul
(tecido, nuvem, divã, janela...)
o voo das artérias, lugar do corpo,
portas que amanhecem, espelho
onde fazemos fluir a vida.
Acordes
da guitarra que forja o horizonte,
que guia o sinuoso voo das gaivotas
e acaricia a pele que rasga atalhos
no interior dos sonhos. Estarei
vivo enquanto assim me guardar
teu coração. E no seu lucilar,
esta água imita o fogo
que devora sombras e escombros,
libertando a asa que no sangue
respira. A foz está próxima,
mas o horizonte é o teu olhar.
No leitor do carro, a guitarra flexível
sublinha o que divago; os acordes
disparam,
encontram-me na trajetória do seu alvo.


Egito Gonçalves, A Ferida Amável,
Campo das Letras, 2000.

 

 
Armando Aguiar, Rio Douro, Porto e Vila Nova de Gaia, s.d.

«Uma ida ao Porto é sempre uma lição de portuguesismo, tanto mais rica quanto mais raramente lá se vai. É indispensável – claro! – um mínimo de contacto reiterado com esse lar da nação para nele vermos algumas das significações latentes que enriquecem a nossa consciência de práticas.» — Vitorino Nemésio
 

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

“As noites do Porto” - Poema de Nuno Júdice


Mota Urgeiro (Pintor português, n. 1946), Entardecer no Porto, s.d.

 
 As noites do Porto

 
Shakespeare podia ter vivido aqui. Podia
ter dançado na noite de S. João, quando o rio
transborda para as ruas nas correntes
humanas que as inundam. Podia ter escrito
nos invernos de ausência o que a noite
ensina sobre a privação. Podia ter
ensinado, à beira do cais, que o tempo lascivo
corre como a água, levando o que não há de
voltar e trazendo o que nunca terá nome
nem corpo. As almas, que empalidecem quando
o sol poente se reflete nos vidros,
cantam bruscamente o verão: reflexo de um
reflexo, frutos que se deixam colher pela
memória, seres sem ser que não hão de voltar
a nascer. Mas o que ele cantou, podia
tê-lo cantado aqui. Todos os lugares são,
afinal, lugar nenhum para quem não habita
senão a própria voz: sonho de outra margem,
cantor perdido no labirinto das pontes. Perto
da foz, sem o saber; sonhando a nascente,
como se não fosse ele próprio a única fonte.


Nuno Júdice, A Fonte da Vida,
Lisboa, Quetzal Editores, 1997
 
 

sexta-feira, 19 de janeiro de 2024

"Metamorfose" - Poema de Jorge de Sena


Armando Aguiar (Pintor português, n. 1964), Rua e Igreja e Torre dos Clérigos, Porto
 
 
 
Metamorfose


Para a minha alma eu queria uma torre como esta,
assim alta,
assim de névoa acompanhando o rio.

Estou tão longe da margem que as pessoas passam
e as luzes se refletem na água.

E, contudo, a margem não pertence ao rio
nem o rio está em mim como a torre estaria
se eu a soubesse ter…
uma luz desce o rio
gente passa e não sabe
que eu quero uma torre tão alta que as aves não passem
as nuvens não passem
tão alta tão alta
que a solidão possa tornar-se humana.
 
25/10/42

Jorge de Sena
, in Coroa da terra. 
Porto: Lello & Irmão, 1946
 
 

 
Jorge de Sena, Coroa da terra.
Edição/reimpressão: 05-2021
Editor: Assírio & Alvim
 
 
SINOPSE
 
É com certo arrepio que se lê a crueza de Jorge de Sena nas páginas de Coroa da Terra (1946), o seu segundo livro de poesia, dedicado à Cidade do Porto, o palco da sua errância. Mostra-se assim a visão de Sena, nas palavras de Francisco Cota Fagundes, como «uma poesia por vezes intencionalmente rude e nunca de bibelot d’inatité sonore […] que se fosse música, seria um longo e persistente réquiem dilacerante […] poemas em que a criança é um dos temas dominantes, como dominante e marcante é o seu carácter de poesia de resistência e de empenho».
 
 “Para a minha alma eu queria uma torre como esta, /assim alta, /assim de névoa acompanhando o rio […]”. Estes versos de Jorge de Sena em Metamorfose conduzem-nos até à Torre dos Clérigos, um dos elementos mais emblemáticos da cidade, cuja imponência inspirou o poeta. O autor estudou no Porto e, durante esse período, escreveu Coroa da Terra (1946), obra da qual faz parte Metamorfose e onde faz uma dedicatória “à cidade onde este livro foi, na sua maior parte, vivido e escrito […]”. (daqui)
 
 

Mota Urgeiro (Pintor português, n. 1946), Clérigos, Porto, Portugal
 
 
[O conjunto arquitetónico dos Clérigos, que integra a Torre, a Igreja e um Museu, é, de facto, local de passagem obrigatória para todos os que visitam a cidade do Porto. A Igreja e a Torre integram uma edificação do século XVIII, de inspiração barroca, que marcou a configuração urbana da cidade e, em 1910, foi classificada como Monumento Nacional. Nicolau Nasoni projetou-a com genialidade, criando numa rua desnivelada um edifício de referência, que pode ver-se de quase toda a cidade.
Igreja e Torre estão unidas pela Casa da Irmandade que, desde 2014, está aberta ao público como Museu, com uma exposição que convida a uma viagem pelo tempo e pelo espaço, pela imagem e pela devoção.(daqui)]
 

quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

"Balada do Rio Douro" - Poema de Pedro Homem de Mello



Armando Aguiar (Pintor português, n. 1964), Ribeira do Porto, s.d.

 
Balada do Rio Douro

 
Que diz além, além entre montanhas,
O rio Douro à tarde, quando passa?
Não há canções mais fundas, mais estranhas,
Que as desse rio estreito de água baça!...
Que diz ao vê-lo o rosto da cidade?
Ó ruas torturadas e compridas,
Que diz ao vê-lo o rosto da cidade
Onde as veias são ruas com mil vidas?...
Em seus olhos de pedra tão escuros
Que diz ao vê-lo a Sé, quase sombria?
E a tão negra muralha à luz do dia?
E as ameias partidas sobre os muros?
Vergam-se os arcos gastos da Ribeira...
Que triste e rouca a voz dos mercadores!...
Chegam barcos exaustos da fronteira
De velas velhas, já multicolores...
Sinos, caixões, mendigos, regimentos,
Mancham de luto o vulto da cidade...
Que diz o rio além? Por que não há de
Trazer ao burgo novos pensamentos?
Que diz o rio além? Ávido, um grito
Surge, por trás das aparências calmas...
E o rio passa torturado, aflito,
Sulcando sempre o seu perfil nas almas!...
 

Pedro Homem de Melo
, Poesias Escolhidas 
 
 

Manuel Cardoso Lima (Pintor português, n. 1949), Porto - Ribeira, s.d., 
 óleo sobre tela, 80x130 cm.
 

A cidade e a Poesia

As cidades são como as pessoas, têm os seus se­gredos, e às vezes guardam-nos bem guardados. Há quem goste muito do Porto e há quem o deteste. Queria falar desta cidade "tão masculina" sem nenhum peso de erudição, que é coisa tão inimiga da poesia, que só Borges, que eu saiba, lhe conseguiu arrancar alguns versos dignos da sua prosa. Também não me parece leal contrapor-lhe outras cidades, e menos ainda Ve­neza. Toda a gente sabe que se Veneza não cheirasse a água podre seria incomparável, mas cheiro por cheiro antes o de Marraquexe; Marraquexe cheira a cavalos, que é cheiro de homem. Há quem goste do Porto, dizia eu; Marguerite Yourcenar — ninguém sabe, porque foi a mim que o disse — andou por aqui dois dias fascinada com a Ribeira e as encostas da Sé. Isto de gostar não tem explicação fácil. O mais simples é, se nos pedem razões, dizê-lo com as palavras de Montaigne: Parce que c'était lui, parce que c'était moi. Mas não só o amor tem estranhos mecanismos, os do ódio não lhe ficam atrás.

Há anos li muita coisa sobre o Porto, não tive outro remédio, fiz sobre ele uma antologia que circula por aí. Nessa altura deparei com coisas tão acintosas que fui levado a pensar em ressentimentos. Algumas daquelas coisas eram escritas com dor de corno. Camilo, Eça, Antero, Nobre, Pascoaes detestavam-no. "A sentina é aqui", dizia Camilo num vómito. "Pançudo e pesado", é o Eça a falar, enquanto entala o monóculo. "O Porco", afirma Antero que lhe chamava Oliveira Martins. "Tão carregado de província que nem os arredores de Braga", diz, já mais perto de nós, Pascoaes em 'O Peni­tente'. E sigo, que o meu destino é outro. Mas o burgo também tem quem lhe faça a corte: Jaime Cortezão, Rodrigues Miguéis, Miguel Torga, Jorge de Sena, Agustina Bessa-Luís gostam dele, como testemunharam de muitos modos. Agustina é no nosso tempo o seu cro­nista, e cronista admirável, nunca é demais repeti-lo, pois há sempre quem o não saiba; quanto ao seu poeta, ainda não lhe disse o nome, e vai sendo tempo: Pedro Homem de Mello. Caiu sobre ele, desde que morreu, um estranhíssimo silêncio. Eu estou pouco a par dessa coisas, há muitos anos que não leio jornais, mas creio que não há um beco ou uma viela com o seu nome. Nem sequer uma escola ou um jardim de infância. Qual foi o agravo que fez à cidade onde nas­ceu? Não era um grande poeta? Pois não, mas os grandes poetas são tão raros! Na geração que foi a dele — a do Segundo Modernismo, como se lhe vem cha­mando — quem, além de Vitorino Nemésio, é grande poeta? A sua poesia era muito irregular? Sem dúvida, mas irregular, que poeta o não foi neste país? Veja-se o Gomes Leal, com quem o Pedro tem afinidades, ou até poetas de outras dimensões, o Nobre, o Pascoaes, o Sena. Estamos pois de acordo: nem grande poeta nem espírito crítico capaz de corrigir as emoções – mas era um poeta, e também não há tantos como isso, ao contrário do que se diz. O que há muito entre nós é literatos, gente em que sobra espírito e falta alma. Ocorre-me Flaubert: Ah! Ah! les gens d'esprit, quels pauvres gens cela fait! Como principiei por afirmar — e ele tinha consciência e orgulho disso — Pedro Homem de Mello é, como nenhum outro, o poeta do Porto, das suas ruas escuras, dos seus jardins "de má fama", dos seus palácios em ruína, das suas torres de face encardida, das grades frias dos seus aljubes, do luto entranhado dos seus habitantes, e também da sua estreiteza conservadora, do seu grosseiro espírito de ganância; de tudo isto ele era o poeta, como era também aquele de quem os juízes e tabeliães e bem pensantes faziam troça, os políticos malevolamente se aproveitavam, e a gente anónima respeitava, porque, apesar do brasão ostensivo no dedo e algum snobismo, tinha sempre um sorriso ou uma palavra afável para o cobrador do elétrico ou para o engraxador; pois apesar de ser um senhorito da televisão, visitava os amigos com moços sem eira nem beira, que levava para os seus versos, e que, à semelhança de Kavafís, são os melhores que escreveu.

Apesar de Pedro Homem de Mello ter feito tanto frete ao SNI, e escrever versos que eram uma merda pedindo o voto em Salazar, e outros igualmente excrementícios para o Menino Jesus dos Correios todos os anos pelo Natal, ele nunca tinha cheta, nem sabia de usura, nem atraiçoava os amigos — amava a poesia de Verlaine e António Nobre, o nosso Romanceiro e o de Lorca, de que herdou ritmos e segredos; dançava o vira, ou lá o que era, como ninguém; gostava daquela gente da Serra d'Arga e da Nazaré, que lhe pagava na mesma moeda; e os versos que escreveu, às vezes, também têm a ver com o movimento soberbo daque­les braços erguidos e daquelas cinturas queimando os dedos de quem as tocava, ou então com os olhos turvos que se cruzavam com os seus na Cordoaria, e lhe arrepiavam a pele ou paralisavam os passos — porque a sua poesia, não vale a pena ocultá-lo, partia dali, de todos os sentidos despertos, que nele deviam ser mais de cinco. E quando os seus versos não têm essa origem o melhor é ignorá-los, porque então raramente ultra­passam a mais convencional e rasteira prosa metrifi­cada. 
 
— "Quando penso que tenho que pensar fico com dores de cabeça", disse-me ele um dia — e devia dizer a verdade. 
O Pedro, apesar dos universos divergentes, e não apenas mentais, a que eu e ele pertencíamos, foi meu amigo. Imaginem: amigo de quem é tão distraído e distante para as coisas literárias e, ainda por cima, sem paciência nenhuma para aquele exibicionismo pueril de poemas lidos na rua ou à mesa do café, e por ele, que os lia tão mal, tão mal... Mas era gentil e generoso e bem educado, coisas em que minha mãe reparou logo quando o conheceu, numa das suas vindas ao Porto. Ocorre-me agora que, um ou dois dias depois, o Pedro passou pelos Serviços onde eu trabalhava só para me dizer:
— A tua mãe é linda! 
Era a primeira vez que estava inteiramente de acordo com ele.
 
 
Eugénio de Andrade (1923—2005), "À Sombra da Memória", 1993
 

Eugénio de Andrade, "À Sombra da Memória",
Editor: Assírio & Alvim

Edição/reimpressão: 06-2018
 

«Este livro, 'À Sombra da Memória' (1993), continua 'Os Afluentes do Silêncio' (1950) — são coisas ocasionais: falas em raras ocasiões públicas, prefácios a dois ou três livros em colaboração com amigos, palavras de amizade ou admiração em catálogos de exposições ou plaquetes de homenagem. Coisas assim, esparsas, uma vez mais, no correr dos dias. Terei de reconhecer que falo de mim mais do que devia mas, em prosa, ninguém me voltará a encontrar noutro sítio — prometo.» — Eugénio de Andrade (daqui)
 
 
 
Eugénio de Andrade, "Os Afluentes do Silêncio",
Editor: Assírio & Alvim
Edição/reimpressão: 12-2013

 
«As crónicas de 'Os Afluentes do Silêncio' (1950) constituem uma prova plena dessa capacidade de assimilar e transformar, com imaginação, pessoas, ideias e espaços. São também águas vivas onde se reflete o rosto de um poeta maior, ao longo de décadas. Sempre fiel às amizades fraternas, mas sensível a beliscaduras; desapegado do poder político, porém interventivo; indiferente a bens materiais, contudo grato pela partilha de poemas, pinturas e canções; cidadão do mundo, sem deixar de ser de Póvoa de Atalaia ou do Porto - Eugénio é tão singular e autêntico quanto a sua obra. O tempo saberá recordar este homem com coração de pássaro.» (daqui)

terça-feira, 24 de outubro de 2023

"Hora de Ponta" - Poema de Rosa Alice Branco


 
Armando Anjos (Pintor português, 1931–2017), Avenida dos Aliados, Porto, Portugal


Hora de Ponta 
 
 
Apanhar um lugar a esta hora é uma sorte, poder olhar
pela janela e fingir que tenho imunidade diplomática,
que estou de lá do vidro com o hálito das folhas, o sabor
a hortelã e um ar fresco interrompido pela velha senhora
a quem cedo o assento e um sorriso enquanto me agradece
de nada, de ir agora em pé empurrada, de cá do vidro
a apanhar uma overdose de realidade com o bafo quente
do homem gordo na minha orelha, com a mão livre
apertada contra o peito, contra o visco da hora apinhada
na minha pele pública, na minha pele de todos.
No banco em frente uma mulher afaga a neta com o sorriso
doce e cansado, os olhos brilhantes, a candura intacta
toma-me toda como se eu fosse um anjo
descendo à terra com um corpo real para que a minha pele
receba a dádiva da tua, aceite os cheiros de um dia de trabalho,
o calor excessivo, a proximidade insustentável e leia no teu rosto
cada mandamento nos solavancos que nos atiram uns para
os outros. No teu rosto à hora de ponta aprendo a compaixão
até sair na próxima paragem com um suspiro de alívio. 


Rosa Alice Branco, in "Da Alma e dos Espíritos Animais",
Campo das Letras, 2001
 
 

sábado, 21 de outubro de 2023

"Uma Cidade" - Poema de Albano Martins




 
Uma Cidade 
 
 
Uma cidade pode ser
apenas um rio, uma torre, uma rua
com varandas de sal e gerânios
de espuma. Pode
ser um cacho
de uvas numa garrafa, uma bandeira
azul e branca, um cavalo
de crinas de algodão, esporas
de água e flancos
de granito. 

Uma cidade
pode ser o nome
dum país, dum cais, um porto, um barco
de andorinhas e gaivotas
ancoradas
na areia. E pode
ser
um arco-íris à janela, um manjerico
de sol, um beijo
de magnólias
ao crepúsculo, um balão
aceso
numa noite
de junho.

Uma cidade pode ser
um coração,
um punho. 
 

Albano Martins
, in "Castália e Outros Poemas",
Campo das Letras, 2001 
 

António Ramalho Júnior 
 
 
António Monteiro Ramalho Júnior, pintor português, discípulo de Silva Porto, nasceu em 1858, em Barqueiros, no seio de uma família pobre, e foi muito novo para o Porto, onde trabalhou numa marcenaria, aproveitando os tempos livres para pintar.
Notabilizou-se por quadros de temática realista, onde abundam as paisagens marítimas e os retratos de mulheres e crianças. Entre as obras mais relevantes estão O Lanterneiro e o Retrato de D. Helena Pinto de Miranda.
Enquanto decorador, salientam-se as pinturas feitas para o Palácio Sotto Mayor na Figueira da Foz, os tetos do Teatro Garcia de Orta, em Évora, e a abóbada do Palácio da Bolsa, no Porto.
Ilustrou também páginas da Crónica Ilustrada. Faleceu em 1916.  (daqui)

segunda-feira, 10 de julho de 2023

"Sobre a minha cidade" - Poema de Vasco Graça Moura


Armando Aguiar (Pintor português, n. 1964), Ribeira do Porto, s.d.



Sobre a minha cidade

Sobre a minha cidade, falei-te ontem mostrei-te
as esquinas do tempo, a imagem de fachadas
que ainda conheci, de outras que
eu próprio ignorava; sobre

a minha cidade e suas pedras, seus espaços
de árvores graves; e o que foi arrasado,
ou está a desfazer-se; as manchas do presente, a
poluição dos homens; e o que foi

violentamente arrancado por negócios sucessivos,
erros, brutalidades: o que era e o que foi
o que é dentro de mim o seu obscuro,
imaginário ser: costumes e conflitos,

maneiras de falar, a gente
e a confusão das ruas, as casas do Barredo;
sobre a minha cidade achei que tu
tiveste gratidão, a viste.

que percorreste as pontes que da minha
cidade a ti me trazem, entre
gaivotas alastrando e músicas diferentes,
e foste nascer nela.


Vasco Graça Moura
, in “Os Rostos Comunicantes”,
Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1984;
“Poesia 1963/1995”, Lisboa: Quetzal Editores, 2007


 
Armando Aguiar (Pintor português, n. 1964), Cheia em Miragaia (Porto), s.d.


"Afinal, o Porto, para verdadeiramente honrar o nome que tem, é, primeiro que tudo, este largo regaço aberto para o rio, mas que só do rio se vê, ou então, por estreitas bocas fechadas por muretes, pode o viajante debruçar-se para o ar livre e ter a ilusão de que todo o Porto é Ribeira. A encosta cobre-se de casas, as casas desenham ruas, e, como todo o chão é granito sobre granito, cuida o viajante que está percorrendo veredas de montanha."
 


"Viagem a Portugal" de José Saramago,
Edição/reimpressão: 10-2021,
Editor: Porto Editora 


Resumo

Entre outubro de 1979 e julho de 1980, José Saramago percorreu o país lés a lés a convite do Círculo de Leitores, que comemorava o décimo aniversário da sua implantação em Portugal. Disse o autor após essa deambulação, misto de crónica, narrativa e recordações, que «o fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite... É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos». 
Este é um livro decisivo para José Saramago, na medida em que se constituiu como um marco que ofereceu ao autor condições materiais para se dedicar à escrita a tempo inteiro. Esta edição especial de Viagem a Portugal inclui todas as fotografias que Saramago fez ao longo da sua viagem — quase todas inéditas —, a par de fotografias de Duarte Belo, e a sua publicação coincide com o início das comemorações do Centenário de José Saramago. (daqui)
 
Afinal, o Porto, para verdadeiramente honrar o nome que tem, é, primeiro que tudo, este largo regaço aberto para o rio, mas que só do rio se vê, ou então, por estreitas bocas fechadas por muretes, pode o viajante debruçar-se para o ar livre e ter a ilusão de que todo o Porto é Ribeira. A encosta cobre-se de casas, as casas desenham ruas, e, como todo o chão é granito sobre granito, cuida o viajante que está percorrendo veredas de montanha.“ — José Saramago, livro Viagem a Portugal Viagens. Contos. Romances, José Saramago, Lello & Irmão, 1991,

Fonte: https://citacoes.in/citacoes/2029990-jose-saramago-afinal-o-porto-para-verdadeiramente-honrar-o-nom/?utm_content=cmp-true
Afinal, o Porto, para verdadeiramente honrar o nome que tem, é, primeiro que tudo, este largo regaço aberto para o rio, mas que só do rio se vê, ou então, por estreitas bocas fechadas por muretes, pode o viajante debruçar-se para o ar livre e ter a ilusão de que todo o Porto é Ribeira. A encosta cobre-se de casas, as casas desenham ruas, e, como todo o chão é granito sobre granito, cuida o viajante que está percorrendo veredas de montanha.“ — José Saramago, livro Viagem a Portugal Viagens. Contos. Romances, José Saramago, Lello & Irmão, 1991,

Fonte: https://citacoes.in/citacoes/2029990-jose-saramago-afinal-o-porto-para-verdadeiramente-honrar-o-nom/?utm_content=cmp-true

sexta-feira, 23 de junho de 2023

"Porto" - Poema de Vítor Cintra


Luciano dos Santos (Pintor e professor português, 1911 - 2006),
Porto - Ribeira e Ponte de D. Luíz I, s.d.


Porto

 
Antiga, quer na História, quer na gente,
Jamais o teu passado será morto;
E, seja no futuro ou no presente,
Serás sempre a Invicta, nobre Porto.

Há muitos, muitos anos, junto ao Douro,
Fundaram-te, subindo encosta acima;
Com o rio fez-se eterno o teu namoro,
É ele que, banhando-te, te mima.

Chamaram-te cidade do trabalho
Por ser tão empenhada no labor
A gente, que em ti vive, e ao redor;

As cepas, fecundadas pelo orvalho,
Das margens do teu rio, são penhor,
De quanto há no teu pão pago em suor.
 Editora: Temas Originais, 2011
 
 
Mota Urgeiro (Pintor português, n. 1946), Ribeira do Porto, s.d.


“Se nessa cidade há muito quem troque o B pelo V, há muito pouco quem troque a honra pela infâmia
 e a liberdade pela servidão.”
 

Almeida Garrett (1799 - 1854)
[Sobre a cidade do Porto, local onde nasceu.]


Mota Urgeiro, Porto, Ribeira, s.d.


"O Porto não é um lugar. É um sentimento.” 

sexta-feira, 16 de junho de 2023

"Visto da margem sul do rio o porto" - Poema de Vasco Graça Moura


 
Dórdio Gomes (Pintor modernista português, 1890-1976), Paisagem do Douro, Porto, 1935
 
 

Visto da margem sul do rio o porto


visto da margem sul do rio o porto não explode
sob a tarde de verão, a água reflete
renques de casario humilde a encastelar-se
irregular em ocres e granito, manchas, vãos, recantos.

é quando os jacarandás se fazem desse azul mais surdo
do anoitecer e concentram uma ameaça do tempo
contida nas cores tensas das fachadas, a entrecortar
os jardins do crepúsculo aprendidos de cor.

além umas arcadas, um cais, o traço grosso a carvão
dos encaixes da ponte armada em ferro, a muralha,
o deslizar da luz para poente, tudo
uma dramática placidez escurecendo a ribeira, um vidrado

de presenças esquecidas, palhetas de ouro fosco sobre as barcaças
abandonadas, quase ao alcance da mão, da voz, da alma, é quando
a música há de vir, lentamente elaborada na memória,
como um sopro da infância e do indizível do mundo.

são estes sons de nada, estes voos que perpassam,
estas estrias da sombra de ninguém
sobre o curso do rio, como nuvens para esta hora, a
encrespar-lhes de leve a superfície.

enquanto parte algum comboio atrasado,
um avião se esvai ao longe, os escritórios fecham,
quero um barco pequeno para a minha travessia,
para a minha chegada e para a minha partida,

para andar entre as margens ou seguir a corrente
até s. joão da foz ver as últimas gaivotas
ainda antes da noite, respirar um não sei quê que se desprende
da travessia, a atravessar-me,

halo vindo das camélias, perfume de penumbras
de mulher, ou para sempre e para nunca mais
um pó da lua na cantareira e na afurada
devagar a acender-se mais rente ao coração.


Vasco Graça Moura (1942-2014),
in "Visto da margem sul do rio: o porto"
[uma antologia poética]


Vasco Graça Moura, "visto da margem sul do rio: o porto"
Editor: Modo de Ler, 2012 


Sinopse


"É um privilégio revisitar a nossa cidade através da leitura destes poemas de Vasco Graça Moura. Lidos assim, reunidos, seja qual for a ordem por que os lemos e até a ordem por que foram escritos ao longo de quase meio século, traçam um percurso sedutor, que nos envolve em cada página. Neste seu porto, o Porto onde nasceu, Vasco Graça Moura abre-nos, por muitos caminhos, a cidade que reescreve, na constante busca do espírito do lugar, como se buscasse a sua própria identidade e sentido, nos tempos e espaços da infância e da juventude, mas a que regressa sempre, em incessante ato de recriação e redescoberta... " —  Gaspar Martins Pereira (daqui)