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segunda-feira, 27 de abril de 2026

"Pequenos Mosaicos" - Poema de Ana Luísa Amaral

 


Jacques-Ferdinand Humbert (Peintre français, 1842–1934),
Portrait de Colette, c. 1896.



Pequenos Mosaicos 

 
É agora - na pura ausência das coisas
e a madrugada por abrir. Um palco
a lua. Eu observada de fora da janela.

O terror de pensar: o pesadelo
de me sentir duas pela primeira vez
falado. É de amor este poema
e de visões: ondulantes cortinas
noutra que me é igual.

Porque no pesadelo e de repente
o futuro rasgou-se, as cortinas
soltaram-se. Na profecia
só ficaste tu.

E a tua falta mais que a tua
ausência em pequeno mosaico
se fechou. Entendo agora como uma cadeira
pode ser só esta cadeira porque
é tua.


Ana Luísa Amaral
(1956–2022)


terça-feira, 9 de dezembro de 2025

"Coral" - Poema de Eugénio de Andrade



Jacques-Émile Blanche (Peintre, graveur et écrivain français, 1861-1942),
Le Groupe des Six (Les Six), 1922, Musée des Beaux-Arts de Rouen.

Sur cette peinture de huit personnes, seuls cinq des Six sont représentés; Louis Durey est absent. De gauche à droite: Germaine Tailleferre, Darius Milhaud, Arthur Honegger, Jean Wiéner (au fond), Marcelle Meyer, Francis Poulenc, Georges Auric (assis) et Jean Cocteau.



Jacques-Émile Blanche, Portrait of Colette (French author and woman of letters.
She was also a mime, actress, and journalist, 1873–1954), 1905.
Museu Nacional d'Art de Catalunya



Coral 

 
É um dos corais de Leipzig,
o quarto. Sem sabermos como, desceu
ao chão da alma. A música
é este abismo, esta queda
no escuro. Com o nosso corpo
tece a sua alegria,
faz a claridade
dos bosques com a nossa tristeza.
Pela sua mão conhecemos a sede,
o abandono, a morte. Mas também
o êxtase de estrela em estrela.
E a ressurreição. 
 
in "Os lugares do lume", 1998. 
 

domingo, 1 de junho de 2014

"A Luz do teu Amor" - Poema de Guilherme de Azevedo



Sir Walter Westley Russell (British painter and art teacher, 1867–1949),
 Cordelia, c. 1930.


A Luz do teu Amor


Oh! Sim que és linda! a inocência
Em tua fronte serena
Com tal doçura reluz!...
Tanta e tanta... que a açucena
Tão esplêndida a existência
Não lha doura assim à luz!
Oh! que és linda, e mais... e mais
Quando um traço melancólico
Te diviso no semblante
Nos teus olhos virginais!
Que doçura não existe
Ai! ó virgem, nesse instante
Na poética beleza
Desse traço de tristeza
Que te vem tornar mais bela
Mal em teu rosto pousou!
E eu te quero assim, ó estrela,
Que se inspira em mim a crença
Triste... triste, que és mais linda,
Mas dessa beleza infinda
Das ficções da renascença
Que a poesia perfumou!

Fita agora os olhos lânguidos
Na estrela que te ilumina,
Eu não sei que luz divina
De amor nos fala em teu rosto!
Eu não sei, nem tu... ninguém!...
Que a vaga luz do sol posto,
Que a palidez da cecém,
Que a meiguice dos amores,
E que o perfume das flores
Não respiram a harmonia
Desse toque leve... leve
Do mais puro sentimento,
Da mais suave ilusão!
As flores leva-as o vento;
Mas a divinal poesia
Que em teu peito se alimenta
Não a desfaz a tormenta,
Nem a consome o vulcão!

E assim! - Lembra-me ainda
Aquele instante suave!
Havia paixão infinda
No terno gorjeio da ave
Que ao longe... ao longe se ouvia
Ressoar na laranjeira!
Assim foi... assim tão pálida
Que eu te vi a vez primeira
Naquele instante sem par!
Sim! Oh! se a alma do poeta
É como a ardência do mar,
Que se calma e se aquieta
À luz que baixa dos céus;
Eu por ti surgi, ó bela,
O cantor daquela estrela
Que fulge lá no horizonte,
Que me voa a vida em êxtase
Quando sobre a minha fronte
Cai a luz dos olhos teus!

E se o passado foi triste
Sepultei-o num abismo,
E esqueci ao magnetismo
Da tua doce expressão
O gemer da tempestade,
Mais o ralar da ansiedade
Daqueles dias de então!
Se já viste mesmo em sonhos
Ressurgir graciosa e bela
De entre os negrumes da noite
A doce imagem da estrela
Que sorri ao turvo mar;
Faz ideia de minha alma
Que em deserto triste e infindo
Vivia sem uma palma,
E que, um dia... um dia lindo,
Surge à luz do teu olhar! 

E depois a melancolia,
Aquela doce cadência
Que tinhas então na fala,
Tão suave como a essência
Que somente a flor exala,
Tudo... tudo me prendeu!
E hoje elevo as mãos ao céu,
E bendigo aquele instante
em que vi a tua imagem
de vaga luz radiante,
Embora seja a miragem
Que na aridez do deserto
Um instante nos fulgura,
E que, ora longe, ora perto,
Bem pouco... bem pouco dura!
Não negues um dia alento
Aos débeis sopros de vida
Que em mim pululam agora
Com mais força e mais calor!
Se vives da luz da aurora
Que à vida te diz bonança,
Eu só vivo da esperança
E da luz do teu amor!


Guilherme de Azevedo,
in 'Antologia Poética'


Guilherme de Azevedo retratado 


Guilherme Avelino Chaves de Azevedo (Santarém, 30 de Novembro de 1839 - Paris, 6 de Abril de 1882) foi um jornalista e poeta português. 
 
Ligado à "Geração de 70", foi um dos representantes da poesia revolucionária introduzida no país por Antero de Quental ("Odes Modernas", 1865), tendo ainda recebido influências dos franceses Vitor Hugo e Charles Baudelaire.
 
Filho de um escrivão das Finanças, desde a infância mostrou-se fisicamente débil, como resultado de uma queda que o fez coxo e lhe provocou uma lesão de que viria a morrer prematuramente aos quarenta e dois anos de idade. Viveu, por essa razão, obcecado por esconder os seus males físicos. 
 
Em 1871 fundou em Santarém o periódico "O Alfageme", primeiro momento da sua carreira jornalística e onde defendeu, com escândalo no país à época, as ideias revolucionárias da Comuna de Paris. 
 
Após o falecimento do pai, instalou-se em Lisboa, onde abraçou definitivamente o jornalismo, profissão na qual atingiu posição relevante. Trabalhou nos periódicos "Diário da Manhã", "O Pimpão" e em "A Lanterna Mágica". Colaborou no "Primeiro de Janeiro" com um folhetim semanal, bem como no jornal O Panorama (1837-1868) e nas revistas A Mulher (1879), Ribaltas e gambiarras (1881) e Jornal de Domingo (1881-1883), e ainda na imprensa brasileira. 
 
Como poeta, foi um autor representativo, abordando temas modernos numa escrita de índole épico-social. Publicou os primeiros versos no "Almanaque de Lembranças" de 1864, sob o pseudónimo de "G. Chaves", vindo a colaborar posteriormente em vários periódicos, como o "Comércio de Lisboa", a "Revolução de Setembro" e a "Gazeta do Dia", onde, em parceria com Guerra Junqueiro, manteve as crónicas humorísticas da rubrica "Ziguezagues". 
 
Fundou o O António Maria em 1879 com Rafael Bordalo Pinheiro, e, ainda ao lado deste, dirigiu e colaborou no "Álbum das Glórias". No mesmo ano, novamente com Guerra Junqueiro, redigiu a sátira teatral "Viagem à roda da Parvónia", que seria pateada e proibida, mas que Ramalho Ortigão considerou uma "fiel pintura dos costumes constitucionais" do país à época. 
 
Em 1880, em consequência da fama conquistada como cronista mundano e político, o periódico carioca "Gazeta de Notícias" nomeou-o seu correspondente em Paris, função que desempenhou nos dois últimos anos da sua vida. 
 
As suas poesias, reunidas nas três coletâneas "Aparições" (1867), "Radiações da Noite" (1871) e "Alma Nova" (1874), encarnam o novo realismo satírico de inspiração baudelairiana no país. 
Com o pseudónimo "João Rialto" deixou vários escritos com elevado humorismo. (daqui)
 

Galeria de Walter Westley Russell

Walter Westley Russell, Camilla, City Art Centre



"Do primeiro amor gosta-se mais, dos outros gosta-se melhor." 
 
Antoine de Saint-Exupéry



Sir Walter Russell, Tying her shoe, c. 1910 


"A medida do amor é amar sem medida."

Victor Hugo



Sir Walter Russell, Portrait of a Lady, 1938



"Quando somos amados, não duvidamos de nada. Quando amamos, duvidamos de tudo."

Sidonie Colette



Sir Walter Russell, The Morning Room, c. 1907



"Gosto desta ideia: que o amor é uma forma de conversação em que as palavras agem
 em vez de serem faladas."

David Lawrence, in O Amante de Lady Cnatterly



Sir Walter Russell, Alice, 1926


"Muito pouco ama, quem com palavras pode expressar quanto muito ama."

Dante Alighieri



Sir Walter Russell, Alderman Robert Styring, Lord Mayor of Sheffield, 1906


"Um homem tem sempre medo de uma mulher que o ame muito." 
 
Bertolt Brecht, in A Ópera dos Três Vinténs


segunda-feira, 15 de julho de 2013

"Musa dos Olhos Verdes" - Poema de Machado de Assis


Rembrandt Peale, Girl at a Window (Rosalba Peale), 1846
 


Musa dos Olhos Verdes


Musa dos olhos verdes, musa alada,
Ó divina esperança,
Consolo do ancião no extremo alento,
E sonho da criança;

Tu que junto do berço o infante cinges
C’os fúlgidos cabelos;
Tu que transformas em dourados sonhos
Sombrios pesadelos;

Tu que fazes pulsar o seio às virgens;
Tu que às mães carinhosas
Enches o brando, tépido regaço
Com delicadas rosas;

Casta filha do céu, virgem formosa
Do eterno devaneio,
Sê minha amante, os beijos meus recebe,
Acolhe-me em teu seio!

Já cansada de encher lânguidas flores
Com as lágrimas frias,
A noite vê surgir do oriente a aurora
Dourando as serranias.

Asas batendo à luz que as trevas rompe,
Piam noturnas aves,
E a floresta interrompe alegremente
Os seus silêncios graves.

Dentro de mim, a noite escura e fria
Melancólica chora;
Rompe estas sombras que o meu ser povoam;
Musa, sê tu a aurora!


Machado de Assis,
in 'Falenas'


Rembrandt Peale (American, 1778-1860), Niagara Falls


"À força de prazeres a nossa felicidade cai no abismo." 

(Sidonie Colette)


Sidonie Gabrielle Colette

                                    
Romancista francesa, Sidonie Gabrielle Colette nasceu a 28 de janeiro de 1873, numa pequena aldeia da Borgonha, de nome Saint-Sauveur-en-Puisaye. O pai era um antigo combatente das campanhas italianas, o infortúnio de perder uma perna fez com que passasse de capitão do exército a cobrador de impostos, mantendo ambições na política regional. A mãe, por seu lado, vivia num mundo muito próprio, composto essencialmente pelo seu jardim bem cuidado, por animais de estimação e pelos livros. Colette cresceu portanto num idílio rural e despreocupado.

Em 1893 casou com Henri Gauthier-Villars, escritor e crítico teatral, conhecido no meio por 'Monsieur Willy', e cuja reputação foi posta em dúvida pela posteridade, acusado de charlatanismo e degeneração de costumes. Encorajou a jovem esposa a escrever e, segundo reza a lenda, encerrou-a no quarto até que ela compusesse um número de páginas suficientes ao seu agrado.
Consequentemente, Colette publicou o seu primeiro romance em 1900. Claudine à l'École constitui o início da série 'Claudine', da qual a autora completou quatro volumes em apenas três anos, assinando-os com o nome do marido. Descrevendo as aventuras e desventuras de uma adolescente, Claudine desafiava os conceitos de decência da época, o que em muito contribuiu para o seu sucesso imediato. A série logo se tornou num fenómeno comercial, dando origem ao aparecimento de uma linha de produtos alusivos à personagem, como um uniforme, charutos, sabonetes, perfumes, e mesmo um espetáculo musical.

Em 1905 Colette pediu o divórcio com base legal nas infidelidades do marido e, no ano seguinte, deu início a uma carreira como atriz no teatro de revista, marcada pelos escândalos e atentados à moral pública. Numa ocasião terá desnudado um seio em palco e, noutra, causado uma rixa no famoso Moulin Rouge, ao simular o ato sexual. Apesar das suas atuações pouco ortodoxas e comportamentos homossexuais, Colette pode prosseguir a sua carreira como atriz e escritora, sobretudo graças à proteção da Marquesa de Belboeuf.

Tornou a casar em 1912, desta feita com o editor de um conceituado jornal francês, e autor de contos e crónicas teatrais. O seu envolvimento com o filho do marido despoletou um novo escândalo. O matrimónio durou apenas até 1925. Entretanto, em 1920, publicou "Chéri" romance narrado por um adolescente que recebe a sua iniciação sexual de uma mulher mais madura.

Com a deflagração da Primeira Grande Guerra em 1914, Colette converteu a propriedade do marido, situada na Normandia, num hospital militar. Este esforço de guerra não só lhe valeu a investidura como Cavaleiro da Legião de Honra em 1920, como lhe garantiu grande popularidade por toda essa década, chegando a ser aclamada como a maior escritora francesa de todos os tempos. 

Guardou da sua terra natal, a Borgonha, um amor pela liberdade e pela natureza que viria a inspirar muitos dos seus melhores escritos. Procurando a sua identidade transmutada a partir da ruralidade contemplativa, Colette descreve em muitas das suas obras a marginalidade urbana em que a sua vida desaguou, ao escolher como personagens prostitutas e proxenetas, bissexuais e travestis. Trabalhos como La Naissance du Jour (1928), Sido (1929) e L'Étoile Vesper (1947) concentram-se no ambiente campestre da sua infância, enquanto que outras, como La Vagabonde (1911) e La Chatte (1933), abordam a estranha cidadania dos meandros de Paris.
Possuiu uma enorme coleção de objetos de Art Nouveau, e manteve um salão literário. 

Galardoada com inúmeros prémios, a obra de Colette valeu-lhe a admissão na Real Academia Belga e na Academia Goncourt, bem como uma promoção a Oficial da Legião de Honra em 1953.
Sofrendo de artrite degenerativa, Colette faleceu em Paris a 3 de agosto de 1954. Apesar da recusa terminante por parte da Igreja Católica, que excluía dos seus ritos pessoas divorciadas, foram concedidos aos restos mortais da escritora honras fúnebres nacionais.

Colette. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. [Consult. 2013-07-15].