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quinta-feira, 11 de outubro de 2012

"A verdadeira mão" - Poema de Ana Hatherly


Diego Rivera, A Noite dos Pobres


A verdadeira mão


A verdadeira mão que o poeta estende
não tem dedos:
é um gesto que se perde
no próprio ato de dar-se 

O poeta desaparece
na verdade da sua ausência
dissolve-se no biombo da escrita 

O poema é
a única
a verdadeira mão que o poeta estende

E quando o poema é bom
não te aperta a mão:
aperta-te a garganta


O Pavão Negro
Assírio & Alvim
(2003)




Galeria de Diego Rivera

Ao longo de sua vida, Diego Rivera criou mais de dois mil quadros, cinco mil desenhos e cerca de quatro mil metros quadrados de pintura mural. Foi um pintor revolucionário que queria levar a arte ao grande público, nas ruas e edifícios, manejando uma linguagem precisa e direta com um estilo realista, pleno de conteúdo social.


Diego Rivera, Retrato de Ignácio Sanchez, 1927


Diego Rivera, Woman Grinding Maiz, 1924 (La molendera)


Diego Rivera, Vendedora de Flores, 1926


Diego Rivera, The Flower Carrier, 1935


Diego Rivera, A vendedora de jarros


Diego Rivera, The Flower Carrier


Diego Rivera, Flower Seller


Diego Rivera, Flower Seller


Diego Rivera, Festival, Feast of Santa Anita, 1931


Diego Rivera,"Retrato de Mujer" (1944) 


 Diego Rivera,  Nude with Call Lilies, 1944


Diego Rivera, Portrait of Natasha Gelman


 
Diego Rivera, Retrato de Ruth Rivera, 1949


“Agora eu sei que quem quer criar um trabalho que tenha apelo universal tem que plantar em sua própria terra. Grandes obras são como uma árvore, que só cresce num certo tipo de solo. Quanto mais nativo for o trabalho, mais pertence ao mundo todo porque gosto está intimamente ligado à natureza. Quando dá certo, arte está enraizada na natureza. Este é o segredo da arte primitiva e também da arte dos mestres — Michelangelo, Cezanne, Seurat e Renoir. O meu melhor trabalho dá certo porque sou mexicano.” - Diego Rivera


Diego Rivera, Baile Tehunatepec (1928)


Diego Rivera La Civilización Tarasca (1950)


segunda-feira, 8 de outubro de 2012

"Quantos Seremos?" - Poema de Miguel Torga


"O levante", mural de Diego Rivera.



Quantos Seremos?


Não sei quantos seremos, mas que importa?! 
Um só que fosse, e já valia a pena. 
Aqui, no mundo, alguém que se condena 
A não ser conivente 
Na farsa do presente 
Posta em cena! 

Não podemos mudar a hora da chegada, 
Nem talvez a mais certa, 
A da partida. 
Mas podemos fazer a descoberta 
Do que presta 
E não presta 
Nesta vida. 

E o que não presta é isto, esta mentira 
Quotidiana. 
Esta comédia desumana 
E triste, 
Que cobre de soturna maldição 
A própria indignação 
Que lhe resiste.


Miguel Torga
,
in Câmara Ardente, 1962


Vida e Obra de Diego Rivera
Diego Rivera e Frida Kahlo em 1932,
Fotografia de Carl Van Vechten


Diego Rivera, de nome completo Diego María de la Concepción Juan Nepomuceno Estanislao de la Rivera y Barrientos Acosta y Rodríguez (Guanajuato, 8 de dezembro de 1886 - San Ángel, Cidade do México, 24 de novembro de 1957), de origem judaica, foi um dos maiores pintores mexicanos.


Diego Rivera, Autorretrato, 1941

Desde criança sempre quis ser pintor e todos percebiam que Diego Rivera tinha talento para isso. Ao ficar adulto, após estudar pintura na adolescência, participou da Academia de San Pedro Alvez, na Cidade do México, partindo para a Europa, beneficiado por uma bolsa de estudos, onde ficou de 1907 até 1921. Esta experiência enriqueceu-o muito em termos artísticos, pois teve contacto com vários pintores da época, como Pablo Picasso, Salvador Dalí, Juan Miró e o arquiteto catalão Antoni Gaudí, que influenciaram a sua obra. Nesta época começou a trabalhar num ateliê em Madri, Barcelona.


Diego Rivera a desenhar  Mural

Diego Rivera acreditava que somente o mural poderia redimir artisticamente um povo que esquecera a grandeza de sua civilização pré-colombiana durante séculos de opressão estrangeira e de espoliação por parte das oligarquias nacionais, culturalmente voltadas para a metrópole espanhola. 


Diego Rivera a desenhar Mural


Assim como os outros muralistas, Diego Rivera considerava a pintura de cavalete burguesa, pois na maior parte dos casos as telas ficavam confinadas em coleções particulares. Dentro deste conceito, realizou gigantescos murais que contavam a historia política e social do México, mostrando a vida e o trabalho do povo mexicano, seus heróis, a terra, as lutas contra as injustiças, as inspirações e aspirações.


Diego Rivera, Mural 1

Em 1930 Diego Rivera  foi para os Estados Unidos, onde permaneceu por 4 anos, pintando vários murais, inclusive no Rockfeller Center, em Nova York.


Diego Rivera, "Eulalio Gutierrez", Mural National Palace


Diego Rivera era ateu e enfrentou grandes problemas por isso, sofendo muitos preconceitos. Seu mural "Sonhos de uma segunda fracassada" retratava Ignacio Ramírez segurando um cartaz que dizia: "Deus não existe". Este trabalho causou indignação, mas Rivera recusou-se a retirar a inscrição. A pintura não foi exposta por nove anos. Depois de Rivera concordar em retirar a inscrição, ele declarou: "Para afirmar 'Deus não existe', eu não tenho que me esconder atrás de Don Ignacio Ramírez; eu sou ateu e considero as religiões uma forma de neurose coletiva".


Diego Rivera, Mural National Palace


A militância política de Rivera era outro aspecto importante de sua vida. Comunista, sua ideologia transparece com clareza entre os temas de sua obra. Em seus trabalhos é comum ver a presença dos indígenas, retratados em sua face sócio-histórica, sob um ponto de vista estritamente idealizado. Seus personagens guardam características clássicas, pois embora representadas  num estilo bi-dimensional, estas imagens  encorpam-se, inspiradas nas pinturas renascentistas e nas vivências do artista com o Cubismo. 


Diego Rivera,  "Durch die Spanier 1", perspective, Mural


Entre suas obras murais, são célebres as do Palácio do Governo, de 1929, e as do Palácio Nacional, de 1935, no México. Mas ele também atuou em Nova York, empenhando-se  num trabalho monumental no Rockfeller Center, de 1930 a 1934, o qual foi eliminado antes de sua conclusão, pois empreendia uma dura crítica ao sistema capitalista.


Diego Rivera, "Tlatelolco 1", Mural


Diego Rivera, "Tlatelolco 3", Tenochtitlán, Mural


Diego Rivera "Man at the Crossroads"


Diego Rivera," Gold", Mural


Diego Rivera, "Festival - Distribução da Terra", Mural


Diego Rivera, "Sonho de uma tarde de domingo na Alameda central", 1948


Diego Rivera, Detalhe 
"Sonho de uma tarde de domingo na Alameda central", 1948



 Diego Rivera e Frida Kahlo

(Vidas Atribuladas)

Diego Rivera e Frida Kahlo


Diego Rivera, apesar de não ser nada bonito, estava sempre cercado de belas mulheres. Foi casado duas vezes. A sua primeira esposa foi a pintora russa Angellina Belwoff  que logo depois de lhe conceder um filho, morre. Diego entra em depressão, tendo que criar o filho sozinho. 
Em 1929, com 43 anos casou-se pela segunda vez com a pintora mexicana Frida Kahlo de 22 anos, dando início a um relacionamento dos mais extravagantes da história da arte. 


Diego Rivera e Frida Kahlo


Era uma relação muito conturbada, por causa das mútuas infidelidades. O casamento era cheio de brigas e confusões, também pelo fato de Rivera querer filhos e Frida ter sofrido muitos abortos, filhos dele, e não conseguir engravidar mais.


Diego Rivera e Frida Kahlo


Frida era bissexual e ele aceitava que a esposa tivesse relacionamentos com outras mulheres, mas não aceitava com outros homens. Frida não o obedecia, tendo-o traído com diversos homens, inclusive com um melhor amigo seu. Diego também a traía com muitas amantes, que viviam infernizando o casal, já que as amantes queriam tornar-se esposas.


Diego Rivera e Frida Kahlo


Diego Rivera envolveu-se com sua cunhada, Cristina, e tornou-se amante dela. Ficaram muitos anos juntos e tiveram seis filhos. Frida  flagrou-os na cama, tendo um ataque histérico e cortando os próprios cabelos. Como vingança, a esposa causou uma grande tormenta na vida dele, passando a persegui-lo e a odiar a irmã, levando-os à separação. Rivera, muito abalado com tudo, abandonou os filhos e Cristina, que se foi embora. Rivera acabou indo atrás de Frida, mas não teve sucesso na reconquista. Essa traição com a própria irmã da esposa piorou as brigas dos dois, já que passaram a ser inimigos mesmo não estando mais juntos. 


Diego Rivera, Autorretrato, 1907


Diego Rivera, apesar de  pensar em Frida, continuou com a sua vida de antes, muitas bebidas e amantes, inclusive saía com prostitutas. 
Após um tempo separados, Frida e Rivera reconciliaram-se, mas cada um ficou a morar na  respectiva casa. 
Rivera voltou a traí-la e suas amantes ameaçavam-na de morte. Frida, não aguentando  a situação,  tentou o suicídio por diversas vezes.


Diego Rivera e Frida Kahlo


Diego Rivera  ficou viúvo em 1954 pela segunda vez. Frida tivera diversas doenças ao longo de sua vida, até que veio a falecer de pneumonia (não se descarta a possibilidade de ter causando a sua própria morte através de uma overdose de remédios; ou de alguma amante de Rivera tê-la envenenado. Em 1957 faleceu Diego Rivera.


Diego Rivera, "La Era", 1904




Diego Rivera, "Baile em Tehuantepec"

domingo, 20 de maio de 2012

"À pancada da onda contra a pedra hostil" - Poema de Pablo Neruda


 
 

 
À pancada da onda contra a pedra hostil


À pancada da onda contra a pedra hostil
a claridade rebenta e decreta a sua rosa
e o círculo do mar reduz-se a um cacho,
a uma gota única de sal azul que tomba.

Oh radiante magnólia desatada na espuma,
magnética viageira cuja morte floresce
e eternamente volta a ser e a não ser nada:
sal destruído, ofuscante agitação marinha.

Juntos, meu amor, selamos o silêncio,
enquanto o mar destrói suas estátuas perenes
e derruba as suas torres de êxtase e loucura,

porque na trama destes tecidos invisíveis
da água desenfreada, da incessante areia,
mantemos a perseguida e única ternura.


Pablo Neruda,
in "Cien Sonetos de Amor"
(Tradução: José Bento)
 
 
 
Pablo Neruda, poeta chileno laureado com o Prémio Nobel 
de Literatura de 1971

 
Pablo Neruda (Parral, 12 de Julho de 1904 — Santiago, 23 de Setembro de 1973) foi um poeta chileno, bem como um dos mais importantes poetas da língua castelhana do século XX e cônsul do Chile em Espanha (1934 — 1938) e no México.

Nascido em Parral, em 12 de julho de 1904 (porém viveu a infância em Temuco) como Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto, filho de José del Carmen Reyes Morales, um operário ferroviário, e de Rosa Basoalto Opazo, professora primária, morta quando Neruda tinha apenas um mês de vida. Ainda adolescente adotou o pseudónimo de Pablo Neruda que utilizaria durante toda a vida, tornando-o legalizado, após ação de modificação do nome civil. A escolha que fez deste pseudónimo, já espelha, claramente, a sua enorme paixão pela Poesia: Paul Verlaine foi um importante poeta francês do século XIX, cuja obra era muito admirada pelo Chileno, e Jan Neruda, um poeta checo, também do século XIX, igualmente por si muito apreciado. 

Em 1921 radicou-se em Santiago e estudou pedagogia em francês na Universidade do Chile, dando início à composição de seus poemas, obtendo o primeiro prémio da festa da primavera com o poema “A Canção de Festa”. Foi lançado pela Editorial Nascimento “Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada”. Seus poemas tomariam rumo modernista em 1936 com a publicação de três livros: “O Habitante e Sua Esperança”, “Anéis” e “Tentativa do Homem Infinito”.
Em 1927, inicia a carreira diplomática quando é nomeado cônsul em Rangum, na Birmânia. Conhece o poeta Federico Garcia Lorca e Rafael Alberti e em 1935, dirige a revista "Cavalo verde para a poesia".
É a vida de diplomata, que lhe proporciona contactos e encontros com muitas pessoas importantes no mundo cultural, e que também lhe vai permitir conhecer Delia del Carril, 20 anos mais velha que ele, oriunda de uma abastada família de fazendeiros Argentinos, e possuidora de uma larga experiência na cena internacional.

Pablo Neruda, que se casara em 1930, em Batávia, com Maria Antonieta Hagenaar, e de quem se divorciaria em 1936, apesar do êxito que tinha em círculos prestigiados, mas de algum modo restritos, não conseguia que a sua obra se publicasse com a repercussão que merecia.
Foi pois o mundo de relações e a inteligência da pintora Delia del Carril, que o conseguem tornar conhecido e familiar junto de todos os seus contactos. É também Delia del Carril, que compra para Pablo Neruda o embrião da hoje mundialmente célebre casa de Isla Negra. Contudo, não foi Delia que partilhou com Neruda este autêntico "ninho de amor".
Tal aconteceu com uma cantora chilena, chamada Matilde Urrutia, que em tempos foi contratada para trabalhar na casa do casal, em Santiago do Chile, a fim de tratar do poeta, que recuperava de um acidente de automóvel. Neruda, apesar de continuar casado com Delia del Carril, casamento esse que tivera lugar em 1946, inicia a grande paixão da sua vida com Matilde, acabando por se divorciar de Delia, em 1955.

Em 1936, eclode a Guerra Civil espanhola; Neruda é destituído do cargo consular e escreve Espanha no coração
Em 1939, enquanto morava em Paris, Neruda foi nomeado cônsul para a emigração espanhola, e, pouco depois, Cônsul Geral no México, onde reescreveu seu Canto Geral de Chile, transformando-o num poema épico sobre o continente sul-americano inteiro, a sua natureza, seu povo e seu destino histórico.
Em 1945 é eleito senador. No mesmo ano, lê para mais de 100 mil pessoas no Estádio do Pacaembu em homenagem ao líder comunista Luís Carlos Prestes.
Em 1950 publica Canto Geral, em que sua poesia adota intenção social, ética e política. Em 1952 publica Os Versos do Capitão e em 1954 As uvas e o vento e Odes Elementares.
Em 1953 constrói sua casa em Santiago, apelidada de “La Chascona”, para se encontrar clandestinamente com sua amante Matilde Urrutia, a quem havia dedicado Os Versos do Capitão e a qual se tornou sua 3ª e última esposa.
Em 1958 apareceu Estravagario com uma nova mudança em sua poesia. Em 1965 foi-lhe outorgado o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Oxford, Grã-Bretanha. Em outubro de 1971 recebeu o Nobel de Literatura. Após o prémio, Neruda é convidado por Salvador Allende para ler para mais de 70 mil pessoas no Estadio Nacional de Chile.
Durante as eleições presidenciais do Chile nos anos 70, Neruda abriu mão de sua candidatura para que Allende vencesse, pois ambos eram marxistas e acreditavam numa América Latina mais justa o que, a seu ver, poderia ocorrer com o socialismo. 
 
De acordo com Isabel Allende, em seu livro Paula, Neruda teria morrido de "tristeza" em setembro de 1973, ao ver dissolvido o governo de Allende. A versão do regime militar do ditador Augusto Pinochet (1973-1990) é a de que ele teria morrido devido a um cancro da próstata. No entanto, fontes próximas, como o motorista e ajudante do poeta na época, Manuel Araya, afirmam com insistência que o poeta teria sido assassinado, estando a própria justiça do Chile a contestar a versão oficial sobre a sua morte. 

Por curiosidade, é de notar, que após o sangrento golpe de estado de Pinochet, em 11 de Setembro de 1973, a ditadura mandou destruir La Chascona, e a outra casa, La Sebastiana, em Valparaíso, também foi pilhada e vandalizada. Quando o regime ditatorial executou mais estes actos de barbárie, já Pablo Neruda alcançara renome mundial, fundamentalmente como poeta, e tinha um extenso passado político.
O escritor Chileno não possui somente uma obra poética magnífica, tem também uma vida muito rica e interessante.
 
Fontes: Prensa Latina. 20 de Novembro de 2011 // biografias.netsaber.com.
 


Pablo Neruda e Matilde Urrutia, a sua grande paixão


Matilde e Neruda encontraram-se num concerto ao ar livre, na Cidade do México. Ambos eram comprometidos. Ele casado e ela envolvida com sua carreira de cantora lírica internacional.
Ao reencontrarem-se em 1949, quando se iniciava a permanência do poeta no exílio, o amor floresceu. Uma espécie de casamento secreto ocorreu em Cannes, tendo como testemunha "somente a luz da lua".

Logo no início da relação, Neruda inventou um nome secreto para Matilde: "Rosário de la Cerda" - a ela foram dedicados os "Versos do Capitão".
Foi fundamental a presença de Matilde na vida de Neruda. Os anos que lhe restaram na companhia, agora oficial, da amada definitiva, são pontuados por uma nova grande onda de criatividade: escreveu, fundou e dirigiu uma revista, construiu uma nova casa em Valparaíso e continuou suas viagens.

O livro cem sonetos de amor é dedicado à Matilde, que foi o grande amor de Neruda. Ele fala da sua mulher, carinhosamente em suas memórias assim:

"Matilde Urrutia, minha mulher.
Minha mulher é da província como eu. Nasceu numa cidade do Sul, Chillán, famosa de maneira feliz por sua cerâmica camponesa e de maneira desgraçada pelos seus terríveis terramotos. Ao falar-lhe disse tudo em meus "Cem sonetos de amor".
Talvez esses versos definam o que ela significa para mim. A terra e a vida nos reuniu.
Ainda que isto não interesse a ninguém, somos felizes. Dividimos nosso tempo comum em longas temporadas na solitária costa do Chile. Não no verão porque o litoral, ressequido pelo sol, mostra-se então amarelo e desértico; mas no inverno sim, quando uma estranha floração se veste com as chuvas e o frio, de verde e amarelo, de azul e purpúreo. Algumas vezes subimos do selvagem e solitário oceano para a trepidante cidade de Santiago, na qual juntos padecemos com a complicada existência dos demais.
Matilde canta com voz poderosa as minhas canções.
Dedico-lhe tudo que escrevo e tudo que tenho. Não é muito mas ela está contente.
Diviso-a agora como afunda os sapatos minúsculos no barro do jardim e depois também afunda suas mãos minúsculas na profundidade da planta.
Da terra, com pés e mãos e olhos e voz, trouxe para mim todas as raízes, todas as flores, todos os frutos fragrantes da felicidade.”
(Pablo Neruda, Confesso que vivi, op cit. p. 277/278)
 
 
   
Santiago-Chile, cidade onde fica a casa La Chascona
 

Cercada pela Cordilheira dos Andes, a capital chilena é uma das cidades mais modernas da América do Sul. Entre seus atrativos estão inúmeros parques, museus, igrejas e uma intensa vida noturna.

O Chile é um país estreito situado na costa do oceano Pacífico fazendo fronteiras com o Peru, Bolívia e Argentina. Sua língua oficial é o espanhol e sua moeda o peso chileno. A população é mestiça de europeus e indígenas cujas tradições são cultivadas em algumas partes do país.
Os chilenos são muito agradáveis e hospitaleiros com todos os estrangeiros tornando o passeio pelo país bastante agradável.

Santiago está a 520 metros de altura, próximo à Cordilheira dos Andes sendo a principal cidade do Chile a nível comercial e cultural. No verão, quando a temperatura média é de 22ºC, a cidade torna-se mais tranquila, os moradores aproveitam para visitar as praias banhadas pelo oceano Pacífico, principalmente os balneários de Vina del Mar e Valparaíso.

No inverno, a temperatura fica poucos graus acima de zero, o que dá à cidade novo atrativo, tornando-a ponto de partida para as estações de esqui.
Na segunda metade de novembro realiza-se a Feira Internacional do Vinho do Hemisfério Sul. É a maior festa de Santiago e dela participam produtores de todo mundo.
O vinho chileno é considerado pelos especialistas um dos melhores do mundo, graças ao clima ideal para o plantio da uva. Na periferia de Santiago há vinícolas que mantêm programas de visitas com direito a degustação e acompanhamento de guias especializados
O Mercado Central é uma boa opção para conhecer restaurantes especializados em peixes e frutos do mar, pela qualidade e variedade de ofertas, garantidas pela proximidade do mar e pela corrente de água gelada que banha o litoral chileno.

Santiago foi fundada em 1541 pelo conquistador espanhol Pedro Valdívia e chegou a sua independência em 1818 se tornando capital da nação. Santiago possui muitas atrações como o Museu de História Natural com coleções pré-colombianas, o Museu de Arte Contemporânea e o Museu de Solidariedade de Salvador Allende com criações contemporâneas de diversos artistas do mundo.
Mas seu maior tesouro está nos parques e suas paisagens maravilhosas próximo à Cordilheira dos Andes. Um dos lugares próximos a Santiago é O Monumento Natural El Morado.


Santiago do Chile vista a partir da cordilheira.
 

 
 

"La Chascona"


"La Chascona", localiza-se na base do Cerro San Cristóbal, na zona central que envolve o jardim zoológico da Capital, e foi assim baptizada por Pablo Neruda numa alusão clara a Matilde - chasca é uma palavra da Língua Quechua muito popular no Chile, que significa "cabelo emaranhado", sendo esta a raiz da ligação com a sua mulher.
A casa foi uma de suas três casas no Chile, as outras estão em Isla Negra e Valparaíso ("La Sebastiana"). 
 

 
'La Chascona'
 
 
 
'La Chascona' lembra um navio.
 
 
  
'La Chascona'
 
 
  
'La Chascona', Taças coloridas de Neruda
 
 
 
"La Chascona"com o retrato de Matilde Urrutia
 
 

'La Medusa', Retrato de Matilde Urrutia por Diego Rivera
 
 
 
Isla Negra

 
Praia Isla Negra, Chile
 
 
Isla Negra fica na região de Valparaíso, ou seja, é cercada pelo Oceano Pacífico, fazendo com que a Arquitetura da Casa de Pablo Neruda ganhe ainda mais destaque.

Neruda comprou a casa em Isla Negra de um velho capitão socialista espanhol aposentado, que estava construindo para morar com sua família. Como apenas metade da casa estava construída, o poeta poderia terminá-la a seu gosto, tarefa essa que exerceu com maestria em parceria com o arquiteto catalão Germán Rodriguez Arias e posteriormente com o também arquiteto Sergio Soza.

“La costa salvaje de Isla Negra, con el tumultuoso movimiento oceánico, me permitía entregarme con pasión a la empresa de mi nuevo canto…"  - Pablo Neruda
 
  

"La casa … No sé cuando me nació.. Era a media tarde, llegamos a caballo por aquellas soledades … Don Eladio iba delante, vadeando el estero de Córdoba que se había crecido …Por primera vez sentí como una punzada este olor a invierno marino, mezcla de boldo y arena salada, algas y cardos…Aquí, dijo don Eladio Sobrino (navegante) y allí nos quedamos. Luego la casa fue creciendo, como la gente, como los árboles.” - Pablo Neruda
 
Casa de Pablo Neruda em Isla Negra
 
 
"Edifiquei minha casa como um brinquedo e brinco nela da manhã à noite." 
 
 (Pablo Neruda)

 
Logo na entrada da Casa/Museu encontra-se um modelo antigo de uma locomotiva em perfeito estado de conservação, chamando a atenção ao gosto do poeta por colecionar objetos de valor histórico e sentimental de sua vida. 
 
Ainda na parte externa da casa, nota-se a presença de uma grande roda sustentando e enfeitando a entrada da casa em formato de torre com resquícios da arquitetura mediterrânea europeia onde tem o piso forrado por conchas. 

 
 
Do lado de fora, encontra-se um barco pesqueiro atracado, onde Neruda pretendia levar seus amigos para tomar um bom vinho chileno e discutir diversos assuntos na praia, mas na realidade velejou apenas uma vez com esse intuito.
 
Mas para não perder a simbologia, ao lado do barco, colocou uma torre de sinos que sempre tocava quando chegava a Isla Negra, fazendo alusão à chegada dos marinheiros. 
 
 
 
Também nesse ideal de confraternização entre amigos, Neruda construiu um bar onde homenageou cada um deles colocando seus nomes nas vigas estruturais. 
 
A casa de Isla Negra guarda a magia dos 3.500 objetos de todo o mundo, reunidos por Neruda e espalhados pelos diversos cómodos. São obras de arte, peças de artesanato, quadros, gravuras, fotos, búzios, garrafas, mapas, instrumentos de navegação. Neruda não se considerava um colecionador, mas alguém que gostava de coisas e de acumulá-las.
 
 
 
O restante da casa, são aposentos feitos especialmente para abrigar as coleções excêntricas do poeta, dentre elas estão: réplicas de veleiros, máscaras orientais e incas, barcos dentro de garrafas (dispostos numa estante em frente a janela, dando a impressão que os barquinhos estão velejando no mar!!), conchas, dente de uma baleia cachalote, sapatos antigos, bússolas, besouros e borboletas empalhados, brinquedos da sua infância, cachimbos, tapeçarias de Nicolau Copérnico, globos terrestres, instrumentos musicais, até um cavalo feito em tamanho real que fazia parte de um comércio falido da época de infância de Neruda.
 
 
 
   
A casa de Isla Negra compõe um cenário extremamente propício para a composição de poemas, músicas, histórias além de oferecer uma qualidade de vida sem igual, com a paz da natureza. Não é a toa que o poeta pediu em seu poema “Disposiciones” para ser enterrado nesta casa: 
“Compañeros, enterradme en Isla Negra, / frente al mar que conozco, a cada área rugosa de piedras/ y de olas que mis ojos perdidos/ no volverán a ver…”
 
Pablo Neruda morreu em Santiago em 23 de setembro de 1973, poucos dias depois do golpe militar que derrubou o governo de Salvador Allende, mas deixou para o mundo todo um legado de poemas sem igual, além de suas casas que registam como funciona a mente de um ser humano sensível e genial.

Sempre fiel ao companheiro, a quem sobreviveu doze anos, Matilde dedicou o resto da vida a cuidar do património poético e espiritual do poeta.
 
Sendo das suas 3 casas a favorita, foi  nos jardins da casa de Isla Negra, de frente para o azul gelado do Pacífico que escolheu ser sepultado ao lado da esposa Matilde Urrutia.