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segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

"O azul" - Poema de Stéphane Mallarmé

 

Maurice Prendergast (American artist, 1858–1924), Autumn in New England, 1910–13.
 
 

O azul 


De um infinito azul a serena ironia
Bela indolentemente abala como as flores
O poeta incapaz que maldiz a poesia
No estéril areal de um deserto de Dores.

Em fuga, olhos fechados, sinto-o que espreita,
Com toda a intensidade de um remorso aceso,
A minha alma vazia. Onde fugir? Que estreita
Noite, andrajos, opor a seu feroz desprezo?

Vinde, névoas! Lançai a cerração de sono
Sobre o límpido céu, num farrapo noturno,
Que afogarão os lodos lívidos do outono,
E edificai um grande teto taciturno.

E tu, ó Tédio, sai dos pântanos profundos
Da desmemória, unindo o limo aos juncos suaves,
Para tapar com dedos ágeis esses fundos
Furos de azul que vão fazendo no ar as aves.

Que sem descaso, enfim, as tristes chaminés
Façam subir de fumo uma turva corrente
E apaguem no pavor de seus torvos anéis
O sol que vai morrendo amareladamente!

- O Céu é morto. - Vem e concede, ó matéria,
O olvido do Ideal cruel e do Pecado
A um mártir que adotou o leito da miséria
Ao rebanho feliz dos homens reservado,

Pois quero, desde que meu cérebro vazio,
Como um pote de creme inerme ao pé de um muro,
Já não sabe adornar a ideia-desafio,
Lúgubre bocejar até o final obscuro...

Em vão. O azul triunfa e canta em glória
Dentro dos sinos. Sim, faz-se voz para sus-
Pender-nos no terror de sua vil vitória,
Rompendo o metal vivo em angelus de luz!

Ele rola na bruma, antigo, lentamente
Galga tua agonia e como um gládio a sul-
Cá. Onde fugir? Revolta pérfida e impotente.
O Azul! O Azul! O Azul! O Azul! O Azul! O Azul! 


Stéphane Mallarmé, in "Mallarmé".
Organização, tradução e notas de Augusto de Campos,
Décio Pignatari e Haroldo de Campos.
São Paulo: Perspectiva, 1991.
 

sexta-feira, 7 de outubro de 2022

"Chuva de pedra" - Poema de Menotti Del Picchia


Wassily Kandinsky (1866-1944), Landscape with Rain, January, 1913 – óleo sobre tela, 
70,2 x 78,1 cm,  Solomon R. Guggenheim Museum - New York, USA (Abstract art)
 

 
Chuva de pedra


O granizo salpica o chão como se as mãos das nuvens
quebrassem com estrondo um pedaço de gelo
para a salada de fruta dos pomares...

O cafezal, numa carreira alucinada,
grimpa as lombas de ocre
apedrejada matilha de cães verdes...

Fremem, gotejam eriçadas suas copas
como pelos de um animal todo molhado.

O céu é uma pedreira cor de zinco
onde estoura a dinamite dos coriscos.

Rola de fraga em fraga a lasca retumbante
de um trovão.

Os riachos
correm com seus pés invisíveis e líquidos
para o abrigo das furnas. No terreiro,
as roupas penduradas nos varais
dançam, funambulescas, com as pedradas,
numa fila macabra de enforcados! 


Menotti Del Picchia
, Chuva de pedra, 1925

 

Maurice Prendergast (American (born in Canada), 1858–1924), Umbrellas in the Rain,
 

"Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
Ambos existem; cada um como é."

8-11-1915  
 

“Poemas Inconjuntos”. In Poemas de Alberto Caeiro
(Heterónimo de  Fernando Pessoa)

 
Claude Monet (French, 1840-1926), Morning on the Seine in the Rain, 1897-1898, 
óleo sobre tela. National Museum of Western Art, Toquio, Japão (Impressionism)



Provérbios portugueses (daqui)
 
 
“Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.”
 
[Significa que «a tenacidade vence todas as dificuldades» (in Dicionário Prático de Locuções e Expressões Correntes, de Emanuel de Moura Correia e Persília de Melim Teixeira, Papiro Editora).]


“Não se pode ter sol na eira e chuva no nabal.”

[Significa que «é difícil ter, ao mesmo tempo, duas coisas opostas.»]

quarta-feira, 27 de julho de 2011

"Urgentemente" - Poema de Eugénio de Andrade

 

Maurice Prendergast
, Salem Willows (also known as The Promenade, Salem Harbor), 1904
 


Urgentemente 


É urgente o amor.
É urgente um barco no mar. 

É urgente destruir certas palavras, 
ódio, solidão e crueldade, 
alguns lamentos, 
muitas espadas. 

É urgente inventar alegria, 
multiplicar os beijos, as searas, 
é urgente descobrir rosas e rios 
e manhãs claras. 

Cai o silêncio nos ombros, 
e a luz impura, até doer. 
É urgente o amor, 
é urgente permanecer.


Eugénio de Andrade, in "Até Amanhã", 1956


Roberto Cacciapaglia - Oceano
Roberto Cacciapaglia (nascido em 1953, em Milão ) é um pianista e compositor italiano.