[This altarpiece was painted for the monastery of Santo Domenico in Fiesole, near Florence. The central panel shows the Archangel Gabriel’s Annunciation to Mary under a portico. On the left, Adam and Eve are being expelled from Paradise. The damnation and salvation of Humanity. The predella has scenes from the life of the Virgin; Mary’s Birth, Her Wedding with Saint Joseph, Mary’s Visit to her cousin Saint Elisabeth, the Birth of the Christ Child, the Presentation of Jesus in the Temple and the Dormition of the Virgin with Christ receiving her soul. Fra Angelico, also known as Blessed Angelico, dedicated his work exclusively to religious subjects as he understood art to be an aspect of religious devotion. He was particularly meticulous in the details and qualities of Nature and of the objects and persons depicted. In his style, Fra Angelico merged the late Gothic Italian style with the new language of the Renaissance. An example of this is the architecture’s spatial depth, which, while in keeping with Brunelleschi’s recommendation to occupy the center of a square and unadorned stage, nevertheless shows some of the errors present in Angelico’s early works.] (daqui)
Não,
não há uma beleza que nos salve. Só a bondade nos salva. E a bondade
manifesta-se, por vezes, no meio da maior fealdade. Explico-me. Uma
pessoa capaz de atos de bondade, uma pessoa com bom coração, pode ter
uma cara que é considerada feia, pode vestir-se de uma maneira que é
considerada pirosa, pode ter tido notas medíocres, pode ser um artista
medíocre. Quando visitamos um museu com obras belíssimas, como o Louvre
ou o Prado, podemo-nos esquecer de que as pessoas, os visitantes e os
funcionários que estão lá connosco, são obras mais belas do que as mais
belas obras expostas que andamos a ver. Um artista torturado pela beleza
que consegue, ou que não consegue, dar ao que pinta e que se
autodestrói está equivocado. Seria preferível deixar de pintar ou pintar
obras medíocres. Como dizia o meu avô materno, que era médico, “mais
vale burro vivo do que sábio morto”. Se a busca da beleza nos impede de
viver, então há é uma beleza que nos perde. E há.
Penso que não
nos devemos enganar sobre a beleza. Se a nossa obra artística, ou outra,
não implica a renúncia às coisas inúteis e a partilha, então é bastante
inútil. E as coisas inúteis, para uma poetisa, são o desejo de escrever
obras perfeitas e de ser reconhecida pelos seus pares. Roubei à Irmã
Emmanuelle a expressão “renúncia às coisas inúteis e partilha” (“renonce
aux choses inutiles et partage”, in “Famille chrétienne”, Numéro hors
série, été 2004, p. 6). Se não há partilha, o artista é quase tão
aberrante como um padre que celebrasse a missa só para si.
Os
artistas são, às vezes, muito egoístas. É verdade que as suas obras,
apesar disso, podem comunicar – mas será involuntariamente? – bons
sentimentos. A arte está cheia de ódio, de maus sentimentos. Parece que
estou a dizer mal da arte e não queria fazer isso.
No Natal, uma
amiga mandou-me um cartão de boas festas da Unicef com um Anjo da
Anunciação de Fra Angelico. Tenho-o em exposição no meu quarto e, quando
quero rezar, olho para ele. Mas não sou contemporânea de Fra Angelico.
Não posso tomar café e tagarelar com ele nos cafés como posso fazer com a
amiga que me enviou o anjo dele pelo Correio. Por isso o Anjo da
Anunciação de Fra Angelico, que é tão bonito, pode também ser doloroso.
Fra Angelico já morreu. E não é a beleza do anjo de Fra Angelico que me
garante que Fra Angelico ressuscitará.
Um poema de Rimbaud está
cheio de violência. Há muita beleza na expressão dessa violência. E isto
é terrível. Preferia que Rimbaud não estivesse ferido a ponto de
escrever daquela maneira? Preferia. Mas não posso dizer isto assim.
A
arte é feita para construir a paz. Não é um esgrimir no vazio. Não pode
ser. Olho para o Anjo da Anunciação de Fra Angelico. Parece-me
belíssimo. É vermelho e dourado. É verde e azul. Mas, ao escrever assim,
parece-me que estou a evocar o poema de Rimbaud intitulado “Vogais”. A
arte é um modo de lidar com a ausência. E por isso é tão preciosa e tão
perigosa. Nunca é a alegria da presença.
Esta edição de “Dobra”, com 1056 páginas, publicada pela Assírio & Alvim, abarca toda a produção poética de Adília Lopes, de 1983 a 2023. Aqui estão reunidos os 36 livros da poeta, desde a estreia em “Um jogo bastante perigoso” até ao mais recente “Choupos”, que constou entre os semifinalistas ao Prémio Oceanos.
“A poesia de Adília Lopes é uma estação fundamental e singular no percurso da poesia portuguesa desde os anos 80. O seu grande triunfo consistiu em renunciar completamente ao lirismo e às suas tonalidades afetivas, mantendo uma densidade que advém da exploração linguística, em todos os níveis”, sublinhou em tempos António Guerreiro, quanto à singularidade desta obra que há muito ultrapassou fronteiras e se encontra traduzida para várias línguas.(daqui)
Em pequena queria ter muitos bebés e um cão ser cançonetista como a Madalena Iglésias e ser freira como a irmã Maria Antonieta minha professora por isso vi umas oito vezes a Música no coração e bebi com a Victoria um cocktail chamado Mary Poppins no bar La Filmo a Julie Andrews era para mim a mulher mais bonita do mundo.
Não gosto tanto de livros como Mallarmé parece que gostava eu não sou um livro e quando me dizem gosto muito dos seus livros gostava de poder dizer como o poeta Cesariny olha eu gostava é que tu gostasses de mim os livros não são feitos de carne e osso e quando tenho vontade de chorar abrir um livro não me chega preciso de um abraço mas graças a Deus o mundo não é um livro e o acaso não existe no entanto gosto muito de livros e acredito na Ressurreição dos livros e acredito que no Céu haja bibliotecas e se possa ler e escrever.
Antonio Mancini (Italian impressionist painter, 1852–1930), 'The Two Dolls' (Le due bambole), 1876. Oil on canvas, 82 x 71 cm. Private collection.
No more tears
Quantas vezes me fechei para chorar na casa de banho da casa da minha avó lavava os olhos com shampoo e chorava chorava por causa do shampoo depois acabaram os shampoos que faziam arder os olhos no more tears disse Johnson & Johnson as mães são filhas das filhas e as filhas são mães das mães uma mãe lava a cabeça da outra e todas têm cabelos de crianças loiras para chorar não podemos usar mais shampoo e eu gostava de chorar a fio e chorava sem um desgosto sem uma dor sem um lenço sem uma lágrima fechada à chave na casa de banho da casa da minha avó onde além de mim só estava eu também me fechava no guarda-vestidos grande mas um guarda-vestidos não se pode fechar por dentro nunca ninguém viu um vestido a chorar.
'Dobra' reúne todos os livros de poesia de Adília Lopes.
Como consequência, a nova edição que agora se apresenta foi ampliada e
passa a incluir toda a obra poética publicada da autora, até maio de
2023. (daqui)
Eugene de Blaas (Italian painter, 1843–1931), Flirtation, 1887, oil on canvas.
Private Collection
Os namorados pobres
O namorado dá flores murchas à namorada e a namorada come as flores porque tem fome
Não trocam cartas nem retratos nem anéis porque são pobres
Mas um dia têm muito medo de se esquecerem um do outro então apanham um cordel do chão cortam o cordel com os dentes e trocam alianças feitas de cordel
Não podem combinar encontros porque não têm número de telefone nem morada assim encontram-se por acaso e têm medo de não se voltarem a encontrar
O acaso não os favorece
Decidem nunca sair do mesmo sítio e ficarem sempre juntos para não se perderem um do outro
Procuram um sítio mas todos os sítios têm dono ou mudam de nome
Então retiram dos dedos os anéis de cordel atam um anel ao outro e enforcam-se
Mas a namorada tem de esperar pelo namorado porque o cordel só dá para um de cada vez
O namorado descansa à sombra da figueira e a namorada baloiça na figueira
O dono da figueira zanga-se com os namorados pobres porque julga que estão a roubar figos e a andar de baloiço Adília Lopes, in “Dobra” - Poesia Reunida, Assírio & Alvim, Lisboa, 2009.
Abbey Altson (British painter, 1866-1949), Portrait of a Lady, c. 1916
Os papelotes
Nunca choraremos bastante termos querido ser belas à viva força eu quis ser bela e julguei que para ser bela bastava usar canudos pedi para me fazerem canudos com um ferro de frisar e papelotes puxaram-me muito pelos cabelos eu gritei disseram-me para ser bela é preciso sofrer depois o cabelo queimou-se não voltou a crescer tive de passar a andar com uma peruca para ser bela é preciso sofrer mas sofrer não nos faz forçosamente belas um sofrimento não implica como consequência uma recompensa uma dor de dentes pode comover a nossa mãe que para nos consolar sem saber de quê nos dá um rebuçado mas o rebuçado ainda nos faz doer mais os dentes a consequência de um sofrimento pode ser outro sofrimento a causa é posterior ao efeito o motivo do sofrimento é uma das consequências do sofrimento os papelotes são uma consequência da peruca Adília Lopes, in Decote da Dama de Espadas (Romances), 1988, pág. 160-161. Col. Plural - Poesia; Lisboa: Gota de Água.
Abbey Altson,A Spanish Lady, Date unknown «Eu levo a minha poesia muito a sério. Para mim é uma questão de vida ou de morte.»
(Adília Lopes)
Adília Lopes, poetisa, cronista e tradutora, é o pseudónimo literário de Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira, nascida em Lisboa a 20 de Abril de 1960. Tem vivido sempre nesta cidade e na mesma casa, habitada pela família de sua mãe desde 1916. Desde 1982 que vive com gatos. «A Adília surgiu com um poema que escrevi no meu diário quando uma gata minha, a Faruk, desapareceu», contou numa entrevista a Carlos Vaz Marques. A mãe foi bióloga, assistente de Botânica na Faculdade de Ciências de Lisboa, e o pai professor de Desenho e sub-diretor da Escola Secundária Pedro de Santarém, em Benfica, Lisboa.
Adília Lopes começou por frequentar dois colégios de freiras, no ensino primário, e acabou a cursar Física, na Faculdade de Ciências de Lisboa, licenciatura que abandonou, quase completa, devido a uma psicose esquizo-afetiva, doença da qual sempre falou abertamente, fosse na sua poesia, crónicas, conferências ou entrevistas a meios de comunicação social. Deixou de estudar por conselho médico e começou a escrever com o intuito de publicar.
Concorre em 1983 a um Prémio de Prosa da APE, para o qual um amigo lhe sugere o pseudónimo por que ficará conhecida, e envia poemas para a editora Assírio & Alvim, que remete dois deles para o seu Anuário de Poesia: Autores não Publicados de 1984. Começa uma nova licenciatura, de Literatura e Linguística Portuguesa e Francesa (1983-1988), na Faculdade de Letras de Lisboa, e publica o seu primeiro livro de poemas em edição de autor, Um jogo bastante perigoso (1985). O primeiro poema do livro evocaEsther Greenwood, a narradora de Câmpanula de vidro – um romance autobiográfico onde a poetisa norte-americana Sylvia Plath refletiu a depressão profunda que a afetou.
Ao longo do curso, Adília Lopes publicou outros quatro livros de poesia, entre os quais O Poeta de Pondichéry (1986) – a sua obra mais traduzida, baseada numa enigmática personagem de Jacques le fataliste, romance de Diderot – e O decote da dama de espadas (1988), reunião de poemas redigidos entre 1983 e 1987, louvado por vários críticos. Terminada a licenciatura, foi bolseira do Instituto Nacional de Investigação Científica (1989-1992), tendo trabalhado no Centro de Linguística da Universidade de Lisboa, no projeto de antroponímia de países de línguas românicas PatRom.
Não escreveu no período de 1987 a 1991 e, de certa forma, inicia nesse ano um novo ciclo, novamente em edição de autor, com Os 5 livros de versos salvaram o tio, 250 exemplares para distribuição gratuita. Recusado por seis editoras, tem na capa, simbolicamente, a data do primeiro livro (1985), já não em capa branca mas cor-de-rosa.
Entre 1992 e 1997 faz publicar cinco livros de poesia, um dos quais em prosa (A bela acordada), e especializa-se em Ciências Documentais (1995) na Faculdade de Letras de Lisboa. Trabalhou nos espólios de Fernando Pessoa, Vitorino Nemésio e José Blanc de Portugal, este último padrinho de crisma da autora.
A Adília Lopes foi atribuída, em 1999, uma bolsa de criação literária do IPLB [Instituto Português do Livro e das Bibliotecas], apoio que lhe permitiu trabalhar para o teatro e «arrumar» a sua «arca» de dispersos e inéditos. A companhia de teatro Sensurround, de Lúcia Sigalho, levou então à cena um espetáculo baseado em textos seus intitulado A Birra da Viva, obra central (e única a ser encenada) da trilogia A Caixa em Tóquio. A bolsa permitiu ainda a publicação de três livros, sendo Sete riosentre campos (1999), provavelmente, a obra mais autobiográfica de Adília Lopes.
No ano seguinte, foi publicado Obra, reunião dos quinze livros de poesia de Adília Lopes, com ilustrações de Paula Rego. A pintora, surpreendida, havia encontrado nos poemas um impressionante paralelo com o seu próprio imaginário: «fizeram-me logo lembrar a minha juventude, com as criadas, as bonecas, as mães ultraprotetoras. Adília Lopes é de um grande romantismo e ao mesmo tempo de um grotesco e de um cómico transbordantes.» Em resposta à cortesia, Adília traduziu para português Nursery Rhymes (Rimas de Berço), um álbum de gravuras de Paula Rego baseadas nas clássicas rimas infantis inglesas.
Após a publicação de Obra, Adília Lopes conheceu um relativo sucesso mediático, tendo participado em vários programas de televisão e recebido uma reforçada atenção de muitos críticos literários, embora desde 1998 já incluísse nos seus livros posfácios da autoria de académicos (Osvaldo M. Silvestre, Américo Lindeza Diogo, Manuel Sumares, aos quais se seguiram Elfriede Engelmayer e Valter Hugo Mãe). É frequentemente inquirida sobre Adília Lopes ser uma personagem ou a própria Maria José.
O estilo da poetisa, aparentemente coloquial e naïf, está repleto de jogos fonéticos, associações livres, rimas infantis e idiomas estrangeiros. Os temas do quotidiano, principalmente femininos e domésticos, são tratados com humor e auto-ironia, candura e crueza, inteligência e intencionalidade: «há sempre uma grande carga de violência, de dor, de seriedade e de santidade naquilo que escrevo». É Adília, católica praticante que por vezes transporta uma profunda religiosidade para o que escreve, que se define a si própria como «tímida desenrascada» ou «freira poetisa barroca».
Colaborou com poemas, artigos ou poemas traduzidos, em diversos jornais e revistas, nacionais e estrangeiros. Está incluída em várias antologias e participou em inúmeros encontros de poesia.
Centro de Documentação de Autores Portugueses, 09/2005(daqui)
Em minha casa, detestávamos pessoas bem- -falantes, palavras caras. De uma vez, apareceu a prima Maria Lucília a dizer já não sei porquê: – Fiquei muito confrangida. Passámos a chamar-lhe “a confrangida”. Sempre que aparecia alguém na televisão a declamar poesia ou a falar de poesia, desligáva- mos a televisão.
Neto do criador da psicanálise, libertino - há quem afirme que foi pai
cerca de 40 vezes -, pintor de celebridades,Lucian Michael Freud, morreu no dia 20 Julho de 2011, em Londres, aos 88 anos. Conhecido sobretudo pelos seus
retratos, foi também um exímio executante de naturezas-mortas e gostava
que as obras por si criadas fossem sentidas como carne - daí a contínua
necessidade de representar a nudez humana, revelando-a nos seus
extremos: do corpo magro de Kate Moss à gordura disforme de Sue Tilley, a
gerente de um centro de emprego que posou para ele durante quatro anos,
no início da década de 1990. Contudo, a sua obra mais discutida terá
sido a imagem de Isabel II, encomendada pela monarca britânica no início
deste século.
Retrato da rainha Isabel II por Lucian Freud
A decisão de convidar Lucian Freud para pintar o
retrato da rainha Isabel II começou a ganhar consistência depois de o artista ter
realizado, entre 1999 e 2000, a imagem do ex-secretário privado da
monarca, Lorde Robert Fellowes, uma obra de pequenas dimensões (25,6 x
22,4 cm). Este é também o tamanho aproximado do trabalho onde está
figurado o rosto da monarca, um óleo sobre tela com 23,5 x 15,2 cm,
criado entre Maio de 2000 e Dezembro de 2001, em sessões que tiveram
lugar no Friary Court Studio, situado no Palácio de St. James, em
Londres, lugar onde habitualmente se conserva a Real Colecção de
Pintura.
O facto de a retratada ser uma personalidade fora do círculo de
amizades do artista fez com que Freud não só comparasse a tarefa a uma
expedição polar - a maioria das suas obras eram realizadas no seu
estúdio -, mas também adivinhasse a dificuldade do desafio, sobretudo
nas questões relacionadas com a tentativa de captar a vida interior de
uma figura pública. A escolha de uma tela de pequenas dimensões e a
vontade de retratar a rainha enquanto esta usava o célebre Diadema de Diamantes - uma jóia criada em 1820 para a coroação do reiJorge IV,
visível também nas notas e selos onde é representada Isabel II -, podem
sugerir uma tentativa do artista em sublinhar as ambiguidades de um
poder que decide encomendar uma imagem de si próprio.
Pintado no estilo de Freud, que usava muitas vezes a técnica do impasto
para dar espessura às cores, deixando visíveis os movimentos do pincel
sobre a tela, o retrato de Isabel II revela um rosto severo, pétreo, de
formas envelhecidas, sobressaindo ainda a sua carnalidade. A ambiguidade
da representação pode ser detectada quer na escolha da dimensão do
trabalho - a rainha é colocada ao mesmo nível de Lord Fellowes, ou da
neta do artista, Frances Costelloe, modelo de vários trabalhos, como um
grande plano do rosto, executado em 2002, com 30,5 x 20,3 cm -, quer na
escolha daquela jóia, composta por 1333 diamantes, criada pela casa
Rundell, Bridge & Rundell para ser usada por um homem, George IV,
nas cerimónias da sua coroação, e hoje em dia envergada pela monarca na
abertura anual do Parlamento britânico, o lugar mais relevante da
democracia inglesa.
Quando revelado, em Dezembro
de 2001, o retrato de Isabel II provocou diferentes tipos de reacções:
Charles Saumarez-Smith, então director do National Portrait Gallery, em
Londres, descreveu a pintura como "provocante e psicologicamente
penetrante", enquanto Richard Cork, crítico de arte do The Times,
adjectivou a imagem criada por Freud como "dolorosa, corajosa, honesta,
estóica e, acima de tudo, transparente". No mesmo jornal, a opinião de
Richard Morrison era distinta, apontando a particularidade de o queixo
ostentar "aquilo que só pode ser descrito como uma barba por fazer". O
pescoço, diz ainda Morrison, "não envergonharia um avançado do râguebi".
Finalmente, Adrian Searle, do The Guardian, considerou a obra do
artista como a melhor representação pictórica de um monarca britânico
nos últimos 150 anos: "Retratar significa penetrar na pele." E continua:
"Ambos, modelo e pintor, viram demasiado e sentem-se, com facilidade,
estoicamente entediados. Eles conhecem os limites que os enquadram. Esta
é uma pintura da experiência."
A relação entre modelo e pintor,
tema de tantos artistas, é também central na obra de Lucian Freud. Desde
cedo que o retrato foi o seu assunto de eleição: "De forma a
abalar-nos, a pintura nunca deve apenas lembrar-nos da vida, mas deve
adquirir a sua própria vida", dizia o artista. As obras em que figura
corpos e rostos humanos foram sendo realizadas com a colaboração
daqueles que lhe eram próximos, nomeadamente família e amigos, porque as
sessões de trabalho eram longas e a conclusão de uma obra podia demorar
mais de um ano: em Girl with a White Dog (1950-1951), última de
uma série de obras em que Freud representa a sua primeira mulher - Kitty
Garman, filha do escultor modernista Jacob Epstein e da sua amante
Kathleen Garman, conhecida pela sua beleza e modo de vida liberal -,
observa-se a modelo em robe, sentada num sofá, com o seio direito à
mostra, e com um bull terrier branco deitado na perna - o cão
tinha sido uma prenda de casamento. Esta poderosa imagem acerca da
fidelidade - a mão direita de Kitty está pousada sobre o coração e na
mão esquerda é visível uma aliança - é assombrada pelo olhar da
retratada, no qual se percebe uma infinita solidão.
Se, nessa época, o estilo do pintor se poderia definir facilmente
como realista - a sua primeira exposição individual aconteceu na
londrina Alex Reid and Lefèvre Gallery, em 1944 -, figurativo ou mesmo
naturalista, o encontro com Francis Bacon, que conheceu em 1945 através
de um outro artista, Graham Sutherland, fez com que essa tentativa de
representar o mundo segundo "regras empíricas e seculares" se
transformasse numa obsessão enérgica em traduzi-lo em obras onde é
objectivado através da materialização de diferentes manifestações
carnais: os corpos e rostos parecem revelar o processo de decomposição a
que são sujeitos pela passagem do tempo. Como nota o filósofo francês Maurice Merleau-Ponty: "É que a espessura da carne entre o vidente e a
coisa é constitutiva da sua visibilidade para ela, como da sua
corporeidade para ele; não é um obstáculo entre ambos, mas o meio de
comunicarem entre si."
A amizade entre Francis Bacon e Lucian
Freud, os nomes mais relevantes da pintura britânica do pós-II Guerra
Mundial, foi duradoura - a relação entre ambos apenas esfriou no fim da
década de 1970, após uma discussão. O percurso de ambos foi feito muitas
vezes em comum: quando se encontraram, na casa de campo de Sutherland,
Bacon tinha 36 anos, Freud 22, e a partir de então os encontros
tornaram-se quase diários - os artistas frequentavam o mesmo drinking club,
o heterodoxo Colony Room, no Soho, em Londres. O convívio intenso -
podem encontrar-se semelhanças na intensidade da ligação entre Gauguin e
Van Gogh - resultou em obras nas quais os pintores se representavam um
ao outro. Bacon chamou Freud ao seu atelier em 1951 com o
objectivo de realizar um retrato do amigo; o procedimento pouco habitual
por parte do anfitrião, que habitualmente realizava os seus trabalhos a
partir de fotografias, foi entendido pelo modelo quando este regressou
ao estúdio e descobriu a imagem de um dos seus autores favoritos, Franz
Kafka, como fonte para a criação da sua figura.
Freud
realizou dois retratos de Bacon, um em 1952, comprado pela Tate Britain
e roubado em 1988, durante uma exposição em Berlim, outro em 1956,
propriedade de um coleccionador privado. O primeiro, marcado pela
proximidade ao desenho, demorou três meses a ser terminado: sentaram-se
ambos de joelhos, com Bacon a olhar para o chão, uma pose já
experimentada um ano antes num trabalho sobre papel, sendo esta também a
postura adoptada para a realização da segunda pintura. O modelo, apesar
de mostrar sinais de impaciência e de ter resmungado, ficou na sua
posição de forma consistente. Na obra mais tardia, que ficou incompleta,
o rosto de Bacon parece fatigado, uma sensação potenciada pelo uso de
tons verdes e amarelos, sendo também notórias as marcas das pinceladas,
uma forma de dar movimento à representação - diz-se que este retrato
ficou inacabado não só pelo facto de o modelo se ter cansado de posar,
mas também por ter decidido viajar com o seu amante, Peter Lacy, para
Tânger.
"Gostava que os meus retratos fossem das pessoas, não
parecidos com elas", afirmou Freud um dia. E prosseguiu: "Não ter o
olhar do modelo, sê-lo. Não quero apenas obter uma semelhança, como uma
imitação, mas retratá-lo, como um actor. Naquilo que me diz respeito, a
pintura é a pessoa. Quero que funcione para mim tal como a carne o faz."
Talvez por esta razão, um crítico alcunhou o artista de "Ingres do
existencialismo". Em 1987, numa entrevista conduzida pelo crítico de
arte Robert Hughes, Freud revela ter a esperança de que, se estivesse
suficientemente concentrado durante o processo de realização de uma
obra, "a intensidade do escrutínio daria por si só força vital às
pinturas."
Lucian Freud, Bella and Esther, 1988
A veemência das relações entre Freud e os seus modelos
tornou-se mítica, tendo o artista sempre preferido trabalhar com pessoas
das suas relações pessoais. "Cada vez que posava para ele, jurava que
não voltava a fazê-lo, mas voltava com a palavra atrás porque era uma
forma de manter uma relação com o meu pai", afirmou um dia a filha Bella Freud. Uma outra das suas descendentes, a escritora Esther Freud,
conheceu o pai aos 16 anos, quando posou para um dos seus trabalhos - a
sua mãe e ele tinham-se separarado quando cerca de três anos após o seu
nascimento. O facto de terem posado nuas para o pai não chega a ser
sequer um problema, pois era clara a distinção entre o progenitor e o
artista: "Tirava simplesmente a roupa e sentava-me no sofá quando ele
pedia", diz Esther. E acrescenta: "Nunca me ocorreu sentir-me
envergonhada."
Os momentos de pose eram compensados por refeições
onde se comia galinhola e se bebia champanhe. Enquanto pintava, Freud
gostava também de trautear canções de Cole Porter, recitar sonetos de
Shakespeare e poemas de Rudyard Kipling ou de Hilaire Belloc, que sabia
de cor. Entre os seus modelos, que iam da mãe a Kate Moss, passando por
Jerry Hall e Frank Auerbach, contava-se ainda Sue Tilley, a gerente de
um centro de emprego que posou para o pintor durante quatro anos, no
início da década de 1990. Um desses retratos, Benefits Supervisor Sleeping (1995), tornou-se no quadro mais caro de um artista vivo quando foi
adquirido, em 1998, por Roman Abramovich, durante um leilão organizado
pela Christie"s, em Nova Iorque - o magnata russo pagou 33,6 milhões de
dólares por esta obra em que se vê Tilley, então com 127 quilos, nua, a
dormir num sofá - este móvel é omnipresente no trabalho de Freud, tal
como o constante registo de momentos de repouso -, numa evocação quer de
Rubens - neste caso, pela preferência dada a corpos pesados, volumosos
-, quer de Velázquez, Ticiano e Goya, que representaram o feminino em
situações semelhantes à pintada pelo autor inglês.
Tilley, em tempos caixa do
lendário Taboo, clube nocturno londrino, tinha sessões de trabalho com
Freud todos os sábados, domingos e tempos livres: eram momentos
"fantásticos" e o artista a pessoa mais divertida que tinha conhecido.
Nota o modelo: "Tinham-se imensas conversas, ouviam-se inúmeras
histórias, e ia-se a restaurantes simpáticos, onde se acabava por
conhecer todas as outras pessoas pintadas por ele. Isto era, realmente,
aquilo que gostava mais de fazer."
Neto de Sigmund Freud, pioneiro
da psicanálise, Lucian Freud, nasceu em Berlim, a 8 de Dezembro de 1922,
filho de Ernst Ludwig Freud, arquitecto, e de Lucie Freud. Em 1933,
viajou com os pais, ambos judeus, para a Grã-Bretanha, devido à ascensão
de Hitler ao poder, na Alemanha. Tornou-se cidadão inglês em 1939. (Daqui)
Marie Freud and their cousin Simon
Nathanson. Seated: Adolfine, Amalia, Alexander and
Jacob Freud. The
other boy and girl are unidentified.
Sigmund Freud
Sigmund Freud, neurologista austríaco, nasceu em 1856, em Freiberg, Morávia (atual República Checa), e morreu em 1939, em Londres. Freud fundou a Psicanálise e esta teoria teve um grande efeito na psicologia e na psiquiatria.
Publicou, em colaboração com Josef Breuer, Estudos sobre a Histeria
(1895); obra que contém a apresentação pioneira do método psicanalítico
da livre associação. Desenvolveu teorias que dizem respeito a uma
camada profunda da nossa mente: o inconsciente e a forma como este
influencia as ações dos homens.
As principais obras de Freud são: A Interpretação dos Sonhos (1899), Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905), O Inconsciente (1915), Introdução à Psicanálise (1916-1917), Psicologia das Massas e Análise do Ego (1923), Psicanálise e Teoria da Libido (1923), Neurose e Psicose (1924).
No livro A interpretação dos Sonhos,
Freud analisa a grande complexidade simbólica subjacente à formação dos
sonhos. Em 1905 aparece o seu estudo mais controverso, no qual Freud
apresenta a teoria que afirma que a repressão da sexualidade infantil
está na origem de neuroses em adulto (de que o complexo de Édipo
é um exemplo). Formulou os conceitos de «id», «ego» e «superego».
As
suas teorias levaram a uma maior aproximação ao tema da sexualidade. A
partir dele, os comportamentos antissociais são compreendidos como um
resultado, em muitos casos, de forças inconscientes.(Daqui)