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quinta-feira, 25 de junho de 2026

"Só gosto das pessoas boas" - Poema de Adília Lopes

 
 

Fra Angelico (Italian Dominican friar and painter, c. 1395–1455), "Saint Lawrence
distributing alms"
, 1447–1450 (fresco), Chapel of Nicholas V, Vatican City.



Só gosto das pessoas boas



Só gosto das pessoas boas
quero lá saber que sejam inteligentes artistas sexy
sei lá o quê
se não são boas pessoas
não prestam


Adília Lopes, in “Estar em Casa“,
Assírio & Alvim, 2018;
in “Dobra”, Poesia Reunida de 1983−2023,
Assirio & Alvim, 2024.


***


Fra Angelico (Italian Dominican friar and painter, c. 1395–1455),
"Annunciation", c. 1426, Museo del Prado, Madrid.
 
[This altarpiece was painted for the monastery of Santo Domenico in Fiesole, near Florence. The central panel shows the Archangel Gabriel’s Annunciation to Mary under a portico. On the left, Adam and Eve are being expelled from Paradise. The damnation and salvation of Humanity. The predella has scenes from the life of the Virgin; Mary’s Birth, Her Wedding with Saint Joseph, Mary’s Visit to her cousin Saint Elisabeth, the Birth of the Christ Child, the Presentation of Jesus in the Temple and the Dormition of the Virgin with Christ receiving her soul. Fra Angelico, also known as Blessed Angelico, dedicated his work exclusively to religious subjects as he understood art to be an aspect of religious devotion. He was particularly meticulous in the details and qualities of Nature and of the objects and persons depicted. In his style, Fra Angelico merged the late Gothic Italian style with the new language of the Renaissance. An example of this is the architecture’s spatial depth, which, while in keeping with Brunelleschi’s recommendation to occupy the center of a square and unadorned stage, nevertheless shows some of the errors present in Angelico’s early works.] (daqui)
 


Fra Angelico (Italian Dominican friar and painter, c. 1395–1455),
"Annunciation" (Gabriel and Mary, c. 1440–1445 (fresco),
Convent of San Marco, Florence.
 

Haverá uma beleza que nos salve?


Não, não há uma beleza que nos salve. Só a bondade nos salva. E a bondade manifesta-se, por vezes, no meio da maior fealdade. Explico-me. Uma pessoa capaz de atos de bondade, uma pessoa com bom coração, pode ter uma cara que é considerada feia, pode vestir-se de uma maneira que é considerada pirosa, pode ter tido notas medíocres, pode ser um artista medíocre. Quando visitamos um museu com obras belíssimas, como o Louvre ou o Prado, podemo-nos esquecer de que as pessoas, os visitantes e os funcionários que estão lá connosco, são obras mais belas do que as mais belas obras expostas que andamos a ver. Um artista torturado pela beleza que consegue, ou que não consegue, dar ao que pinta e que se autodestrói está equivocado. Seria preferível deixar de pintar ou pintar obras medíocres. Como dizia o meu avô materno, que era médico, “mais vale burro vivo do que sábio morto”. Se a busca da beleza nos impede de viver, então há é uma beleza que nos perde. E há.

Penso que não nos devemos enganar sobre a beleza. Se a nossa obra artística, ou outra, não implica a renúncia às coisas inúteis e a partilha, então é bastante inútil. E as coisas inúteis, para uma poetisa, são o desejo de escrever obras perfeitas e de ser reconhecida pelos seus pares. Roubei à Irmã Emmanuelle a expressão “renúncia às coisas inúteis e partilha” (“renonce aux choses inutiles et partage”, in “Famille chrétienne”, Numéro hors série, été 2004, p. 6). Se não há partilha, o artista é quase tão aberrante como um padre que celebrasse a missa só para si.

Os artistas são, às vezes, muito egoístas. É verdade que as suas obras, apesar disso, podem comunicar – mas será involuntariamente? – bons sentimentos. A arte está cheia de ódio, de maus sentimentos. Parece que estou a dizer mal da arte e não queria fazer isso.

No Natal, uma amiga mandou-me um cartão de boas festas da Unicef com um Anjo da Anunciação de Fra Angelico. Tenho-o em exposição no meu quarto e, quando quero rezar, olho para ele. Mas não sou contemporânea de Fra Angelico. Não posso tomar café e tagarelar com ele nos cafés como posso fazer com a amiga que me enviou o anjo dele pelo Correio. Por isso o Anjo da Anunciação de Fra Angelico, que é tão bonito, pode também ser doloroso. Fra Angelico já morreu. E não é a beleza do anjo de Fra Angelico que me garante que Fra Angelico ressuscitará.

Um poema de Rimbaud está cheio de violência. Há muita beleza na expressão dessa violência. E isto é terrível. Preferia que Rimbaud não estivesse ferido a ponto de escrever daquela maneira? Preferia. Mas não posso dizer isto assim.

A arte é feita para construir a paz. Não é um esgrimir no vazio. Não pode ser. Olho para o Anjo da Anunciação de Fra Angelico. Parece-me belíssimo. É vermelho e dourado. É verde e azul. Mas, ao escrever assim, parece-me que estou a evocar o poema de Rimbaud intitulado “Vogais”. A arte é um modo de lidar com a ausência. E por isso é tão preciosa e tão perigosa. Nunca é a alegria da presença.


Adília Lopes (1960−2024), 
“Dobra”, Poesia Reunida de 1983−2023, Assirio & Alvim, 2024;
 in revista 'Observatório da  Cultura n.º 4', 2005.

 

“Dobra” - Poesia Reunida de Adília Lopes
Edição/reimpressão: 09-2024
Editor: Assírio & Alvim
 (daqui)
 

SINOPSE

Esta edição de “Dobra”, com 1056 páginas, publicada pela Assírio & Alvim, abarca toda a produção poética de Adília Lopes, de 1983 a 2023. Aqui estão reunidos os 36 livros da poeta, desde a estreia em “Um jogo bastante perigoso” até ao mais recente “Choupos”, que constou entre os semifinalistas ao Prémio Oceanos.

“A poesia de Adília Lopes é uma estação fundamental e singular no percurso da poesia portuguesa desde os anos 80. O seu grande triunfo consistiu em renunciar completamente ao lirismo e às suas tonalidades afetivas, mantendo uma densidade que advém da exploração linguística, em todos os níveis”, sublinhou em tempos António Guerreiro, quanto à singularidade desta obra que há muito ultrapassou fronteiras e se encontra traduzida para várias línguas.
 (daqui)
 
 

terça-feira, 16 de junho de 2026

"Ao rimar dor com pensamento" - Poema de Helga Moreira



Ethel Pennewill Brown Leach (American painter, printmaker, and illustrator, 1878–1959),
'A Student in Paris', 1913. Collection of Amelie A. Sloan. 



Ao rimar dor com pensamento 

 
Ao rimar dor com pensamento
escrevo ternura, afeto,
apenas quem me conceda
um gesto, mínimo gesto. 

Um poeta não se assassina
ia dizer mas disto não entendes
é a superfície que pretendes
da coisa leve, pequenina. 

Isto é lama, são entranhas, é lixo,
chama, horror, precipício
que consome, enaltece, aflige

em tom maior, menor, e a verdade
capriche. Que em verdade digo:
de aqui em diante - apenas sigo. 


Helga Moreira, in 'Tumulto', 2003
 
 

Ethel Pennewil Brown Leach, 'She leaned forward and gazed anxiously
 at the reflection which confronted her', 1911.
 

Um espelho 


Um espelho
não é
uma janela

Um espelho
não é
um quadro

Quem espreita
por meus olhos
no espelho
sou eu

E eu
sou eu
Não há enigmas.


Adília Lopes (1960−2024),

in 'Le Vitrail la Nuit'.
Lisboa: &etc, 2006.
 

sexta-feira, 20 de junho de 2025

"Nota 4" - Poema de Adília Lopes



Robert James Gordon
 (English painter, 1845-1932), Woman Reading, s.d. 
 

Nota 4


Se tu amas por causa da beleza, então não me ames!
Ama o Sol que tem cabelos doirados!

Se tu amas por causa da juventude, então não me ames!
Ama a Primavera que fica nova todos os anos!

Se tu amas por causa dos tesouros, então não me ames!
Ama a Mulher do Mar: ela tem muitas pérolas claras!

Se tu amas por causa da inteligência, então não me ames!
Ama Isaac Newton: ele escreveu os Princípios Matemáticos da Filosofia Natural!

Mas se tu amas por causa do amor, então sim, ama-me!
Ama-me sempre: amo-te para sempre! 


Adília Lopes
, in "Dobra: Poesia reunida"
Assírio & Alvim
 

quarta-feira, 9 de abril de 2025

"Em pequena" - Poema de Adília Lopes

 

 
Aldo Parmigiani (Italian painter, 1935–2024)


Em pequena


Em pequena
queria ter muitos bebés
e um cão
ser cançonetista
como a Madalena Iglésias
e ser freira
como a irmã Maria Antonieta
minha professora
por isso vi
umas oito vezes
a Música no coração
e bebi com a Victoria
um cocktail chamado
Mary Poppins
no bar La Filmo
a Julie Andrews
era para mim
a mulher mais bonita
do mundo.


Adília Lopes
,
in "Sete rios entre campos", 1999.



Pinturas de Aldo Parmigiani

Aldo Parmigiani

 
"A natureza e os livros pertencem aos olhos que os veem."
 
 
 

Aldo Parmigiani
 
 
"O amor está em toda a parte da natureza, como emoção, mas também como recompensa."
 
Ralph Waldo Emerson, in "Essays"
 

 Aldo Parmigiani
 
 
 "O talento sozinho não consegue fazer um escritor. Deve existir um homem por trás do livro." 

Ralph Waldo Emerson, in Representative Men, 1850.
 
 

Aldo Parmigiani
 

"A recompensa de uma coisa bem feita é tê-la feito."

Ralph Waldo Emerson, in "Essays"
 
 
 
Aldo Parmigiani
 

"Faço com os meus amigos o que faço com os meus livros. Guardo-os onde os posso encontrar,
 mas raramente os utilizo."

Ralph Waldo Emerson, in "Essays"
 
 

 Aldo Parmigiani
 
 
"Podemos viajar por todo o mundo em busca do que é belo, mas se já não o trouxermos connosco,
 nunca o encontraremos."
 
 Ralph Waldo Emerson, in "Essays"
 
 

segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

"Não gosto tanto de livros" - Poema de Adília Lopes

 

Camille Engel (American realist painter, b. 1955)
 

Não gosto tanto de livros
​

​Não gosto tanto
de livros
como Mallarmé
parece que gostava
eu não sou um livro
e quando me dizem
gosto muito dos seus livros
gostava de poder dizer
como o poeta Cesariny
olha
eu gostava
é que tu gostasses de mim
os livros não são feitos
de carne e osso
e quando tenho
vontade de chorar
abrir um livro
não me chega
preciso de um abraço
mas graças a Deus
o mundo não é um livro
e o acaso não existe
no entanto gosto muito
de livros
e acredito na Ressurreição
dos livros
e acredito que no Céu
haja bibliotecas
e se possa ler e escrever.


Adília Lopes, in 'Obra'.
Mariposa Azual, Lisboa, 2000.


sábado, 23 de novembro de 2024

"No more tears" - Poema de Adília Lopes

 
Antonio Mancini (Italian impressionist painter, 1852–1930), 'The Two Dolls' 
(Le due bambole),
1876. Oil on canvas, 82 x 71 cm. Private collection.



No more tears

 
Quantas vezes me fechei para chorar
na casa de banho da casa da minha avó
lavava os olhos com shampoo
e chorava
chorava por causa do shampoo
depois acabaram os shampoos
que faziam arder os olhos
no more tears disse Johnson & Johnson
as mães são filhas das filhas
e as filhas são mães das mães
uma mãe lava a cabeça da outra
e todas têm cabelos de crianças loiras
para chorar não podemos usar mais shampoo
e eu gostava de chorar a fio
e chorava
sem um desgosto sem uma dor sem um lenço
sem uma lágrima
fechada à chave na casa de banho
da casa da minha avó
onde além de mim só estava eu
também me fechava no guarda-vestidos grande
mas um guarda-vestidos não se pode fechar por dentro
nunca ninguém viu um vestido a chorar.
 

Adília Lopes, 'Dobra - Poesia Reunida'
Edição/reimpressão: 10-2024
Editor: Assírio & Alvim
 
'Dobra' reúne todos os livros de poesia de Adília Lopes. Como consequência, a nova edição que agora se apresenta foi ampliada e passa a incluir toda a obra poética publicada da autora, até maio de 2023. (daqui)
 

domingo, 10 de novembro de 2024

"21 Anos" e "45 Anos" - Poemas de Adília Lopes



Almeida Júnior
(Pintor, professor e gravurista brasileiro, 1850 -1899), 
Moça com livro, c. 1879, Museu de Arte de São Paulo, São Paulo.


21 Anos 



Os meus cavalos
espantaram-se

Como o Hipólito
da tragédia grega
bocados de mim
pendem
dos arbustos


Adília Lopes,
in 'A Árvore Cortada', 2006
 

Almeida Júnior, Leitura, 1892


45 Anos


É tempo
de regressar
a casa

A poesia
não está
na rua


Adília Lopes, 
in 'A Árvore Cortada', 2006
 

domingo, 23 de junho de 2024

"Os namorados pobres" - Poema de Adília Lopes


Eugene de Blaas (Italian painter, 1843–1931), Flirtation, 1887, oil on canvas.
 Private Collection
 

Os namorados pobres 


O namorado dá
flores murchas
à namorada
e a namorada come as flores
porque tem fome

Não trocam cartas
nem retratos nem anéis
porque são pobres

Mas um dia
têm muito medo
de se esquecerem
um do outro
então apanham
um cordel
do chão
cortam o cordel
com os dentes
e trocam alianças
feitas de cordel

Não podem
combinar encontros
porque não têm
número de telefone
nem morada
assim encontram-se
por acaso
e têm medo
de não se voltarem
a encontrar

O acaso
não os favorece

Decidem nunca sair
do mesmo sítio
e ficarem sempre juntos
para não se perderem
um do outro

Procuram um sítio
mas todos os sítios
têm dono
ou mudam de nome

Então retiram
dos dedos
os anéis de cordel
atam um anel
ao outro
e enforcam-se

Mas a namorada
tem de esperar
pelo namorado
porque o cordel
só dá para um
de cada vez

O namorado
descansa à sombra
da figueira
e a namorada
baloiça
na figueira

O dono da figueira
zanga-se
com os namorados pobres
porque julga
que estão a roubar figos
e a andar de baloiço 


Adília Lopes, in “Dobra” - Poesia Reunida,
Assírio & Alvim, Lisboa, 2009. 

 

quarta-feira, 9 de março de 2022

"Os papelotes" - Poema de Adília Lopes



Abbey Altson
(British painter, 1866-1949), Portrait of a Lady, c. 1916 
 


Os papelotes


Nunca choraremos bastante
termos querido ser belas
à viva força
eu quis ser bela
e julguei que para ser bela
bastava usar canudos
pedi para me fazerem canudos
com um ferro de frisar e papelotes
puxaram-me muito pelos cabelos
eu gritei
disseram-me para ser bela
é preciso sofrer
depois o cabelo queimou-se
não voltou a crescer
tive de passar a andar com uma peruca
para ser bela é preciso sofrer
mas sofrer não nos faz forçosamente belas
um sofrimento não implica como consequência
uma recompensa
uma dor de dentes pode comover a nossa mãe
que para nos consolar sem saber de quê
nos dá um rebuçado
mas o rebuçado ainda nos faz doer mais os dentes
a consequência de um sofrimento
pode ser outro sofrimento
a causa é posterior ao efeito
o motivo do sofrimento é uma das consequências
do sofrimento
os papelotes são uma consequência da peruca


Adília Lopes
,
in Decote da Dama de Espadas (Romances), 1988, pág. 160-161.
Col. Plural - Poesia; Lisboa: Gota de Água. 
 

 Abbey Altson, A Spanish Lady, Date unknown


«Eu levo a minha poesia muito a sério. Para mim é uma questão de vida ou de morte.»

(Adília Lopes)
 
 
Adília Lopes, poetisa, cronista e tradutora, é o pseudónimo literário de Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira, nascida em Lisboa a 20 de Abril de 1960. Tem vivido sempre nesta cidade e na mesma casa, habitada pela família de sua mãe desde 1916. Desde 1982 que vive com gatos. «A Adília surgiu com um poema que escrevi no meu diário quando uma gata minha, a Faruk, desapareceu», contou numa entrevista a Carlos Vaz Marques. A mãe foi bióloga, assistente de Botânica na Faculdade de Ciências de Lisboa, e o pai professor de Desenho e sub-diretor da Escola Secundária Pedro de Santarém, em Benfica, Lisboa.

Adília Lopes começou por frequentar dois colégios de freiras, no ensino primário, e acabou a cursar Física, na Faculdade de Ciências de Lisboa, licenciatura que abandonou, quase completa, devido a uma psicose esquizo-afetiva, doença da qual sempre falou abertamente, fosse na sua poesia, crónicas, conferências ou entrevistas a meios de comunicação social. Deixou de estudar por conselho médico e começou a escrever com o intuito de publicar.

Concorre em 1983 a um Prémio de Prosa da APE, para o qual um amigo lhe sugere o pseudónimo por que ficará conhecida, e envia poemas para a editora Assírio & Alvim, que remete dois deles para o seu Anuário de Poesia: Autores não Publicados de 1984. Começa uma nova licenciatura, de Literatura e Linguística Portuguesa e Francesa (1983-1988), na Faculdade de Letras de Lisboa, e publica o seu primeiro livro de poemas em edição de autor, Um jogo bastante perigoso (1985). O primeiro poema do livro evoca Esther Greenwood, a narradora de Câmpanula de vidro – um romance autobiográfico onde a poetisa norte-americana Sylvia Plath refletiu a depressão profunda que a afetou.

Ao longo do curso, Adília Lopes publicou outros quatro livros de poesia, entre os quais O Poeta de Pondichéry (1986) – a sua obra mais traduzida, baseada numa enigmática personagem de Jacques le fataliste, romance de Diderot – e O decote da dama de espadas (1988), reunião de poemas redigidos entre 1983 e 1987, louvado por vários críticos. Terminada a licenciatura, foi bolseira do Instituto Nacional de Investigação Científica (1989-1992), tendo trabalhado no Centro de Linguística da Universidade de Lisboa, no projeto de antroponímia de países de línguas românicas PatRom.

Não escreveu no período de 1987 a 1991 e, de certa forma, inicia nesse ano um novo ciclo, novamente em edição de autor, com Os 5 livros de versos salvaram o tio, 250 exemplares para distribuição gratuita. Recusado por seis editoras, tem na capa, simbolicamente, a data do primeiro livro (1985), já não em capa branca mas cor-de-rosa.

Entre 1992 e 1997 faz publicar cinco livros de poesia, um dos quais em prosa (A bela acordada), e especializa-se em Ciências Documentais (1995) na Faculdade de Letras de Lisboa. Trabalhou nos espólios de Fernando Pessoa, Vitorino Nemésio e José Blanc de Portugal, este último padrinho de crisma da autora.

A Adília Lopes foi atribuída, em 1999, uma bolsa de criação literária do IPLB [Instituto Português do Livro e das Bibliotecas], apoio que lhe permitiu trabalhar para o teatro e «arrumar» a sua «arca» de dispersos e inéditos. A companhia de teatro Sensurround, de Lúcia Sigalho, levou então à cena um espetáculo baseado em textos seus intitulado A Birra da Viva, obra central (e única a ser encenada) da trilogia A Caixa em Tóquio. A bolsa permitiu ainda a publicação de três livros, sendo Sete rios entre campos (1999), provavelmente, a obra mais autobiográfica de Adília Lopes.

No ano seguinte, foi publicado Obra, reunião dos quinze livros de poesia de Adília Lopes, com ilustrações de Paula Rego. A pintora, surpreendida, havia encontrado nos poemas um impressionante paralelo com o seu próprio imaginário: «fizeram-me logo lembrar a minha juventude, com as criadas, as bonecas, as mães ultraprotetoras. Adília Lopes é de um grande romantismo e ao mesmo tempo de um grotesco e de um cómico transbordantes.» Em resposta à cortesia, Adília traduziu para português Nursery Rhymes (Rimas de Berço), um álbum de gravuras de Paula Rego baseadas nas clássicas rimas infantis inglesas.

Após a publicação de Obra, Adília Lopes conheceu um relativo sucesso mediático, tendo participado em vários programas de televisão e recebido uma reforçada atenção de muitos críticos literários, embora desde 1998 já incluísse nos seus livros posfácios da autoria de académicos (Osvaldo M. Silvestre, Américo Lindeza Diogo, Manuel Sumares, aos quais se seguiram Elfriede Engelmayer e  Valter Hugo Mãe). É frequentemente inquirida sobre Adília Lopes ser uma personagem ou a própria Maria José.

As principais influências literárias assumidas por Adília Lopes são Sophia de Mello Breyner Andresen e Ruy Belo, mas também a Condessa de Ségur, Emily Brontë, Enid Blyton, Roland Barthes ou Nuno Bragança.  Por sua vez, Elfriede Engelmayer considera Mariana Alcoforado, das Cartas Portuguesas, como um «subterrâneo pseudónimo» na obra de Adília, ao qual ela regressa episodicamente.

O estilo da poetisa, aparentemente coloquial e naïf, está repleto de jogos fonéticos, associações livres, rimas infantis e idiomas estrangeiros. Os temas do quotidiano, principalmente femininos e domésticos, são tratados com humor e auto-ironia, candura e crueza, inteligência e intencionalidade: «há sempre uma grande carga de violência, de dor, de seriedade e de santidade naquilo que escrevo». É Adília, católica praticante que por vezes transporta uma profunda religiosidade para o que escreve, que se define a si própria como «tímida desenrascada» ou «freira poetisa barroca».

Colaborou com poemas, artigos ou poemas traduzidos, em diversos jornais e revistas, nacionais e estrangeiros. Está incluída em várias antologias e participou em inúmeros encontros de poesia. 

Centro de Documentação de Autores Portugueses,  09/2005 (daqui)
 


Abbey Altson, The Potter’s Daughter, c. 1910


"- Senhor, o que é a poesia?
- Bem, senhor, é muito mais fácil dizer o que não é. Todos nós sabemos o que é a luz, mas não é fácil dizer o que é."

Samuel Johnson
Citado em Boswell, Life of Samuel Johnson 
 

domingo, 18 de abril de 2021

"Palavras Caras" - Poema de Adília Lopes

 
Lucian Freud (1922–2011), Double Portrait, 1985-1986, Private Collection



Palavras Caras


Em minha casa, detestávamos pessoas bem-
-falantes, palavras caras. De uma vez, apareceu a
prima Maria Lucília a dizer já não sei porquê:
– Fiquei muito confrangida.
Passámos a chamar-lhe “a confrangida”.
Sempre que aparecia alguém na televisão a
declamar poesia ou a falar de poesia, desligáva-
mos a televisão.
 in "Manhã". Lisboa: Assírio & Alvim, 2015.
 
 
Lucian Freud, Double Portrait, 1990, Private Collection


"O caráter de um homem é formado pelas pessoas que escolheu para conviver."


Lucian Freud, "The Pearce Family", 1988
 
 
"A felicidade é um problema individual. Aqui, nenhum conselho é válido.
Cada um deve procurar, por si, tornar-se feliz."

(Sigmund Freud) 


Lucian Freud, “Reflection with Two Children (Self-Portrait)”, 1965


"Não desejo suscitar convicções, o que desejo é estimular o pensamento e derrubar preconceitos."

(Sigmund Freud)


 
Lucian Freud, “Reflection (Self-Portrait)”, 1985
Private Collection

Neto do criador da psicanálise, libertino - há quem afirme que foi pai cerca de 40 vezes -, pintor de celebridades, Lucian Michael Freud, morreu no dia 20 Julho de 2011, em Londres, aos 88 anos. Conhecido sobretudo pelos seus retratos, foi também um exímio executante de naturezas-mortas e gostava que as obras por si criadas fossem sentidas como carne - daí a contínua necessidade de representar a nudez humana, revelando-a nos seus extremos: do corpo magro de Kate Moss à gordura disforme de Sue Tilley, a gerente de um centro de emprego que posou para ele durante quatro anos, no início da década de 1990. Contudo, a sua obra mais discutida terá sido a imagem de Isabel II, encomendada pela monarca britânica no início deste século.

 
Retrato da rainha Isabel II por Lucian Freud

A decisão de convidar Lucian Freud para pintar o retrato da rainha Isabel II começou a ganhar consistência depois de o artista ter realizado, entre 1999 e 2000, a imagem do ex-secretário privado da monarca, Lorde Robert Fellowes, uma obra de pequenas dimensões (25,6 x 22,4 cm). Este é também o tamanho aproximado do trabalho onde está figurado o rosto da monarca, um óleo sobre tela com 23,5 x 15,2 cm, criado entre Maio de 2000 e Dezembro de 2001, em sessões que tiveram lugar no Friary Court Studio, situado no Palácio de St. James, em Londres, lugar onde habitualmente se conserva a Real Colecção de Pintura.

O facto de a retratada ser uma personalidade fora do círculo de amizades do artista fez com que Freud não só comparasse a tarefa a uma expedição polar - a maioria das suas obras eram realizadas no seu estúdio -, mas também adivinhasse a dificuldade do desafio, sobretudo nas questões relacionadas com a tentativa de captar a vida interior de uma figura pública. A escolha de uma tela de pequenas dimensões e a vontade de retratar a rainha enquanto esta usava o célebre Diadema de Diamantes - uma jóia criada em 1820 para a coroação do rei Jorge IV, visível também nas notas e selos onde é representada Isabel II -, podem sugerir uma tentativa do artista em sublinhar as ambiguidades de um poder que decide encomendar uma imagem de si próprio.

Pintado no estilo de Freud, que usava muitas vezes a técnica do impasto para dar espessura às cores, deixando visíveis os movimentos do pincel sobre a tela, o retrato de Isabel II revela um rosto severo, pétreo, de formas envelhecidas, sobressaindo ainda a sua carnalidade. A ambiguidade da representação pode ser detectada quer na escolha da dimensão do trabalho - a rainha é colocada ao mesmo nível de Lord Fellowes, ou da neta do artista, Frances Costelloe, modelo de vários trabalhos, como um grande plano do rosto, executado em 2002, com 30,5 x 20,3 cm -, quer na escolha daquela jóia, composta por 1333 diamantes, criada pela casa Rundell, Bridge & Rundell para ser usada por um homem, George IV, nas cerimónias da sua coroação, e hoje em dia envergada pela monarca na abertura anual do Parlamento britânico, o lugar mais relevante da democracia inglesa.

Quando revelado, em Dezembro de 2001, o retrato de Isabel II provocou diferentes tipos de reacções: Charles Saumarez-Smith, então director do National Portrait Gallery, em Londres, descreveu a pintura como "provocante e psicologicamente penetrante", enquanto Richard Cork, crítico de arte do The Times, adjectivou a imagem criada por Freud como "dolorosa, corajosa, honesta, estóica e, acima de tudo, transparente". No mesmo jornal, a opinião de Richard Morrison era distinta, apontando a particularidade de o queixo ostentar "aquilo que só pode ser descrito como uma barba por fazer". O pescoço, diz ainda Morrison, "não envergonharia um avançado do râguebi". Finalmente, Adrian Searle, do The Guardian, considerou a obra do artista como a melhor representação pictórica de um monarca britânico nos últimos 150 anos: "Retratar significa penetrar na pele." E continua: "Ambos, modelo e pintor, viram demasiado e sentem-se, com facilidade, estoicamente entediados. Eles conhecem os limites que os enquadram. Esta é uma pintura da experiência."

A relação entre modelo e pintor, tema de tantos artistas, é também central na obra de Lucian Freud. Desde cedo que o retrato foi o seu assunto de eleição: "De forma a abalar-nos, a pintura nunca deve apenas lembrar-nos da vida, mas deve adquirir a sua própria vida", dizia o artista. As obras em que figura corpos e rostos humanos foram sendo realizadas com a colaboração daqueles que lhe eram próximos, nomeadamente família e amigos, porque as sessões de trabalho eram longas e a conclusão de uma obra podia demorar mais de um ano: em Girl with a White Dog (1950-1951), última de uma série de obras em que Freud representa a sua primeira mulher - Kitty Garman, filha do escultor modernista Jacob Epstein e da sua amante Kathleen Garman, conhecida pela sua beleza e modo de vida liberal -, observa-se a modelo em robe, sentada num sofá, com o seio direito à mostra, e com um bull terrier branco deitado na perna - o cão tinha sido uma prenda de casamento. Esta poderosa imagem acerca da fidelidade - a mão direita de Kitty está pousada sobre o coração e na mão esquerda é visível uma aliança - é assombrada pelo olhar da retratada, no qual se percebe uma infinita solidão.

Se, nessa época, o estilo do pintor se poderia definir facilmente como realista - a sua primeira exposição individual aconteceu na londrina Alex Reid and Lefèvre Gallery, em 1944 -, figurativo ou mesmo naturalista, o encontro com Francis Bacon, que conheceu em 1945 através de um outro artista, Graham Sutherland, fez com que essa tentativa de representar o mundo segundo "regras empíricas e seculares" se transformasse numa obsessão enérgica em traduzi-lo em obras onde é objectivado através da materialização de diferentes manifestações carnais: os corpos e rostos parecem revelar o processo de decomposição a que são sujeitos pela passagem do tempo. Como nota o filósofo francês Maurice Merleau-Ponty: "É que a espessura da carne entre o vidente e a coisa é constitutiva da sua visibilidade para ela, como da sua corporeidade para ele; não é um obstáculo entre ambos, mas o meio de comunicarem entre si."

A amizade entre Francis Bacon e Lucian Freud, os nomes mais relevantes da pintura britânica do pós-II Guerra Mundial, foi duradoura - a relação entre ambos apenas esfriou no fim da década de 1970, após uma discussão. O percurso de ambos foi feito muitas vezes em comum: quando se encontraram, na casa de campo de Sutherland, Bacon tinha 36 anos, Freud 22, e a partir de então os encontros tornaram-se quase diários - os artistas frequentavam o mesmo drinking club, o heterodoxo Colony Room, no Soho, em Londres. O convívio intenso - podem encontrar-se semelhanças na intensidade da ligação entre Gauguin e Van Gogh - resultou em obras nas quais os pintores se representavam um ao outro. Bacon chamou Freud ao seu atelier em 1951 com o objectivo de realizar um retrato do amigo; o procedimento pouco habitual por parte do anfitrião, que habitualmente realizava os seus trabalhos a partir de fotografias, foi entendido pelo modelo quando este regressou ao estúdio e descobriu a imagem de um dos seus autores favoritos, Franz Kafka, como fonte para a criação da sua figura.

Freud realizou dois retratos de Bacon, um em 1952, comprado pela Tate Britain e roubado em 1988, durante uma exposição em Berlim, outro em 1956, propriedade de um coleccionador privado. O primeiro, marcado pela proximidade ao desenho, demorou três meses a ser terminado: sentaram-se ambos de joelhos, com Bacon a olhar para o chão, uma pose já experimentada um ano antes num trabalho sobre papel, sendo esta também a postura adoptada para a realização da segunda pintura. O modelo, apesar de mostrar sinais de impaciência e de ter resmungado, ficou na sua posição de forma consistente. Na obra mais tardia, que ficou incompleta, o rosto de Bacon parece fatigado, uma sensação potenciada pelo uso de tons verdes e amarelos, sendo também notórias as marcas das pinceladas, uma forma de dar movimento à representação - diz-se que este retrato ficou inacabado não só pelo facto de o modelo se ter cansado de posar, mas também por ter decidido viajar com o seu amante, Peter Lacy, para Tânger.

"Gostava que os meus retratos fossem das pessoas, não parecidos com elas", afirmou Freud um dia. E prosseguiu: "Não ter o olhar do modelo, sê-lo. Não quero apenas obter uma semelhança, como uma imitação, mas retratá-lo, como um actor. Naquilo que me diz respeito, a pintura é a pessoa. Quero que funcione para mim tal como a carne o faz." Talvez por esta razão, um crítico alcunhou o artista de "Ingres do existencialismo". Em 1987, numa entrevista conduzida pelo crítico de arte Robert Hughes, Freud revela ter a esperança de que, se estivesse suficientemente concentrado durante o processo de realização de uma obra, "a intensidade do escrutínio daria por si só força vital às pinturas."


Lucian Freud, Bella and Esther, 1988

A veemência das relações entre Freud e os seus modelos tornou-se mítica, tendo o artista sempre preferido trabalhar com pessoas das suas relações pessoais. "Cada vez que posava para ele, jurava que não voltava a fazê-lo, mas voltava com a palavra atrás porque era uma forma de manter uma relação com o meu pai", afirmou um dia a filha Bella Freud. Uma outra das suas descendentes, a escritora Esther Freud, conheceu o pai aos 16 anos, quando posou para um dos seus trabalhos - a sua mãe e ele tinham-se separarado quando cerca de três anos após o seu nascimento. O facto de terem posado nuas para o pai não chega a ser sequer um problema, pois era clara a distinção entre o progenitor e o artista: "Tirava simplesmente a roupa e sentava-me no sofá quando ele pedia", diz Esther. E acrescenta: "Nunca me ocorreu sentir-me envergonhada."

Os momentos de pose eram compensados por refeições onde se comia galinhola e se bebia champanhe. Enquanto pintava, Freud gostava também de trautear canções de Cole Porter, recitar sonetos de Shakespeare e poemas de Rudyard Kipling ou de Hilaire Belloc, que sabia de cor. Entre os seus modelos, que iam da mãe a Kate Moss, passando por Jerry Hall e Frank Auerbach, contava-se ainda Sue Tilley, a gerente de um centro de emprego que posou para o pintor durante quatro anos, no início da década de 1990. Um desses retratos, Benefits Supervisor Sleeping (1995), tornou-se no quadro mais caro de um artista vivo quando foi adquirido, em 1998, por Roman Abramovich, durante um leilão organizado pela Christie"s, em Nova Iorque - o magnata russo pagou 33,6 milhões de dólares por esta obra em que se vê Tilley, então com 127 quilos, nua, a dormir num sofá - este móvel é omnipresente no trabalho de Freud, tal como o constante registo de momentos de repouso -, numa evocação quer de Rubens - neste caso, pela preferência dada a corpos pesados, volumosos -, quer de Velázquez, Ticiano e Goya, que representaram o feminino em situações semelhantes à pintada pelo autor inglês.

Tilley, em tempos caixa do lendário Taboo, clube nocturno londrino, tinha sessões de trabalho com Freud todos os sábados, domingos e tempos livres: eram momentos "fantásticos" e o artista a pessoa mais divertida que tinha conhecido. Nota o modelo: "Tinham-se imensas conversas, ouviam-se inúmeras histórias, e ia-se a restaurantes simpáticos, onde se acabava por conhecer todas as outras pessoas pintadas por ele. Isto era, realmente, aquilo que gostava mais de fazer."

Neto de Sigmund Freud, pioneiro da psicanálise, Lucian Freud, nasceu em Berlim, a 8 de Dezembro de 1922, filho de Ernst Ludwig Freud, arquitecto, e de Lucie Freud. Em 1933, viajou com os pais, ambos judeus, para a Grã-Bretanha, devido à ascensão de Hitler ao poder, na Alemanha. Tornou-se cidadão inglês em 1939. (Daqui)

 
Freud family portrait, 1876. Standing left to right: Paula, Anna, Sigmund, Emmanuel, Rosa and 
Marie Freud and their cousin Simon Nathanson. Seated: Adolfine, Amalia, Alexander and
 Jacob Freud. The other boy and girl are unidentified.
 

Sigmund Freud
 
 
Sigmund Freud, neurologista austríaco, nasceu em 1856, em Freiberg, Morávia (atual República Checa), e morreu em 1939, em Londres. Freud fundou a Psicanálise e esta teoria teve um grande efeito na psicologia e na psiquiatria. 
Publicou, em colaboração com Josef Breuer, Estudos sobre a Histeria (1895); obra que contém a apresentação pioneira do método psicanalítico da livre associação. Desenvolveu teorias que dizem respeito a uma camada profunda da nossa mente: o inconsciente e a forma como este influencia as ações dos homens. 
As principais obras de Freud são: A Interpretação dos Sonhos (1899), Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905), O Inconsciente (1915), Introdução à Psicanálise (1916-1917), Psicologia das Massas e Análise do Ego (1923), Psicanálise e Teoria da Libido (1923), Neurose e Psicose (1924). 
No livro A interpretação dos Sonhos, Freud analisa a grande complexidade simbólica subjacente à formação dos sonhos. Em 1905 aparece o seu estudo mais controverso, no qual Freud apresenta a teoria que afirma que a repressão da sexualidade infantil está na origem de neuroses em adulto (de que o complexo de Édipo é um exemplo). Formulou os conceitos de «id», «ego» e «superego». 
As suas teorias levaram a uma maior aproximação ao tema da sexualidade. A partir dele, os comportamentos antissociais são compreendidos como um resultado, em muitos casos, de forças inconscientes. (Daqui)