
Fra Angelico (Italian Dominican friar and painter, c. 1395–1455), "Saint Lawrence
distributing alms", 1447–1450 (fresco), Chapel of Nicholas V, Vatican City.
Só gosto das pessoas boas
Só gosto das pessoas boas
quero lá saber que sejam inteligentes artistas sexy
sei lá o quê
se não são boas pessoas
não prestam
Adília Lopes, in “Estar em Casa“,
Assírio & Alvim, 2018;
in “Dobra”, Poesia Reunida de 1983−2023,
Assirio & Alvim, 2024.
***

Fra Angelico (Italian Dominican friar and painter, c. 1395–1455),
"Annunciation", c. 1426, Museo del Prado, Madrid.
[This altarpiece was painted for the monastery of Santo Domenico in Fiesole, near Florence. The central panel shows the Archangel Gabriel’s Annunciation to Mary under a portico. On the left, Adam and Eve are being expelled from Paradise. The damnation and salvation of Humanity. The predella has scenes from the life of the Virgin; Mary’s Birth, Her Wedding with Saint Joseph, Mary’s Visit to her cousin Saint Elisabeth, the Birth of the Christ Child, the Presentation of Jesus in the Temple and the Dormition of the Virgin with Christ receiving her soul. Fra Angelico, also known as Blessed Angelico, dedicated his work exclusively to religious subjects as he understood art to be an aspect of religious devotion. He was particularly meticulous in the details and qualities of Nature and of the objects and persons depicted. In his style, Fra Angelico merged the late Gothic Italian style with the new language of the Renaissance. An example of this is the architecture’s spatial depth, which, while in keeping with Brunelleschi’s recommendation to occupy the center of a square and unadorned stage, nevertheless shows some of the errors present in Angelico’s early works.] (daqui)

Fra Angelico (Italian Dominican friar and painter, c. 1395–1455),
"Annunciation" (Gabriel and Mary, c. 1440–1445 (fresco),
Convent of San Marco, Florence.
Não,
não há uma beleza que nos salve. Só a bondade nos salva. E a bondade
manifesta-se, por vezes, no meio da maior fealdade. Explico-me. Uma
pessoa capaz de atos de bondade, uma pessoa com bom coração, pode ter
uma cara que é considerada feia, pode vestir-se de uma maneira que é
considerada pirosa, pode ter tido notas medíocres, pode ser um artista
medíocre. Quando visitamos um museu com obras belíssimas, como o Louvre
ou o Prado, podemo-nos esquecer de que as pessoas, os visitantes e os
funcionários que estão lá connosco, são obras mais belas do que as mais
belas obras expostas que andamos a ver. Um artista torturado pela beleza
que consegue, ou que não consegue, dar ao que pinta e que se
autodestrói está equivocado. Seria preferível deixar de pintar ou pintar
obras medíocres. Como dizia o meu avô materno, que era médico, “mais
vale burro vivo do que sábio morto”. Se a busca da beleza nos impede de
viver, então há é uma beleza que nos perde. E há.
Penso que não nos devemos enganar sobre a beleza. Se a nossa obra artística, ou outra, não implica a renúncia às coisas inúteis e a partilha, então é bastante inútil. E as coisas inúteis, para uma poetisa, são o desejo de escrever obras perfeitas e de ser reconhecida pelos seus pares. Roubei à Irmã Emmanuelle a expressão “renúncia às coisas inúteis e partilha” (“renonce aux choses inutiles et partage”, in “Famille chrétienne”, Numéro hors série, été 2004, p. 6). Se não há partilha, o artista é quase tão aberrante como um padre que celebrasse a missa só para si.
Os artistas são, às vezes, muito egoístas. É verdade que as suas obras, apesar disso, podem comunicar – mas será involuntariamente? – bons sentimentos. A arte está cheia de ódio, de maus sentimentos. Parece que estou a dizer mal da arte e não queria fazer isso.
No Natal, uma amiga mandou-me um cartão de boas festas da Unicef com um Anjo da Anunciação de Fra Angelico. Tenho-o em exposição no meu quarto e, quando quero rezar, olho para ele. Mas não sou contemporânea de Fra Angelico. Não posso tomar café e tagarelar com ele nos cafés como posso fazer com a amiga que me enviou o anjo dele pelo Correio. Por isso o Anjo da Anunciação de Fra Angelico, que é tão bonito, pode também ser doloroso. Fra Angelico já morreu. E não é a beleza do anjo de Fra Angelico que me garante que Fra Angelico ressuscitará.
Um poema de Rimbaud está cheio de violência. Há muita beleza na expressão dessa violência. E isto é terrível. Preferia que Rimbaud não estivesse ferido a ponto de escrever daquela maneira? Preferia. Mas não posso dizer isto assim.
Penso que não nos devemos enganar sobre a beleza. Se a nossa obra artística, ou outra, não implica a renúncia às coisas inúteis e a partilha, então é bastante inútil. E as coisas inúteis, para uma poetisa, são o desejo de escrever obras perfeitas e de ser reconhecida pelos seus pares. Roubei à Irmã Emmanuelle a expressão “renúncia às coisas inúteis e partilha” (“renonce aux choses inutiles et partage”, in “Famille chrétienne”, Numéro hors série, été 2004, p. 6). Se não há partilha, o artista é quase tão aberrante como um padre que celebrasse a missa só para si.
Os artistas são, às vezes, muito egoístas. É verdade que as suas obras, apesar disso, podem comunicar – mas será involuntariamente? – bons sentimentos. A arte está cheia de ódio, de maus sentimentos. Parece que estou a dizer mal da arte e não queria fazer isso.
No Natal, uma amiga mandou-me um cartão de boas festas da Unicef com um Anjo da Anunciação de Fra Angelico. Tenho-o em exposição no meu quarto e, quando quero rezar, olho para ele. Mas não sou contemporânea de Fra Angelico. Não posso tomar café e tagarelar com ele nos cafés como posso fazer com a amiga que me enviou o anjo dele pelo Correio. Por isso o Anjo da Anunciação de Fra Angelico, que é tão bonito, pode também ser doloroso. Fra Angelico já morreu. E não é a beleza do anjo de Fra Angelico que me garante que Fra Angelico ressuscitará.
Um poema de Rimbaud está cheio de violência. Há muita beleza na expressão dessa violência. E isto é terrível. Preferia que Rimbaud não estivesse ferido a ponto de escrever daquela maneira? Preferia. Mas não posso dizer isto assim.
A
arte é feita para construir a paz. Não é um esgrimir no vazio. Não pode
ser. Olho para o Anjo da Anunciação de Fra Angelico. Parece-me
belíssimo. É vermelho e dourado. É verde e azul. Mas, ao escrever assim,
parece-me que estou a evocar o poema de Rimbaud intitulado “Vogais”. A
arte é um modo de lidar com a ausência. E por isso é tão preciosa e tão
perigosa. Nunca é a alegria da presença.
Adília Lopes (1960−2024),
“Dobra”, Poesia Reunida de 1983−2023, Assirio & Alvim, 2024;
in revista 'Observatório da Cultura n.º 4', 2005.
Esta edição de “Dobra”, com 1056 páginas, publicada pela Assírio & Alvim, abarca toda a produção poética de Adília Lopes, de 1983 a 2023. Aqui estão reunidos os 36 livros da poeta, desde a estreia em “Um jogo bastante perigoso” até ao mais recente “Choupos”, que constou entre os semifinalistas ao Prémio Oceanos.
“A poesia de Adília Lopes é uma estação fundamental e singular no percurso da poesia portuguesa desde os anos 80. O seu grande triunfo consistiu em renunciar completamente ao lirismo e às suas tonalidades afetivas, mantendo uma densidade que advém da exploração linguística, em todos os níveis”, sublinhou em tempos António Guerreiro, quanto à singularidade desta obra que há muito ultrapassou fronteiras e se encontra traduzida para várias línguas. (daqui)
“A poesia de Adília Lopes é uma estação fundamental e singular no percurso da poesia portuguesa desde os anos 80. O seu grande triunfo consistiu em renunciar completamente ao lirismo e às suas tonalidades afetivas, mantendo uma densidade que advém da exploração linguística, em todos os níveis”, sublinhou em tempos António Guerreiro, quanto à singularidade desta obra que há muito ultrapassou fronteiras e se encontra traduzida para várias línguas. (daqui)

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