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segunda-feira, 8 de julho de 2024

"Saudade Só" - Poema de Carlos Melo Santos


Peder Severin Krøyer (Danish painter, 1851–1909),
 Edvard Grieg accompanying his Wife (Nina Hagerup), ca. 1899.


Saudade Só 


Hoje vieste ver-me
a troco de um pensamento
que não se esconde
na ressonância adormecida
num olimpo.

Vieste e trazias
um ramo de palavras cintilantes,
flores que pacientemente
escorrem entre o alfa e o omega
como um perfume de tempo.

Hoje a tua visita
apareceu à janela do tempo
que a paisagem do nosso olhar
incendeia num vespertino silêncio.

De corpo cansado
das pedras que colhi
na paisagem transparente erguida
adormeci na pausa
tão perfeitamente adormecida
do nosso paraíso
que tarda a acontecer.

Hoje vieste ver-me
E, sem ter de tocar
no mármore da paixão,
contigo fui devagar
ver o tempo passado
 para nele escrever
o tempo do amor
voz da nossa idade
que nossos olhos cantam
no canto do nosso olhar. 


Carlos Melo Santos (1956-2021),
in "Lavra de Amor"
 

quarta-feira, 12 de junho de 2024

"Saudade" - Poema de Carlos Melo Santos


Thalia Flora-Karavia (Greek artist, 1871–1960), Isolation, c. 190712.


 Saudade


Ter saudade
é vaga disforme de um corpo.
Ter saudade
é pássaro que aparece e se apaga
erguido de confusão
na angústia, teste dado à natureza
bruxuleante dentro de mim.
Ter saudade
é fingir qualquer coisa que inquieta,
levantada, desenterrada do crivo da memória.
Por vezes quando o tempo por ela passa
não passa o tempo da saudade,
estátua rígida dum destino anoitecido,
passa um nada meio acontecido.
Saudade,
é filha da alma do mundo
que de tanto ser outro
sou eu já.
Saudade,
porque viajas cansada
em horas dentro de mim?
Saudade
que vieste até à última força desta linha,
brumosa da eterna caminhada.
Sempre que vieres
sem avisares
leva-me contigo
para que a paz volte
à memória de meu corpo
como o rio que passa
no tempo final da minha natureza.


Carlos Melo Santos (19562021),
 in "Lavra de Amor"


sábado, 13 de março de 2021

"Saudade do teu corpo" - Poema de António Patrício



Eva Gonzalès (French Impressionist painter, 1849–1883),
'Morning Awakening', 1876
 

Saudade do teu corpo



Tenho saudades do teu corpo: ouviste
correr-te toda a carne e toda a alma
o meu desejo – como um anjo triste
que enlaça nuvens pela noite calma?...

Anda a saudade do teu corpo (sentes?...)
Sempre comigo: deita-se ao meu lado,
dizendo e redizendo que não mentes
quando me escreves: «vem, meu todo amado...»

É o teu corpo em sombra esta saudade...
Beijo-lhe as mãos, os pés, os seios-sombra:
a luz do seu olhar é escuridade...

Fecho os olhos ao sol para estar contigo.
É de noite este corpo que me assombra...
Vês?! A saudade é um escultor antigo!

 
António Patrício, 'Poesia Completa'
Lisboa, Assírio e Alvim, 1989 




Frederick Childe Hassam (American Impressionist painter, 1859–1935),
'Morning Light', 1914, Oil on canvas, 86,4 x 86,4 cm.


Hora de ter saudade


Houve aquele tempo...
(E agora, que a chuva chora,
ouve aquele tempo!)


Guilherme de Almeida,
no livro 'Poesia vária', 1947
(Haicai / Haikai)
 

quinta-feira, 11 de março de 2021

"Saudade" - Poema de Pablo Neruda


 
Camille Pissarro (Danish-French painter, 1830–1903), March Sun, Pontoise, 1875.
Oil on canvas, Kunsthalle, Bremen, Germany.


Saudade 


Saudade - O que será... não sei... procurei sabê-lo
em dicionários antigos e poeirentos
e noutros livros onde não achei o sentido
desta doce palavra de perfis ambíguos.

Dizem que azuis são as montanhas como ela,
que nela se obscurecem os amores longínquos,
e um bom e nobre amigo meu (e das estrelas)
a nomeia num tremor de cabelos e mãos.

Hoje em Eça de Queiroz sem cuidar a descubro,
seu segredo se evade, sua doçura me obceca
como uma mariposa de estranho e fino corpo
sempre longe - tão longe! - de minhas redes tranquilas.

Saudade... Oiça, vizinho, sabe o significado
desta palavra branca que se evade como um peixe?
Não... e me treme na boca seu tremor delicado...
Saudade...


Pablo Neruda
, in "Crepusculário"
Tradução de Rui Lage 


Camille Pissarro, Jalais Hill, Pontoise, 1867, Metropolitan Museum of Art.


"A saudade é um morcego cego que falhou o fruto e mordeu a noite."
 

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

"A Carolina" - Poema de Machado de Assis



Elaine Searle - Contemporary botanical painter
 
 

A Carolina

 
Querida, ao pé do leito derradeiro,
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs um mundo inteiro...

Trago-te flores, — restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.

Que eu, se tenho nos olhos mal feridos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos. 
 
1906
 
Machado de Assis
 

[Em 1868, Machado de Assis (1839-1908) casou com a portuguesa Carolina Augusta Xavier de Novais (1835- 1904), irmã de seu amigo e poeta Faustino Xavier de Novaes (1820-1869). A morte da mulher, em 20 de outubro de 1904, depois de 35 anos de convivência, inspirou-lhe o antológico soneto "A Carolina".
O soneto é considerado a melhor peça de sua obra poética. Manuel Bandeira afirmara, anos mais tarde, que é uma das peças mais comoventes da literatura brasileira.] 


Elaine Searle
 
 

Saudade 
 
A palavra “saudade”, genuinamente portuguesa “é um sentimento muito presente como consequência do distanciamento físico e, também, da rutura em relação às rotinas mais simples e banais.” (Porto Editora) 
 
 
Definição: 
(na Infopédia, dicionário da Porto Editora)
 
1. Saudade - Sentimento de mágoa, nostalgia e incompletude, causado pela ausência, desaparecimento, distância ou privação de pessoas, épocas, lugares ou coisas a que se esteve afetiva e ditosamente ligado e que se desejaria voltar a ter presentes;

2. Saudade e Saudades - Lembrança afetuosa de algo ou alguém ausente;

3. Saudades - Cumprimentos a uma pessoa ausente; lembranças;

4. SaudadesBotânica: designação comum, extensiva a diferentes plantas, de diferentes famílias, sobretudo da família das Dipsacáceas e da família das Compostas (Asteráceas), e às suas respetivas flores

Morrer de saudades 
- Sentir muito a falta (de)
 
 
Elaine Searle
 
 
Provérbios

  • O adeus é o fim da esperança e o começo da saudade. 
  • Um coração que tem saudade é um que não tem o que deseja.
  • A saudade é a companheira dos que não têm companhia.
  • A saudade não mata, mas sepulta o coração em vida.
  • Amor que volta é doçura; amor que parte é saudade.
  • A saudade torna presente o passado.
  • Saudade não mata, mas maltrata.
  • Saudade é a memória do coração.


Elaine Searle 


"Saudade é a lembrança de se haver gozado em tempos passados, que não voltam mais; a pena de não gozar no presente, ou de só gozar na lembrança; e o desejo e a esperança de no futuro tornar ao estado antigo de felicidade."

Carolina Michaëlis, "A Saudade Portuguesa"
 
 
saudade | n. f. | n. f. pl.

sau·da·de |au| ou |a-u|


(latim solitas, -atis, solidão)
nome feminino

1. Lembrança grata de pessoa ausente, de um momento passado, ou de alguma coisa de que alguém se privado.

2. Pesar, mágoa que essa privação causa.

3. [Botânica]  Planta (Scabiosa atropurpurea) da família das dipsacáceas. (Mais usado no plural.) = ESCABIOSA, SUSPIRO

4. [Botânica]  Nome de várias espécies de plantas com flores de cores variadas. (Mais usado no plural.)

5. [Botânica]  Flor de uma dessas plantas. (Mais usado no plural.)


saudades
nome feminino plural

6. Boas lembranças ou recordações (ex.: a antiga chefe não deixou saudades).

7. Cumprimentos a alguém (ex.: mande-lhe saudades minhas).


"saudade", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2021, https://dicionario.priberam.org/saudade [consultado em 21-02-2021].