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quinta-feira, 7 de maio de 2026

"Ah, abram-me outra realidade!" - Poema de Álvaro de Campos



Paul Signac (French Neo-Impressionist painter, 1863–1935),
'Capo di Noli', 1898, oil on canvas, 93.5 × 75 cm,
Wallraf–Richartz Museum, Cologne.


Ah, abram-me outra realidade!


Ah, abram-me outra realidade! 
Quero ter, como Blake, a contiguidade dos anjos 
E ter visões por almoço. 
Quero encontrar as fadas na rua! 
Quero desimaginar-me deste mundo feito com garras, 
Desta civilização feita com pregos. 
Quero viver como uma bandeira à brisa, 
Símbolo de qualquer coisa no alto de uma coisa qualquer!

Depois encerrem-me onde queiram. 
Meu coração verdadeiro continuará velando 
Pano brasonado a esfinges, 
No alto do mastro das visões 
Aos quatro ventos do Mistério. 
O Norte — o que todos querem 
O Sul — o que todos desejam 
O Este — de onde tudo vem 
O Oeste — aonde tudo finda 
— Os quatro ventos do místico ar da civilização 
— Os quatro modos de não ter razão, e de entender o mundo.

04-04-1929

Álvaro de Campos, in 'Livro de Versos' - Fernando Pessoa.
(Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.)
Lisboa: Estampa, 1993. - 99.


Paul Signac
(French Neo-Impressionist painter, 1863–1935),
'Portrait of Félix Fénéon' (French art critic, gallery director, writer
and anarchist, 1861–1944), 1890, Museum of Modern Art.



Neoimpressionismo

O Neoimpressionismo foi um movimento artístico  do final do século XIX, iniciado pelo pintor francês Georges Seurat (18591891), que, retomando a atenção dada pelo impressionismo ao tratamento da luz e da cor, introduziu novas técnicas e conceitos, como o Pontilhismo ou o Divisionismo. (daqui)

Pós-impressionismo

O Pós-impressionismo  foi um movimento artístico que, entre o final do século XIX e o início do século XX, procurou superar o Impressionismo, contribuindo para o despontar de diferentes vanguardas como o Expressionismo, o Fauvismo, o Cubismo, etc. (daqui) 

O movimento pós-impressionista surgiu como uma intelectualização do Impressionismo, entendido pelos artistas que o integraram como um método empírico de perceção da realidade. O pintor Georges Seurat (18591891) foi considerado o principal teorizador deste movimento e o primeiro a desenvolver a técnica do pontilhismo. Através da sua "pintura ótica", Seurat apresentou os fundamentos desta nova técnica, posteriormente seguida por outros pintores como Paul Signac (1863–1935). 

Ao contrário dos impressionistas que aplicavam e misturavam a tinta sobre a paleta, Seurat colocava-a diretamente sobre a tela em pequenos pontos de concentração variável, correspondentes às cores do objeto visto de perto. Por sua vez, estes pontos eram compostos na retina, através de um processo de mistura ótica. Um maior efeito lumínico e cromático era desta forma conseguido, pelo contraste simultâneo. Dando forma e expressão às formulações no campo da teoria da cor, Seurat tentou racionalizar as sensações causadas pela pintura. Na obra 'Grande Jatte', realizada entre 1884 e 1885, concretiza os fundamentos da sua estética e pesquisa pictórica.

Os seus contemporâneos Vincent van Gogh (18531890) Paul Gauguin (1848–1903) contribuíram igualmente para a definição de uma pintura baseada na simbologia codificada da cor, como meio de expressão de sentimentos e tensões.
Paul Cézanne (1839–1906) desenvolve uma representação objetiva, menos emotiva, que se revela tendência para a geometrização dos elementos formais da composição. 
(daqui)


Paul Signac, 'In the Time of Harmony: the Golden Age is not in the Past, it is in the Future'
('Au temps d'harmonie'), 
1893–95, oil on canvas, 310 x 410 cm.


quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

"Carta a um Adolescente" - Poema de Lindolf Bell

 

 
Paul Cézanne (French Post-Impressionist painter, 1839–1906),
Boy in a Red Waistcoat (The Boy in the Red Vest), 1888–1890,
National Gallery of Art, Washington D.C.


Carta a um Adolescente


Fizeste alusão ao trigo morto na tempestade,
ao teu pai,
ao teu irmão,
à rosa desfeita,
e consentiste tudo quando murmurei:
"a dor maior
é sermos isentos de querer.
Sem prefixos
seremos mais livres.
Deixa os deuses.
São ambíguos".

Oh! Grande metáfora,
morte de tão pesada duração
bruma,
esplêndida revolta
de teu coração sem volta,
amálgama amada,
emergência.

Lembro bem de teus olhos simples,
simples olhos fundos.
Das olheiras escuras
como limbo de peras.

Mas como explicar o ar de saque,
se em cada coração existe um dique
sempre prestes a transbordar,
se colhemos o doce crime um do outro?

Existência híbrida de infância e madurez!
Deslumbramentos, 
quanta avidez fibra por fibra
e que desvairada confluência. 


Lindolf Bell,
em "Incorporação: doze anos de poesia, 1962/1973".
São Paulo: Quíron, 1974. 
 

quinta-feira, 26 de setembro de 2024

"Requiem" - Poema de Cristovam Pavia

 

Paul Cézanne (French Post-Impressionist painter, 1839–1906),
 The Boy in the Red Vest, 1888-1890, Oil on Canvas.


Requiem

(ao menino morto, eu próprio)

A tarde declina com uma luz ténue.
Estou grave e calmo.
E não preciso de ninguém
Nem a luz da tarde me comove: entendo-a.
Até as imagens me são inúteis porque contemplo tudo.

Os ventos rodam, rodam, gemem e cantam
E voltam. São os mesmos.
Como os conheço desde a infância!
E a terra húmida das tapadas da quinta...
O estrume da égua morta quando eu tinha seis anos
Gira transparente nesta brisa fria...
(Na noite gotas de orvalho sumiam-se sob as folhas das ervas)
Oh, não há solidão, nas neblinas de inverno
Pela erma planície...

E foi engano julgar-te morto e tão só nas tapadas em silêncio...

Agora sei que vives mais
Porque começo a sentir a tua presença, grande como o silêncio...
Já me não vem a vaga tristeza do teu chamamento longínquo
Já me confundo contigo.
 
 
Cristóvam Pavia ou Cristovam Pavia, 35 poemas
(Pseudónimo de Francisco António Lahmeyer Flores Bugalho)
 

domingo, 19 de março de 2023

"Prognóstico" - Poema de A. M. Pires Cabral



Paul Cézanne
(French, 1839–1906), Portrait of Victor Chocquet (French art collector 
and an ardent propagandist of Impressionism, 1821–1891), 1877, 
 


Prognóstico

 
Sou do tempo em que não se corrigiam
dentes defeituosos.
Além disso, perdi praticamente
todos os molares.
Para piorar as coisas,
a TAC acusa um desvio para a esquerda
do septo nasal.
Ainda por cima, um desvio acentuado.
Bonita caveira hei de dar,
não haja dúvida. 


A. M. Pires Cabral
, in
“As têmporas da cinza”
Editora Cotovia


Pierre-Auguste Renoir (French, 1841–1919), Portrait of Victor Chocquet, 1876
 

"As obras de arte são de uma solidão infinita: nada pior do que a crítica para as abordar. Apenas o amor pode captá-las, conservá-las, ser justo em relação a elas." 

Rainer Maria Rilke, Cartas a um Jovem Poeta, 1929  

 

 

"Cartas a Um Jovem Poeta" (1929), agora em edição bilingue posfaciada por José Miranda Justo, reúne dez epístolas publicadas postumamente e enviadas ao longo de cinco anos por Rainer Maria Rilke a Franz Xaver Kappus, jovem militar que procurava dar os primeiros passos na poesia. Neste compêndio vital sobre o ofício do poeta, a intensidade lírica e a tocante humildade das suas linhas fundem-se sublimemente com as reflexões em torno da criação poética, dando corpo a uma conduta de vida, norteada pelo rigor e pela integridade. "Cartas a Um Jovem Poeta" perdurarão como uma meditação sobre a posição do poeta no mundo moderno e como uma lição de independência sem concessões, num mundo em que o homem cada vez mais se anula na multidão.

Rainer Maria Rilke (1875-1926) é um dos maiores poetas de língua alemã do século XX. Solitário inveterado, levou uma vida errante e instável, desde os dias de dandismo na sua Praga natal aos périplos pela Rússia, a sua pátria espiritual, pelo Egipto, Itália e Espanha. Travou amizades com alguns dos criadores mais importantes da sua época, em particular, Auguste Rodin, de quem foi secretário. Autor de várias coletâneas de poesia, entre as quais Os Sonetos a Orfeu" (1922) e "As Elegias de Duíno" (1923), correspondência e prosa, a sua magistral obra, tão lírica quanto mística, assumiu contornos de reflexão profunda sobre a procura de transcendência. (daqui)
 
 
Maurice Denis (French painter, decorative artist, and writer, 1870– 1943),  Homage to Cézanne  
(Hommage à Cézanne), 1900. Oil on canvas,  Musée d'Orsay, Paris. 
 
[Hommage à Cézanne est un tableau du peintre français Maurice Denis exécuté en 1900. Cette huile sur toile représente des personnalités du monde de l'art réunis dans la galerie Vollard, à Paris, autour d'une nature morte du peintre Paul Cézanne, "Compotier, Verre et Pommes". 
De gauche à droite, y figurent en effet Odilon Redon, Édouard Vuillard, André Mellerio, Ambroise Vollard, Maurice Denis lui-même, Paul Sérusier, Paul-Élie Ranson, Ker-Xavier Roussel, Pierre Bonnard et enfin Marthe Denis, l'épouse de l'artiste. Le tableau, un portrait de groupe, qui contient aussi un autoportrait, est conservé au musée d'Orsay.] (daqui)


"Há alguma evidência de que a dignidade da arte depende do tamanho do interesse dos que admiram".

Theodor W. Adorno, (Filósofo, sociólogo, musicólogo e compositor alemão, 1903–1969), 
 
 

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

"Ode à Cebola" - Poema de Pablo Neruda


(Still Life: Drawing Board, Pipe, Onions and Sealing-Wax), 1889, 
 

Ode à Cebola

Cebola,
luminosa redoma,
pétala a pétala
formou-se a tua formosura,
escamas de cristal te acrescentaram
e no segredo da terra sombria
arredondou-se o teu ventre de orvalho.
Sob a terra
deu-se o milagre
e quando apareceu
teu rude caule verde,
e nasceram
as tuas folhas como espadas no horto
a terra acumulou seu poderio
mostrando a tua nua transparência,
e como em Afrodite o mar distante
duplicou a magnólia
levantando-lhe os seios,
a terra
fez-te assim,
cebola,
clara como um planeta,
e destinada
a reluzir,
constelação constante,
redonda rosa de água,
sobre
a mesa
dos pobres.

Generosa
desfazes
teu globo de frescura
na consumação
fervente do cozido,
e o girão de cristal
ao calor inflamado do azeite
transforma-se em ondulada pluma de ouro.

Recordarei também como a tua influência
fecunda o amor da salada
e parece que contribui o céu
dando-te a fina forma do granizo
a celebrar a tua luz picada
sobre os hemisférios de um tomate.
Mas ao alcance
das mãos do povo,
regada com azeite,
polvilhada
com um pouco de sal,
matas a fome
do jornaleiro no duro caminho.
Estrela dos pobres,
fada madrinha
envolta
em delicado
papel, tu sais do solo,
eterna, intacta, pura
como semente de astros,
e ao cortar-te
a faca de cozinha
sobe a única lágrima
sem mágoa.
Fizeste-nos chorar mas sem sofrer.
Tudo o que existe celebrei, cebola,
mas para mim és
mais formosa que um pássaro
de plumas ofuscantes,
és para os meus olhos
globo celeste, taça de platina,
baile imóvel
de anémona nevada

e a fragância da terra inteira vive
na tua natureza cristalina.


Pablo Neruda
(tradução de José Bento),
in Antologia de Pablo Neruda,
editorial Inova, 1973.



Paul Cézanne (1839-1906), Still Life with red Onions, 1896-1898, Paris, Musée d'Orsay


“Comer está na moda!
Com pedra e pau, faca e cimitarra, com fogo e tambor as pessoas avançam para a mesa. Os grandes continentes desnutridos explodem em mil bandeiras, em mil independências. E tudo vai para a mesa: o guerreiro e a guerreira. Sobre a mesa do mundo, com todo mundo à mesa, voarão as pombas.
Busquemos no mundo a mesa feliz.
Busquemos a mesa onde o mundo aprende a comer. Onde aprende a comer, beber, cantar!
A mesa feliz.” (Daqui)

Pablo Neruda (1904-1973)

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

"As maçãs" - Poema de Eugénio de Andrade


Paul Cézanne, Still Life with Apples, 1893 - 1894



As maçãs 


Da alma só sei o que sabe o corpo: 
onde a esperança e a graça 
aspiram ao ardor 
da chama é a morada do homem. 
Vê como ardem as maçãs 
na frágil luz de Inverno. 
Uma casa devia ser 
assim: brilhar ao crepúsculo 
sem usura nem vileza 
com as maçãs por companhia. 
Assim: limpa, madura.




Paul Cézanne, Still Life with Apples and a Pot of Primroses, ca. 1890


"De boa árvore, bom fruto."



sábado, 28 de outubro de 2017

"Eu sabia por ela as estações" - Poema de Helder Macedo


Paul Cézanne (1839 - 1906), Chestnut trees at the Jas de Bouffan, c.1885-1887



Eu sabia por ela as estações


Eu sabia por ela as estações 
os esquilos os corvos as gaivotas. 
Chegada a primavera abria os nós 
em flores precipitadas e carnudas 
de longas redondezas tateantes 
que batiam no vidro da janela. 
Não dava fruto a minha castanheira 
e na verdade não era sequer minha 
ou só seria porque nos olhámos 
cada manhã por mais de trinta anos. 
Mas dava flores e esquilos e gaivotas 
verão outono corvos primavera 
sem contabilidades biológicas 
doutras fertilidades transmissíveis. 
Dava flores como se desse versos 
sem precisar por isso de escrevê-los 
como os amantes se amam num só corpo 
sem ver onde um começa e o outro acaba 
aberta toda em lábios vaginais 
com uterinos longos falos brancos. 
Também este ano floriu no tempo certo. 
Mas o inverno chegou em plenas maias. 
Disseram que a raiz rachou ao meio 
que o centro do seu tronco estava oco 
não percebiam como tinha flores. 
Cortaram membro a membro a minha árvore 
ficou só a raiz e o seu vazio 
e sobre o campo em volta a neve quente 
das suas flores perplexas 
impossíveis.




terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

"Os Arlequins" (Sátira) - Poema de Machado de Assis


Paul Cézanne (Francês, 1839 - 1906), Arlequim, 1888-90,



Os Arlequins 
(Sátira)


Musa, depõe a lira! 
Cantos de amor, cantos de glória esquece! 
Novo assunto aparece 
Que o génio move e a indignação inspira. 
Esta esfera é mais vasta, 
E vence a letra nova a letra antiga! 
Musa, toma a vergasta, 
E os arlequins fustiga! 

Como aos olhos de Roma, 
— Cadáver do que foi, pávido império 
De Caio e de Tibério, — 
O filho de Agripina ousado assoma; 
E a lira sobraçando, 
Ante o povo idiota e amedrontado, 
Pedia, ameaçando, 
O aplauso acostumado; 

E o povo que beijava 
Outrora ao deus Calígula o vestido, 
De novo submetido 
Ao régio saltimbanco o aplauso dava. 
E tu, tu não te abrias, 
Ó céu de Roma, à cena degradante! 
E tu, tu não caías, 
Ó raio chamejante! 

Tal na história que passa 
Neste de luzes século famoso, 
O engenho portentoso 
Sabe iludir a néscia populaça; 
Não busca o mal tecido 
Canto de outrora; a moderna insolência 
Não encanta o ouvido, 
Fascina a consciência! 

Vede; o aspecto vistoso, 
O olhar seguro, altivo e penetrante, 
E certo ar arrogante 
Que impõe com aparências de assombroso; 
Não vacila, não tomba, 
Caminha sobre a corda firme e alerta: 
Tem consigo a maromba 
E a ovação é certa. 

Tamanha gentileza, 
Tal segurança, ostentação tão grande, 
A multidão expande 
Com ares de legítima grandeza. 
O gosto pervertido 
Acha o sublime neste abatimento, 
E dá-lhe agradecido 
O louro e o monumento. 

Do saber, da virtude, 
Logra fazer, em prémio dos trabalhos, 
Um manto de retalhos 
Que a consciência universal ilude. 
Não cora, não se peja 
Do papel, nem da máscara indecente, 
E ainda inspira inveja 
Esta glória insolente! 

Não são contrastes novos; 
Já vem de longe; e de remotos dias 
Tornam em cinzas frias 
O amor da pátria e as ilusões dos povos. 
Torpe ambição sem peias 
De mocidade em mocidade corre, 
E o culto das ideias 
Treme, convulsa e morre. 

Que sonho apetecido 
Leva o ânimo vil a tais empresas? 
O sonho das baixezas: 
Um fumo que se esvai e um vão ruído; 
Uma sombra ilusória 
Que a turba adora ignorante e rude; 
E a esta infausta glória 
Imola-se a virtude. 

A tão estranha liça 
Chega a hora por fim do encerramento, 
E lá soa o momento 
Em que reluz a espada da justiça. 
Então, musa da história, 
Abres o grande livro, e sem detença 
À envilecida glória 
Fulminas a sentença. 


 in 'Crisálidas', 1864


quarta-feira, 13 de abril de 2016

"Sem outra palavra para mantimento" - Poema de Daniel Faria


Paul Cezanne, Jas de Bouffan, the pool, c.1876



Sem outra palavra para mantimento


Sem outra palavra para mantimento 
Sem outra força onde gerar a voz 
Escada entre o poço que cavaste em mim e a sede 
Que cavaste no meu canto, amo-te 
Sou cítara para tocar as tuas mãos. 
Podes dizer-me de um fôlego 
Frase em silêncio 
Homem que visitas 
Ó seiva aspergindo as partículas do fogo 
O lume em toda a casa e na paisagem 
Fora da casa 
Pedra do edifício aonde encontro 
A porta para entrar 
Candelabro que me vens cegando. 
Sol 
Que quando és noturno ando 
Com a noite em minhas mãos para ter luz. 


(1971-1999)
in "Dos Líquidos"


quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

"Não há vício que se não esconda atrás de boas razões" - Séneca, in 'Cartas a Lucílio'


Quinta versão: 1894-95, óleo sobre tela, 47.5 × 57 cm. Musée d'Orsay, Paris.


Não há vício que se não esconda atrás de boas razões


"Não há vício que se não esconda atrás de boas razões; a princípio, todos são aparentemente modestos e aceitáveis, só que a pouco e pouco vão-se expandindo. Não conseguirás pôr fim a um vício se deixares que ele se instale. Toda a paixão é ligeira de início; depois vai-se intensificando, e à medida que progride vai ganhando forças. É mais difícil libertarmo-nos de uma paixão do que impedir-lhe o acesso. Ninguém ignora que todas as paixões decorrem de uma tendência, por assim dizer, natural. A natureza confiou-nos a tarefa de cuidar de nós próprios, mas, se formos demasiado complacentes, o que era tendência torna-se vício. Aos atos necessários juntou a natureza o prazer, não para que fizéssemos deste a nossa finalidade mas apenas para nos tornar mais agradáveis aquelas coisas sem as quais é impossível a existência. Se o procuramos por si mesmo, caímos na libertinagem. Resistamos, portanto, às paixões quando elas se aproximam, já que, conforme disse, é mais fácil não as deixar entrar do que pô-las fora."


Séneca, in 'Cartas a Lucílio' 


Vida e Obra 

Paul Cézanne, Self-Portrait with Pink Background, 1875
(Portrait de l'artiste au fond rose), Coleção privada.


"A pintura deve nos dar o sabor da eternidade da natureza". 

(Paul Cézanne)


Paul Cézanne, Self-Portrait, c. 1898-1900,
  Museu de Belas Artes de Boston.


Paul Cézanne, pintor pós-impressionista francês, nasceu a 18 de janeiro de 1839, em Aix-en-Provence, no sul de França, e morreu a 22 de outubro de 1906, na sua cidade natal. Filho de pais abastados, estudou em Aix - onde conheceu e se tornou amigo de Émile Zola e em Paris, onde teve os primeiros contactos com artistas impressionistas como Camille Pissarro e Henri Matisse.
A maturidade artística de Cézanne foi lenta. Embora não recusasse os aperfeiçoamentos alcançados no domínio da pintura, e designadamente na cor, pelos impressionistas, não se sentia atraído, como Edgar Degas ou Claude Monet, por exemplo, pela captação de um momento fugaz. Procurou assim combinar as suas conceções sobre a cor com uma estrutura mais sólida do espaço pictórico. A composição da Natureza Morta com Cesto (1888-1890), nas suas numerosas versões, tomou alguns anos de estudo. Tentou sugerir o volume, não através de jogos de luz, como era de tradição desde Giotto, mas usando a própria cor. As diferentes tonalidades fazem avançar e recuar o espaço, o que permite estabelecer uma sucessão de planos que modelam as massas dos objetos. Nas versões de A Montanha de Santa Vitória, retirou da paisagem os elementos necessários de modo a formar uma "arquitetura", uma composição estruturada que propõe um todo coerente. 
Aplicou os mesmos princípios à figura humana em As Grandes Banhistas (1898-1905), constituindo uma composição geométrica - as árvores estabelecem um esquema triangular juntamente com o grupo de banhistas e os dois grupos de mulheres formam dois novos triângulos dentro do anterior. As próprias banhistas veem as suas formas estilizadas e geometrizadas, tal como um tronco de árvore na montanha de Santa Vitória ou uma maçã nas naturezas mortas. 
Cézanne baseou a sua busca num postulado: o de submeter os dados do real ao objetivo da pintura e não o contrário. Aqui começa toda a aventura da arte moderna, que passa pela integração da natureza fundamental do objeto e das virtualidades pictóricas que esse objeto encerra. O mesmo é dizer, vê-lo não na sua particularidade, mas na sua essência.

Paul Cézanne. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-02-05].


Paul Cézanne,  Portrait of Louis-Auguste Cézanne, father of the artist,
reading ‘L’Evénement’, 1886, National Gallery of Art, Washington.


"Como pintor, torno-me mais lúcido quando confrontado com a Natureza."

(Paul Cézanne)



Paul Cézanne, Madame Cézanne (Hortense Fiquet, 1850–1922)
in a Red Dress
(c. 1888-90), oil on canvas, 116.5 x 89.5 cm,
The Metropolitan Museum of Art, New York.



"A cor é o lugar onde nosso cérebro e o universo se encontram".

(Paul Cézanne)


 
Paul Cézanne, Paul Alexis reading to Émile Zola, 1869–1870,

Paul Cézanne, Portrait of Madame Cézanne with Loosened Hair, c. 1883-1887.


Paul Cézanne, Femme au Chapeau Vert
(Woman in a Green Hat - Madame Cézanne),
1894–1895.



Paul Cézanne, Les Grandes Baigneuses, 1898–1905.
(The triumph of Poussinesque stability and geometric balance)



Paul Cézanne, Lady in Blue, 1904.

List of paintings by Paul Cézanne
Paul Cezanne - The complete works
Wikipédia

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

"A música, sim, a música" - Poema de Fernando Pessoa


Paul CézanneThe Overture to Tannhäuser: The Artist's Mother and Sister, 1868 ,
Hermitage Museum, St. Petersburg



A música, sim, a música… 


A música, sim, a música…
Piano banal do outro andar…
A música em todo o caso, a música...
Aquilo que vem buscar o choro imanente
De toda criatura humana,
Aquilo que vem torturar a calma
Com o desejo duma calma melhor…
A música… Um piano lá em cima
Com alguém que o toca mal
Mas é música…

Ah, quantas infâncias tive!
Quantas boas mágoas!
A música…
Quantas mais boas mágoas!
Sempre a música…
O pobre piano tocado por quem não sabe tocar.
Mas apesar de tudo é música.

Ah, lá conseguiu uma música seguida —
Uma melodia racional —
Racional, meu Deus!
Como se alguma coisa fosse racional!
Que novas paisagens de um piano mal tocado?
A música!... A música…!

19 de Julho de 1934

Fernando Pessoa,
In Poesia, Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002.



Paul Cézanne, Jas de Bouffan, 1885-1887


"Através da violência pode matar um assassino, mas não o assassinato. Através da violência pode matar um mentiroso, mas não a mentira. Através da violência pode matar uma pessoa odiosa, mas não o ódio. 
A escuridão não pode extinguir a escuridão. Só a luz o pode fazer."

Martin Luther King
, in Discurso, 1967
Fonte: Discurso "Where do we go from here?" http://www.hartford-hwp.com/archives/45a/062.html (16 de agosto de 1967)

Fonte: https://citacoes.in/citacoes/2051632-martin-luther-king-junior-atraves-da-violencia-voce-pode-matar-um-assassino/
Fonte: Discurso "Where do we go from here?" http://www.hartford-hwp.com/archives/45a/062.html (16 de agosto de 1967)

Fonte: https://citacoes.in/citacoes/2051632-martin-luther-king-junior-atraves-da-violencia-voce-pode-matar-um-assassino/
Discurso "Where do we go from here?" http://www.hartford-hwp.com/archives/45a/062.html (16 de agosto de 1967)

Fonte: https://citacoes.in/citacoes/2051632-martin-luther-king-junior-atraves-da-violencia-voce-pode-matar-um-assassino/
Discurso "Where do we go from here?" http://www.hartford-hwp.com/archives/45a/062.html (16 de agosto de 1967)

Fonte: https://citacoes.in/citacoes/2051632-martin-luther-king-junior-atraves-da-violencia-voce-pode-matar-um-assassino/


Adagio in G Minor (Tomaso Albinoni) 


Tomaso Giovanni Albinoni (Veneza, 8 de Junho de 1671 – Veneza, 17 de Janeiro de 1751) foi um compositor barroco italiano, nascido na República de Veneza. Famoso em sua época como compositor de óperas, atualmente é mais conhecido por sua música instrumental, parte da qual é regularmente regravada. Massificou sua música, mas graças a seu talento melódico e estilo pessoal foi tão popular na época quanto Arcangelo Corelli e Antonio Vivaldi.
Filho de um rico fabricante de papel, não pensava em seguir a carreira artística e muito menos em ganhar dinheiro com ela. Recusou-se a gerir a herança do pai e dedicou-se a compor para violino, passando a responsabilidade da fábrica para os seus dois irmãos mais novos. Estreou em Munique, em 1722, com muito sucesso. Grande parte do trabalho de Albinoni foi perdida na Segunda Guerra Mundial, com a destruição da Biblioteca Estadual da Saxónia, durante o bombardeio de Dresden, em fevereiro de 1945. Por isso, pouco se sabe sobre seu trabalho a partir de meados da década de 1720.


Paul Cezanne, Banks of the Marne, 1888–1890