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terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

"As pequenas gavetas do amor" - Poema de Ana Luísa Amaral


 
Claude Monet (French painter and founder of impressionist painting, 1840–1926),
The Red Cape (Portrait of Madame Monet, Camille Doncieux), c. 1868-73,
Cleveland Museum of Art.

[This painting depicts Monet's first wife, Camille, outside on a snowy day passing by the French doors of their home at Argenteuil. Her face is rendered in a radically bold Impressionist technique of mere daubs of paint quickly applied, just as the snow and trees are defined by broad, broken strokes of pure white and green.
In its early stages, this composition contained two figures seated inside the room on either side of the window. Monet radically altered the composition by painting over the figures. They were replaced by an image of the artist's favorite model – his wife Camille, who passes outside the window in a red cape. Intense light – reflected from the snow-covered landscape – floods the room, obliterating details along the walls and floor. The off-center window frame and the blurriness achieved through sketchy brushstrokes suggest the scanning movement of the artist's eye as he viewed this scene. Contrasted with cold blues and silver whites, Camille's red cape draws the viewer's attention through the glass and into a swift exchange of glances, registering a brief moment in time. This painting evidently held special meaning for Monet, for he kept it with him until his death in 1926]
.
(daqui)
 
 
 
As pequenas gavetas do amor


Se for preciso, irei buscar um sol
para falar de nós:
ao ponto mais longínquo
do verso mais remoto que te fiz

Devagar, meu amor, se for preciso,
cobrirei este chão
de estrelas mais brilhantes
que a mais constelação,
para que as mãos depois sejam tão
brandas
como as desta tarde

Na memória mais funda guardarei
em pequenas gavetas
palavras e olhares, se for preciso:
tão minúsculos centros
de cheiros e sabores

Só não trarei o resto
da ternura em resto desta tarde,
que nem nos foi preciso:
no fundo do amor, tenho-a comigo:
quando a quiseres -


Ana Luísa Amaral (1956– 2022),
in Imagias, Gótica, 2002, pág. 21
 
 
[Imagias, o sétimo livro de Ana Luísa Amaral (Lisboa: Gótica, 2002), reúne poemas sobre “coisas exatas”, como anuncia o poema inaugural que serve de portal ao livro e se intitula “O exato curso do rio”. Cuidadosamente organizados em quatro partes, estes novos poemas de Ana Luísa Amaral retomam ou reinventam algumas das formas e temas mais recorrentes desta poeta portuguesa contemporânea: o modo vocativo, os versos de orações elípticas, as repetições com diferença, a sintaxe equívoca, as assonâncias, as aliterações, o uso do raciocínio lógico, o humor; e o tempo, a memória, a infância, a poesia, a perda, a dor, o amor. Sobretudo o amor, e sobretudo amor/eros, por vezes com saudade de amor/agapé. 
Neste livro escreve Ana Luísa Amaral os seus poemas como se a poesia lírica fosse o rigor de ser no caótico estar que é a nossa vida. Por isso, absurdamente, Imagias, o título exato do inexato certeiro que desafiadoramente é a poesia na poética de Ana Luísa Amaral.] (daqui)
 
 
Carolus-Duran (French painter, 1837–1917), Portrait of Madame Alice Hoschedé,
second wife of 
Claude Monet and mother of Blanche Hoschedé Monet, 1878.

 
[This painting, of Madame Hoschedé, was dedicated to the artist'’s friend Ernest Hoschedé, by all accounts, an eccentric character. Hoschedé was the director of a Parisian department store, an occasional art critic and avid collector. He frequented the Café Guerbois, where he kept the company of painters. Although his fortunes fluctuated, he compulsively bought paintings by Pissaro, Sisley, Degas and Monet, among others. Sisley, Manet and Monet were all guest for a time of the Hoschedé household and spent months painting at the Hoschedé mansion. It was during one of these stays, in the spring of 1878, that, it is suggested, Alice Hoschedé and Monet began a love affair. After Ernest Hoschedé was forced, due to utter financial ruin, to sell his extensive art collection (Monet bought back several paintings for significantly less than Hoschedé himself had originally paid Monet), his wife left him, and with complete disregard for social propriety, moving-in with Monet, nursing for a time his dying wife Susanne. Alice married the artist in 1891 upon her husband Earnest’s death.] (daqui)

terça-feira, 30 de junho de 2020

"Bela d'amor" - Poema de Almeida Garrett



Carolus-Duran (French painter, 1837–1917), Portrait of Mademoiselle de Lancey, 1876.
 


Bela d'amor

 
Pois essa luz cintilante
Que brilha no teu semblante
Donde lhe vem o esplendor?
Não sentes no peito a chama
Que aos meus suspiros se inflama
E toda reluz de amor?

Pois a celeste fragrância
Que te sentes exalar,
Pois, dize, a ingénua elegância
Com que te vês ondular
Como se baloiça a flor
Na Primavera em verdor,
Dize, dize: a natureza
Pode dar tal gentileza?
Quem ta deu senão amor?

Vê-te a esse espelho, querida,
Ai!, vê-te por tua vida,
E diz se há no céu estrela,
Diz-me se há no prado flor
Que Deus fizesse tão bela
Como te faz meu amor.


Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas'


sábado, 16 de novembro de 2019

"Retrato de Família" - Poema de Carlos Drummond de Andrade


Carolus-Duran (French painter, 1837–1917), Merrymakers, 1870



Retrato de Família


Este retrato de família
está um tanto empoeirado.
Já não se vê no rosto do pai
quanto dinheiro ele ganhou.

Nas mãos dos tios não se percebem
as viagens que ambos fizeram.
A avó ficou lisa e amarela,
sem memórias da monarquia.

Os meninos, como estão mudados.
O rosto de Pedro é tranquilo,,
usou os melhores sonhos.
E João não é mais mentiroso.

O jardim tornou-se fantástico.
As flores são placas cinzentas.
E a areia, sob pés extintos,
é um oceano de névoa.

No semicírculo das cadeiras
nota-se certo movimento.
As crianças trocam de lugar,
mas sem barulho: é um retrato.

Vinte anos é um grande tempo.
Modela qualquer imagem.
Se uma figura vai murchando,
outra, sorrindo, se propõe.

Esses estranhos assentados,
meus parentes? Não acredito.
São visitas se divertindo
numa sala que se abre pouco.

Ficaram traços da família
perdidos no jeito dos corpos.
Bastante para sugerir
que um corpo é cheio de surpresas.

A moldura deste retrato
em vão prende suas personagens.
Estão ali voluntariamente,
saberiam -— se preciso —voar.

Poderiam sutilizar-se
no claro-escuro do salão,
ir morar no fundo dos móveis
ou no bolso de velhos coletes.

A casa tem muitas gavetas
e papéis, escadas compridas.
Quem sabe a malícia das coisas,
quando a matéria se aborrece?

O retrato não me responde.
ele me fita e se contempla
nos meus olhos empoeirados.
E no cristal se multiplicam

os parentes mortos e vivos.
Já não distingo os que se foram
dos que restaram. Percebo apenas
a estranha ideia de família
viajando através da carne.


Carlos Drummond de Andrade,
'A Rosa do Povo'



quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

"Sonhos" - Poema de Florbela Espanca


Charles Auguste Emile Carolus-Duran, Le Baiser (1868), Palais des beaux-arts de Lille.
 Autoportrait de l'artiste avec sa femme en nouveaux mariés.



Sonhos


Ter um sonho, um sonho lindo,
Noite branda de luar,
Que se sonhasse a sorrir...
Que se sonhasse a chorar...

Ter um sonho, que nos fosse
A vida, a luz, o alento,
Que a sonhar beijasse doce
A nossa boca... um lamento...

Ser p'ra nós o guia, o norte,
Na vida o único trilho;
E depois ver vir a morte

Despedaçar esses laços!...
... É pior que ter um filho
Que nos morresse nos braços!




Charles Auguste Emile Carolus-Duran, Les Pommiers, 1900
 

"Todas as religiões baseiam-se no medo de muitos e na esperteza de poucos."

(Stendhal)