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sexta-feira, 12 de outubro de 2018

"Se eu fosse alguém ou mandasse" - Poema de António Botto


Antonio Ermolao Paolett (1834-1912), The bluff, 1912 



Se eu fosse alguém ou mandasse


Se eu fosse alguém ou mandasse
Neste mundo de vileza,
Só pensava numa coisa
– Acabar com a pobreza.
Dar à vida outra feição
Mais igual, mais repartida,
Seria o meu grande sonho,
A minha grande alegria,
E a cada boca num beijo
Dar o pão de cada dia.

Quem tem muito poderia
Ter menos um bocadinho
P’ra não haver tanto pobre
A pedir no meu caminho.
Não ouvir o desalento
À noite pelas tabernas,
Nem haver gente com fome
Lutando para viver
Porque eu sou pobre também
E não lhes posso valer.

Acabar com a miséria
Mãe do crime e da loucura
Seria ensinar a ler
Os vermes da sepultura.
Mas, cingido ao fatalismo
De uma luta desigual
O que há de fazer um triste
Que só chegou a indigente?
– Renunciarmos a tudo
No futuro e no presente.

Não ouvir uma criança
Na tristeza de uma queixa
Fazer-nos sentir a morte
E o luto que ela nos deixa;
Podermos dar num sorriso
A expressão da felicidade;
Cada mortal possuir
A sua razão de ser,
– Assim gostava da vida
E gostava de viver.


Antonio Ermolao Paoletti, "Child feeding pigeons in Venice"



"Amigos verdadeiros são os que nos acodem inopinados com valedora mão nas tormentas desfeitas."


(Camilo Castelo Branco)


domingo, 27 de agosto de 2017

"Perdida" - Poema de Camilo Castelo Branco


Charles Courtney Curran, Peonies, 1915



Perdida


Veloz, qual flecha impelida
O meu cavalo corria…
Eu tinha a febre da raiva,
Abrasava-me a agonia,
E o cavalo generoso
O meu ódio concebia.

Os precipícios transpunha
Sem as rédeas sofrear!
Longe, ao longe eu ansiava
Este horizonte alargar;
Procurava mundos novos,
Faltava-me ali o ar.

E, de relance, deviso 
Linda flor em ermo Val,
Mal aberta, e aljofrada
Pelo orvalho matinal,
Reacendendo solitária
Seu perfume virginal.

Nenhum homem lhe tocara,
Nem talvez a vira ali!
Tive orgulho de encontrá-la,
Que outra mais bela não vi.
Mas o ímpeto indomável
Do cavalo não venci.

E perdi-a! Não me lembro
Onde vi tão linda flor!
Sei que lá me fica a alma 
Como um feudo pago à dor.
Outros lábios viral dar-lhe
Férvido beijo d’amor.

1850

 (1825-1895), 
in Ao Anoitecer da Vida


domingo, 13 de novembro de 2016

"O deserto inominável" - Poema de José Jorge Letria


O deserto inominável


O deserto é um silêncio depois do mar,
É o êxtase da luz sobre o coração da areia.
Vai-se e volta-se e nada se esquece.
Tudo se oculta para depois se dar a ver
No ponto em que os ventos se cruzam
E as almas gritam no fundo dos poços.
Os cestos sobem e descem prometendo água,
Uma frescura que derrete a febre.
Não são as tâmaras que adoçam a boca,
É a beleza das mulheres dissimulando
O desejo como um pecado sob a escuridão dos véus.
As serpentes assobiam ou cantam
Conforme o veneno que lhes molda o sangue.
Enroscam-se sobre as pedras
como fragmentos de lua à espera da manhã.
E a sombra alonga-se nas dunas
Ondulando rente às palmeiras
Como a última cobra do medo das crianças.
Não há ruído maior que este silêncio
Que se serve com tâmaras e com chá
Na mesa rasteira, sobre a terra molhada.
É no que não se nomeia que está o infinito.


Os Mares Interiores
Lisboa, Teorema, 2001




Giovanni Boldini (1842-1931), Portrait of a Man in Church, 1900



Para os que sofrem pode ser que eu tenha
um carme triste dos que não consolam
mas triste, sem rasgar mais funda a chaga,
que deixou na alma o desengano acerbo.

Para os que sofrem só conheço um livro.


Excerto de Kempis


quinta-feira, 7 de abril de 2016

"Infância" - Poema de Carlos de Oliveira


Khariton Platonov, Spilled Milk, 1876



Infância


Sonhos 
enormes como cedros 
que é preciso 
trazer de longe 
aos ombros 
para achar 
no inverno da memória 
este rumor 
de lume: 
o teu perfume, 
lenha 
da melancolia. 


Carlos de Oliveira, in 'Cantata'






"A infância é como a água que desce da bica e nunca mais sobe."




sábado, 28 de fevereiro de 2015

"A decadência do coração nos tempos modernos" - de Camilo Castelo Branco


Jan Steen, Fantasy Interior with Jan Steen and the Family of Gerrit Schouten, 1663 



A decadência do coração nos tempos modernos


Nestes ruins tempos de material e nauseante industrialismo, a fase do coração é curta, o amor vem temporão, e como que apodrece antes de sazonado. De toda a parte, aos ouvidos do mancebo vem a soada do martelar da indústria. A sociedade, aparelhada em oficina, não dá por ele, se o não vê a labutar e mourejar no veio da riqueza. Títulos, glória, homenagens, regalos, as feições todas da festejada máscara, com que por aqui nos andamos entrudando uns aos outros, só pode ser afivelada com broches de ouro. Dislates do amor empecem o ir direito ao fim. O coração é víscera que derranca o sangue, se com as muitas vertigens o vascoleja demais. Faz-se mister abafar-lhe as válvulas e exercitar o cérebro, onde demora a bossa do cálculo, da empresa, da sordícia gananciosa, e outras muitas bossas filiadas ao estômago, o qual é, sem debate, a víscera por excelência, o luzeiro perene entre as trevas que ofuscam as almas.


Camilo Castelo Branco, in 'Doze Casamentos Felizes (1861)'



Jan Steen, The Merry Family (1668), huile sur toile de 110,5 × 141 cm, Rijksmuseum, Amsterdam. 


Jan Steen, Autorretrato, c. 1670, óleo sobre tela, 73 x 62 cm


Jan Havickszoon Steen (Leiden, c. 1626 — 3 de fevereiro de 1679) foi um pintor neerlandês do século XVII. Percepção psicológica, senso de humor e abundância de cores foram marcas dos seus trabalhos.

Steen nasceu numa família católica rica, que, por várias gerações, administrava uma taverna em Leiden.
Assim como seu contemporâneo mais famoso, Rembrandt van Rijn (1606 - 1669), Jan Steen formou-se na escola de latim da cidade natal. Recebeu lições de pintura do mestre alemão Nikolaus Knüpfer (1603-1660), pintor de cenas históricas e figurativas de Utrecht. A influência de Knupfer pode ser vista no uso que o artista fez da composição e das cores. Outra fonte de influência do pintor foi Adriaen van Ostade (1610 - 1685), especializado em retratar cenas bucólicas, que vivera em Haarlem.

Em 1648, juntou-se aos pintores da Guilda de São Lucas, uma guilda de pintores de Leiden, mas após ter se tornado um ajudante do pintor Jan van Goyen (1596-1656), conhecido por suas paisagens, mudou-se para viver em Haia.

Em 1649, casou-se com Margriet, filha do mestre van Goyen, com quem teve oito filhos. Trabalhou com o sogro até 1654, quando mudou-se para Delft, onde abriu uma cervejaria chamada De Roscam ("O pente"), sem obter muito sucesso. Viveu depois em Warmond de 1656 a 1660 e em Haarlen deste ano até 1670, período que lhe foi especialmente produtivo. Em 1670, após a morte de sua esposa no ano anterior e de seu pai neste ano, retornou para Leiden, onde ficou até o fim de sua vida. Casou-se novamente em 1573 com Maria van Egmont, com quem teve mais um filho. Em 1674, foi escolhido presidente da Guilda de São Lucas.



Jan Steen, Comme les vieux chantent, les enfants piaillent, 1662, Musée Fabre


Jan Steen, The dancing couple, c. 1663


Jan Steen, The Drawing Lesson, 1665, J. Paul Getty Museum, Los Angeles


Jan Steen, Beware of Luxury (c. 1665)


A vida quotidiana foi um dos principais temas de Steen. Muitas das cenas que retratou eram tão animadas que pareciam caóticas. Em alguns casos, parece sugerir ao espectador que adote uma vida lúdica, embora também moralizante. Muitas de suas obras retratam provérbios e histórias neerlandesas. Usou membros de sua família como modelos e a si próprio em vários autorretratos, onde não demonstra possuir qualquer vaidade. O mais relevante é o Autorretrato com alaúde pertencente hoje ao Museu Thyssen-Bornemisza de Madrid.


Jan Steen, Autorretrato como músico (1660-63)Museo Thyssen-Bornemisza, Madrid.

Jan Steen também pintou  cenas históricas, mitológicas e religiosas, naturezas mortas e paisagens. O seu trabalho foi fonte de inspiração para muitos outros artistas que o sucederam. (Wikipédia)


Jan Steen, Wedding of Sarah and Tobias. c. 1660Oil on canvas, 81 x 123 cm. Museum Bredius.

domingo, 2 de março de 2014

Dia Internacional da Mulher - 8 de Março


Pintura de David Adickes



Dia Internacional da Mulher


O Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, tem como origem as manifestações das mulheres russas por melhores condições de vida e trabalho e contra a entrada da Rússia czarista na Primeira Guerra Mundial. Essas manifestações marcaram o início da Revolução de 1917. Entretanto a ideia de celebrar um dia da mulher já havia surgido desde os primeiros anos do século XX, nos Estados Unidos e na Europa, no contexto das lutas de mulheres por melhores condições de vida e trabalho, bem como pelo direito de voto.
No Ocidente, o Dia Internacional da Mulher foi comemorado no início do século, até a década de 1920.
Na antiga União Soviética, durante o stalinismo, o Dia Internacional da Mulher tornou-se elemento de propaganda partidária.
Nos países ocidentais, a data foi esquecida por longo tempo e somente recuperada pelo movimento feminista, já na década de 1960. Na atualidade, a celebração do Dia Internacional da Mulher perdeu parcialmente o seu sentido original, adquirindo um caráter festivo e comercial. Nessa data, os empregadores, sem certamente pretender evocar o espírito das operárias grevistas do 8 de março de 1917, costumam distribuir rosas vermelhas ou pequenos mimos entre suas empregadas. Em 1975, foi designado pela ONU como o Ano Internacional da Mulher e, em dezembro de 1977, o Dia Internacional da Mulher foi adotado pelas Nações Unidas, para lembrar as conquistas sociais, políticas e económicas das mulheres.




Pensamentos e Citações

Pintura de David Adickes



"Há três espécies de mulheres neste mundo: a mulher que se admira, a mulher que se deseja e a mulher que se ama. A beleza, o espírito, a graça, os dotes da alma e do corpo geram a admiração. Certas formas, certo ar voluptuoso, criam o desejo. O que produz o amor, não se sabe; é tudo isto às vezes; é mais do que isto, não é nada disto. Não sei o que é; mas sei que se pode admirar uma mulher sem a desejar, que se pode desejar sem a amar." 
 (Almeida Garrett)



Pintura de David Adickes



"A mulher é um efeito deslumbrante da natureza."  

(Arthur  Schopenhauer)


Pintura de David Adickes


"Sem a mulher, o homem seria rude, grosseiro, solitário, e ignoraria a graça, que não é senão o sorriso do amor. A mulher suspende em torno dela as flores da vida, como as lianas das florestas, que adornam os troncos dos carvalhos com as suas grinaldas afortunadas." 
  
(François Chateaubriand)


 Pintura de David Adickes



 "Admirar a Natureza e não admirar a mulher que é a sua obra mais bela e não a admirar, querendo-a, em tudo que ela é, espírito e corpo, é ser um poeta que faltou, na sua alma, à amplitude do mundo."

(Agostinho Silva, in Sete Cartas a um Jovem Filósofo



Pintura de David Adickes 


"Uma mulher espirituosa é um tesouro; uma beleza espirituosa é um poder."  

 (George Meredith)


Pintura de David Adickes


"Ser mulher é algo difícil, já que consiste basicamente em lidar com homens." 
  
(Joseph  Conrad)


Pintura de David Adickes


"Quem escrever a respeito de mulheres, deve molhar a pena nas cores do arco-íris e secar-lhe a tinta com a poeira dourada das borboletas."

 (Denis Diderot)


Pintura de David Adickes


"Existem certas coisas que um olho feminino vê com maior precisão do que cem olhos masculinos."  

(Gotthold Lessing)



Pintura de David Adickes


 "Três simples qualidades bastam para tomar qualquer senhora perfeitamente delicada e distinta: a simplicidade, a bondade, a modéstia." 


(Ramalho Ortigão)  


Pintura de David Adickes


 "A mulher quando ama, tem heroísmos e abnegações de que o homem - o ser mais egoísta do reino animal - é incapaz."  


(Camilo  Castelo Branco) 


 Pintura de David Adickes 


 "O céu criou a mulher para conter a fermentação da nossa alma, para dulcificar os nossos desgostos e o nosso mau humor, e para nos tomar melhores."  

(Voltaire) 


Pintura de David Adickes


"As mulheres são as primeiras educadoras do género humano."


(Theodor von Hippel)


Pintura de David Adickes


 "Mais depressa o bronco pastor da serra surpreende, na poeira rutilante das nebulosas, um novo astro, do que o psicólogo de mais aguda sagacidade penetra a intenção de um olhar ou de um sorriso de mulher." 

(Coelho Neto)


Pintura de  David Adickes


segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

"Viver sem Sofrimento" - Camilo Castelo Branco


Paul Gustav Fischer, (Dinamarca, 1860-1934) Sledging (Copenhagen)




 Viver sem Sofrimento 


Os prazeres ardentes são momentâneos, e custam graves inconvenientes. O que devemos cobiçar é viver sem sofrer muito. Aquele que sofre foge-lhe uma parte da existência. O mal é nocivo à plenitude da vida por que é sempre causa do aniquilamento. Quando o sofrimento nos ameaça, e receamos que as forças defensivas nos faleçam, suspendem-se os outros movimentos do nosso coração, e então pouco há que esperar de nós, por que se torna incerto o nosso destino. O bem-estar de grande número de indivíduos, que vivem retirados das agitações, depende mais da sua disposição habitual de pensamento que da influência de causas exteriores. A crise moral pode surpreendê-los e magoá-los momentaneamente; mas a força dos acontecimentos é meramente relativa. Os sofrimentos são mais ou menos intensos, conforme a época em que nos oprimem. O que ontem poderia aniquilar-me, levemente me incomoda hoje. Cinco minutos de reflexão me bastam. A maior parte dos objetos encerram e presentam, indiretamente pelo menos, as propriedades oportunas. Pô-las em ação é no que assenta a indústria da felicidade. Há aí que farte instrumentos fecundos de prazeres úteis; ponto é saber meneá-los. Quem não sabe trabalhar com eles, fere-se. Discernir, isto é, refletir é o que mais importa...

Camilo Castelo Branco, in 'Cenas Inocentes da Comédia Humana (1863)'




Galeria de Paul Gustav Fischer
Paul Gustav Fischer, Autumn day in Fiolstræde, Copenhagen


Paul Gustav Fischer, Bredgade, Copenhagen 


Paul Gustav Fischer, Vinterdag in Kongens, Nytorv


Paul Gustav Fischer, Fire


Paul Gustav Fischer, Accident


Paul Gustav Fischer, Vesterbrogade


Paul Gustav Fischer, Jacobsen Square, Copenhagen


Paul Gustav Fischer, Waiting for the Tram, 1907


Paul Gustav Fischer, At the tram stop, 1927


Paul Gustav Fischer, Copenhagen Tram



segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

"Os Grandes Forjam-se na Adversidade" - por Agostinho da Silva


Wassily Kandinsky, Yellow-red-blue, 1923



Os Grandes Forjam-se na Adversidade 


Todo o ambiente é favorável ao forte; de um modo ou de outro ele o ajuda a cumprir a missão que se impôs e a conseguir ir porventura mais além das barreiras marcadas. A derrota deve mais atribuir-se à invalidez do impulso interior do que aos obstáculos que lhe ponham diante, mais à alma incapaz de se bater com vigor e tenazmente do que às resistências, às invejas e às dificuldades que o mundo possa levantar perante Hércules que luta. 

O mal que se vê é aguilhão para o bem que se deseja; e quanto mais duro, quanto mais agressivo, se bate em peito de aço, tanto mais valioso auxiliar num caminho de progresso; o querer se apura, a visão do futuro nos surge mais intensa a cada golpe novo; o contentamente e a mansa quietude são estufa para homens; por aí se habituaram a ser escravos de outros homens, ou da cega Natureza; e eu quero a terra povoada de rijos corações que seguem os calmos pensamentos e a mais nada se curvam. Mais custa quebrar rochas do que escavar a terra; mais sólido, porém, o edifício que nela se firmou. A grandeza da obra é quase sempre devida à dificuldade que se encontra nos meios a empregar, à indiferença que cerra os ouvidos do povo, e aos mil braços que logo se levantam para deter o arquitecto. Se cai em batalha, pobre dele, podemos lamentá-lo; não o chamara o Senhor para as grandes empresas; mas se pelo menos a voz se lhe erguer clara, firme, heróica no meio do turbilhão, não foram inúteis as dores e os esforços: algum dia um novo mundo se erguerá das brumas e o terá como profeta. 

Quem ia a perturbar ficará perturbado, quem ia a matar ficará morto. Não é com os mesquinhos artifícios, nem com o desprezo, nem com a mentira, nem pelo cansaço, nem pela opressão, nem pela miséria que se vencem os que pensaram num futuro e, amorosamente, com cuidados de artista, continuamente, com firmeza de atleta, o vão erguendo pedra a pedra. É necessário que se resista enquanto houver um fôlego de vida, mas que essa resistência seja sobretudo o contacto com a realidade da força criadora; é esta que afinal tudo leva de vencida e reduz oposições a pó inútil e ligeiro. 


Agostinho da Silva, in 'Textos e Ensaios Filosóficos'



Piet Mondrian, Composición VII. 1913. 
Solomon Guggenheim Museum. New York 



     "Na adversidade é que se fazem os grandes cálculos, 
e que se traçam os grandes planos."


Camilo Castelo Branco, 
A Neta do Arcediago



Lifehouse - Between The Raindrops ft. Natasha Bedingfield 


terça-feira, 20 de novembro de 2012

"A Melancolia" - de Camilo Castelo Branco


Vito de Campanella


A Melancolia 


«A melancolia é sorna e estéril. Camões escreveu a sua epopeia nos dias da esperança. Quando a tristeza desanimadora o entrou, já não pôde escrever para o fidalgo, que lha pedia, uma paráfrase dos salmos. 
Uma inteligência em quietismo não danifica os interesses materiais dum país, e até certo ponto pode considerar-se providencial o pousio; mas um cidadão analfabeto, embrutecido pela melancolia, se a sua qualidade civil é importante como deve ser, pode prejudicar gravemente os interesses da cidade. 
Ainda bem que a melancolia raro se atreve a perturbar o funcionalismo intelectivo de certas cabeças, cuja organização é maravilha. Daí provém a traça metódica e auspiciosa com que o homem supinamente ignorante regula os seus negócios. Há nessa cabeça a perene claridade dum fundo de garrafa de cristal. As ideias impedem-lhe congeladas da abóbada craniana como as estalactites duma caverna. Dessa imobilidade imperturbável de cérebro resulta a fixidez da mira posta num alvo, a pertinácia das empresas e o conseguimento dos bons efeitos. 
Ainda não vi tão cabal e logicamente explicado o fortunoso êxito de algumas riquezas granjeadas pela inépcia. 
Não obstante, o número dos bastardos da fortuna é muito maior. O leitor é de certo um dos que tem em cada dia uma hora de enojo, de quebranto, de melancolia, de concentração dolorosa, de desapego à vida, de misantropia e de diálogo terrível com o fantasma da aniquilação.» 

Camilo Castelo Branco, in 'Coração, Cabeça e Estômago'.




Camilo Castelo Branco (1825-1890) é um nome incontornável da história da literatura portuguesa, autor de uma obra colossal de mais de cento e trinta títulos, além das suas participações regulares na imprensa e da sua vasta correspondência. Visceral e impulsivo, retratador acutilante e eloquente dos costumes da sociedade e dos meandros das almas, polemista massacrador sem adversários à altura, Camilo viveu também os seus amores ao extremo.

Da vasta obra de Camilo ressaltam centenas e centenas de pequenas frases e textos, que exalam a sabedoria de uma autêntica experiência e lição de vida, que, muito para além da observação lúcida e da análise do sentimento que podem estar associadas a uma época, tornam-se um autêntico compêndio das aventuras e desventuras daquilo a que se chama viver. Permanece actual pela intemporalidade com que se revestem os instantâneos do espírito tão bem dissecados e magistralmente descritos pela pena de Camilo, mergulhando fundo nos sentimentos, nobres ou reprováveis, que movem os indivíduos e a humanidade em geral desde os primórdios da História.



Galeria de Vito Campanella

Vito de Campanella


"O ciúme vê com lentes, que fazem grandes as coisas pequenas, gigantes os anões, verdades as suspeitas." 

(Camilo Castelo Branco) 



Vito de Campanella


"É falso o amor que leva o homem à indignidade."

(Camilo Castelo Branco)


Vito de Campanella


"O amor que enlouquece e permite que se abram intercadências de luz no espírito, para que a saudade rebrilhe na escuridão da demência, é incomparavelmente mais funesto que o amor fulminante." 

(Camilo Castelo Branco) 



Vito de Campanella


"O amor é a primeira condição da felicidade do homem."

(Camilo Castelo Branco)



Vito de Campanella


"Depois do céu, quem mais pasmosos milagres faz é o amor."

(Camilo Castelo Branco)



Vito de Campanella


"A caridade é a felicidade dos que dão e dos que recebem."

(Camilo Castelo Branco)



Vito Campanella


"O amor é uma luz que não deixa escurecer a vida."

(Camilo Castelo Branco)



Vito Campanella


"A felicidade é parecida com a liberdade, porque toda a gente fala nela e ninguém a goza."

(Camilo Castelo Branco)



Vito Campanella 


"O poeta desmente as leis fisiológicas, vivendo do princípio vital de uma única entranha: o coração."

(Camilo Castelo Branco)



Vito Campanella


"O tempo chega sempre; mas há casos em que não chega a tempo."

(Camilo Castelo Branco)



Vito Campanella


"Não há amor que resista a vinte e quatro horas de filosofia."

(Camilo Castelo Branco)


Vito Campanella 


"Duas pessoas que se amam, só começam a dizer coisas ajuizadas desde que se aborrecem."

(Camilo Castelo Branco)



Vito de Campanella


"O amor nascente é tão melindroso, pueril e tímido, que receia desagradar até com o pensamento ao ídolo da sua concentrada adoração."

(Camilo Castelo Branco)



Vito de Campanella


"O homem que ama é um tolo sublime."

(Camilo Castelo Branco)



Vito de Campanella


"Ao pé de um bom estômago coincidiu sempre uma boa alma."

(Camilo Castelo Branco)



Vito Campanella


Vito Campanella


Vito de Campanella


Vito de Campanella


Vito Campanella


Vito Campanella


Vito Campanella, Retrato Metafísico



Vito Campanella


Vito Campanella nasceu em Monopoli, Itália, em 1932. Vive e trabalha na Argentina. Estudou na Escuela de Artes y Ofícios, onde aprendeu modelar e entalhar madeira. Alternou seus estudos com passeios pelo campo, onde pintou cenas de natureza. Mudou-se para Florença onde passa a frequentar o movimento artístico da cidade. Através do escultor Rossi conhece o mestre Giorgio De Chirico. Frequenta os cursos de Anatomia da Academia de Bellas-Artes de Brera, em Milão. Em 1954 conhece Salvador Dali, em Roma. Em 1955 transfere-se para Buenos Aires e a partir de 1956, incorpora-se ao movimento artístico argentino e latino-americano. Em 1976 recebeu Menção especial no Salão Euro-Americano em Caracas e Placa de Honra ao Mérito em Buenos Aires. Em 1979 obteve a Medalha de Prata no Concurso Internacional de Pintura UNICEF, Turim, Itália e em 1999 ganhou o Prémio Lorenzo, il Magnífico, na Bienal de Arte Contemporânea de Florença e Segundo Prémio Aquisição na Mostra Anual de Jovens Pintores de Bari.


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