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sábado, 11 de maio de 2024

"A Minha Terra" - Poema de Afonso Simões


 
António Carneiro (Pintor, ilustrador, poeta e professor português, 1872 – 1930), 
 Praia da Figueira da Foz, 1921.


A Minha Terra


A minha terra, o meu ninho,
Saudoso berço natal,
É o mais belo cantinho
Das terras de Portugal.

O seu nome que se deve
Como uma prece rezar,
Nunca a minha mão o escreve
Sem que eu ouça a alma a cantar:

Figueira, linda Figueira,
Quem te deu encanto assim?
Foi a mesma feiticeira
Que ainda hoje me encanta a mim?

Foi a grande natureza?
Foram as ondas do mar,
Que o teu manto de princesa
Vão respeitosas beijar?

Foi o troveiro Mondego,
Cantando sempre a correr,
Que num murmuro sossego
Junto aos teus pés vai morrer?

Foi talvez moira encantada
Que pela terra ficou,
Dum velho conto de fada
Que a tua infância embalou.

Mas a beleza que encerra
A tua graça sem véu,
Não deve ser cá da terra,
Deve ser obra do céu.


Afonso Simões (18661947),
 in 'No Limiar do Poente'
 

 
 
"Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não para, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio."

Guimarães Rosa (1908–1967), "A Terceira Margem do Rio"
 
 
"A Terceira Margem do Rio", ilustração por Luís Jardim e Guimarães Rosa em "Primeiras Estórias", 1962.
 
 
"A Terceira Margem do Rio" é o conto mais famoso e uma das obras mais influentes de Guimarães Rosa, publicado em seu livro "Primeiras Estórias", lançado em 1962.
Narrado em primeira pessoa pelo filho de um homem que decide abandonar a família e toda a sociedade para viver dentro de uma pequena canoa num imenso rio.
Guimarães Rosa dá um tom regionalista e universal ao conto, em estilo de prosa poética e oralidade específica, tratando de grandes dilemas da existência humana. "A Terceira Margem do Rio" é sempre posicionado como um dos melhores contos ou o melhor da literatura brasileira.
(daqui)
 

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

"Os Lusíadas" - Poema Épico de Luís Vaz de Camões





Os Lusíadas


Canto I

1
As armas e os barões assinalados,
Que da ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

2
E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis, que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando;
E aqueles, que por obras valerosas
Se vão da lei da morte libertando;
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

3
Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram:
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.

4
E vós, Tágides minhas, pois criado
Tendes em mim um novo engenho ardente,
Se sempre em verso humilde celebrado
Foi de mim vosso rio alegremente,
Dai-me agora um som alto e sublimado,
Um estilo grandíloquo e corrente,
Porque de vossas águas, Febo ordene
Que não tenham inveja às de Hipocrene.

5
Dai-me uma fúria grande e sonorosa,
E não de agreste avena ou frauta ruda,
Mas de tuba canora e belicosa,
Que o peito acende e a cor ao gesto muda;
Dai-me igual canto aos feitos da famosa
Gente vossa, que a Marte tanto ajuda;
Que se espalhe e se cante no universo,
Se tão sublime preço cabe em verso.

6
E vós, ó bem nascida segurança
Da Lusitana antiga liberdade,
E não menos certíssima esperança
De aumento da pequena Cristandade;
Vós, ó novo temor da Maura lança,
Maravilha fatal da nossa idade,
Dada ao mundo por Deus, que todo o mande,
Para do mundo a Deus dar parte grande;

7
Vós, tenro e novo ramo florescente
De uma árvore de Cristo mais amada
Que nenhuma nascida no Ocidente,
Cesárea ou Cristianíssima chamada;
(Vede-o no vosso escudo, que presente
Vos amostra a vitória já passada,
Na qual vos deu por armas, e deixou
As que Ele para si na Cruz tomou)

8
Vós, poderoso Rei, cujo alto Império
O Sol, logo em nascendo, vê primeiro;
Vê-o também no meio do Hemisfério,
E quando desce o deixa derradeiro;
Vós, que esperamos jugo e vitupério
Do torpe Ismaelita cavaleiro,
Do Turco oriental, e do Gentio,
Que inda bebe o licor do santo rio;

9
Inclinai por um pouco a majestade,
Que nesse tenro gesto vos contemplo,
Que já se mostra qual na inteira idade,
Quando subindo ireis ao eterno templo;
Os olhos da real benignidade
Ponde no chão: vereis um novo exemplo
De amor dos pátrios feitos valerosos,
Em versos divulgado numerosos.

10
Vereis amor da pátria, não movido
De prémio vil, mas alto e quase eterno:
Que não é prémio vil ser conhecido
Por um pregão do ninho meu paterno.
Ouvi: vereis o nome engrandecido
Daqueles de quem sois senhor superno,
E julgareis qual é mais excelente,
Se ser do mundo Rei, se de tal gente.

11
Ouvi, que não vereis com vãs façanhas,
Fantásticas, fingidas, mentirosas,
Louvar os vossos, como nas estranhas
Musas, de engrandecer-se desejosas:
As verdadeiras vossas são tamanhas,
Que excedem as sonhadas, fabulosas;
Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro,
E Orlando, inda que fora verdadeiro,

12
Por estes vos darei um Nuno fero,
Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço,
Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero
A cítara para eles só cobiço.
Pois pelos doze Pares dar-vos quero
Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço;
Dou-vos também aquele ilustre Gama,
Que para si de Eneias toma a fama.

...................

Luís Vaz de Camões

(O texto com a ortografia original, publicada em 1572, está disponível em Os Lvsiadas.) 
(Uma versão para impressão de Os Lusíadas está disponível aqui.)
 (Jornal de Poesia - Luís Vaz de Camões)


Vasco da Gama, protagonista por excelência d’Os Lusíadas,
 na chegada à Índia, a 20 de Maio de 1498.

 
Os Lusíadas é uma obra de poesia épica do escritor português Luís Vaz de Camões, considerada a "epopeia portuguesa por excelência". Provavelmente concluída em 1556, foi publicada pela primeira vez em 1572 no período literário do classicismo, três anos após o regresso do autor do Oriente.

A obra é composta de dez cantos, 1.102 estrofes e 8.816 versos que são oitavas decassílabas, sujeitas ao esquema rímico fixo AB AB AB CC – oitava rima camoniana. A ação central é a descoberta do caminho marítimo para a Índia por Vasco da Gama, à volta da qual se vão descrevendo outros episódios da história de Portugal, glorificando o povo português. (Daqui) 


Ilustração da nau de Vasco da Gama com os deuses nas nuvens


"E sou já do que fui tão diferente
Que, quando por meu nome alguém me chama,
Pasmo, quando conheço
Que ainda comigo mesmo me pareço." 


Luís Vaz de Camões,
em Éclogas
(Almeno e Agrário, Pastores) (Daqui)

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

"Um grande utensílio de amor" - Poema de Mário Cesariny


 O escultor Alberto Nunes no seu atelier, 1887, Museu do Chiado,
Museu Nacional de Arte Contemporânea
 

Um grande utensílio de amor


um grande utensílio de amor 
meia laranja de alegria 
dez toneladas de suor 
um minuto de geometria 

quatro rimas sem coração 
dois desastres sem novidade 
um preto que vai para o sertão 
um branco que vem à cidade 

uma meia-tinta no sol 
cinco dias de angústia no foro 
o cigarro a descer o paiol 
a trepanação do touro 

mil bocas a ver e a contar 
uma altura de fazer turismo 
um arranha-céus a ripar 
meia-quarta de cristianismo 

uma prancha sem porta sem escada 
um grifo nas linhas da mão 
uma Ibéria muito desgraçada 
um Rossio de solidão 


in 'Discurso Sobre a Reabilitação do Real Quotidiano'


António Ramalho - Pintor português 
(Nasceu em Mesão Frio em 1859 e faleceu em 1916)



Amadeo de Souza Cardoso - Pintor português  
(Nasceu em Amarante em 1887 e faleceu em Espinho em 1918.)



Almada Negreiros - Pintor, poeta e escritor português 
(Nasceu em S.Tomé em 1893 e morreu em Lisboa em 1970.)



Abel Manta - Pintor português
(Nasceu em Gouveia em 1888. Faleceu em 1982.)


Columbano - Pintor português 
(Nasceu em Lisboa em 1857. Faleceu em 1929.)



António Carneiro - Pintor português 
(Nasceu em Amarante em 1872. Faleceu em 1930.)


 Henrique Medina - Pintor retratista português
(Nasceu no Porto em 1901. Faleceu em 1988.)



Dominguez Alvarez - Pintor português de origem galega 
(Nasceu no Porto em 1906. Morreu em 1942.)



Artes plásticas 


As artes plásticas ou belas-artes são as formações expressivas realizadas utilizando-se de técnicas de produção que manipulam materiais para construir formas e imagens que revelem uma conceção estética e poética em um dado momento histórico. O surgimento das artes plásticas está diretamente relacionado com a evolução da espécie humana.
As artes plásticas surgiram na pré-história. Existem diversos exemplos da pintura rupestre em cavernas. Até os dias atuais há sempre uma necessidade de expressão artística utilizando novos meios. É nas artes plásticas que encontramos o uso de novos meios para a criação, invenção e apreciação estética.
A pintura refere-se genericamente à técnica de aplicar pigmento em forma líquida a uma superfície, a fim de colori-la, atribuindo-lhe matizes, tons e texturas.
Em um sentido mais específico, é a arte de pintar uma superfície, tais como papel, tela, ou uma parede (pintura mural ou de afrescos). A pintura a óleo é considerada por muitos como um dos suportes artísticos tradicionais mais importantes; grandes obras de arte, tais como a Mona Lisa, são pinturas a óleo; com o desenvolvimento tecnológico dos materiais, outras técnicas tornaram-se igualmente importantes como, por exemplo, a tinta acrílica.
Diferencia-se do desenho pelo uso dos pigmentos líquidos e do uso constante da cor, enquanto aquele apropria-se principalmente de materiais secos.
No entanto, há controvérsias sobre essa definição de pintura. Com a variedade de experiências entre diferentes meios e o uso da tecnologia digital, a ideia de que pintura não precisa se limitar à aplicação do "pigmento em forma líquida". Atualmente o conceito de pintura pode ser ampliado para a representação visual através das cores. Mesmo assim, a definição tradicional de pintura não deve ser ignorada. O concernente à pintura é pictural, pictórico, pinturesco, ou pitoresco.
Na pintura, um dos elementos fundamentais é a cor. A relação formal entre as massas coloridas presentes em uma obra constitui sua estrutura básica, guiando o olhar do espectador e propondo-lhe sensações de calor, frio, profundidade, sombra, entre outros. Estas relações estão implícitas na maior parte das obras da História da Arte e sua explicitação foi uma bandeira dos pintores abstratos ou não-figurativos. A cor é considerada por muitos artistas como a base da imagem. (daqui)