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terça-feira, 2 de dezembro de 2025

"A um Violinista" - Poema de Olavo Bilac

 


Anne Vallayer-Coster (French painter, 1744–1818), Portrait of a Violinist, 1773,
Nationalmuseum, Stockholm.


A um Violinista

I

Quando do teu violino, as asas entreabrindo
Mansamente no espaço, iam-se as notas quérulas,
Anjos de olhos azuis, às duas mãos partindo
Os seus cofres de pérolas,

- Minhas crenças de amor, esquecidas em calma
No fundo da memória, ouvindo-as recebiam
Novo alento, e outra vez do oceano de minh'alma,
Arquipélago verde, à tona apareciam.

E eu via rutilar o meu amor perdido,
Belo, de nova luz e novo encanto cheio,
E um corpo, que supunha há muito consumido,
Agitar-se de novo e oferecer-me o seio.

Tudo ressuscitava ao teu influxo, artista!
E minh'alma revia, alucinada e louca,
Olhos, cujo fulgor me entontecia a vista,
Lábios, cujo sabor me entontecia a boca.

Oh milagre! E, feliz, ajoelhava-me, em pranto,
Como quem, por acaso, um dia, entrando as portas
De um cemitério, vai achar vivas a um canto
As suas ilusões que acreditava mortas,

E ficava a pensar... como se não partia
Essa fraca madeira ao teu toque violento,
Quando com tanta febre a paixão se estorcia
Dentro do pequenino e frágil instrumento!

Porque, nesse instrumento, unidos num só peito,
Todos os corações da terra palpitavam;
E havia dentro dele, em lágrimas desfeito,
O amor universal de todos os que amavam,

Rio largo de sons, tapetado de flores,
A harmonia do céu jorrava ampla e sonora;
E, boiando e cantando, alegrias e dores
Iam corrente em fora...

A Primavera rindo esfolhava as capelas,
E entornava no chão as ânforas cheirosas:
E a canção acordava as rosas e as estrelas,
E enchia de desejo as estrelas e as rosas.

E a água verde do mar, e a água fresca dos rios,
E as ilhas de esmeralda, e o céu resplandecente,
E a cordilheira, e o vale, e os matagais sombrios,
Crespos, e a rocha bruta exposta ao sol ardente:

- Tudo, ouvindo essa voz, tudo cantava e amava!
O amor, caudal de fogo atropelada e acesa,
Entrava pelo sangue e pela seiva entrava,
E ia de corpo em corpo enchendo a Natureza!

E ei-lo triste, no chão, inanimado e frio,
O teu pobre violino, o teu amor primeiro:
E inda nas cordas há, como um leve arrepio,
A última vibração do arpejo derradeiro...

Como, ígneas e imortais, num redemoinho insano,
Longe, a torvelinhar em céus inacessíveis,
Pairam constelações virgens do olhar humano,
Nebulosas sem fim de mundos invisíveis:

- Assim no teu violino, artista! adormecido
À espera do teu arco, em grupos vaporosos,
Dorme, como num céu que não alcança o ouvido,
Um mundo interior de sons misteriosos...

Suspendam-me ao ar livre esse doce instrumento!
Deixem-no ao sol, em glória, em delirante festa!
E ele se embeberá dos perfumes que o vento
Traz dos frescos desvãos do vale e da floresta.

Os pássaros virão tecer nele os seus ninhos!
As rosas se abrirão em suas cordas rotas!
E ele derramará sobre os verdes caminhos
Da antiga melodia as esquecidas notas!

Hão de as aves cantar, hão de cantar as flores...
Os astros sorrirão de amor na imensa esfera...
E a terra acordará para os novos amores
De nova primavera!

II

Porque, como Terpandro acrescentou à lira,
Para a tornar mais doce, uma corda mais pura,
Que é a corda onde a paixão desprezada suspira,
E, em lágrimas, a arder, suspira a desventura;

Também desse instrumento às quatro cordas de ouro,
O Desespero, o Amor, a Cólera, a Piedade,
- Tu, nobre alma, chorando acrescentaste o choro
Eterno e a eterna dor da corda da Saudade

É saudade o que sinto, e me enche de ais a boca,
E me arrebata o sonho, e os nervos me fustiga,
Quando te ouço tocar: saudade ansiosa e louca
Do primitivo amor e da beleza antiga...

Para trás! para trás! Basta um simples arpejo,
Basta uma nota só... Todo o espaço estremece:
E, dando aos pés do amado o derradeiro beijo
Quase morta de dor, Madalena aparece...

Ao luar de Verona, a amorosa cabeça
De Julieta desmaia entre os braços do amante:
Não tarda que a alvorada em fogo resplandeça,
E na devesa em flor a cotovia cante...

Viúva triste, que à paz do claustro pede alivio,
Para a sua viuvez, para o seu luto imenso,
Branca, sob o livor do escapulário níveo,
Heloísa ergue as mãos, numa nuvem de incenso...

E na suave espiral das melodias puras,
Vão fugindo, fugindo os vultos infelizes,
Mostrando ao meu amor as suas amarguras,
Mostrando ao meu olhar as suas cicatrizes.

Canta! o rio de sons que do seio te brota
E, entre os parcéis da dor, corre, cascateando,
E vai, de vaga em vaga, e vai, de nota em nota,
Ao sabor da corrente os sonhos arrastando;

Que pelo vale espalha a cabeleira inquieta,
Refrescando os rosais, e, em leve burburinho,
Um gracejo segreda a cada borboleta,
E segreda um queixume a cada passarinho;

Que a todo o desconforto e a todo o sofrimento
Abre maternalmente o regaço das águas,
- É o rio perfumado e azul do Esquecimento,
Onde se vão banhar todas as minhas mágoas.


Olavo Bilac
, in Alma Inquieta 
 
 
 
Anne Vallayer-CosterA Lady Writing and her Daughter, 1775


"Há uma cor que não vem nos dicionários. É essa indefinível cor que têm todos os retratos, os figurinos da última estação, a voz das velhas damas, os primeiros sapatos, certas tabuletas, certas ruazinhas laterais: - a cor do tempo..."
 
Mário Quintana, in Sapato Florido, 1948.

domingo, 8 de janeiro de 2017

"Retrato" - Poema de Jerónimo Baía


Alexander Roslin (Swedish, 1718-1793), The artist Anne Vallayer-Coster, 1783



Retrato


Pintar o rosto de Márcia 
Com tal primor determino, 
Que seja logo seu rosto 
Pela pinta conhecido. 

Anda doido de prazer 
Seu cabelo por tão lindo, 
Pois mal lhe vai uma onda, 
Quando outra já lhe tem vindo.
Sua testa com seus arcos 
Do Turco Império castigo 
Vencido tem Solimão, 
Meias Luas tem vencido. 

Dormidos seus olhos são, 
Porém Planetas tão ricos 
Nunca já foram sonhados, 
Bem que sempre são dormidos. 

A dormir creio se lançam 
Por ter de mortais, e vivos 
Tão boa fama cobrado, 
Nome tão grande adquirido. 

Entre seus raios se mostra 
O grande nariz bornido, 
Por final que entre seus raios 
Prova o nariz de aquilino. 

Nas taças de suas faces 
Feitas do metal mais limpo, 
Como certos Reverendos, 
Mistura o branco com o tinto. 

As perlas dos dentes alvos, 
Os rubins dos beiços finos 
Tem desdentado o marfim, 
E a cor mais viva comido.
O passadiço da voz 
Nem é neve, nem é vidro, 
Nem mármore, nem marfim, 
Nem cristal, mas passadiço. 

Na maior força de Julho 
Creio que treme de frio, 
Pois tem como neve as mãos 
E os pés como neve frios. 

Que nelas há dois contrários 
Os meus olhos mo têm dito, 
Pois sendo uma fermosura 
São mais pequenas que os chispos. 

No maior rigor do Inverno, 
Na maior calma de Estio, 
Nem tem frio, nem tem calma, 
Nem tem calma, nem tem frio. 

Porque de Inverno, e Verão 
Sempre Primavera há sido, 
Pois sempre veste de Abril, 
E de Maio traz vestido. 

Este é de Márcia o retrato, 
E dirá quem o tem visto, 
Que com ela o seu retrato 
Se parece todo escrito. 

Mas se em coisa alguma erro 
Das que até aqui tenho dito, 
À vista do tal retrato 
Me retrato, e me desdigo. 


Jerónimo Baía
(c. 1620/30-1688)
in 'Fénix'