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terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

"Ai dos que vivem, se não fora o sono!" - Poema de Alphonsus de Guimaraens


Rosalba Carriera, Spring, c. 1725


Ai dos que vivem, se não fora o sono!

VIII

Ai dos que vivem, se não fora o sono!
O sol, brilhando em pleno espaço, cai
Em cascatas de luz; desce do trono
E beija a terra inquieta, como um pai.

E surge a primavera. O áureo patrono
Da terra é sempre o mesmo sol. Mas ai
Da primavera, se não fora o outono,
Que vem e vai, e volta, e outra vez vai.

Ao níveo luar que vaga nos outeiros
Sucedem sombras. Sempre a lua tem
A escuridão dos sonhos agoureiros.

Tudo vem, tudo vai, do mundo é a sorte…
Só a vida, que se esvai, não mais nos vem.
Mas ai da vida, se não fora a morte!


em “Obra completa”


quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

"Sacode as nuvens" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen


Rosalba Carriera, The Four Elements, Earth, 1746


Sacode as nuvens 


Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos,
Sacode as aves que te levam o olhar.
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras.
Porque eu cheguei e é tempo de me veres,
Mesmo que os meus gestos te trespassem
De solidão e tu caias em poeira,
Mesmo que a minha voz queime o ar que respiras
E os teus olhos nunca mais possam olhar.




Rosalba Carriera, The Four Elements, Wind, 1746


Era preciso agradecer às flores 


Era preciso agradecer às flores 
Terem guardado em si, 
Límpida e pura, 
Aquela promessa antiga 
Duma manhã futura. 


Sophia de Mello Breyner Andresen


Rosalba CarrieraThe Four Elements, Water, 1746


Tolerância não é Igualdade 


«Eu sou contra a tolerância, porque ela não basta. Tolerar a existência do outro e permitir que ele seja diferente ainda é pouco. Quando se tolera, apenas se concede, e essa não é uma relação de igualdade, mas de superioridade de um sobre o outro. Sobre a intolerância já fizemos muitas reflexões. A intolerância é péssima, mas a tolerância não é tão boa quanto parece. Deveríamos criar uma relação entre as pessoas da qual estivessem excluídas a tolerância e a intolerância.» 

José Saramago, in 'Globo (2003)' 


Rosalba Carriera, The Four Elements, Fire, 1746


"Amar não é apoderar-se do outro para completar-se, mas dar-se ao outro para completá-lo." 

(Lao Zi)


Rosalba Carriera, Self-portrait, 1715


"Quem conhece os outros é sábio. Quem se conhece a si mesmo é iluminado." 

 
[Lao-Tsé (604-517 a.C.) foi um filósofo da China Antiga. A ele se atribui a fundação de um movimento filosófico que mais tarde se transformou em religião, o “Taoísmo”, cujo objetivo é a obtenção da "paz absoluta".]
 

sábado, 17 de março de 2012

"Manhã cinzenta" - Poema de Natália Correia


Rosalba Carriera (Italian, 1675 - 1757), Self-Portrait as Winter
circa 1730-1731


Manhã cinzenta


Ai madrugada pálida e sombria
Em que deixei a casa dos meus pais...
E aquele adeus que a voz do mar trazia
Dum lenço branco, a acenar no cais... 

O meu veleiro – era de espuma fria –
Levava-o o furor dos vendavais.
À passagem gritavam-me: onde vais?
Mas só o meu veleiro respondia.

Cruzei o mar em direcções diferentes.
Por quantas terras fui, por quantas gentes,
Nesta longa viagem que não finda.

Só uma estrada resta – mais nenhuma:
Na ilha que o passado envolve em bruma,
Um lenço branco que me acena ainda...




Rosalba Carriera, An Allegorical Figure of a Young Woman
 Wearing a Laurel Crown



No ponto onde o silêncio e a solidão
Se cruzam com a noite e com o frio,
Esperei como quem espera em vão,
Tão nítido e preciso era o vazio.




Rosalba Carriera, A Muse, 1725



Musa


Aqui me sentei quieta
Com as mãos sobre os joelhos
Quieta muda secreta
Passiva como os espelhos 

Musa ensina-me o canto
Imanente e latente
Eu quero ouvir devagar
O teu súbito falar
Que me foge de repente.




Rosalba Carriera, A Nymph of Apollo, 1721


Níobre transformada em fonte

(adaptado de Ovídio) 


Os cabelos embora o vento passe
Já não se agitam leves. O seu sangue,
Gelando, já não tinge a sua face.
Os olhos param sob a fonte aflita.
Já nada nela vive nem se agita,
Os seus pés já não podem formar passos,
Lentamente as entranhas endurecem
E até os gestos gelam nos seus braços. 

Mas os olhos de pedra não esquecem.
Subindo do seu corpo arrefecido,
Lágrimas lentas rolam pela face,
Lentas rolam, embora o tempo passe.


Rosalba Carriera, Apollo, c.1740-1746


Os poetas 


Solitários pilares dos céus pesados,
Poetas nus em sangue, ó destroçados
Anunciadores do mundo
Que a presença das coisas devastou.
Gesto de forma em forma vagabundo
Que nunca num destino se acalmou.





Natasha Bedingfield - Unwritten