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sexta-feira, 22 de maio de 2015

"Rua de Roma" - Poema de David Mourão-Ferreira



Centro histórico de Roma, Itália, Património Mundial pela UNESCO 
 

Rua de Roma


Quero uma rua de Roma
com seus rubros com seus ocres
com essa igreja barroca
essa fonte esse quiosque
aquele pátio na sombra
ao longe a luz de um zimbório
mais o cimo dessa torre
que não tem raiz no solo.
Em troca darei Moscovo
Oslo Tóquio Banguecoque.
Fugaz e secreta à força
de se mostrar rumorosa
só essa rua de Roma
em cada nervo me toca.
Por isso a quero assim toda
opulenta de tão pobre
com o voo desta pomba
o ribombar desta moto
com este bar de mau gosto
em cuja esplanada tomo
este espresso após o almoço
à tarde um campari soda.
Em troca darei Lisboa
Londres Rio Nova Iorque
toda a prata todo o ouro
que não tenho em nenhum cofre
só no cotão do meu bolso
e no que a pátria me explora.
Quero essa rua de Roma.
Aqui onde estou sufoco.
Aqui as manhãs irrompem
de noites que nunca morrem.
Quero esse musgo essa fonte
essas folhas que se movem
sob o sopro do siroco
ora tépido ora tórrido
frente à igreja barroca
tão apagada por fora
mas que do altar ao coro
por dentro aparece enorme.
Quero essa rua de Roma
casta rugosa remota.
Em troca darei as lobas
que não aleitaram Rómulo
mas me deixaram na boca
o travo do transitório.
Quero essa rua de Roma
sem conhecer quem lá mora
além da madonna loura
misto de corça e de cobra
que ao longo de tantas noites
tanta insónia me provoca.
Quanto às restantes pessoas
inventarei como sofrem.
Quero essa rua de Roma.
Terá de ser sem demora.
Sabemos lá quando rondam
abutres à nossa roda.
Mas não me lembro do nome
da rua que assim evoco
soberba se bem que tosca
direita se bem que torta
com um Sol que tanto a doura
como a seguir a devora.
Em troca darei o troco
do que por nada se troca
o florescer de uma bomba
o deflagrar de uma rosa.
Quero essa rua de Roma.
Amanhã. Ontem. Agora.
Que importa saber-lhe o nome
se a trago dentro dos olhos.
Há uma igual em Verona.
Outra ainda mais a norte.
Outra talvez nem tão longe
num burgo que o mundo ignora.
Outra que apenas se encontra
onde a paixão a descobre.
Mas rua sempre de Roma.
Romana em todo o seu porte
mistura de alma e de corpo
aquém além do ilusório.
Romana mesmo que em Roma
não haja quem a recorde.
Onde quer que o sexo a sonhe
e o coração a coloque
é lá que todo sou todo.
Aqui não.
Aqui não posso.


David Mourão-Ferreira,
in 'Os Ramos e os Remos', 1985



 Ettore Roesler Franz

'Retrato de Ettore Roesler Franz' (1845-1907) por Giacomo Balla (1871-1958),
pintado em Villa d'Este, c. 1902, exposto na Bienal de Veneza de 1903. 


Ettore Roesler Franz (Roma, 11 de maio de 1845 - Roma, 26 de março de 1907) foi um pintor e fotógrafo italiano de origem alemã. Era especialista na técnica de aguarela. Seu trabalho mais famoso é uma série de 120 aguarelas chamada "Roma sparita", onde ele retratou com grande realismo partes da cidade que ele supunha que seriam destruídas no esforço de modernização. Muitas dessas aguarelas estão hoje no Museu de Roma em Trastevere.
Em 1902, ele foi retratado por Giacomo Balla numa famosa pintura exibida na Bienal de Veneza.


"Roma sparita" 
Aguarelas de Ettore Roesler Franz


Ettore Roesler Franz, 'Ponte Rotto em Roma', c. 1880 



Ettore Roesler Franz, Piazza Barberini, c. 1880 



Ettore Roesler Franz, 'La Via Rua in fondo il Portico d'Ottavia', 1888
 


Ettore Roesler Franz, 'Roma medievale, il volto perduto della città', c. 1888
 


Ettore Roesler Franz, 'Chiesa dei SS. Quattro Coronati in Rome' 
(rione Celio),
c. 1880
 


Ettore Roesler Franz, 'Il Porto di Ripetta verso Ponente', 1880



Ettore Roesler Franz, 'Santo Stefano Rotondo al Monte Celio'
(Basílica de Santo Estêvão Redondo no Monte Célio), 1880



Ettore Roesler Franz, 'Case Medioevali a Santa Cecilia in Rome' 
(rione Trastevere), c. 1880
 


Ettore Roesler Franz, 'Via Chiesa Santa Bonosa', 1888



Ettore Roesler Franz, 'Ai Prati di Testaccio', 1890
 


Ettore Roesler Franz, 'Il Ponte Senatorio' detto 'ponte Rotto' 
e in fondo il 'Ponte Sisto', 1884,


"A humanidade que deveria ter seis mil anos de experiência, recai na infância a cada geração." 

Tristan Bernard
[Dramaturgo, novelista, jornalista e advogado francês, 1866–1947]
 

quinta-feira, 7 de maio de 2015

"O que há de mais belo na nossa vida" - Texto de Albert Einstein


O que há de mais belo na nossa vida 

 
O que há de mais belo na nossa vida é o sentimento do mistério. É este o sentimento fundamental que se detém junto ao berço da verdadeira arte e da ciência. Quem nunca o experimentou nem sabe já admirar-se ou espantar-se. Pode considerar-se como morto, sem luz, totalmente cego! A vivência do mistério — embora com laivos de temor — criou também a religião. A consciência da existência de tudo quanto para nós é impenetrável, de tudo quanto é manifestação da mais profunda razão e da mais deslumbrante beleza e, que só é acessível à nossa razão nas suas formas mais primitivas, essa consciência, esse sentimento, constituem a verdadeira religiosidade. Nesse sentido, e em mais nenhum, pertenço à classe dos homens profundamente religiosos. Não posso conceber um Deus que recompense e castigue os objectos da sua criação, ou que tenha vontade própria, de puro arbítrio no género da que nós sentimos dentro de nós. Nem tão-pouco consigo imaginar um indivíduo que sobreviva à sua morte corporal; as almas fracas que alimentem tais pensamentos fazem-no por medo ou por egoísmo ridículo. A mim basta-me o mistério da eternidade da vida, a consciência e o pressentimento da admirável elaboração do ser, assim como o humilde esforço para compreender uma partícula, por mais pequena que seja, da razão que se manifesta na natureza. 
 
 
Albert Einstein, in 'Como Vejo o Mundo'


Catedral de Santa Maria del Fiore. Desde o Renascimento, a harmonia, simetria 
e proporções corretas são consideras elementos essenciais da beleza universal.



"É durante a noite que é belo acreditar na luz."

(Jean Rostand)

Jean Rostand (30 de outubro de 1894 — 3 de setembro de 1977) foi um biólogo, filósofo moralista e historiador francês.



Esta breve animação, criada por Fernando Baptista e Matthew Twomblym e apresentada pelo National Geographic, oferece uma ideia de como pode ter sido construída a cúpula. 
Em 1419, o projeto de Filippo Brunelleschi foi o vencedor do concurso de arquitetura 
para a construção da cúpula da Santa Maria del Fiore, em Florença, Itália.


sábado, 25 de abril de 2015

"O Teatro e a Sátira Política" - Texto de Harold Pinter


A Catedral e a Torre Inclinada de Pisa, na Piazza dei Miracoli (Praça dos Milagres). 
A Praça é Património Mundial pela UNESCO e ambos os edifícios são exemplos de arquitetura românica.


O Teatro e a Sátira Política


O teatro político coloca toda uma série de problemas. Há que evitar os sermões a todo o custo. A objetividade é essencial, deve-se deixar as personagens respirar o seu próprio ar. O autor não pode confiná-las nem obrigá-las a satisfazer o seu próprio gosto, inclinações ou preconceitos. Tem de estar preparado para as abordar sob uma grande variedade de ângulos, um leque de perspetivas diversas, apanhá-las de surpresa, talvez, de vez em quando, mas deixando-lhes a liberdade de seguirem o seu próprio caminho. Isto nem sempre funciona. E a sátira política, é evidente, não obedece a nenhum destes preceitos; faz exatamente o inverso, e é essa a sua função principal. 

Harold Pinter, in "Discurso de Aceitação do Prémio Nobel"


Harold Pinter, fotografia de Eamonn McCabe


Harold Pinter (Londres, 10 de outubro de 1930 — Londres, 24 de dezembro de 2008) foi um ator, diretor, poeta, roteirista, e certamente um dos grandes dramaturgos do século XX, além de destacado e incómodo ativista político britânico.
Foi um dos grandes representantes do teatro do absurdo junto com Samuel Beckett e Eugène Ionesco. Recebeu o Nobel de Literatura de 2005 e o prémio Companion of Honour da Rainha da Inglaterra pelos serviços prestados à literatura. (daqui)

quinta-feira, 23 de abril de 2015

"A Falta de Cultura Ética da Nossa Civilização" - Texto de Albert Einstein




A Falta de Cultura Ética da Nossa Civilização


Creio que o exagero da atitude puramente intelectual, orientando, muitas vezes, a nossa educação, em ordem exclusiva ao real e à prática, contribuiu para pôr em perigo os valores éticos. Não penso propriamente nos perigos que o progresso técnico trouxe diretamente aos homens, mas antes no excesso e confusão de considerações humanas recíprocas, assentes num pensamento essencialmente orientado pelos interesses práticos que vem embotando as relações humanas. 
O aperfeiçoamento moral e estético é um objectivo a que a arte, mais do que a ciência, deve dedicar os seus esforços. É certo que a compreensão do próximo é de grande importância. Essa compreensão, porém, só pode ser fecunda quando acompanhada do sentimento de que é preciso saber compartilhar a alegria e a dor. Cultivar estes importantes motores de ação é o que compete à religião, depois de libertada da superstição. Nesse sentido, a religião toma um papel importante na educação, papel este que só em casos raros e pouco sistematicamente se tem tomado em consideração. 
O terrível problema magno da situação política mundial é devido em grande parte àquela falta da nossa civilização. Sem «cultura ética», não há salvação para os homens. 


Albert Einstein, in 'Como Vejo o Mundo'

terça-feira, 14 de abril de 2015

"Nascer todas as manhãs" - Texto de Miguel Torga


 
O homem vitruviano de Leonardo da Vinci sintetiza o ideário renascentista: 
humanista e clássico. As ideias de proporção e simetria 
aplicadas à anatomia humana.


Nascer todas as manhãs


Apesar da idade, não me acostumar à vida. Vivê-la até ao derradeiro suspiro de credo na boca. Sempre pela primeira vez, com a mesma apetência, o mesmo espanto, a mesma aflição. Não consentir que ela se banalize nos sentidos e no entendimento. Esquecer em cada poente o do dia anterior. Saborear os frutos do quotidiano sem ter o gosto deles na memória. Nascer todas as manhãs.

Miguel Torga, in Diário, 1982


Os Diários Torga, publicados originalmente em edição de autor, em 16 volumes, misturam poesia, contos, memórias, crítica social e reflexões. Eles constituem o retrato de um homem, de um escritor e de um tempo.
Publicados ininterruptamente entre 1941 e 1993, dão-nos uma apaixonante visão do país e da sociedade portuguesa da época, com todas as transformações que ao longo desse tempo a marcaram.

No último volume, diz:
 
"Chego ao fim, perplexo diante de meu próprio enigma. Despeço-me do mundo a contemplar atónito e triste o espetáculo de um pobre Adão paradoxal, expulso da inocência sem culpa, sem explicação."


Vitrúvio 


Vitrúvio (Marcos Vitrúvio Polião)  foi um arquiteto romano que viveu no século I a.C. e deixou como legado a obra "De Architectura" (10 volumes, aprox. 27 a 16 a.C.), único tratado europeu do período greco-romano que chegou aos nossos dias e serviu de fonte de inspiração a diversos textos sobre Arquitetura e Urbanismo, Hidráulica, Engenharia, desde o Renascimento.
Os seus padrões de proporções e os seus princípios conceituais - "utilitas" (utilidade), "venustas" (beleza) e "firmitas" (solidez) -, inauguraram a base da Arquitetura clássica.


Poggio Bracciolini


Foi no início da Idade Moderna que Poggio Bracciolini (1380–1459) descobriu as obras completas de quinze diferentes autores clássicos greco-romanos, nomeadamente o tratado "De Architectura" de Vitrúvio, na biblioteca da abadia beneditina de Saint-Gall. Essa descoberta lançou as bases humanistas da Arquitetura do Renascimento.



Johann Wolfgang Goethe, 1811


"Arquitetura é música petrificada."

Johann Wolfgang von Goethe


quinta-feira, 13 de novembro de 2014

"Havemos de ser outros amanhã" - Poema de Alice Vieira


Torre de Belém em Lisboa, iniciada em 1514 no reinado de Manuel I de Portugal (1495-1521), 
tendo como arquitecto Francisco de Arruda.


Havemos de ser outros amanhã


havemos de ser outros amanhã
ou daqui a momentos ou já agora
e dificilmente reconheceremos o espaço da alegria
em que noutras horas chegámos a nascer

e então meu amor
(não sei se reparaste mas é a primeira vez
que escrevo meu amor)
teremos nos olhos a cor sem cor
das roupas muito usadas
e guardaremos os despojos das noites
em que tudo sem querer nos magoava
nas gavetas daqueles velhos armários
com cheiro a cânfora e a tempo inútil
onde há muitos anos escondemos
um postal da Torre de Belém em tons de azul
e um bilhete para a matiné das seis no São Jorge
onde um homem (que muitos anos depois
segundo me contaram se suicidou)
tocava orgão nos intervalos em que
nos beijávamos às escondidas

e dessas gavetas rebenta a poeira do tempo
que matámos a frio dentro de nós
com os filhos que perdemos em camas de ninguém
e as pedras que nasceram no lugar das cinzas
e havemos de perguntar (mesmo sabendo que
já não há ninguém para nos responder)
por que foi que nos largaram no mundo
vestidos de tão frágeis certezas
por que nos abandonaram assim
no rebentar de todas as tempestades
sabendo que o futuro que nos prometiam batia
ao ritmo das horas que já tinham sido
destinadas a outros e nunca
voltariam a tempo de nos salvar

mas enquanto vai escorrendo de nós o pó
desses lugares onde ainda há vozes
que não desistiram de perguntar por nós
vamos bebendo a água inicial das nossas línguas
um ao outro devolvendo o pouco 
que conseguimos salvar de todos os dilúvios 


Alice Vieira


Alice Vieira

Alice Vieira (Lisboa, 20 de março de 1943) é uma escritora e jornalista profissional portuguesa.
 
 
Dedicou-se desde cedo ao jornalismo, tendo trabalhado nos jornais Diário de Lisboa (onde, juntamente com o seu marido, o jornalista e escritor Mário Castrim, dirigiu o suplemento "Juvenil"), Diário Popular e Diário de Notícias e colaborou durante muitos anos com a revista "Activa" e o "Jornal de Notícias". Atualmente colabora na revista Audácia, dos Missionários Combonianos.
 
Trabalhou em vários programas de televisão para crianças e é considerada uma das mais importantes autoras portuguesas de literatura infanto-juvenil.
 
As suas obras foram traduzidas para várias línguas, como o alemão, o búlgaro, o basco, o castelhano, o galego, o catalão, o francês, o húngaro, o holandês, o russo, o italiano, o chinês, o servo-croata. (Daqui)


Torre de Belém (Arquitetura manuelina) vista do Rio Tejo.


A Torre de Belém, um dos pontos turísticos mais famosos e visitados de Portugal. Sua construção foi iniciada em 1515 e terminou em 1519.
Classificada como Património Mundial pela UNESCO desde 1983, foi eleita como uma das Sete maravilhas de Portugal em 7 de julho de 2007.


Arquitetura manuelina


Estilo manuelino, por vezes também chamado de gótico português tardio ou flamejante, é um estilo decorativo, escultórico e de arte móvel que se desenvolveu no reinado de D. Manuel I e prosseguiu após a sua morte, ainda que já existisse desde o reinado de D. João II. É uma variação portuguesa do Gótico final, bem como da arte luso-mourisca ou arte mudéjar, marcada por uma sistematização de motivos iconográficos próprios, de grande porte, simbolizando o poder régio. Incorporou, mais tarde, ornamentações do Renascimento italiano. O termo "Manuelino" foi criado por Francisco Adolfo Varnhagen na sua Notícia Histórica e Descritiva do Mosteiro de Belém, de 1842. O Estilo desenvolveu-se numa época propícia da economia portuguesa e deixou marcas em todo o território nacional.

A característica dominante do Manuelino é a exuberância de formas e uma forte interpretação naturalista-simbólica de temas originais, eruditos ou tradicionais. A janela, tanto em edifícios religiosos como seculares, é um dos elementos arquitetónicos onde melhor se pode observar. Estes motivos aparecem em construções, pelourinhos, túmulos ou mesmo peças artísticas, como em ourivesaria, de que a Custódia de Belém é um exemplo.

Os motivos mais frequentes da arquitetura manuelina são a esfera armilar, conferida como divisa por D. João II ao seu primo e cunhado, futuro rei D. Manuel I, mais tarde, interpretada como sinal de um desígnio divino para o reinado de D. Manuel, a Cruz da Ordem de Cristo e elementos naturalistas: Corais, Algas, Alcachofras, Pinhas, animais vários e elementos fantásticos: Ouroboros, Sereias, gárgulas.

No seu conjunto, a arquitetura manuelina  pouco muda relativamente à estrutura formal do gótico alemão e plateresco. O alçado interior das igrejas mantém-se através da orientação este-oeste, da planta, dos sistemas de suporte e cobertura, do cálculo de proporções. As naves da mesma altura, influência das igrejas-salão alemãs, de cinco tramos, ausência de transepto e cabeceiras retangulares são as principais características diferenciais. Apesar de ser essencialmente ornamental, o Manuelino caracteriza-se também pela aplicação de determinadas fórmulas técnicas da altura, como as abóbadas com nervuras polinervadas a partir de mísulas.

Na componente civil destacam-se os palácios, como o Paço de D. Manuel, em Évora, e solares rurais, como o Solar de Sempre Noiva, em Arraiolos, todos de planta retangular.
Na tipologia militar é referência maior o baluarte do Restelo, a Torre de Belém. Um dos primeiros baluartes de artilharia do país, a quebrar a tradição das torres de menagem, a sua planta retangular sobrepõe-se a uma base poliédrica, que penetram Tejo adentro. A retangularidade da planta opõe-se à curvilínea da decoração esculpida. (Daqui)
 
 

domingo, 31 de agosto de 2014

"Indagações" - Poema de Fernando Py


(A maior estátua Art déco no mundo, construída entre 1922-1931)



Indagações
A Leonardo Fróes


De argila e de sangue
somos feitos. Não mais
que a imponderável ânsia
de ascender ao divino
transportando conosco
este fardo humano
de organismo imperfeito.

De suor e de lágrimas
nos tornamos. Quanto
esperamos saber
em nossa ignorância
no intuito de voar
à excelsa plenitude
do espírito supremo?

Quem nos formou? Quem
imaginou e fez
energia e matéria,
todo o Universo
que vemos e sabemos
e os demais mundos todos
que jamais saberemos?

Deixamos o que sabemos
— e o mais que desconhecemos —
aos que depois a terra
habitarem: esses homens
futuros que ignoramos
e mal podemos pressentir
pelo que hoje apresentamos.

Aonde vamos? Aonde
repousará nossa alma
a contínua indagação
que nos eleva além
de simples animais?

Em que páramos finais
existe nossa redenção?


Fernando Py


Fernando Py

Fernando Py - nome completo: Fernando Antônio Py de Mello e Silva - nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 13 de junho de 1935, de família gaúcha. Poeta, colunista e crítico literário, redator e tradutor. Fez o curso primário no Externato Coração Eucarístico, o ginasial no Colégio Santo Inácio e o colegial no Colégio Mallet Soares, todos na cidade natal, onde viveu até 1967, quando se mudou para Petrópolis (RJ), onde reside. Formou-se pela Faculdade de Direito da então Universidade do Estado da Guanabara (atual UERJ), em 1960, porém nunca advogou. Foi funcionário da CAPES, órgão do Ministério da Educação (1958-1959), da Procuradoria do Estado do Rio Grande do Sul na Guanabara (1960-1962) e meteorologista previsor do tempo no Instituto Nacional de Meteorologia, do Ministério da Agricultura, de 1962 até 1994, quando se aposentou.

Colaborou em diversos jornais do Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre, principalmente O Globo, Jornal do Brasil, Jornal da Tarde, Estado de Minas e Correio do Povo. Trabalhou como redator e tradutor em enciclopédias, sobretudo a Grande Enciclopédia Delta Larousse e a Enciclopédia Mirador Internacional. Traduziu obras de autores importantes, como Marcel Proust (Jean Santeuil; Em busca do tempo perdido, etc.), Marguerite Duras (O vice-cônsul; A vida tranqüila, etc.), Honoré de Balzac (A pele de onagro; O primo Pons), Saul Bellow (O legado de Humboldt; Henderson, o rei da chuva), e vários outros. Como colunista literário, trabalhou em jornais de Petrópolis e atualmente assina seção 'Tribuna Literária' na Tribuna de Petrópolis.

Livros publicados: Aurora de vidro (poesia): Rio de Janeiro, Livraria São José, 1962; A construção e a crise (poesia): Rio de Janeiro, Simões Edições, 1969; 4 poetas modernos (poesia, em colaboração): Rio de Janeiro, Cátedra, 1976; Bibliografia comentada de Carlos Drummond de Andrade (pesquisa): Rio de Janeiro, José Olympio / Fundação Casa de Rui Barbosa, 1980 ( 2ª edição, aumentada: Fundação Casa de Rui Barbosa, 2002); Vozes do corpo (poesia): Rio de Janeiro, Fontana, 1981; Dezoito sextinas para mulheres de outrora (poesia): Recife, Edições Pirata, 1981; Chão da crítica (jornalismo literário): Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1984; Antiuniverso (poema): Rio de Janeiro, Sette Letras / Petrópolis: Editora Firmo, 1994; Carlos Drummond de Andrade: poesia (antologia comentada, em colaboração com Pedro Lyra): Rio de Janeiro, AGIR, 1994 (2ª edição: 1998) [Col. Nossos Clássicos, 118]; Sol nenhum (poesia): Rio de Janeiro, UAPÊ, 1998; Antologia poética (40 anos de poesia: 1959-1999): Petrópolis, Poiésis, 2000; Sentimento da morte & Poemas anteriores (poesia): Goiânia, A.S.A., 2003; Uma poesia dialógica: nove resenhas da obra de Pedro Lyra (crítica literária): Fortaleza, UFC, 2003; O poeta Coelho Vaz (conferência): Goiânia, Kelps, 2004; 70 poemas escolhidos: Petrópolis, Catedral das Letras, 2005 .
Ganhou alguns prêmios literários e recebeu (15 de abril de 2003) o título de "Cidadão Petropolitano Honorário". (Daqui)


Cristo Redentor, Visão aproximada da face


Arte Déco


Movimento artístico desenvolvido nas décadas de vinte e trinta do século XX, a Arte Déco conheceu particular expressão na área do design industrial e de mobiliário assim como na produção de pequenas peças (joias, louça e outros objetos de uso prático ou simbólico) ou nas artes gráficas.

Ao nível de arquitetura, a Arte Déco apresentou-se como um estilo eminentemente decorativo, intervindo essencialmente ao nível do desenho de interiores e de espaços comerciais ou no desenho de fachadas sem se traduzir na criação de uma linguagem verdadeira espacial nem na definição de novas tipologias edilícias.

Apesar da especificidade das manifestações que revelou nos diversos contextos culturais e geográficos, alguns denominadores comuns permitem caracterizar este movimento e dotá-lo de um recorte estilístico muito forte. São eles o gosto pelas superfícies brilhantes, polidas ou cromadas, pelas formas curvas e simples, pela construção cuidada e pela utilização de materiais luxuosos.

A designação Arte Déco surgiu como diminutivo da Exposição Internacional de Artes Decorativas e Industriais, realizada em Paris em 1925 e na qual participaram alguns dos mais marcantes artistas desta corrente, o que permitiu confirmar a existência de uma escola formal coerente e nitidamente distinta da antecessora Arte Nova.

Em termos estilísticos, a Arte Déco diferenciou-se da Arte Nova, um movimento estilístico que nessa altura dominava ainda no desenho de pequenas peças utilitárias ou de mobiliário, pelo abandono do excesso formal e ornamental deste último estilo e pela substituição da composição fundamentada na linha curva pela geometrização e rigidez do desenho e das composições de inspiração histórica (nomeadamente na cultura egípcia e grega).


Jardim e Casa de Serralves, Porto, Portugal

Para além de encontrar expressão ao nível do desenho de pequenos objetos ou de edifícios, durante a fase arte déco foram realizados projeto de jardins, de entre os quais se pode destacar o Jardim de Serralves do Porto, projeto de Jacques Gréber datado de 1932.


Responsável pela decoração do interior da Casa de Serralves, a casa Ruhlmann, dirigida por Jacques Émile Ruhlmann, tornou-se um dos expoentes ao nível do desenho de mobiliário e tornou-se famosa pelo projeto do "Le Pavillon d'un Collectioneur" que apresentou na exposição internacional de 1925.


"Spirit of the Wind,"
René Lalique, 'Spirit of the Wind'

"Spirit of the Wind,"
Noutros géneros artísticos, como a joalharia, destacaram-se René Lalique, artista fortemente representado nas coleções da Fundação Calouste Gulbenkian de Lisboa.


Art déco do Chrysler Building, em Nova York,
construído em 1928/1930 pelo arquiteto William Van Alen.



Numa fase mais avançada, a Arte Déco conheceu notável desenvolvimento nos Estados Unidos da América, país onde foi aplicado em inúmeras expressões e formas e integrado num novo sistema de produção que se demarcava claramente da tendência elitista das criações da fase Arte Nova. De facto, a simplificação formal e a racionalização ornamental destes produtos tornavam-nos indicados para seguirem processos de fabrico em série que recusavam a produção manual de alta qualidade.


Nova Iorque vista do Rockefeller Center. Arquitetura art déco

Ao nível da arquitetura destacaram-se alguns edifícios como a londrina fábrica Hoover em Perivale, desenhada por Wallis Gilbert em 1932 ou os icónicos arranha-céus de Nova Iorque, de que se pode nomear o Chrysler Building de 1930, William van Alen's, famoso pelo icónico remate com arcos revestidos de alumínio ou o edifício e espaço interior do Radio City Music Hall, construído em 1931 por Donald Deskey.

Arte Déco. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2014. [Consult. 2014-08-24].
 

quinta-feira, 29 de maio de 2014

"A arte existe não como Campos quer para substituir a vida senão para a completar" - Texto de Ricardo Reis


Frank Lloyd Wright criou uma casa chamada "Fallingwater" (“Água em Queda”), (1936), Pensilvânia
projetada para fundir-se com a encosta do morro onde está incrustada e tendo espaço
 para um riacho correr debaixo dela.


A arte existe, não, como Campos quer, para substituir a vida, senão para a completar


A arte existe, não, como quer Campos, para substituir a vida, senão para a completar. Tudo na vida, exceto o desejo do homem, é irracional e imperfeito; na arte o homem projeta o seu desejo e a vontade de perfeição que há nele. Por isso a obra de arte deve, conservando a forma da vida, substituir-lhe a matéria: a escultura é na limpeza da pedra, que não na porcaria do corpo; a poesia é na música do ritmo lida que não na falta de música da palavra simplesmente falada.
Na arte deve ser eliminado todo elemento que recorde a matéria da vida; conservado tudo que recorde a sua forma. Assim, não aceito como arte o verso nauseabundo de Cesário Verde, a propósito dos cegos:
Rolam os olhos como dois escarros.
Repudio a tese frequente, de que a arte tenha que ir buscar a sua simplicidade à simplicidade infantil. Na criança há simplicidade; na arte há simplificação, que é o contrário. A frase infantil tem analogia com a frase de graça, ou espírito: representa sem hesitação uma ideia que nasce sem refletir, fruto, por vezes, de uma confusão do pensamento.
A arte baseia-se na vida, porém, não como matéria mas como forma. Sendo a arte um produto direto do pensamento, é do pensamento que se serve como matéria; a forma vai buscá-la à vida. A obra de arte é um pensamento tornado vida: um desejo realizado em si mesmo. Como realizado tem que usar a forma da vida, que é essencialmente a realização; como realizado em si mesmo tem que tirar de si a matéria com que realiza.


Ricardo Reis (Heterónimo de Fernando Pessoa)


Estátua de Fernando Pessoa "O Senhor Poeta", 2008
de Francisco Simões, Casino da Póvoa de Varzim 
Póvoa de Varzim




"Muitos não sabem propriamente distinguir a originalidade da excentricidade: uma caracteriza o génio, outra manifesta o louco."


Fernando Pessoa, in Páginas de Estética e de Teoria Literárias 


Fallingwater House (ou Casa Kaufmann ou Casa da Cascata) (1936), Pensilvânia


Considerada uma das mais famosas casas do mundo, a Casa da Cascata (Fallingwater house) ou Casa Kaufmann (nome da família de seu primeiro proprietário) é uma residência localizada 50 milhas a sudeste de Pittsburgh, em Bear Run, na Estrada Rural 1, secção Mill Run de Stewart Township, Condado de Fayette, nas Laurel Highlands dos Montes Allegheny, Estado da Pensilvânia, Estados Unidos.


As  fortes linhas horizontais e verticais são uma característica distinta da "Fallingwater"


O edifício foi projetado em 1934 pelo arquiteto Frank Lloyd Wright, considerado o introdutor da arquitetura moderna no seu país, e construída em 1936 no sudoeste rural da Pensilvânia. No entanto, a sua principal característica é o facto de ter sido erguida parcialmente sobre uma pequena queda de água, servindo-se dos elementos naturais ali presentes (como pedras, vegetação e a própria água) como constituintes da composição arquitetónica. Assim como várias outras obras de Wright, foi construída com materiais experimentais para a época.


O interior da "Fallingwater" representando uma área de estar com móveis projetados por Wright


O proprietário era o homem de negócios Edgar Kaufmann, cujo filho Edgar Jr. fora aluno de arquitetura de Wright. Foi construída no meio dum bosque, no interior duma propriedade da família. Originalmente utilizada como residência de veraneio da família, hoje, a casa é um museu. 


Frank Lloyd Wright 


Frank Lloyd Wright (Richland Center, 8 de junho de 1867Phoenix, 9 de abril de 1959) foi um arquiteto, escritor e educador estadunidense de ascendência galesa
 
Um dos conceitos centrais em sua obra é o de que o projeto deve ser individual, de acordo com sua localização e finalidade. No início de sua carreira, trabalhou com Louis Sullivan, um dos pioneiros em arranha-céus da Escola de Chicago
 
Responsável por mais de mil projetos, dos quais mais de quinhentos construídos, Wright influenciou os rumos da arquitetura moderna com suas ideias e obras e é considerado um dos arquitetos mais importantes do século XX.

Antes de se tornar um dos maiores arquitetos de todos os tempos, ele estudou engenharia e, faltando poucas semanas para sua graduação, abandonou o curso e foi trabalhar em Chicago como desenhista no escritório de Joseph Lyman Silsbee, um arquiteto de renome. 
 
Tornou-se a figura chave da arquitetura orgânica, exemplificada pela Casa da Cascata, um desdobramento da arquitetura moderna que se contrapunha ao International style europeu. 
 
Foi o líder da Prairie School, movimento da arquitetura ao qual pertencem os projetos da Robie House e a Westcott House, e também desenvolveu o conceito de Usonian home, do qual a Rosenbaum House é um exemplo. 
 
Sua obra inclui exemplos originais e inovativos de edifícios dos mais diferentes tipos, incluindo escritórios, templos, escolas, hotéis e museus. Frequentemente detalhava também os elementos a serem empregados no interior de suas construções, tais como mobília e vitrais.


Frank Lloyd Wright (1954)


Seus principais trabalhos foram a Casa da Cascata (também conhecida por Casa Kaufman e considerada a residência moderna mais famosa do mundo) e a sede do Museu Solomon R. Guggenheim em Nova Iorque, um estrutura sem precedentes, que criou um novo paradigma na arquitetura de museus.

Wright escreveu vinte livros, muitos artigos, era um palestrante popular nos Estados Unidos e Europa e grandemente reconhecido ainda em vida. Cheia de acontecimentos dramáticos, frequentemente factos de sua vida pessoal apareciam nas manchetes dos jornais, dentre os quais os mais notáveis foram o incêndio e assassinatos de 1914 em sua residência de verão, Taliesin East. 
 
O Instituto Americano de Arquitetos postumamente conferiu a Wright em 1991 o título de "maior arquiteto americano de todos os tempos"


Obras notáveis: