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quinta-feira, 15 de outubro de 2026

"Chão de Outono" - Poema de Ana Margarida Borges




Andrea Johnson (American artist, b. 1954), "Sienna and Mo", n.d.



Chão de Outono


Da janela
Meço o Outono
Pela cor das folhas cobrindo meu chão
E há cheiro a castanhas
E a fruta madura
Outubro é lagar
Da tua doçura.

Que mãos preciosas tecem iguarias?
Tigelas douradas perfumam as casas
Sabem a marmelo e à minha infância
Que assim vai entrando
Com as suas asas

Macio é o Outono assim temperado
De açúcar e de pau de canela
Trazendo sabores e saberes ancestrais
E as vespas à volta pousando gulosas
Como o meu olhar atrás da janela
Bebendo o milagre das cores outonais

Cedo cai a noite e a nostalgia.
Instantes tão breves. Breve a ilusão
De um cabaz de Outono
Com travo a passado
Trazendo de novo
Uma velha canção

Quando dou por mim
Os frutos do estio
São gostosas geleias
Barradas no pão

No frio do inverno
Só mesmo o calor
Da tua mão


Ana Margarida Borges


Andrea Johnson,'Morning Cloaks and Grapevines', n.d.
 

Outono 

folha seca
sobre o travesseiro
acorda borboleta
 

Alice Ruiz
, Haikai,
 do livro 'Desorientais'
 
 

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

"O Outono" - Poema de Olavo Bilac

 

Andrea Johnson (American artist, born 1954), 
'Bluebirds and Persimmons', 2014.


O Outono

IV

Coro das quatro estações:

Há tantos frutos nos ramos, 
De tantas formas e cores! 
Irmãs! Enquanto dançamos, 
Saíram frutos das flores! 

O outono:

Sou a sazão mais rica: 
A árvore frutifica 
Durante esta estação; 
No tempo da colheita, 
A gente satisfeita 
Saúda a Criação.

Concede a Natureza 
O prémio da riqueza 
Ao bom trabalhador, 
E enche, contente e ufana, 
De júbilo a choupana 
De cada lavrador.

Vede como do galho, 
Molhado inda de orvalho, 
Maduro o fruto cai… 
Interrompendo as danças, 
Aproveitai, crianças! 
Os frutos apanhai!

 Coro das quatro estações: 

Há tantos frutos nos ramos,
De tantas formas e cores!
Irmãs! Enquanto dançamos,
Saíram frutos das flores!


Olavo Bilac,
Outono, da série Quatro Estações,
em Poesias Infantis, 1904.



Andrea Johnson
, "Mo on Windowsill", n.d.


"Há uma quietude de outono nas cores."

"Es gibt eine Stille des Herbstes bis in die Farben hinein."


Hugo von Hofmannsthal (Escritor austríaco, 1874
–1929),
'Buch der Freunde' (Livro dos Amigos) - p. 35,
Insel-Verlag, Leipzig, 1922.