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domingo, 15 de novembro de 2015

"Cenário de Natal sem o Natal" - Poema de António Manuel Couto Viana


Paolo Veronese, 'The Holy Family with the Infant St. John the Baptist'


Cenário de Natal sem o Natal


Nenhuma estrela luz, com mais brilho no céu. 
Não oiço rumor d’asa ou de vagido 
É meia-noite já. E ainda não nasceu. 
O que terá acontecido? 

Eu, para aqui ajoelhado, 
A memória da infância a pedir-me alegria, 
Todo o presépio armado 
... E a mangedoira vazia! 

O silêncio apavora: 
Nem uma loa, nem o som de um sino. 
Porquê tanta demora? 
Não mais irá nascer o meu menino? 

Nenhum sinal de sobrenatural 
No cenário onde a fé não sublima nem arde. 
Por isso, o meu Natal 
Vai chegar tarde. 

(Para sempre tarde?) 


in 'Mínimos'

sábado, 31 de outubro de 2015

"Natal cada Natal" - Poema de António Manuel Couto Viana


Paolo Veronese, Madonna and Child with Saint Elizabeth, the Infant Saint John the Baptist, 
and Saint Catherine, 1565-70, Oil on canvas



Natal cada Natal


Quando na mais sublime dor, 
A mulher dá à luz, 
Há sempre um Anjo Anunciador 
A murmurar-lhe ao coração — Jesus! 

Cada criança é o Céu que vem 
P’ra nos remir do pecado 
E as palhas d’oiro de Belém 
Espalham-se no berço, como um Sol espelhado 

Por sobre o lar presepial, o brilho 
Da estrela abre o convite dos portais: 
— Vinde adorar a floração do filho 
No alvoroço da raiz dos pais. 


in 'Mínimos'

segunda-feira, 13 de abril de 2015

"Não Choreis os Mortos" - Poema de Pedro Homem de Melo




Não Choreis os Mortos


Não choreis nunca os mortos esquecidos 
Na funda escuridão das sepulturas. 
Deixai crescer, à solta, as ervas duras 
Sobre os seus corpos vãos adormecidos. 

E quando, à tarde, o Sol, entre brasidos, 
Agonizar... guardai, longe, as doçuras 
Das vossas orações, calmas e puras, 
Para os que vivem, nudos e vencidos. 

Lembrai-vos dos aflitos, dos cativos, 
Da multidão sem fim dos que são vivos, 
Dos tristes que não podem esquecer. 

E, ao meditar, então, na paz da Morte, 
Vereis, talvez, como é suave a sorte 
Daqueles que deixaram de sofrer. 


Pedro Homem de Melo, in "Caravela ao Mar"



Tintoretto, como era conhecido Jacopo Robusti, (Veneza, ca. 1518 — 31 de Maio de 1594) foi um dos pintores mais radicais do "maneirismo".


Maneirismo

O termo "Maneirismo", que originalmente foi empregue para definir a pintura amaneirada e formalista de um grupo de pintores italianos de meados do século XVI, como Rosso Fiorentino e Pontormo, foi mais tarde utilizado para indicar um período artístico que, desenvolvido na centúria de quinhentos, encerrou o Alto Renascimento  em Itália e antecedeu o Barroco.

(Alto Renascimento Renascimento Plenoou até Renascimento Clássico, consiste num curto período de tempo (c. 1495-1520) em que um grupo de quatro génios – BramanteLeonardo da VinciRafael Miguel Ângelo, aprofundou as conquistas artísticas dos seus predecessores e elevou o Renascimento à sua máxima expressão.)

Durante o século XVI, a rígida estrutura espacial e gramatical do Renascimento, baseada no cumprimento de regras e de proporções harmónicas simples sofre um processo de decomposição e de enriquecimento, aceitando novas qualidades como a tensão, a instabilidade e a complexidade.

Na terceira década do século XV, as bases políticas, sociais e culturais sobre as quais se desenvolvera o Renascimento, tinham-se transformado enormemente. A Itália, invadida pela França e pela Espanha, perdeu nessa altura a sua independência, gerando-se um clima de instabilidade política ao qual se associou a crise interna da Igreja Católica, minada por uma rebelião que conduziu quase metade da Europa ao protestantismo. Foi precisamente esta Igreja que, empenhada numa profunda revisão dos seus fundamentos filosóficos organizou em 1547 o Concílio de Trento, apresentando-se então como um dos principais agentes desta reorientação cultural e artística.

  • Arquitetura
A diluição dos cânones clássicos estava já presente nos projetos finais de Donato Bramante  e de Miguel Ângelo, dois dos mais marcantes arquitetos humanistas. Um dos primeiros edifícios maneiristas, a Galleria degli Uffizi foi construída em Florença por Giorgio Vasari. O mais interessante e influente arquiteto do século XVI foi Andrea Palladio. Centrando a sua atividade em Vicenza, para onde desenha inúmeras Villas (residências nobres rurais) e palácios urbanos, realizou também alguns projetos de igrejas para Veneza. O seu trabalho mais divulgado é a Villa Capra (também conhecida como Villa Rotonda),  um edifício inteiramente simétrico, de planta quadrada (pontuada por uma cúpula central), em cujas fachadas este arquiteto aplicou pórticos de templos romanos. Neste projeto as proporções geométricas, tanto no desenho da planta como na composição dos alçados ganharam especial significado simbólico. 

Giacomo Vignola, um arquiteto mais conhecido pelo seu Tratado de Arquitetura que pelos trabalhos de arquitetura, realizou, na segunda metade do século o projeto para a Igreja de Jesus de Roma. Este templo, sede da ordem dos Jesuítas, procurava encarnar e sintetizar o espírito da Igreja contrareformista, saída do Concílio de Trento, assumindo-se como um dos edifícios mais influentes deste período. Acompanhando a expansão desta ordem jesuítica por todos os continentes, esta igreja tornar-se-á um dos modelos fundamentais do Barroco

Uma das mais notáveis construções maneiristas portuguesas, diretamente influenciada pela obra de Palladio e pelo tratado de Serlio, é o claustro de D. João III do Convento de Cristo em Tomar, projetado por Filipe Terzio. Outro projeto deste arquiteto, a Igreja de São Vicente de Fora (Lisboa), construída nos finais de quinhentos, representa a plena assimilação do modelo de templo contra-reformista, anunciado pela Igreja de Jesus de Roma.

  • Artes plásticas e Decorativas
Tal como na arquitetura, ao nível das artes plásticas o maneirismo constituiu um período de intensa liberdade crativa, determinando uma rutura com os modelos clássicos pela eleição de qualidades formais e simbólicas como o artifício, a inquietude, o oblíquo e o assimétrico.

"Juízo Final", fresco executado por Michelangelo para a parede da Capela Sistina (1534-41), representou uma das primeiras pinturas realizadas dentro do espírito da Contrarreforma. Mas já na década anterior se começaram a desenhar os contornos formais daquilo que constituiria a gramática maneirista. Protagonizado por pintores italianos como Rosso Fiorentino, Pontormo, Parmigianino, e Agnolo Bronzino, rapidamente este movimento alcançou uma dimensão internacional.

Tintoretto, expoente máximo do maneirismo veneziano, desenvolveu uma pintura de carácter anticlássico mas elegante, influenciada pela obra de Ticiano e de Michelangelo, que se destacava pelas pinceladas livres e rápidas, pelo acentuado claro-escuro e pelo abandono dos valores compositivos clássicos, como a simetria a e proporção. 

El Greco, um pintor de origem grega mas igualmente formado em Veneza e posteriormente radicado em Espanha, desenvolveu uma linguagem bastante original, cruzando a tradição da Escola Veneziana com influências bizantinas. Os seus quadros, invarialvelmente de tema religioso, transmitiam uma exaltada espiritualidade, pela intensidade do cromatismo e da textura, pelo sentido de movimento e violência das formas e pela deformação das figuras representadas. 

Sem alcançar o nível de densenvolvimento da pintura, a escultura do século XVI foi dominada pelos últimos trabalhos de Michelangelo, como as estátuas tumulares da Sacristia Nova de S. Lourenço em Florença, ou as esculturas inacabadas do túmulo do Papa Júlio II, que o próprio artista designou de "Escravos"



 uma das mais conhecidas obras do Maneirismo.


Giambologna ou Giovanni Bologna, escultor florentino, realizou (cerca de 1580) uma das esculturas mais significativas deste estilo, "O Rapto das Sabinas", uma complexa composição de escala monumental, com três figuras que se movem em espiral ascendente. 
Desenvolvendo um estilo mais sereno e elegante, Benvenuto Cellini tornou-se conhecido pelas elegantes e requintadas peças de ourivesaria.


  • Literatura
Aspeto literário que aponta para um certo culto formal, para conceitos subtis, para um sentido negativo da vida. Depois do estudo da produção do século XVII, poderemos ver que Camões, na sua época, é já um poeta amaneirado a fazer a transição da sobriedade clássica para os exageros do Barroco, quer pela subtileza conceitual que afirma no soneto «Amor é fogo que arde sem se ver», quer por uma forma de expressão onde é evidente o preciosismo da linguagem, quer, ainda, pelo conteúdo da sua mensagem poética. Nesta, a nota de desalento constitui uma inspiração importante; isto pode observar-se na epopeia, no episódio do Adamastor e na elegia aos mortos pelo escorbuto. Como aqueles, o poeta é um vencido face ao destino. (Daqui)

terça-feira, 16 de agosto de 2011

"Mona Lisa" - Pintura de Leonardo da Vinci


Leonardo da VinciMona Lisa or La Gioconda (1503–1505/1507), Louvre, Paris, France


Mona Lisa (1503–1507 — Louvre) é o retrato que mais tem rendido, em termos de literatura — tem dado origem a contos, romances, poemas e até mesmo óperas (e paródia) desde seu tempo, como a Monna Vanna de Salai — em toda a história da arte. Foi uma obra famosa desde o momento da sua criação; e inspirou muitos, como o jovem Rafael, que se embebedou nela. Seu sorriso subtil é visto em sua crueldade e tem sido considerado o implacável sorriso de mulher que escraviza os homens. Outros foram deslumbrados pelo seu encanto, pela sua doçura. Para o crítico Walter Pater, simboliza o "espírito moderno com todos os seus traços patogênicos", considerando como a "beleza extraída desde o interior, trabalhando a carne, célula por célula". Provocado pelo mestre no modelo com o toque do alaúde, como citado por Vasari: "Mona Lisa era muito bela e Leonardo, ao mesmo tempo que a pintava, procurava que tivesse alguém cantando, tocando algum instrumento ou brincando. Desta forma, o modelo foi mantido em um bom humor e não adotava um aspecto triste, cansado [...]". (Daqui) 



Detalhe da face, mostrando o efeito subtil do sfumato
particularmente nas sombras em torno dos olhos.

Detalhe dos olhos de Lisa 

Detalhe da  boca de Lisa 

Detalhe das mãos de Lisa, com a mão direita apoiada no seu lado esquerdo. 
Leonardo escolheu este gesto em vez de um anel de casamento para descrever Lisa
 como uma mulher virtuosa e fiel esposa.
 
 
 Mona Lisa

A pintura "Mona Lisa", realizada pelo pintor renascentista Leonardo da Vinci, representa uma enigmática figura feminina sobre uma paisagem que tem sido interpretada como o retrato de uma dama, provavelmente florentina. Apesar das reduzidas dimensões que apresenta (setenta e sete por cinquenta e três centímetros), adquiriu um significado mítico que ultrapassa em muito a sua real importância para a história da arte, eclipsando outras obras de maior interesse do seu próprio autor. Este fascínio advém em grande parte da ambígua e idealizada expressão da personagem, transmitida pelo seu misterioso sorriso.
Imersa numa enigmática e complexa teia de interpretações pouco consensuais, esta pintura tem vindo a iludir todas as tentativas de atribuição cronológica e de identificação da figura representada. 

Uma das versões, que recolheram maior unanimidade ou, pelo menos, maior divulgação, deve-se ao historiador e artista Giorgio Vasari que, em meados do século XVI, atribuiu a execução desta pintura a 1505. Vasari procurou com esta cronologia acentuar o seu retrato de um Leonardo genial (ideia que ainda perdura), tornando-o no mais importante e influente pintor renascentista. De facto, esta data permitia-lhe estabelecer uma filiação leonardesca para muitas pinturas de retratos da autoria de outro importante pintor renascentista, Rafael e realizadas precisamente por volta desta data. 

Segundo autores mais recentes, as características formais e estilísticas, nomeadamente ao nível da paisagem, do tratamento da cor e da modelação do panejamento, remetem esta obra para um período mais tardio, posterior a 1510. É de facto possível estabelecer um paralelo entre esta pintura e a solução cromática do negro sobre negro do quadro "A Virgem dos Rochedos". 

Outra das dificuldades tem sido a interpretação temática (embora seja quase dogmaticamente reconhecido como um retrato) assim como a identificação da figura representada. Em 1550 Vasari atribuiu a uma pintura de Leonardo o nome de Gioconda, identificando a personagem como sendo Lisa Gherardini, mulher do mercador florentino Francesco del Giocondo, embora sem qualquer prova documental. No entanto só em 1625, Cassiano del Pozzo identificou esta pintura com o retrato da Gioconda descrito por Vasari. Apesar de esta teoria ter sido posta em causa, é geralmente aceite que este quadro é o retrato de uma dama florentina, no qual Leonardo trabalhava durante os últimos anos de vida, quando residia em França

Tal como todos os quadros de Leonardo da Vinci, esta pintura foi realizada sobre tábua (embora em Itália fosse já frequente a utilização de suportes em tela, desde o início da carreira do artista). Abandonando a têmpera, o pintor utilizou tintas de óleo que lhe permitiram aplicar, tanto na figura como na paisagem, um processo expressivo conhecido por sfumato (esfumado). Este processo consistia na modelação das formas através de gradações delicadas de luz e sombra, obtidas pela mistura suave dos tons e das cores e pela diluição dos contornos, criando uma atmosfera velada e difusamente iluminada. 

O grande rigor, perfeição e meticulosidade da representação de todos os elementos contidos no quadro foram suportados pelo aprofundado conhecimento da realidade (possibilitada pelo espírito analítico e científico de Leonardo) e pela observação cuidada dos fenómenos e dos objetos que pintou.
O quadro "Mona Lisa" encontra-se exposto no Museu do Louvre em Paris. (Daqui)