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quinta-feira, 11 de março de 2021

"Saudade" - Poema de Pablo Neruda


Camille Pissarro (Danish-French, 1830-1903), March Sun, Pontoise, 1875 – óleo sobre tela,
Kunsthalle, Bremen, Germany



Saudade 
 
 
Saudade - O que será... não sei... procurei sabê-lo
em dicionários antigos e poeirentos
e noutros livros onde não achei o sentido
desta doce palavra de perfis ambíguos.

Dizem que azuis são as montanhas como ela,
que nela se obscurecem os amores longínquos,
e um bom e nobre amigo meu (e das estrelas)
a nomeia num tremor de cabelos e mãos.

Hoje em Eça de Queiroz sem cuidar a descubro,
seu segredo se evade, sua doçura me obceca
como uma mariposa de estranho e fino corpo
sempre longe - tão longe! - de minhas redes tranquilas.

Saudade... Oiça, vizinho, sabe o significado
desta palavra branca que se evade como um peixe?
Não... e me treme na boca seu tremor delicado...
Saudade... 


Pablo Neruda
, in "Crepusculário"
Tradução de Rui Lage 


Camille Pissarro, Jalais Hill, Pontoise, 1867, Metropolitan Museum of Art


"A saudade é um morcego cego que falhou o fruto e mordeu a noite."
 
 

terça-feira, 13 de outubro de 2020

"A Cidade e os Livros" - Poema de António Cícero


Alfred Morgan (British painter,1836-1924), "An Omnibus Ride to Piccadilly Circus: 
Mr Gladstone Travelling with Ordinary Passengers",  London, 1884-85.



A Cidade e os Livros
                                                             
                                                                                          para D.Vanna Piraccini

O Rio parecia inesgotável
àquele adolescente que era eu.
Sozinho entrar no ónibus Castelo,
saltar no fim da linha, andar sem medo
no centro da cidade proibida,
em meio à multidão que nem notava
que eu não lhe pertencia - e de repente,
anónimo entre anónimos, notar
eufórico que sim, que pertencia
a ela, e ela a mim -, entrar em becos,
travessas, avenidas, galerias,
cinemas, livrarias: Leonardo
da Vinci Larga Rex Central Colombo
Marrecas Íris Meio-Dia Cosmos
Alfândega Cruzeiro Carioca
Marrocos Passos Civilização
Cavé Saara São José Rosário
Passeio Público Ouvidor Padrão
Vitória Lavradio Cinelândia:
lugares que antes eu nem conhecia
abriam-se em esquinas infinitas
de ruas doravante prolongáveis
por todas as cidades que existiam.
Eu só sentira algo semelhante
ao perceber que os livros dos adultos
também me interessavam: que em princípio
haviam sido escritos para mim
os livros todos. Hoje é diferente,
pois todas as cidades encolheram,
são previsíveis, dão claustrofobia
e até dariam tédio, se não fossem
os livros infinitos que contêm.


António Cícero
,
in A cidade e os livros, 2002
 
 
Alfred Morgan, Reading Bluebeard, 1881
 
 
 “Só tardiamente ganhamos a coragem de assumir aquilo que sabemos.” 
 
 

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

"A Ponte de Ferro" - Poema de Yves Bonnefoy


Willem Koekkoek (1839 – 1885), A Morning Walk by a Dutch Canal


A Ponte de Ferro


Existe ainda por certo ao fim de uma longa rua 
Onde andava eu criança um pântano estagnado 
Retângulo pesado de morte ao céu negro. 

Desde então a poesia 
Separou de outras águas suas águas, 
Beleza alguma, ou cor a vão reter, 
Por ferro ela angustia-se e por noite. 

Nutre um longo 
Pesar de margem morta, uma ponte de ferro 
Lançada à outra margem mais noturna ainda 
É sua só memória e só real amor. 


Tradução de Mário Laranjeira


Willem KoekkoekDutch street scene by a canal 
 
 
"A verdadeira generosidade para com o futuro consiste em dar tudo ao presente."
 


segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

"Somos todos casos excepcionais" - Texto de Albert Camus


Vincent Desiderio, Exodus, 2013


Somos todos casos excepcionais 

 
«Somos todos casos excepcionais. Todos queremos apelar de qualquer coisa! Cada qual exige ser inocente, a todo o custo, mesmo que para isso seja preciso inculpar o género humano e o céu. Contentaremos mediocremente um homem, se lhe dermos parabéns pelos esforços graças aos quais se tornou inteligente ou generoso. Pelo contrário, ele rejubilará, se se admirar a sua generosidade natural. Inversamente, se dissermos a um criminoso que o seu crime nada tem com a sua natureza, nem com o seu carácter, mas com infelizes circunstâncias, ele ficar-nos-à violentamente reconhecido. Durante a defesa, escolherá mesmo este momento para chorar. No entanto, não há mérito nenhum em ser-se honesto, nem inteligente, de nascença! Como se não é certamente mais responsável em ser-se criminoso por natureza que em sê-lo devido às circunstâncias. Mas estes patifes querem a absolvição, isto é, a irresponsabilidade, e tiram, sem vergonha, justificações da natureza ou desculpas das circunstâncias, mesmo que sejam contraditórias. O essencial é que sejam inocentes, que as suas virtudes, pela graça do nascimento, não possam ser postas em dúvida, e que os seus crimes, nascidos de uma infelicidade passageira, nunca sejam senão provisórios. Já lhe disse, trata-se de escapar ao julgamento. Como é difícil escapar e melindroso fazer, ao mesmo tempo, com que se admire e desculpe a própria natureza, todos procuram ser ricos. Porquê? Já o perguntou a si mesmo? Por causa do poder, certamente. Mas sobretudo porque a riqueza nos livra do julgamento imediato, nos retira da turba do metropolitano para nos fechar numa carroçaria niquelada, nos isola em vastos parques guardados, em carruagens-cama, em camarotes de luxo. A riqueza, caro amigo, não é ainda a absolvição, mas a pena suspensa, sempre fácil de conseguir...»

Albert Camus, in 'A Queda'


Albert Camus


Albert Camus (Mondovi, 7 de novembro de 1913 — Villeblevin, 4 de janeiro de 1960) foi um escritor, romancista, ensaísta, dramaturgo e filósofo francês nascido na Argélia. Foi também jornalista militante engajado na Resistência Francesa e nas discussões morais do pós-guerra.

Na sua terra natal viveu sob o signo da guerra, fome e miséria, elementos que, aliados ao sol, formam alguns dos pilares que orientaram o desenvolvimento do pensamento do escritor franco-argelino. De pai francês e mãe de origem espanhola, cedo Camus conheceu o gosto amargo da morte. Seu pai morreu em 1914, na Batalha do Marne durante a Primeira Guerra Mundial. Sua mãe então foi obrigada a mudar-se para Argel, para a casa de sua avó materna, no famoso bairro operário de Belcourt, onde anos mais tarde, durante a guerra de descolonização da Argélia houve um massacre de árabes. 

O período de sua infância, apesar de extremamente pobre é marcada por uma felicidade ligada à natureza, que ele volta a narrar em O Avesso e o Direito, mas também em toda a sua obra. Na casa, moravam além do próprio Camus, seu irmão que era um pouco mais velho, sua mãe, sua avó e um tio um pouco surdo, que era tanoeiro (Tanoeiro ou toneleiro é um artesão dedicado ao fabrico de barris, pipas ou tonéis para embalar, conservar e transportar mercadorias, principalmente líquidos. Os barris podem ser feitos de madeira (carvalho, castanho, mogno, acácio ou eucalipto), profissão que Camus teria seguido se não fosse pelo apoio de um professor da escola primária Louis Germain, que viu naquele pequeno pied-noir um futuro promissor. A princípio, sua família não via com bons olhos o fato de Albert Camus seguir para a escola secundária, sendo pobre, e o próprio Camus diz que tomar essa decisão foi difícil para ele, pois sabia que a família precisava da renda do seu trabalho e, portanto, ele deveria ter uma profissão que logo trouxesse frutos - como a profissão do seu tio. No fundo, Camus também gostava do ambiente da oficina onde o tio trabalhava. Há um conto escrito por ele que tem como cenário a oficina, e no qual a camaradagem entre os trabalhadores é exaltada. 

Sua mãe trabalhava lavando roupa para fora, a fim de ajudar no sustento da casa. Durante o segundo grau, ele quase abandonou os estudos devido aos problemas financeiros da família. Foi neste ponto que um outro professor foi fundamental para que o ganhador do prémio Nobel de 1957 seguisse estudando e se graduasse em filosofia: Jean Grenier. Tanto Grenier quanto o velho mestre Germain serão lembrados, posteriormente, pelo escritor. 

Seu primeiro livro "O Avesso e o Direito" assim como "Bodas em Tipasa" foram publicados quando ele ainda residia na Argélia. Mas durante o tempo da ocupação além de trabalhar em jornais e editar o jornal clandestino, Camus se dedicou a outra de suas paixões: o Teatro. Ele já havia participado de um grupo de teatro ligado ao partido comunista quando ainda morava na Argélia, e ao sair do partido comunista montou um outro grupo que apresentava peças clássicas de teatro aos trabalhadores. 

Conhece Sartre em 1942 e tornam-se bons amigos no tempo de pós-guerra. Conheceram-se devido ao livro "O Estrangeiro" sobre o qual Sartre escreveu elogiosamente, dizendo que o autor seria uma pessoa que ele gostaria de conhecer. Um dia em uma festa em que os dois estavam, Camus se apresentou a Sartre, dizendo-se o autor do livro. A amizade durou até 1952, quando a publicação de "O Homem Revoltado" provocou um desentendimento público entre Sartre e Camus. 

Camus morreu em 1960 vítima de um acidente de automóvel. Em sua maleta estava contido o manuscrito de "O Primeiro Homem", um romance autobiográfico. Por uma ironia do destino, nas notas ao texto ele escreve que aquele romance deveria terminar inacabado. Ao receber a notícia da morte de seu filho, Catherine Hélène Camus apenas pode dizer: "Jovem demais." Coincidentemente ela também morreu no mesmo ano que seu filho: 1960.


Vincent Desiderio, Cockaigne, 1993-2003, Óleo sobre tela, 112 x 153 


"Qualquer um pode tomar o leme quando o mar está calmo."

(Públio Siro)

Públio Siro (85 a.C. - 43 a.C.) foi um escritor latino da Roma antiga. Era nativo na Síria e foi feito escravo e enviado para a Itália, mas graças ao seu talento, ganhou o favor de seu senhor, que o libertou e o educou.

quarta-feira, 27 de março de 2013

O último discurso de “o grande ditador” - Charlie Chaplin


Jackson Pollock, Nº5, 1948


O último discurso de “O Grande Ditador”

Charlie Chaplin

"Sinto muito, mas não quero ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não quero governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria apenas de ajudar: judeus, não judeus, negros ou brancos.

Todos nós desejamos ajudarmo-nos uns aos outros. São assim os seres humanos. Queremos viver para o bem do próximo e não para o seu infortúnio. Por que razão nos havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Há espaço para todos neste mundo. A Terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades.

O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza! Porém, perdemo-nos. A cobiça envenenou a alma dos homens, fez erguerem-se no mundo as muralhas do ódio, e tem-nos feito marchar a passos largos para a miséria e para a morte. Criámos a era da velocidade, mas sentimo-nos aprisionados dentro dela. A Máquina, que produz abundância, tem-nos deixado na penúria. O nosso conhecimento, transformou-nos em cépticos; a nossa inteligência, fez-nos duros e cruéis. Pensamos muito e sentimos muito pouco. Muito mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Muito mais do que de inteligência, precisamos de afecto e de ternura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo estará perdido.

A aviação e a rádio aproximaram-nos mais. A sua própria natureza é um apelo eloquente à bondade do homem. Um apelo à fraternidade universal, à união de todos nós. Neste preciso momento a minha voz chega a milhares de pessoas pelo mundo fora, milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas… vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes.
Aos que me podem ouvir, eu digo: “ Não desesperem! A desgraça que se abateu sobre nós não é mais do que o fruto da cobiça em agonia, da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores caem e o poder que arrebataram ao povo, ao povo há-de regressar. E assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca perecerá.

Soldados! Não vos entregueis a esses brutais que vos desprezam, que vos escravizam, que controlam as vossas vidas, que ditam os vossos actos, as vossas ideias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como gado e vos usam como carne para canhão. Não sóis máquinas! Homens é que sóis! E com o amor da humanidade nas vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar… os que não se fazem amar e os inumanos!

Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito que o Reino de Deus está dentro do Homem – não de um só homem ou grupo de homens, mas de todos os homens! Está em vós! Vós, o Povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela, de a tornar uma maravilhosa aventura. Portanto – em nome da Democracia – usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um Mundo Novo, um Mundo Bom que a todos assegure uma oportunidade de trabalho, um futuro para a juventude e a segurança à velhice.

É com estas promessas que gente perversa tem subido ao poder. Mas só para abusar da vossa credulidade. Não cumprem o que prometem. Nunca cumprirão! Os ditadores libertam-se, escravizando, porém, o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, derrubar as fronteiras nacionais, pôr fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um Mundo de razão, um mundo onde a ciência e o progresso conduzam a prosperidade de todos. Soldados, em nome da Democracia, unamo-nos!

Hannah, estás a ouvir-me? Onde estiveres, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol começa a romper as nuvens que se dispersam! Estamos a sair da treva para a luz! Começamos a entrar num mundo novo – um mundo melhor, onde os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e começa, afinal, a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos Hannah! Ergue os olhos!"

Charlie Chaplin, em "O Grande Ditador", outubro de 1940


Discurso de Charlie Chaplin em "O grande ditador"



"Durante milénios o mundo foi semelhante a essas pinturas italianas da Renascença onde, sobre as lajes frias, são torturados homens enquanto outros olham para outro lado na distracção mais perfeita. O número dos «desinteressados» era vertiginoso em comparação com o dos interessados. O que caracterizava a história era a quantidade de pessoas que não se interessavam pela desgraça dos outros. Algumas vezes os desinteressados também se tornavam vítimas. Mas passava-se tudo no meio da distracção geral e uma coisa compensava a outra. Hoje toda a gente faz menção de se interessar. Nas salas do palácio as testemunhas voltam-se de súbito para o flagelado."
Albert Camus

 
Galeria de Jackson Pollock
Jackson Pollock, o pintor do Expressionismo Abstrato


Paul Jackson Pollock, (Cody, Wyoming, 28 de janeiro de 1912 — Springs, 11 de agosto de 1956) foi um pintor norte-americano e referência no movimento do expressionismo abstrato.
Pollock começou seus estudos em Los Angeles e depois mudou-se para New York. Homem de personalidade volátil e tendo vários problemas com o alcoolismo, em 1945 ele casou-se com a pintora Lee Krasner, que se tornaria uma importante influência em sua carreira e em seu legado.
Desenvolveu uma técnica de pintura, criada por Max Ernst, o 'dripping' (gotejamento), na qual respingava a tinta sobre suas imensas telas; os pingos escorriam formando traços harmoniosos e pareciam entrelaçar-se na superfície da tela. Pollock foi muito importante para o 'dripping'; o quadro "UM" é um exemplo dessa técnica. Pintava com a tela colocada no chão para sentir-se dentro do quadro. Pollock parte do zero, do pingo de tinta que deixa cair na tela elabora uma obra de arte. Além de deixar de lado o cavalete, Pollock também não usa mais pincéis.
A arte de Pollock combina a simplicidade com a pintura pura e suas obras de maiores dimensões possuem características monumentais. Com Pollock, há o auge da pintura de ação (action painting). A tensão ético-religiosa por ele vivida o impele aos pintores da Revolução mexicana. Sua esfera da arte é o inconsciente: seus signos são um prolongamento do seu interior. Apesar de ter seu trabalho reconhecido e com exposições por vários países do mundo, Pollock nunca saiu dos Estados Unidos. Morreu em um acidente de carro em 11 de agosto de 1956.  (daqui)


Jackson Pollock - Number 1,  (Lavender Mist), 1950,
National Gallery of Art

Jackson Pollock - Autumn Rhythm, 1950


Jackson Pollock - The She Wolf, 1943


Jackson Pollock - The key, 1946


Jackson Pollock - Blue (Moby Dick) - c. 1943


Jackson Pollock - Stenographic Figure – 1942


Jackson Pollock - The tea cup, 1946


terça-feira, 26 de março de 2013

"Noivado" - Poema de Machado de Assis


Ferdinand Georg Waldmüller, O Adeus à noiva pelos pais
 Óleo sobre madeira, 51,5 x 65 - Museu de Viena

Ferdinand Georg Waldmüller, A Despedida da noiva após o casamento


Noivado


Vês, querida, o horizonte ardendo em chamas?
Além desses outeiros
Vai descambando o sol, e à terra envia
Os raios derradeiros;
A tarde, como noiva que enrubesce,
Traz no rosto um véu mole e transparente;
No fundo azul a estrela do poente
Já tímida aparece.

Como um bafo suavíssimo da noite,
Vem sussurrando o vento
As árvores agita e imprime às folhas
O beijo sonolento.
A flor ajeita o cálix: cedo espera
O orvalho, e entanto exala o doce aroma;
Do leito do oriente a noite assoma
Como uma sombra austera.

Vem tu, agora, ó filha de meus sonhos,
Vem, minha flor querida;
Vem contemplar o céu, página santa
Que amor a ler convida;
Da tua solidão rompe as cadeias;
Desce do teu sombrio e mudo asilo;
Encontrarás aqui o amor tranquilo...
Que esperas? que receias?

Olha o templo de Deus, pomposo e grande;
Lá do horizonte oposto
A lua, como lâmpada, já surge
A alumiar teu rosto;
Os círios vão arder no altar sagrado,
Estrelinhas do céu que um anjo acende;
Olha como de bálsamos rescende
A c’roa do noivado.

Irão buscar-te em meio do caminho
As minhas esperanças;
E voltarão contigo, entrelaçadas
Nas tuas longas tranças;
No entanto eu preparei teu leito à sombra
Do limoeiro em flor; colhi contente
Folhas com que alastrei o solo ardente
De verde e mole alfombra.

Pelas ondas do tempo arrebatados,
Até à morte iremos,
Soltos ao longo do baixel da vida
Os esquecidos remos.
Calmos, entre o fragor da tempestade,
Gozaremos o bem que amor encerra;
Passaremos assim do sol da terra
Ao sol da eternidade.


Machado de Assis, in 'Falenas'


Joaquim Maria Machado de Assis aos 57 anos, 1896
(Brasil, 1839- 1908)


Ferdinand Georg Waldmüller, Forno de cal em Hinterbrühl, 1845
Óleo sobre madeira, 44 x 55,5 
 

"Não é nenhuma vergonha ser-se feliz; vergonhoso é ser feliz sozinho."

Albert Camus 


 Ferdinand Georg Waldmüller, Peregrinação interrompida, a ajuda, 1853


"Amar uma pessoa significa querer envelhecer com ela."

Albert Camus 


Ferdinand Georg Waldmüller, O peregrino doente, 1859 - Óleo sobre madeira, 71 x 87


"Não ser amado é falta de sorte, mas não amar é a própria infelicidade."

Albert Camus 


Albert Camus 
França, 1913-1960
Escritor/Novelista/Ensaísta/Compositor/Filósofo

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

"Minuciosa formiga" - Poema de Alexandre O'Neill




Minuciosa formiga


Minuciosa formiga
não tem que se lhe diga
leva a sua palhinha
asinha, asinha.

Assim devera eu ser
e não esta cigarra
que se põe a cantar
e me deita a perder.

Assim devera eu ser
de patinhas no chão,
formiguinha ao trabalho
e ao tostão.

Assim devera eu ser
se não fora
não querer.




 
 
 
"Sem trabalho, toda vida apodrece. Mas, sob um trabalho sem alma a vida sufoca e morre." 
 
(Albert Camus)


Adriana Calcanhoto - "Formiga Bossa Nova "


domingo, 2 de outubro de 2011

"Verdes são os campos" - Poema de Luís de Camões


Camille Pissarro (French artist, 1830-1903), Laundresses at Eragny, 1901



Verdes são os campos


Verdes são os campos, 
De cor de limão: 
Assim são os olhos 
Do meu coração.

Campo, que te estendes 
Com verdura bela; 
Ovelhas, que nela 
Vosso pasto tendes,
De ervas vos mantendes 
Que traz o Verão, 
E eu das lembranças 
Do meu coração. 

Gados que pasceis 
Com contentamento, 
Vosso mantimento
Não no entendereis; 
Isso que comeis 
Não são ervas, não:
São graças dos olhos 
Do meu coração. 





Françoise Hardy - Tous les garcons et les filles


"Não quero ser um génio... Já tenho problemas suficientes ao tentar ser um homem."


"I don't even want to be a genius at all, finding it quite difficult enough to be a man."
Carnets, 1935-1942‎ - Volume 2, Página 88, Albert Camus - H. Hamilton, 1963 - 153 páginas