Mostrar mensagens com a etiqueta Ben Goossens. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ben Goossens. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

"Meditação" - Poema de Fernanda de Castro


 
Ben Goossens (Belgium artist / Surrealist photographer, b. 1945)


Meditação 


Às vezes, quando a noite vem caindo, 
Tranquilamente, sossegadamente, 
Encosto-me à janela e vou seguindo 
A curva melancólica do Poente. 

Não quero a luz acesa. Na penumbra, 
Pensa-se mais e pensa-se melhor. 
A luz magoa os olhos e deslumbra, 
E eu quero ver em mim, ó meu amor! 

Para fazer exame de consciência 
Quero silêncio, paz, recolhimento 
Pois só assim, durante a tua ausência, 
Consigo libertar o pensamento. 

Procuro então aniquilar em mim, 
A nefasta influência que domina 
Os meus nervos cansados; mas por fim, 
Reconheço que amar-te é minha sina. 

Longe de ti atrevo-me a pensar 
Nesse estranho rigor que me acorrenta: 
E tenho a sensação do alto mar, 
Numa noite selvagem de tormenta. 

Tens no olhar magias de profeta 
Que sabe ler no céu, no mar, nas brasas... 
Adivinhas... Serei a borboleta 
Que vendo a luz deixa queimar as asas. 

No entanto — vê lá tu!— Eu não lamento 
Esta vontade que se impõe à minha... 
Nem me revolto... cedo ao encantamento... 
— Escrava que não soube ser Rainha! 
 

Fernanda de Castro
(1900–1994),
in "Ante-Manhã", 1919



Ben Goossens (Belgium artist / Surrealist photographer, b. 1945)


segunda-feira, 23 de abril de 2012

"É um adeus" - Poema de Miguel Torga


Ben Goossens (Belgium artist / Surrealist photographer, b. 1945)


É um adeus... 


É um adeus...
Não vale a pena sofismar a hora!
É tarde nos meus olhos e nos teus...
Agora,
O remédio é partir discretamente,
Sem palavras,
sem lágrimas,
sem gestos.
De que servem lamentos e protestos
Contra o destino?
Cego assassino
A que nenhum poder
Limita a crueldade,
Só o pode vencer
A humanidade
Da nossa lucidez desencantada.
Antes da iniquidade
Consumada,
Um poema de lírico pudor,
Um sorriso de amor,
E mais nada.
 

Miguel Torga
,
in Antologia Poética



Obra de Ben Goossens
 

"Como a nossa fragilidade o concebe e o pratica, o amor é um sentimento essencialmente incómodo. Mal dois olhares se trocam e duas mãos se enlaçam, vem logo a tragédia das suspeitas, dos ciúmes, das zangas, das recriminações, estragar momentos que deviam ser os mais belos, os mais alegres, os mais despreocupados da vida" – Júlio Dantas


Obra de Ben Goossens 


"Pode secar-se, num coração de mulher, a seiva de todos os amores; 
nunca se extinguirá a do amor materno." 
 
Júlio Dantas


Júlio Dantas


Júlio Dantas (Lagos, 19 de Maio de 1876 — Lisboa, 25 de Maio de 1962 (86 anos)) foi um escritor, médico, político e diplomata, que se distinguiu como um dos mais conhecidos intelectuais portugueses das primeiras décadas do século XX. Na sua atividade intelectual foi um polígrafo, cultivando os mais variados géneros literários, da poesia ao romance e ao jornalismo, mas foi como dramaturgo que ficou mais conhecido, em particular pela sua peça A Ceia dos Cardeais (1902), uma das mais populares produções teatrais portuguesas de sempre. Na política foi deputado, Ministro da Instrução Pública e Ministro dos Negócios Estrangeiros (1921-1922 e 1923), terminando a sua carreira pública como embaixador de Portugal no Brasil (1941-1949). Considerado retrógrado por alguns intelectuais coevos, como foi o caso de Almada Negreiros, que foi ao ponto de escrever o Manifesto Anti-Dantas e de publicamente o desconsiderar, conseguiu granjear durante a vida grande prestígio social e literário, prestígio que decaiu após a sua morte. Foi eleito sócio da Academia de Ciências de Lisboa (1908), instituição a que presidiu a partir de 1922.


"Os bons livros que têm o direito de viver, defendem-se e justificam-se por si próprios."

Júlio Dantas
 


AUREA - Okay Alright - Official Video

domingo, 22 de abril de 2012

"Fado das mulheres de vida fácil" - Poema de José Régio



Ben Goossens (Belgium artist / Surrealist photographer, b. 1945)


Fado das mulheres de vida fácil


Certas das ruas mais tortas,
Mais sujas, ou mais sombrias,
De qualquer pobre cidade
Tem certas velhas portas,
Janelas com gelosias,
Um ar de cumplicidade…

Qualquer centro superfino
Casas tem bem semelhantes,
Mas de bem mais aparato,
Que atraem bons visitantes
Com seu grande ar clandestino
De vício rico e recato

Ali fuma, bebem, comem,
Dormem rebanhos de estrelas
A que chão caídas hoje!
Quem lá vai…, - prova que é homem:
Prova-o servindo-se de elas;
Serve-se, paga-lhes, foge…

E homens há de toda a sorte,
Doentes de todo o mal,
Tarados de todo o vício,
Que naquele amor venal,
Filho do crime e da morte
Vão buscar gosto ou flagício.

Amor…?! Nem amor nem nada,
O mais que lá vão quaisquer
Buscar a tais labirintos
É carne martirizada
Quem nem quiseram sequer
Se lá não foram famintos.

Pois que amor darão, aquelas
Com quem nos vamos deitar
Mas mal olhamos na rua?


José Régio
, in 'Fado', 1941
 
 

'Fado', Versos de José Régio (1901–1969)
e desenhos do irmão Júlio (1902–1983).
Editora: Arménio Amado, 1.ª edição.
 

RESUMO

Fado (1941) partilha daqueles traços marcantes da poesia do autor evidenciando uma faceta trágica e expressionista que por momentos atinge algum paroxismo. O sujeito lírico revela-se sensível à tragédia de tipos sociais e humanos afligidos por uma chaga moral, um fado, e que não vislumbram nem encontram qualquer oportunidade social de se realizarem. Há neste livro (cf. “Fado dos Pobres”), como nalguma da sua narrativa, vultos humanos e sociais – velhos, prostitutas, dementes, estropiados, artistas marginais, mulheres desencantadas - dignos de Raul Brandão. Constata-se uma atenção ao “pathos” feminino (“Fado das mulheres de vida fácil”), que aliás também atravessa a galeria feminina da narrativa do autor (nomeadamente no mencionado livro Histórias de Mulheres) e uma espécie de reconciliação amarga ou comunhão secreta com estas almas perdidas (cf. “Fado do Amor”; “Fado-Canção”).
 


Imagem de Ben Goossens



"A embriaguez é a ruína da razão; é a velhice precoce; é a morte temporária."
 
Bertrand Russell




Imagem de Ben Goossens



"Os homens nascem ignorantes, não estúpidos. Eles se tornam estúpidos pela educação."
 
Bertrand Russell



Imagem de Ben Goossens


"Inestimável é o valor do sentimento que faz um homem e uma mulher se amarem com paixão, imaginação e ternura; desconhecê-lo é uma grande desventura."
 
Bertrand Russell 



Imagem de Ben Goossens


"O mal dos tempos de hoje é que os estúpidos vivem cheios de si e os inteligentes cheios de dúvidas." 

Bertrand Russell
[Matemático, filósofo, escritor, ensaísta e historiador inglês, 1872–1970]

"Nevoeiro" - Poema de Fernando Pessoa


Ben Goossens (Belgium artist / Surrealist photographer, b. 1945)


Nevoeiro

 
Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer —
Brilho sem luz e sem arder
Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a hora!

                                  Valete,  Fratres
 
 10-12-1928
 
 
 
 
Obras de Ben Goossens












"Pudesse eu não ter laços nem limites" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andreson



Ben Goossens (Belgium artist / Surrealist photographer, b. 1945)


Pudesse eu não ter laços nem limites


Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Pra poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes.


Sophia de Mello Breyner Andreson,
in 'Poesia', 1944


Ben Goossens (Belgium artist / Surrealist photographer, b. 1945)


Tudo serei


Nave
Ave
Moinho
E tudo mais serei
Para que seja leve
Meu passo
Em vosso caminho.


Hilda Hilst 



Ben Goossens (Belgium artist / Surrealist photographer, b. 1945)


Venho do Sono


Venho do Sono,
desse fluído país
do pensamento visível,
dos endereços divinos,
dos nomes de amor,
das gloriosas ressurreições.

Venho do Sono.

Aí! distâncias profundas…
E olho-me ao espelho."


Cecília Meireles 


 
Ben Goossens (Belgium artist / Surrealist photographer, b. 1945)


Saudade

Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.

Clarice Lispector, Jornal do Brasil, 1968
 
 

Ben Goossens (Belgium artist / Surrealist photographer, b. 1945)
 

Os Sonhos

Além da conversa das mulheres, são os sonhos que seguram o mundo na sua órbita. Mas são também os sonhos que lhe fazem uma coroa de luas, por isso o céu é o resplendor que há dentro da cabeça dos homens, se não é a cabeça dos homens o próprio e único céu.

José Saramago, in Memorial do Convento
 

Ben Goossens (Belgium artist / Surrealist photographer, b. 1945)


Semente


Se o traço da vida
tem destino a morte,
com a minha escrita
inverto a sentença.
Quando escrevo versos,
conto minha história
e brinco de ser deus
pois, omnipotente,
vou deixar na letra
bem traçada e lida
para sempre viva
a minha semente.


Débora Siqueira Bueno



Débora Siqueira Bueno, nascida em Belo Horizonte, MG; é médica, psiquiatra, poetisa. 
 
Trabalhou na Universidade Estadual de Campinas por cerca de vinte anos, onde, dentre outras atividades, dedicou-se à implantação de um ambulatório público de psicoterapia psicanalítica, do qual foi supervisora. Atualmente exerce a clínica em seu consultório. 
 
Participa da antologia Saciedade dos Poetas Vivos vol. 7, Intimidades. 
 
O início da produção literária deu-se na maturidade, após um período no qual esteve doente. Surgiu como uma necessidade premente de escrever, caminho que se apresentou para a nomeação e elaboração de experiências, sensações, afetos e lembranças. 
 
A poesia impôs-se como forma, para acolher a um transbordamento de significações diante de uma situação limite. "Creio que as experiências limítrofes nos convocam com muita força ao compromisso com o próprio destino. Daí a intenção de ampliar o espaço para a escrita em minha vida — o que implica fazer escolhas, promover mudanças e, principalmente, expor-me ao leitor". 

"Ler significa reler e compreender, interpretar" - Texto de Leonardo Boff


 
Ben Goossens (Belgium artist / Surrealist photographer, b. 1945)



“Ler significa reler e compreender, interpretar. Cada um lê com os olhos que tem. E interpreta a partir de onde os pés pisam. Todo ponto de vista é a vista de um ponto. Para entender como alguém lê, é necessário saber como são seus olhos e qual é sua visão de mundo. Isso faz da leitura sempre uma releitura. A cabeça pensa a partir de onde os pés pisam. Para compreender, é essencial conhecer o lugar social de quem olha. Vale dizer, como alguém vive, com quem convive, que experiências tem, em que trabalha, que desejos alimenta, como assume os dramas da vida e da morte e que esperanças o animam. Isso faz da compreensão sempre uma interpretação.”

Leonardo Boff, 1997

[Leonardo Boff, pseudónimo de Genézio Darci Boff (Concórdia, 14 de dezembro de 1938), é um teólogo brasileiro, escritor e professor universitário, expoente da Teologia da Libertação no Brasil. Foi membro da Ordem dos Frades Menores, mais conhecidos como Franciscanos. É respeitado pela sua história de defesa pelas causas sociais e atualmente debate também questões ambientais.]


Imagem de  Ben Goossens
 
 
"Uma coisa bonita era para se dar ou para se receber, não apenas para se ter."
 
 (Clarice Lispector)


 
Imagem de  Ben Goossens


"Eu continuo a ser uma coisa só: um palhaço, o que me coloca em nível mais alto 
do que o de qualquer político." 
 
 (Charles Chaplin)
 

 
Imagem de  Ben Goossens


"Há gente que, em vez de destruir, constrói; em lugar de invejar, presenteia; em vez de envenenar, embeleza; em lugar de dilacerar, reúne e agrega." 
 
 (Lya Luft)
 

 
Imagem de  Ben Goossens


"De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto." 

(Ruy Barbosa) 
 

Ruy Barbosa

Ruy Barbosa de Oliveira (Salvador, 5 de novembro de 1849 — Petrópolis, 1 de março de 1923) foi um jurista, político, diplomata, escritor, filólogo, tradutor e orador brasileiro. Um dos intelectuais mais brilhantes do seu tempo, foi um dos organizadores da República e coautor da constituição da Primeira República juntamente com Prudente de Morais. Ruy Barbosa atuou na defesa do federalismo, do abolicionismo e na promoção dos direitos e garantias individuais. Primeiro Ministro da Fazenda do novo regime, marcou sua breve e discutida gestão pelas reformas modernizadoras da economia. Destacou-se, também, como jornalista e advogado. Foi deputado, senador, ministro. Em duas ocasiões, foi candidato à Presidência da República. Empreendeu a Campanha Civilista contra o candidato militar Hermes da Fonseca. Notável orador e estudioso da língua portuguesa, foi membro fundador da Academia Brasileira de Letras, sendo presidente entre 1908 e 1919. Como delegado do Brasil na II Conferência da Paz, em Haia (1907), notabilizou-se pela defesa do princípio da igualdade dos Estados. Sua atuação nessa conferência rendeu -lhe o apelido de "O Águia de Haia". Teve papel decisivo na entrada do Brasil na I Guerra Mundial. Já no final de sua vida, foi indicado para ser juiz da Corte Internacional de Haia, um cargo de enorme prestígio, que recusou. 


Imagem de  Ben Goossens


"A liberdade não é um luxo dos tempos de bonança; é o maior elemento da estabilidade." 
 
(Ruy Barbosa) 
 
 

sábado, 21 de abril de 2012

"O Constante Diálogo" - Poema de Carlos Drummond de Andrade



Ben Goossens (Belgium artist / Surrealist photographer, b. 1945)


O Constante Diálogo


Há tantos diálogos 

Diálogo com o ser amado 
o semelhante 
o diferente 
o indiferente 
o oposto 
o adversário 
o surdo-mudo 
o possesso 
o irracional 
o vegetal 
o mineral 
o inominado 

Diálogo consigo mesmo 
com a noite 
os astros 
os mortos 
as ideias 
o sonho 
o passado 
o mais que futuro 

Escolhe teu diálogo 
e 
tua melhor palavra 
ou 
teu melhor silêncio. 
Mesmo no silêncio e com o silêncio 
dialogamos. 


Carlos Drummond de Andrade,
in 'Discurso da Primavera'


Obras de Ben Goossens

























"A poesia é um jogo em que os poetas manejam cartas desconhecidas deles próprios."

(Carlos Drummond de Andrade) 
 

"A Nossa Casa" - Poema de Sebastião da Gama


 
Ben Goossens (Belgium artist / Surrealist photographer, b. 1945)


A Nossa Casa


A luz acesa
(petróleo débil)
E tu inquieta, feliz, à minha espera.
Cismam livros e versos sobre a mesa.
Sonolentos, os cravos na varanda
Cabeceiam nos vidros.

Ando lá fora.
(Lá fora, a ventania,
A noite, o frio dos astros,
A Poesia decerto...)

À luz débil, insistes no bordado.
Os nossos filhos dormem
(levantaste-te agora para vê-los ...)

Irónica, a Poesia
Sabe que ando lá fora a procurá-la,
Indiferente ao vento e à noite fria.
 
 
 

Obras de Ben Goossens