Mostrar mensagens com a etiqueta Isaac Bashevis Singer. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Isaac Bashevis Singer. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 15 de agosto de 2024

"Mania da Solidão" - Poema de Cesare Pavese


 Dining Table (Cuadro de Comedor), 1864, Museo Soumaya.
 


Mania da Solidão


Como um jantar frugal junto à clara janela,
Na sala já está escuro mas ainda se vê o céu.
Se saísse, as ruas tranquilas deixar-me-iam
ao fim de pouco tempo em pleno campo.
Como e observo o céu — quem sabe quantas mulheres
estão a comer a esta hora — o meu corpo está tranquilo;
o trabalho atordoa o meu corpo e também as mulheres.

Lá fora, depois do jantar, as estrelas virão tocar
a terra na ancha planura. As estrelas são vivas,
mas não valem estas cerejas que como sozinho.
Vejo o céu, mas sei que entre os tetos de ferrugem
brilha já alguma luz e que, por baixo, há ruídos.
Um grande golo e o meu corpo saboreia a vida
das árvores e dos rios e sente-se desprendido de tudo.
Basta um pouco de silêncio e as coisas imobilizam-se
no seu verdadeiro sítio, como o meu corpo imóvel.

Cada coisa está isolada ante os meus sentidos,
que a aceita impassível: um cicio de silêncio.
Cada coisa na escuridão posso sabê-la,
como sei que o meu sangue circula nas veias.
A planura é água que escorre entre a erva,
um jantar de todas as coisas. Cada planta e cada pedra
vivem imóveis. Escuto os alimentos e eles alimentam-me as veias
com todas as coisas que vivem nesta planura.

A noite importa pouco. O retângulo de céu
sussurra-me todos os fragores e uma estrela miúda
debate-se no vazio, longe dos alimentos,
das casas, distinta. Não se basta a si mesma
e precisa de muitas companheiras. Aqui no escuro, sozinho,
o meu corpo está tranquilo e sente-se soberano.
 

Cesare Pavese, in "Trabalhar cansa".
Tradução e introdução de Carlos Leite.
Lisboa; Edições Cotovia.


José Agustín Arrieta, Still Life with Cat and Birds, oil on canvas, 63 x 86 cm.
 

"Nada beneficiará tanto a saúde humana e aumentará as chances de sobrevivência da vida na terra quanto a evolução para uma dieta vegetariana. A ordem de vida vegetariana, por seus efeitos físicos, influenciará o temperamento dos homens de uma tal maneira que melhorará em muito o destino da humanidade.” 
 
Albert Einstein (Nobel de Física, 1921)
 
 
José Agustín Arrieta, Dining room (Cuadro de Comedor), c. 1857 - 1859.
 

"Ser vegetariano é discordar: discordar do curso que as coisas tomaram hoje. Fome, crueldade, desperdício, guerras - precisamos nos posicionar contra essas coisas. O vegetarianismo é a minha forma de me posicionar." 
 
 Isaac Bashevis Singer (Nobel de Literatura, 1978)
 

José Agustín Arrieta, Dining Table, c. 1840 - 1860Museo Soumaya
 
 
"Um jantar! Que horrível! Estão me usando como pretexto para matar todos aqueles pobres animais. Obrigado por nada. Agora se fosse um jejum solene de três dias, em que todos ficassem sem comer animais em minha honra, eu poderia pelo menos fingir que estou desinteressado. Mas não, sacrifícios de sangue não estão na minha lista."
 
George Bernard Shaw (Nobel de Literatura, 1925), em carta de 30 de dezembro de 1929,
perante a possibilidade de ser homenageado com um banquete com grande diversidade de carnes.
 
 

Jose Agustin Arrieta, Still Life, c. 1870, San Diego Museum of Art.


"Eu não tenho dúvidas de que é parte do destino da raça humana, na sua evolução gradual, parar de comer animais, tal como as tribos selvagens deixaram de se comer umas às outras quando entraram em contacto com os mais civilizados."

Henry David Thoreau, em "Walden ou A Vida nos Bosques", 1854.

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

"As quatro estações" - Poema de Rui Caeiro


Nicolas Poussin (1594–1665), The Autumn (The Bunch of Grapes Taken from the Promised Land)
L’Automne (La Grappe de raisin rapportée de la Terre promise), 1660-64
 

 
As quatro estações


Vem o Inverno com o seu carrinho do frio
a apertar nas curvas; a Primavera e os seus
paroxismos que não duram muito; o Verão
e os seus langores de ainda menos; e por fim,
mas também pode ser no meio ou no princípio,
lá vens tu, que não falhas nunca, melancólico
e misericordioso Outono, a estenderes-me a taça
de vinho puro que eu bebo lenta e gravemente
com aquela lentidão, aquela gravidade característica
dos que não têm religião nenhuma, ou têm apenas essa. 
 
 
in "Este é o Meu Sangue", pág.20, 
Tea For One, 2012

["Este é o meu sangue" (antologia de poemas inéditos sobre o vinho), em que participam Abel Neves, A. Maria de Jesus, Clara Caldeira, Inês Dias, Jaime Rocha, John Frey, Levi Condinho, Luís Pedroso, Manuel da Silva Ramos, Manuel de Freitas, Marta Chaves, Ricardo Álvaro, Rui Azevedo Ribeiro, Rui Caeiro e Vasco Gato. A edição é da Tea For One e o grafismo da Inês Mateus.]

 
 Poussin, The Winter (The Flood) / L’Hiver ou Le Déluge, 1660-1664
 
 
 Poussin, The Spring (The Garden of Eden) / Le Printemps (Le Paradis Terrestre), 1660-1664
 

Poussin, The Summer (Ruth and Boaz) / L’été (Ruth et Boaz), 1660-1664


"O que a natureza nos dá nunca é obsoleto. Porque o que a natureza cria contém eternidade."
(Nobel de Literatura, 1978)
 
 
Isaac Bashevis Singer 
 
 Escritor norte-americano de etnia judaica, Icek-Hersz Zynger nasceu a 14 de julho de 1904, em Leoncin, na Polónia, e faleceu a 24 de julho de 1991. Filho de um rabino, acompanhou a família na sua mudança para Varsóvia, quando contava apenas quatro anos de idade. O pai mantinha a esperança de que Isaac se viesse também a tornar um rabino, pelo que o educou nos preceitos tradicionais judaicos, dando-lhe a ler a lei talmúdica e textos aramaicos.
No ano de 1920 ingressou no Seminário Rabínico Tachkemoni, mas logo abandonou os seus estudos, mudando-se para uma aldeia típica judaica, Bilgorai, onde ganhou o seu sustento dando aulas de Hebraico. Ao fim de três anos regressou a Varsóvia, para junto do irmão, um escritor que o encorajou e lhe deu emprego como revisor de provas no Literarische Bleter, onde era editor. Singer começou então a fazer traduções, versando para o Iídiche autores como Thomas Mann, Knut Hamsun e Erich Maria Remarque.
O seu romance de estreia, Der Sotn In Goray, foi publicado pela primeira vez na Polónia em 1932. Utilizando um estilo que remontava ao das crónicas judaicas medievais, foi escrito originalmente em Iídiche, e contava a história da vinda de um falso messias no século XVII.
Em 1933 passou a trabalhar como editor-associado da publicação Globus e, em 1935, tornou-se correspondente estrangeiro de um jornal diário. Nesse mesmo ano separou-se da família e decidiu emigrar para os Estados Unidos da América, fixando-se em Nova Iorque. Deu início a uma colaboração com o jornal Forverts, impresso nos Estados Unidos em idioma Iídiche. Adotou a cidadania norte-americana em 1947.
Em 1950 publicou Die Familje Moshkat, o seu primeiro romance a ser traduzido para o Inglês. A obra fazia parte de uma trilogia que descrevia a saga de uma família judaica, continuada com os dois volumes Der Hoyf In Forverts (1952-55), versados para a língua inglesa com os títulos The Manor (1967) e The Estate (1969).
Der Kunstnmakher Fun Lublin apareceu em 1960, a que se seguiram, entre outras obras de sucesso, Der Knecht (1962) e Shosha (1978), ainda em Iídiche e, em tradução, When Schliemmel Went To Warsaw and Other Stories (1968), escrito para um público infantil, Enemies, A Love Story (1972, Inimigos, Uma História de Amor) e The Penitent (1983).
Em 1964 foi eleito membro do Instituto Nacional das Artes e Letras norte-americano, tornando-se no único a escrever numa língua estrangeira e, em 1978, foi honrado com o Prémio Nobel da Literatura.
(daqui)