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quarta-feira, 5 de março de 2025

"O Pássaro Cativo" - Poema de Olavo Bilac

 

  
Vitor Hugo Matos (Arquiteto e ilustrador português),
"Estudo para a Liberdade"



O Pássaro Cativo 


Armas, num galho de árvore, o alçapão;
E, em breve, uma avezinha descuidada,
Batendo as asas cai na escravidão.

Dás-lhe então, por esplêndida morada,
A gaiola dourada;
Dás-lhe alpiste, e água fresca, e ovos, e tudo:
Porque é que, tendo tudo, há de ficar
O passarinho mudo,
Arrepiado e triste, sem cantar?

É que, criança, os pássaros não falam.
Só gorjeando a sua dor exalam,
Sem que os homens os possam entender;
Se os pássaros falassem,
Talvez os teus ouvidos escutassem
Este cativo pássaro dizer:

“Não quero o teu alpiste!
Gosto mais do alimento que procuro
Na mata livre em que a voar me viste;
Tenho água fresca num recanto escuro
Da selva em que nasci;

Da mata entre os verdores,
Tenho frutos e flores,
Sem precisar de ti!
Não quero a tua esplêndida gaiola!
Pois nenhuma riqueza me consola

De haver perdido aquilo que perdi ...
Prefiro o ninho humilde, construído
De folhas secas, plácido, e escondido
Entre os galhos das árvores amigas ...

Solta-me ao vento e ao sol!
Com que direito à escravidão me obrigas?
Quero saudar as pompas do arrebol!
Quero, ao cair da tarde,
Entoar minhas tristíssimas cantigas!
Por que me prendes? Solta-me covarde!
Deus me deu por gaiola a imensidade:
Não me roubes a minha liberdade ...
Quero voar! voar! ...’’

Estas coisas o pássaro diria,
Se pudesse falar.
E a tua alma, criança, tremeria,
Vendo tanta aflição:
E a tua mão tremendo, lhe abriria
A porta da prisão...


Olavo Bilac, em "Poesias infantis",
Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1929.

 

Vitor Hugo Matos, "Liberdade"


"A palavra é o instrumento irresistível da conquista da liberdade."

(Ruy Barbosa)

quarta-feira, 25 de julho de 2012

"Liberdade" - Poema de Bocage


Abel Manta, Vitral: "Ad Divitias Per Scientiam Numerorum", 1933



Liberdade 


Liberdade querida e suspirada, 
Que o Despotismo acérrimo condena! 
Liberdade, a meus olhos mais serena 
Que o sereno clarão da madrugada! 

Atende à minha voz, que geme e brada 
Por ver-te, por gozar-te a face amena! 
Liberdade gentil, desterra a pena 
Em que esta alma infeliz jaz sepultada! 

Vem, oh deusa imortal, vem maravilha, 
Vem oh consolação da humanidade, 
Cujo semblante mais que os astros brilha! 

Vem, solta-me o grilhão da adversidade! 
Dos céus descende, pois dos céus és filha, 
Mãe dos prazeres, doce Liberdade! 




Abel Manta, "Primeiro Autorretrato"



Abel Manta

Pintor e caricaturista português, João Abel Manta nasceu a 12 de outubro de 1888, em Gouveia, e morreu a 9 de agosto de 1982, em Lisboa. 
Ingressou na Escola de Belas-Artes de Lisboa em 1908, onde se formou em Pintura, tendo como mestre o pintor Carlos Reis. Após uma estada em Paris entre 1919 e 1926, onde expôs algumas das suas obras nos salons, Abel Manta regressou a Portugal. Paralelamente ao exercício da docência da disciplina de Desenho, consagrou-se como pintor naturalista, particularmente no campo do retrato, da natureza-morta e da paisagem (As Maçãs, Folgosinho e Vistas de Gouveia, de 1925, são alguns dos quadros desta época). Em 1926, realizou uma exposição individual, às quais se seguiram exposições coletivas como o Salão de outono da Academia Nacional de Belas-Artes do mesmo ano e várias exposições no Salão de Arte Moderna do Secretariado da Propaganda Nacional.
Ao longo da sua carreira, foi agraciado com alguns prémios importantes, tendo conquistado, por exemplo, o prémio atribuído pela Fundação Calouste Gulbenkian, na categoria de pintura, na I Exposição de Artes Plásticas, em 1957. Em 1979, foi condecorado pelo então Presidente da República, Ramalho Eanes, com a comenda da Ordem de Sant'Iago de Espada.
Abel Manta destaca-se na sua geração pelo conjunto de excelentes retratos de personalidades da época que realizou. A ele se devem igualmente representações de paisagens urbanas, nomeadamente das cidades de Lisboa e do Funchal.
O quadro mais marcante da sua pouco divulgada obra é o Jogo de Damas, de 1927 (Coleção Museu do Chiado). A influência de Cézanne (pintor francês pós-impressionista) manifesta-se no tratamento das superfícies facetadas dos volumes e na acentuação do claro-escuro. A caracterização psicológica das figuras masculina e feminina presentes no quadro é acentuada pela representação dinâmica e quase abstrata do fundo.

Abel Manta. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2012. [Consult. 2012-07-25].


Abel Manta, "Autorretrato com Paleta, 1939"
 
 
 
Abel Manta, "Fumador de Cachimbo, 1928"


Abel Manta, "Folgosinho, 1925"


Abel Manta, "Vista Gouveia,1925"


Abel Manta, "Vista Gouveia, 1925"


Abel Manta, "Jogo de Damas, 1927"


Abel Manta, "Rua de São Bernardo, 1928"


Abel Manta, "Praça Luís de Camões, 1932"


Abel Manta, "Nu,1932"


Abel Manta, "Apolo e as Musas, 1934"


Abel Manta, Vitral: "Nossa Senhora de Belém, 1936"


"Um povo cuja fé se petrificou, é um povo cuja liberdade se perdeu."


sexta-feira, 20 de julho de 2012

"Hoje, só canto para as Mulheres" - Poema de Lopes Morgado


Herbert Blande Sparks (British, 1870–1916), A Rose from a Suitor 


Hoje, só canto para as Mulheres


Hoje,
Só canto para as Mulheres: 

As que passam na rua,
Aquelas que não saírem
Para a rua, as que se encontram
Na cozinha, no escritório,
Ao balcão, na enfermaria,
Na cadeia, no convento,
Na escola, no gabinete,
Na empresa, no sindicato,
No campo, no parlamento,
No lupanar ou na igreja, 

Orientando o tráfego dos homens,
Chorando o filho morto pelos homens
Ou o filho feito à força pelos homens,
Lavando a roupa suja dos seus homens
Ou consertando os nervos rebentados,
Pelo silêncio-garra dos seus homens, 

Essas Mães inconsoláveis
das Praças todas de Maio,
As mães de inocentes mortos
às ordens de homens-herodes, 

As mães fiéis junto às cruzes
Que homens-pilatos ergueram,
Mulheres, Mães, virgens-loucas
De todos os noivos-machos,
Primas, amigas, vizinhas
De casa, de luta e sonho,
De raiva, de crença e vida,
Companheiras, inimigas,
Minhas irmãs, minha Mãe. 

São Mulheres? Hoje basta.
É dia oito de Março:
Dia de eu pagar a renda
à Mulher-Mãe desta casa
Para onde há muitos anos
Mudei ao deixar a sua.
Por isso é que eu hoje canto
Só para as Mulheres: na rua
Ou noutro lado qualquer. 

Salve, Mulher e Mãe! Amén!
E seja o que Deus quiser. 


Lopes Morgado 
(Areias de Vilar, Barcelos, 23/4/1938), 
Sacerdote / Frei da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos,
professor, escritor, poeta, jornalista.


Herbert Blande Sparks (1870-1916), Mother and child in the garden


Herbert Blande Sparks, Untitled


Herbert Blande Sparks, Garden Path


Herbert Blande Sparks, Portrait of a classical beauty on a bed 
of roses before a pond


Herbert Blande Sparks, Family in the Garden


Herbert Blande Sparks 


"Só o bem neste mundo é durável, e o bem, politicamente, é todo justiça e liberdade, formas soberanas da autoridade e do direito, da inteligência e do progresso."

(Ruy Barbosa)

domingo, 22 de abril de 2012

"Ler significa reler e compreender, interpretar" - Texto de Leonardo Boff


 
Ben Goossens (Belgium, 1945-), Surrealist photographer


“Ler significa reler e compreender, interpretar. Cada um lê com os olhos que tem. E interpreta a partir de onde os pés pisam. Todo ponto de vista é a vista de um ponto. Para entender como alguém lê, é necessário saber como são seus olhos e qual é sua visão de mundo. Isso faz da leitura sempre uma releitura. A cabeça pensa a partir de onde os pés pisam. Para compreender, é essencial conhecer o lugar social de quem olha. Vale dizer, como alguém vive, com quem convive, que experiências tem, em que trabalha, que desejos alimenta, como assume os dramas da vida e da morte e que esperanças o animam. Isso faz da compreensão sempre uma interpretação.”

Leonardo Boff, 1997

[Leonardo Boff, pseudónimo de Genézio Darci Boff (Concórdia, 14 de dezembro de 1938), é um teólogo brasileiro, escritor e professor universitário, expoente da Teologia da Libertação no Brasil. Foi membro da Ordem dos Frades Menores, mais conhecidos como Franciscanos. É respeitado pela sua história de defesa pelas causas sociais e atualmente debate também questões ambientais.]


Imagem de  Ben Goossens

  • "Uma coisa bonita era para se dar ou para se receber, não apenas para se ter." - Clarice Lispector
 

 
Imagem de  Ben Goossens

  • "Eu continuo a ser uma coisa só: um palhaço, o que me coloca em nível mais alto do que o de qualquer político." -  Charles Chaplin


 
Imagem de  Ben Goossens

  • "Há gente que, em vez de destruir, constrói; em lugar de invejar, presenteia; em vez de envenenar, embeleza; em lugar de dilacerar, reúne e agrega." - Lya Luft


 
Imagem de  Ben Goossens

  • "De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto." - Ruy Barbosa 


Ruy Barbosa


Ruy Barbosa de Oliveira (Salvador, 5 de novembro de 1849 — Petrópolis, 1 de março de 1923) foi um jurista, político, diplomata, escritor, filólogo, tradutor e orador brasileiro. Um dos intelectuais mais brilhantes do seu tempo, foi um dos organizadores da República e coautor da constituição da Primeira República juntamente com Prudente de Morais. Ruy Barbosa atuou na defesa do federalismo, do abolicionismo e na promoção dos direitos e garantias individuais. Primeiro Ministro da Fazenda do novo regime, marcou sua breve e discutida gestão pelas reformas modernizadoras da economia. Destacou-se, também, como jornalista e advogado. Foi deputado, senador, ministro. Em duas ocasiões, foi candidato à Presidência da República. Empreendeu a Campanha Civilista contra o candidato militar Hermes da Fonseca. Notável orador e estudioso da língua portuguesa, foi membro fundador da Academia Brasileira de Letras, sendo presidente entre 1908 e 1919. Como delegado do Brasil na II Conferência da Paz, em Haia (1907), notabilizou-se pela defesa do princípio da igualdade dos Estados. Sua atuação nessa conferência rendeu -lhe o apelido de "O Águia de Haia". Teve papel decisivo na entrada do Brasil na I Guerra Mundial. Já no final de sua vida, foi indicado para ser juiz da Corte Internacional de Haia, um cargo de enorme prestígio, que recusou. 


Imagem de  Ben Goossens


  • "A liberdade não é um luxo dos tempos de bonança; é o maior elemento da estabilidade." - Ruy Barbosa