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quarta-feira, 28 de abril de 2021

"O portão" - Poema de Lêdo Ivo

 
Max PechsteinThe Red House, 1911 - Oil on canvas, 88.9 × 68.5 cm,
Art Institute of Chicago
 
 
O portão

 
O portão fica aberto o dia inteiro
mas à noite eu mesmo vou fechá-lo.
Não espero nenhum visitante noturno
a não ser o ladrão que salta o muro dos sonhos.
A noite é tão silenciosa que me faz escutar
o nascimento dos mananciais nas florestas.
Minha cama branca como a via-láctea
é breve para mim na noite negra.
Ocupo todo o espaço da mundo. Minha mão desatenta
derruba uma estrela e enxota um morcego.
O bater de meu coração intriga as corujas
que, nos ramos dos cedros, ruminam o enigma
do dia e da noite paridos pelas águas.
No meu sonho de pedra fico imóvel e viajo.
Sou o vento que apalpa as alcachofras
e enferruja os arreios pendurados no estábulo.
Sou a formiga que, guiada pelas constelações,
respira os perfumes da terra e do oceano.
Um homem que sonha é tudo o que não é:
o mar que os navios avariaram,
o silvo negro do trem entre fogueiras,
a mancha que escurece o tambor de querosene.
Se antes de dormir fecho o meu portão
no sonho ele se abre. E quem não veio de dia
pisando as folhas secas dos eucaliptos
vem de noite e conhece o caminho, igual aos mortos
que todavia jamais vieram, mas sabem onde estou
— coberto por uma mortalha, como todos os que sonham
e se agitam na escuridão, e gritam as palavras
que fugiram do dicionário e foram respirar o ar da noite que cheira a jasmim
e ao doce esterco fermentado.
os visitantes indesejáveis atravessam as portas trancadas
e as persianas que filtram a passagem da brisa e me rodeiam.
Ó mistério do mundo! Nenhum cadeado fecha o portão da noite.
Foi em vão que ao anoitecer pensei em dormir sozinho
protegido pelo arame farpado que cerca as minhas terras
e pelos meus cães que sonham de olhos abertos.
À noite, uma simples aragem destrói os muros dos homens.
Embora o meu portão vá amanhecer fechado
sei que alguém o abriu, no silêncio da noite,
e assistiu no escuro ao meu sono inquieto.


Lêdo Ivo
,
do livro “A noite misteriosa”, 1982.
 
 
Max PechsteinDie Schwalben sammeln sich (Ückeritz i. Pommern), 1949
 
 
 A andorinha faz
a sua casa
no vento. 

Albano Martins
(Haicai / Haikai) 
 
 
Max Pechstein, Self-Portrait with Pipe and Hat, 1918
(Expressionism, Fauvism


Max Pechstein (Zwickau, 1881-1955) foi um pintor expressionista alemão e artista gráfico. Formado na Academia de Dresden e na Kunstgewerbeschule, em 1906 foi integrado em Die Brücke
Trabalhou num expressionismo moderado, influenciado pela pintura fauvista francesa, especialmente por Matisse
Em 1908 deslocou-se a Berlim onde participou da fundação da New Secession (1910), o que o levou a ser expulso de Die Brücke em 1912. 
Os seus temas favoritos relacionam-se ao exotismo e à união com a natureza, motivo pelo qual visitou as ilhas Palau do Pacífico em 1914. 
Ligou-se com Der Blaue Reiter, sendo um dos membros do grupo que mais cedo alcançou a popularidade. 
Após a Primeira Guerra Mundial fez parte do Novembergruppe (1918), ensinando na Academia das Artes da Prússia até a chegada do nazismo, que o retirou dos seus cargos e o condenou ao ostracismo. Em 1945 foi reabilitado e trabalhou como professor da Escola Superior de Artes Figurativas.
Max Pechstein faleceu em Berlim Ocidental, a 29 de Junho de 1955. (Daqui)


Max Pechstein, A yellow house  
 
 
Expressionismo
Movimento Artístico
 
 
O Expressionismo designa um movimento cultural que se manifestou nos mais diversos campos artísticos como as artes visuais, o teatro, a literatura e o cinema. Nas artes plásticas (pintura, escultura, fotografia) e na arquitetura, esta tendência, de dimensão internacional desenvolveu-se a partir dos finais do século XIX, tendo conhecido uma importante expansão na Alemanha, no contexto de angústia e de agitação social que antecedeu a Primeira Guerra Mundial.

O Expressionismo apresentou-se em oposição tanto ao sentido cientista do Impressionismo como à vocação decorativa da Arte Nova e caracteriza-se pela procura de formas artísticas que exprimissem mais livre e subjetivamente os sentimentos do artista em relação à realidade. Os quadros tornaram-se o retrato intenso de emoções, transmitidas através de cores violentas e de pinceladas vincadas e as esculturas apresentavam formas agressivas, modelações vincadas e texturas rudes.

As primeiras manifestações que se podem considerar precursoras do movimento expressionista datam de meados de 1880. Entre estas contam-se as obras do pintor holandês Vincent Van Gogh, marcante pelo uso intenso dos valores cromáticos e texturais, e do francês Toulouse-Lautrec, nomeadamente pelos temas abordados e pela liberdade e espontaneidade do desenho. Os pintores Edvard Munch, expoente do Expressionismo nórdico, e James Ensor representaram outro momento de afirmação dos fundamentos da estética expressionista, como temas dramáticos e obsessivos e pela violência das formas e da cor.

Todas estas referências vão cruzar-se no contexto artístico da Alemanha de inícios do século, encontrando eco em artistas que procuram afirmar novos caminhos.

A primeira corrente organizada dentro no interior do movimento expressionista foi o grupo Die Brücke (A Ponte), formado em Dresden em 1905, por Ernst Ludwig Kirchner, Karl Schmidt-Rottluff, Emil Nolde (1867-1956) e Max Pechstein (1881-1955) entre outros, com objetivo de agregar as várias tendências de vanguarda, rejeitando o academismo, o Impressionismo, o Jugendstil e a Secessão. Procurava, através de uma expressão direta, emotiva e muitas vezes violenta, a representação da realidade social e política desse período.

Mais tarde, em 1912, é formado em Munique o grupo Der Blaue Reiter (O cavaleiro azul) pelos pintores Wassily Kandinsky e Franz Marc, que reúne um vasto número de artistas alemães, suíços e russos, constituindo um novo período de afirmação do Expressionismo, mais ligado às manifestações do inconsciente e à atenção aos valores cromáticos e formais.

A corrente Nova Objetividade (Die Neue Sachlichkeit) formada no período entre as duas guerras mundiais, num clima de intensos problemas sociais e de desilusão e decadência de determinadas formas da cultura e da civilização ocidental, assumiu a recuperação e o ressurgimento do Expressionismo, após a interrupação ditada pela Primeira Guerra Mundial. Teve com protagonistas os pintores Otto Dix (1891-1969), George Grosz (1893-1959) e Max Beckmann (1884-1950), cujos trabalhos denunciam uma atitude eminentemente satírica e de crítica social.

A expansão internacional do Expressionismo acentua-se precisamente nesta altura, destacando-se os trabalhos de artistas como Oskar Kokoschka (1886-1980) e Arnold Schoenberg (1874-1951) na Áustria, e de Georges Rouault (1871-1958) e Chaïm Soutine (1894-1943), em França.

A pintura expressionista foi uma das principais precursoras do movimento do Expressionismo Abstrato e do Informalismo, surgidos respetivamente nos Estados Unidos da América e na Europa nas décadas de quarenta e cinquenta.

A escultura expressionista foi grandemente impulsionada pela obra do francês Auguste Rodin. De facto, um dos principais representantes deste movimento no campo da escultura foi Antoine Bourdelle (1861-1929), um dos discípulos do mestre francês. Destacam-se ainda alguns trabalhos do americano Jacob Epstein (1880-1959) e do alemão Ernst Barlach (1870-1938), representando geralmente figuras humanas de carácter maciço às quais imprimem diferentes tipos de distorção e uma modelação livre e intencionalmente imperfeita. (Daqui)
 

 
Max Pechstein, Springtime, 1919
 
 
Mais cedo ou mais tarde
o silêncio virá
perguntar por ti. 


Albano Martins
(Haicai / Haikai) 
 

quinta-feira, 22 de abril de 2021

"Soneto de amor" - Poema de Lêdo Ivo

 
Paul Ranson (French painter and writer, 1861-1909), The Blue Room, ca. 1900
 

Soneto de amor
 
Doce fogo do amor, como me queimas
e me fazes arder por entre neves
como se eu fora a pálida fogueira
acesa pelo sol na noite breve.

Doce rival do fogo verdadeiro,
quanto mais rompo contra as tuas chamas,
elas se alastram mais na minha cama
e, guerreiro, por ti sou guerreado.

Mais me queima teu frio, mais intacto
respiro e te combato; e fatigado
da luta em que me abrasas, mais descanso.

Oculto nos lençóis, fogo de estio,
escorres, ledo e manso como as águas
— a água serena do amoroso rio.
 
 
do livro “Crepúsculo civil”, 1990


 
 Retrato de Paul Ranson, vestido de Nabi, 1890, por Paul Sérusier,
 
[Paul-Élie Ranson (1861-1909) foi um pintor e gravador francês ligado ao grupo Les Nabis ou Nabis.]
 
 
Nabis
 
Nabis designa um pequeno grupo de artistas franceses, formado na década de 1880, que, sob influência da linguagem e técnica pictórica do pintor francês Paul Gauguin, procuram um caminho para uma arte espiritual de dimensão universal, constituindo uma das tendências do movimento simbolista. A designação "nabis", derivada termo hebraico "navi" que significa profeta, deve-se ao poeta Cazalis.

Sérusier, enquanto estudante na academia Julian, foi bastante influenciado por Gauguin e procurou divulgar a sua obra e os respetivos fundamentos formais, reunindo em torno de si um grupo de jovens pintores ávidos pela definição de novos caminhos estéticos. A mostra coletiva de pinturas de artistas impressionistas e sintetistas, realizada em Paris em 1889 permitiu a este grupo o contacto direto com uma mais vasta obra pictórica. Mais tarde descobrem a obra de Van Gogh, de Paul Cézanne e de Toulouse-Lautrec. De forma mais ou menos direta, cruzam ainda influências da cultura popular, das estampas japonesas, dos trabalhos de Gustave Moreau (1826-1898) e dos pintores pré-rafaelitas, assim como dos simbolistas Puvis de Chavannes (1824-1898) e Odilon Redon.

De entre os pintores que integraram o movimento destacava-se o grupo formado pela Academia Julian de Paris, liderado por Pierre Bonnard (1867-1947) e Maurice Denis (1870-1943), o teórico do grupo e autor de uma obra de carácter místico com referências à Escola de Pont-Aven.

Édouard Vuillard (1868-1940) foi o mais interessante dos pintores formados na Escola de Belas-Artes de Paris.

Bonnard e Vuillard, os artistas mais interessantes do grupo, constituíram uma fação independente, à qual se juntou o pintor Henri Rousseau (1844-1910). Desenvolvem trabalhos que procuram acentuar sensações primitivas através de formas em arabesco e de um cromatismo plano que recusa a sensação de profundidade e dilui o contraste entre figura e fundo. Denotando a influência das estampas japonesas e do japonismo, este grupo anuncia em simultâneo a linguagem pictórica do Fauvismo. Abordaram temáticas que incluíam a paisagem e a cena de género (da cultura parisiense ou da vida familiar).

O suíço Félix Vallotton (1865-1925) junta-se ao movimento em 1892, desenvolvendo uma obra que se caracteriza pela representação de figuras alongadas e estilizadas e pela acentuação de uma linearidade de carácter ornamental.

Para além dos pintores, faziam parte do grupo os escultores LacombeAristide Maillol (1894-1944). As suas obras, marcadas ideologicamente pelo culto da beleza e da saúde, representam figuras de forte plasticidade e sensualidade, através do recurso a formas curvas e a uma modelação cuidada.

Tal como se verificava frequentemente nos movimentos artísticos dos finais do século XIX ou de inícios do século XX, a atividade artística não se fixou nas formas expressivas da pintura a da escultura, estendendo-se ao campo das artes decorativas (como o vitral, o cartaz, a ilustração, a gravura) e do teatro. Nesta área é de salientar o trabalho de Félix Vallotton que realizou inúmeros trabalhos de gravura a preto e branco e inventou uma novo processo de xilogravura, que permitia a simplificação do traço e da linha.

A Revue Blanche, fundada pelos irmãos Nathanson, constituiu o instrumento de reflexão filosófica e de divulgação de alguns dos trabalhos pictóricos.

Os membros do grupo Nabis expuseram juntos pela última vez em 1899, numa altura em que a acentuação das divergências linguísticas entre as suas obras levaria a que alguns destes pintores se ligassem a outros movimentos, como o expressionismo alemão.

Alguns ensaios críticos e teóricos foram produzidos por alguns dos elementos do grupo, de entre os quais se destacam Maurice Denis, com os seus livros Teorias e Novas Teorias, publicados respetivamente em 1913 e em 1922 e Paul Sérusier (1864-1927), que escreveu ABC da pintura, editado em 1921. (Daqui)

terça-feira, 6 de abril de 2021

"Descoberta do inefável" - Poema de Lêdo Ivo



Franz Dvorak (Czech, 1862–1927), Bedrich Smetana and his friends in 1865, 1923



Descoberta do inefável
 
                                           À Leda
 
Sem o sublime, que é o poeta? Sem o inefável,
como pode louvar, não traindo a si mesmo,
a plena e estranha juventude da moça a quem ama?
Que é o poeta, que imita as marés,
sem adquirir com o tempo uma serenidade de coisa sempre nua
como se as estrelas estivessem caminhando governadas
pelo seu riso
e seus braços agitassem as árvores feridas pelo clarão da lua?

Sem que seu canto suba até os céus, sufocante música da terra,
que é o poeta?
Libertado estou quando canto. E quero
que minha respiração oriente a vontade das nuvens
e meu pensamento de amor se misture ao horizonte.
Cantando, quero outubro, gosto de lágrima, salsugem,
no instante anterior ao despertar, folha voando.

Sem o inefável, que dura sempre, sem permanecer,
como conseguirei louvar essa moça a quem amo
e que nasce em minha lembrança plena como a noite
e triunfante como uma rosa que durasse eternamente
e não se limitasse à glória de um dia?
Sem o inefável, que valoriza as mãos e faz o Amor voar,
não poderei descer de repente
ao inferno de seu corpo nu.

O sobrenatural ainda existe. E não seremos nós
que alteraremos a indizível ordem das coisas
com as nossas mãos que poderão ficar imóveis
em pleno amor, diante do corpo amado.

É inútil pensar que os anjos morreram
ou se despaisaram, buscando outros lugares.
Eles ainda estão, unidade admirável do Dia e da Noite,
entre as nuvens e as casas em que moramos.

Repentinamente, as vozes da infância nos chamam para a feérica viagem
e lembram que podemos fugir para o longe guardado ainda
no sempre.
Então, nossas necessidades não se reduzem apenas a comer,
dormir e amar.
Temos necessidade de anjos, para ser homens.
Temos necessidade de anjos, para ser poetas.

Vem, incontável música, e anuncia
(ao poeta e ao homem, humilde unidade)
a ressurreição diária dos anjos.
Restaura em mim a certeza de que a folha voando é seu indomável divertimento
pois às vezes sinto que meu primeiro verso foi murmurado talvez
sem que eu soubesse, por um anjo
perturbado com o meu ar desesperado de papel em branco.

Não é a manhã, depositando a semente de alegria no coração
dos homens.
Não é a vida, cântico triunfal descendo sobre as almas.
Não é o poeta, subindo pelos andaimes de carne da lembrança
de uma mulher.

São os anjos, que vieram ligar-nos mais uma vez
à ordem eterna e, à anunciação.
Não nos libertaremos jamais desses anjos
feitos de terra e mar, celestes criaturas
que deixam cair em nós o sol da harmonia.

É inútil matar os anjos.
Eles são invisíveis e traiçoeiros.
De repente, quando nos sentimos seguros, já não somos
os consumidores de instantes, e estamos
entre o Dia e a Noite, no umbral
de uma eternidade vigiada pelos anjos.


Lêdo Ivo
,
do livro “Poesia completa, 2004" 
 
 

sexta-feira, 2 de abril de 2021

"Soneto de outono" - Poema de Lêdo Ivo



Isaac Levitan, Autumn day, Sokolniki, 1879


Soneto de outono


 
Se mais que a forma e mais que o pensamento
guardado na vigília, sem temor.
Fica no meu olhar, como no amor
verteria teu nome em verso atento.

Sê mais que a forma sempre em movimento
tornada mais humana pela dor.
Fica dormindo em mim, quando eu me for
e te deixar entregue ao desalento.

Sê minha mesmo que eu não te conheça
e te ame sem te ver, sempre te vendo
na forma que jamais fuja ou pereça.

Para tocar-te, eu sempre as mãos estendo
mas não te alcanço, e em minhas mãos transformas
teu corpo imaginário em puras formas. 
 
 
do livro “Poesia completa”, 2004



Isaac Levitan, Golden Autumn, 1895
 

Outono

Na despedida
as costas! Solitário
vento de outono.
(Haicai / Haikai / Haiku)
 
 

terça-feira, 30 de março de 2021

"Soneto da Neve" - Poema de Lêdo Ivo


 
Claude Monet (French, 1840 - 1926), Snow Effect at Argenteuil, c. 1875
Nelson-Atkins Museum of Art


Soneto da Neve


Quando te amo, penso sempre na neve,
em uma neve branca como o esperma.
Penso sempre na neve quando te possuo,
ver a neve que cai entre as bétulas.

Em minha meninice sempre desejei
ver a neve cair, atravessar a branca
escuridão da neve que, entre o dia e a noite,
devolve ao mundo negro um branco seminal.

Eu sempre desejei que o mundo fosse a alvura
da neve, da brancura virginal
do alvo lençol imune a qualquer mácula.

E a neve cai em mim e cai na desolada
noite escura da alma, a neve do silêncio,
a imaculada e frígida alvura do nada.

Lêdo Ivo,
do livro "Plenilúnio", 2004

 


Claude Monet, The Magpie, 1868–1869, Musée d'Orsay, Paris


Manhã de neve.
Até mesmo os cavalos
Ficamos olhando.
(Haicai / Haikai / Haiku) 
 

Portrait of Bashō by Hokusai, late 18th century
 
 
Poeta japonês, Basho, pseudónimo de Matsuo Munefusa, é considerado um mestre da forma poética haiku
Nasceu em 1644, numa família de samurais em Ueno, na província de Iga, a sudeste de Kyoto, e faleceu em 1694, durante uma estadia em Osaka. Durante algum tempo serviu Todo Yoshitada que o teria iniciado na arte da poesia. O primeiro poema conhecido de Basho data de 1662. Em 1664, alguns dos seus poemas foram publicados numa antologia de poesia em Kyoto. Nesta época adotou o nome samurai Munefusa. Contudo, dois anos depois, na sequência da morte de Yoshitada, Basho deixou a terra natal e viveu muito provavelmente em Kyoto durante alguns anos. Procurou aprofundar a sua instrução junto de professores de filosofia, caligrafia e poesia chinesa clássica. Entretanto o seu trabalho aparecia em várias antologias e começava a ser conhecido no mundo literário de Edo (atual Tóquio). 
 
Em 1672 mudou-se para a capital. Aparentemente só se decidiu a enveredar profissionalmente pela carreira das letras alguns anos depois. O pseudónimo Basho surgiu do nome da bananeira (basho) que cobria com a sua sombra a pequena casa construída pelos alunos numa zona rural de Edo. Apesar da fama que entretanto alcançara, dos muitos amigos, discípulos e patronos, em alguns dos seus poemas transparecia a solidão e melancolia que o conduziria à procura de uma via espiritual através da prática da meditação Zen sob a orientação de Butcho, um mestre Zen.

Basho empreendeu várias viagens que o inspiraram profundamente. Escreveu vários diários de viagem onde combinou o relato detalhado das suas perceções com poesia e teoria de arte. No final do primeiro diário, Nozarashi Kiko, deixa já transparecer uma maior serenidade. Em 1689, Basho iniciou a famosa viagem de Oku-no-hosomichi (na edição inglesa, "The Narrow Road to the Far North"). A prosa poética contida neste relato é considerada sem paralelo na literatura mundial. Esta obra evidencia o conceito de sabi, de identificação do homem com a natureza. Durante esta viagem começou a pensar a poesia em termos mais filosóficos, preocupando-se com a relação entre temporal e eterno. A partir do outono de 1689, e durante dois anos, fez curtas viagens na região de Kyoto. Nessa época trabalhou numa antologia, Sarumino ("o Impermeável do Macaco") em que expressava os princípios estéticos que adotara.

Basho é reverenciado sobretudo por ter dado ao haiku uma dimensão espiritual, impregnada do espírito Zen, aproximando este género de kado (a via da poesia) enquanto caminho para a perfeição. Sob a sua influência o haiku, até aí considerado quase exclusivamente como um passatempo social, tornou-se num dos géneros mais apreciados e cultivados da poesia japonesa. (Daqui)
 
 

domingo, 28 de março de 2021

"Soneto das alturas" - Poema de Lêdo Ivo


 
Alexei Savrasov (Russian, 1830-1897), The Rooks Have Come Back, 1871

[Savrasov was one of the most important of all the 19th century Russian landscape painters, considered the creator of the "lyrical landscape style". A trully emblematic work, "the rooks have returned" (or "the rooks have come back") is Savrasov's most famous painting, a lovely elegy to the spring announced by the rooks return.] (Daqui)


Soneto das alturas

 
As minhas esquivanças vão no vento
alto do céu, para um lugar sombrio
onde me punge o descontentamento
que no mar não deságua, nem no rio.

Às mudanças me fio, sempre atento
ao que muda e perece, e ardente e frio,
e novamente ardente é no momento
em que luz o desejo, poldro em cio.

Meu corpo nada quer, mas a minh′alma
em fogos de amplidão deseja tudo
o que ultrapassa o humano entendimento.

E embora nada atinja, não se acalma
e, sendo alma, transpõe meu corpo mudo,
e aos céus pede o inefável e não o vento.

 
Lêdo Ivo,
do livro "Acontecimento do soneto"
‘Ode à Noite', 1951.
 


Alexei Savrasov, The Sukharev Tower, 1872


Os Poemas



É meu corpo que escreve os meus poemas.
Minha alma é a sucursal da minha mão.
As palavras me buscam no silêncio.
Palavras são estrelas que reclamam
o papel branco: céu, constelação.

Lêdo Ivo
,
de "Rumor Noturno", 2009
 
 

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

"Onde os deuses se encontram" - Poema de António Ramos Rosa




Onde os deuses se encontram


Não busques não esperes
Como procurar a nudez do simples?
Os deuses encontram-se no refúgio aberto sombreado
O círculo dilata-se e dilata-nos
O lugar revela-se no esplendor da luz
O mar levanta as suas lâmpadas brancas
Diz de novo a fascinante simplicidade
Diz agora as minúcias
deslumbrantes
arcos na areia insetos frutos
Tanta luz tanta sombra iluminada!




Sandro BotticelliPrimavera (c. 1482), icon of the springtime renewal of the Florentine Renaissance.
Left to right: Mercury, the Three Graces, Venus, Flora, Chloris, Zephyrus
 

Queixa do editor de poesia
 
 
"Poesia não se vende,
ninguém a entende!"
-- suspira o editor.
Poesia! Poesia!
Ninguém te entende.
És como a morte e o amor. 


Lêdo Ivo

In "Antologia poética", org. de Albano Martins. 
Afrontamento (Edições), 2012
 

 
Probable self-portrait of Sandro Botticelli,
 in his Adoration of the Magi (1475)


Sandro Botticelli
 
 
Pintor do Renascimento italiano, Alessandro di Mariano Filipepi nasceu em 1445, em Florença, e aí morreu em 1510. Muito provavelmente, foi discípulo do pintor Fra Filippo Lippi. Em 1470 possuía já um atelier e tinha recebido a encomenda da Alegoria da Coragem. Quanto ao aperfeiçoamento do seu estilo, exprimindo-se na preocupação pelo sentido da forma e do traço mais do que pelo volume, sofreu posteriormente a influência de Pollaiuolo e de Verrocchio. 
Protegido pela família Medicis, para quem executou vários trabalhos, ficou impregnado pelo ambiente artístico e mental que se vivia na corte de Lourenço "o Magnífico" - A Alegoria da Primavera (cerca de 1478) e O Nascimento de Vénus (1486), sem dúvida os seus quadros mais famosos, pretendem recriar certas conceções da Antiguidade clássica à luz da filosofia cristã. 
Pintou igualmente retratos dos Medicis e quadros de temas religiosos, que incluem a representação de várias "Madonnas". Entre 1481 e 1482 executou três frescos da Capela Sistina no Vaticano. Nos últimos anos o seu estilo tornou-se mais obscuro. 
Depois de os Medicis terem sido expulsos de Florença, Botticelli teria sofrido uma crise de ordem espiritual, como resultado dos discursos do dominicano Savonarola. Embora esta influência não esteja comprovada, o certo é que os últimos trabalhos refletem uma certa melancolia e uma extrema devoção: A Natividade Mística (cerca de 1500), sobretudo, comunica uma atmosfera intensamente religiosa. (Daqui)
 
Sandro Botticelli, The Mystic Nativity (c. de 1500-1501),
National Gallery, London


"Inflama-me, poente: faz-me perfume e chama;
que o meu coração seja igual a ti, poente!
descobre em mim o eterno, o que arde, o que ama,
...e o vento do esquecimento arraste o que é doente!"

Juan Ramón Jiménez


segunda-feira, 22 de maio de 2017

"O Sonho" - Poema de Lêdo Ivo





O Sonho


O universo é o sonho de Deus 
e Deus é o sonho dos homens. 
Em nossa vigília suprema sonhamos a realidade 
de um Deus que cria o sol e as estrelas. 

Este é o nosso drama. Jamais saberemos 
se sonhamos ou estamos acordados. 
A noite habita o dia. No sonho sou um peixe 
que apodrece na praia. 


 in 'A Noite Misteriosa'



terça-feira, 2 de maio de 2017

"O Segredo" - Poema de Lêdo Ivo


Joseph Wright (1734-1797), Matlock Tor by Moonlight, 1777–1780



O Segredo


Deus não sabe os meus segredos. 
As paredes sem ouvidos não escutam 
a confidência interminável. 
O que perco, ninguém sabe. Dissolve-se em mim, 
luminária secreta, sílaba que os lábios não ousam murmurar 
diante de teu corpo no escuro, 
constelação. 

E o sobejo de mim, último raio de sol, 
fulge no deserto. E nos penhascos 
ressoa 
constelado 
o meu grito de amor. 


 in 'A Noite Misteriosa'