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quinta-feira, 7 de julho de 2022

"S. Gonçalo d’Amarante" - Poema de Luís Augusto Palmeirim


Duarte Pimentel (Artista plástico português, 1934-2012), Amarante, aguarela



S. Gonçalo d’Amarante 


S. Gonçalo d’Amarante,
Casamenteiro das velhas,
Porque não casais as moças?
Que mal vos fizeram elas!

Sejam as velhas beatas
Vos rezem com santidade
São de mais, há-as de sobra
Na vossa santa irmandade.

Rezar-vos-ei, ó meu santo,
Três padres-nossos cantados.
Se por cada um me deres
Três esbeltos namorados.

Irei descalça ouvir missa
No dia do vosso nome
Se eu alcançar boa paga
Deste amor que me consome.

Nem todas as velhas juntas
Levarão tantos bentinhos
Como encobertos nesta alma
Levarei ternos carinhos.

S. Gonçalo d’Amarante
Brincalhão e galhofeiro,
Fazei-vos antes das moças
Devoto casamenteiro.

Que eu vos prometo por todas,
(Casando a nosso contento)
Muita crença na virtude,
Muita fé no casamento.

Promessas que fazem moças,
Têm tal condão e verdade,
Que o santo deixou as velhas,
Pelas moças… por bondade…

E a datar desta promessa,
Feita ao bom de S. Gonçalo,
Não há uma só donzela
Que possa deixar de amá-lo.

Que a todas o bom do santo
Deu alma pra seis amores,
A qual deles o mais falso,
Em seus dons e seus favores!

S. Gonçalo d’Amarante
Um dos meus três namorados
Irá rezar-vos por mim
Os padres-nossos cantados.

E só se dirá, mentindo,
Dum santo tão galhofeiro,
Que inda é, como era dantes,
Das velhas casamenteiro! 
 
in Poesias, 1ª edição, Imprensa Nacional, 1851.
 
 
 Luís Augusto Palmeirim
 

 
Luís Augusto Palmeirim
 
Poeta pertencente à geração ultrarromântica, de nome completo Luís Augusto Xavier Palmeirim, nascido a 9 de agosto de 1825, em Lisboa, e falecido a 4 de dezembro de 1893, na mesma cidade. Foi também deputado, jornalista, dramaturgo, crítico e tradutor. 
Proveniente de uma família de militares de alta patente, frequentou o Colégio Militar e tomou parte na rebelião da Maria da Fonte, entre 1846 e 1847, ao serviço da Junta do Porto, contra a ditadura de Costa Cabral. Foi censor do Teatro D. Maria II desde 1853 e diretor do Conservatório de Lisboa desde 1878 até à sua morte, para além de membro da Academia Real das Ciências e da Sociedade Escolástico-Filomática. 
Distinguiu-se como poeta, cultivando uma poesia popular de inspiração folclórica e temática cívica, influenciada pelo poeta francês Béranger. Para a popularidade dos seus versos - Lopes de Mendonça classificou-o "o mais popular dos nossos poetas modernos" -, frequentemente cantados nas ruas, recitados nos salões e nos teatros, muito contribuiu, para além do uso das rimas fáceis e dos metros tradicionais, a sua faceta real de "poeta-soldado", "poeta da liberdade", que se funde com a sua própria arte poética, por vezes explícita em fragmentos metatextuais da obra, onde proclama a "verdade" dos seus cantos, a "divina" missão da poesia, voltada para "Deus", a "pátria amada" e as "cem mil tradições que nos revela do seu passado". 
Participou na revista coimbrã O Trovador, deixando colaboração em vários outros periódicos como O Panorama, Revista Universal Lisbonense, Arquivo Pitoresco, Revista Contemporânea de Portugal e Brasil, A Revolução de setembro e O Ocidente
Das suas obras, destacam-se a coleção Poesias (1851; quatro edições até 1864) e o interessante livro de memórias Os Excêntricos do meu Tempo. (Daqui)
 
 
São Gonçalo de Amarante, séc. XVII, por António André (fl. 1612-1654),
 
 
São Gonçalo de Amarante

 
S. Gonçalo tem honras de Padroeiro de Amarante e a sua memória é festejada em duas ocasiões no ano: a 10 de janeiro data do seu falecimento e no primeiro fim de semana de junho, com as grandiosas festas da cidade.
Oriundo da nobre família dos Pereira, Gonçalo nasceu no Paço de Arriconha, freguesia do Divino Salvador de Tagilde – Vizela, por volta de 1187 e herda de seus pais a nobreza no sangue e a grandeza na Fé.
É educado nos bons princípios cristãos e, quando atinge a mocidade, opta pela vida eclesiástica, estudando as primeiras letras, crê-se, no mosteiro beneditino de Santa Maria de Pombeiro de Ribavizela, Felgueiras, prosseguido estudos no Paço Arcebispal de Braga, onde viria a ser ordenado sacerdote. Foi-lhe confiada a paróquia de S. Paio de Vizela, tornando-se, em data incerta, cónego de Santa Maria da Oliveira (Colegiada de Guimarães).
Não satisfeito com a vida paroquial e ardendo no desejo de conhecer os lugares mais Santos do Cristianismo, decide encetar uma longa peregrinação a Roma, para estar junto dos túmulos dos Apóstolos Pedro e Paulo, seguindo, depois, para a Palestina.
Após catorze anos, Gonçalo regressa à sua paróquia de S. Paio de Vizela que, durante a sua ausência, fora dirigida por um sobrinho que, o não reconhecendo, o expulsa de casa. Desiludido com a vida opulenta e faustosa do seu substituto e deparando-se com o desrespeito aos ensinamentos e à humildade cristã, decide abandonar a vida paroquial e opta por um modus vivendi mais contemplativo, eremítico e evangelizador. Embevecido neste espírito, toma o hábito da Ordem de S. Domingos.
Foi através desta nova forma de vida que chegou ao vale do Tâmega. Deparando-se com uma ermida arruinada dedicada a Nossa Senhora da Assunção, localizada num local ermo, junto ao rio e nas imediações de uma ponte devoluta, aí se instala e recupera o velho templo.
Calcorreando as povoações do vale do Tâmega e da Serra do Marão, Frei Gonçalo, acompanhado por um irmão espiritual, frei Lourenço Mendes, evangeliza e abençoa uniões matrimoniais, apoia e protege os mais desfavorecidos e realiza alguns prodígios, que lhe vão conferindo aura de santidade. No decorrer destas ações pastorais, depara-se com as dificuldades e com o perigo que os seus fiéis corriam ao aventurarem-se a atravessar o rio, principalmente nas alturas em que este se apresentava mais caudaloso e, na falta de alternativas, decide empreender, ele próprio, o restauro ou a reedificação da velha ponte romana, nos idos de 1250.
Para a sua reconstrução terá contado com a participação de todos, desde os mais abastados que contribuíram com alguns numerários e matéria-prima e os mais pobres que, com o seu esforço, executaram a obra. Consta que o arquiteto fora o próprio santo. A ponte medieval haveria de perdurar até ao dia 10 de fevereiro de 1763, altura em que sucumbe face à turbulência das águas do Tâmega, durante uma cheia, desmoronando-se por completo, tendo apenas sobrevivido o cruzeiro biface de Nossa Senhora da Ponte.
Após a construção da ponte e do restabelecimento do tráfego, o frade dominicano continuou com a sua vida de pregador até ao dia da sua morte, ocorrida a 10 de janeiro de 1259.
A partir de então, muitos foram aqueles que acorreram ao seu túmulo, instalado na mesma ermida onde residiu para, junto aos seus restos mortais, pedirem ou agradecerem a sua intercessão.
Em 1540, D. João III manda construir, no lugar da velha ermida medieval, um convento que entrega aos frades pregadores de S. Domingos, Ordem à qual o Santo estava vinculado.
No dia 16 de setembro de 1561, Gonçalo de Amarante é beatificado pelo papa Pio IV e, algum tempo depois, já no reinado de D. Filipe I de Portugal (II de Espanha), inicia-se o seu processo de canonização, que acaba por ficar sem efeito.
O Papa Clemente X, em 1671, estende o ofício da sua festa litúrgica a toda a Ordem Dominicana, que é celebrada no dia do seu falecimento, a 10 de Janeiro.
Daí para cá o seu culto jamais parou de se difundir e propagar em Portugal e nos países lusófonos, destacando-se o Brasil, onde várias localidades o têm por padroeiro. (Daqui)


 São Gonçalo de Amarante. Estátua em madeira (século XVI) com a 
famosa corda, à entrada da sacristia da Igreja de São Gonçalo.
 

Em Portugal, existe dois santos casamenteiros. Um com o seu trono em Lisboa que é Santo António, e outro situado a norte, São Gonçalo de Amarante. Para não haver concorrência desleal entre os dois, Santo António encarrega-se das moças, enquanto S. Gonçalo trata das velhas. É esta a crença popular, mas não é só por esse motivo que a igreja de São Gonçalo é local de paragem obrigatória.
São Gonçalo não é santo. Para a Igreja Católica é considerado beato, Beato Gonçalo de Amarante. Mas para a população é santo e a devoção por ele não é menor, seja qual for a denominação utilizada. O seu túmulo, onde se acredita estar o seu corpo sepultado, pode ser visitado na capela-mor do mosteiro.
São Gonçalo é considerado o “casamenteiro das velhas”, o que parece não agradar às mais jovens que não querem esperar, e terá sido por isso que nasceu a famosa quadra popular de Amarante:

S. Gonçalo de Amarante,
Casamenteiro das velhas,
Porque não casas as novas?
Que mal te fizeram elas?


São Gonçalo divide, assim, com Santo António a tarefa de casamenteiro, sem conflitos, já que um casa as jovens e outro as mais velhas. Se Santo António não ouvir as preces das mais jovens e a idade avançar, será ao São Gonçalo que deverão recorrer. Na igreja, ainda existe a estátua de São Gonçalo, do século XVI, em que existe a famosa corda de São Gonçalo. A corda rodeia a cintura da estátua e, segundo crença popular, “as encalhadas” deveriam puxar a corda três vezes, para pedir um casamento ao santo. No entanto, de forma a preservar a estátua, esta foi colocada num local alto com a recomendação de que não se puxe a corda, uma vez que poderia colocar em risco a imagem.

Oração de casamento para São Gonçalo:

“São Gonçalo do Amarante, 
Casamenteiro que sois, 
Primeiro casais a mim; 
As outras casais depois.

São Gonçalo ajudai-me, 
De joelhos lhe imploro, 
Fazei com que eu case logo, 
Com aquele que adoro.”
 

domingo, 9 de novembro de 2014

"Sem causa a Infância ri" - Poema de Abade de Jazente


Amarante (Portugal) -  Rio Tâmega, Ponte e Mosteiro



Sem causa a Infância ri


Sem causa a Infância ri, sem causa chora: 
Incauta se despenha a mocidade; 
Sacode o jugo, e nela a liberdade, 
A caça, o jogo, o amor, tudo a namora. 

Das honras o varão se condecora; 
Tudo é nele ilusão, tudo vaidade: 
Junta Tesouros a avarenta idade; 
Diz mal do nosso, e ao tempo andado adora. 

Tormento é toda a vida, é toda enganos: 
Quando uns afetos vence a novos corre, 
E tarde reconhece os próprios danos: 

Porque enfim se a prudência nos socorre, 
Ditada na lição dos longos anos, 
Quando se sabe, então é que se morre. 

in 'Antologia Poética'


Frontispício da primeira edição em 1786 de Poesias
de Paulino António Cabral, Abade de Jazente


Escritor português, Paulino António Cabral de Vasconcelos, melhor conhecido por Abade de Jazente, nasceu em Amarante a 6 de Maio de 1719 e faleceu na mesma cidade a 20 de novembro de 1789. 
Tornou-se pároco de Jazente, a partir de 1753, cargo ao qual resignou, por doença, em 1783. Estudou em Coimbra e foi uma das presenças da Arcádia Portuense que reuniria por finais de 1760. A sua vida repartiu-se entre esta, as festas conventuais e a solidão rústica.
Como poeta, sobretudo sonetista, cantou os temas horacianos do amor epicurista e da dourada mediania rural. A obra legada fornece-nos preciosos depoimentos históricos e também por ela sabemos dos seus prazeres (a caça, a pesca, o jogo, a boa mesa); das suas fraquezas, do seu triste envelhecer, dos seus amores, pois revela-nos episódios concretos de um relacionamento com Nise (anagrama de Inês da Cunha). Os sonetos respeitantes a esta constituem o mais pungente drama de amor do século XVIII português. Além de poesia de circunstância, deixou textos de conteúdo moral e poesia de matiz romântica. (Daqui)



"A infância, no poeta, jamais se extingue. Talvez por isso eles sejam tão vulneráveis, os poetas."



Amarante (Portugal) - Centro histórico