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sábado, 2 de maio de 2026

"A triste história do zero poeta" - Poema de Manuel António Pina



John George Brown (British citizen and an American painter, 1831–1913),
"What's your name?", 1876.
 

A triste história do zero poeta 


Numa certa conta havia
um zero dado à poesia
que tinha um sonho secreto:
fugir para o alfabeto.

Sonhava tornar-se um O
nem que fosse um dia só,
ou ainda menos: só
o tempo de dizer: «Oh!»

(Nos livros e nas seletas
o que mais o comovia
eram os «Ohs!» que os poetas
metiam nas poesias!)

Um «Oh!» lírico & profundo,
um só «Oh!» lhe bastaria
para ele dizer ao mundo
o que na alma lhe ia!

E o que na alma lhe ia!
Sonhos de glórias, esperanças,
ânsias, melancolia,
recordações de criança;

além de um grande vazio
de tipo existencial
e de uma caixa que o tio
lhe pedira para guardar;

e ainda as chaves do carro
e uma máscara de entrudo...
Não tinha bolsos, coitado,
guardava na alma tudo!

A alma! Como queria
gritá-la num «Oh!» sincero!
Mas não passava de um zero
que, oh!, não se pronuncia...

Daí que andasse doente
de grave doença poética
e em estado permanente
de ansiedade alfabética.

E se indignasse & etc.
contra o destino severo
que fizera dele um zero
com uma alma de letra!

Tanta ambição desmedida,
tanto sonho feito pó!
E aquele zero dava a vida
para poder dizer «Oh!»...


Manuel António Pina,
in "Pequeno Livro de Desmatemática",
Assírio & Alvim




"Pequeno Livro de Desmatemática" de Manuel António Pina,
com desenhos de Pedro Proença. Assírio & Alvim;
 edição/reimpressão: 03-2009
 

SINOPSE

Plano Nacional de Leitura
 
Livro recomendado no programa de português do 6º ano de escolaridade, destinado a leitura orientada na sala de aula - Grau de Dificuldade II.

Com versos do poeta Manuel António Pina e desenhos do pintor Pedro Proença, este "Pequeno Livro de Desmatemática" pode tornar-se um clássico da literatura infantil em português. A curiosidade e a imaginação de Pina (e de Proença) dão-nos a ler a matemática de forma divertida. Os problemas de somar, subtrair, multiplicar e dividir, histórias de números (reais ou imaginários), do p, etc., são resumidos pelo próprio autor na introdução, da qual se transcreve:

"Este pequeno livro está cheio de jogos com palavras e com alguns conceitos simples da matemática (por pouco ia a escrever a palavra com letra maiúscula!). Eu gosto de palavras. E de matemática também. Por isso brinco com elas. Brincar é uma coisa muito séria: quem quereria brincar com gente ou coisas de que não gosta? Este livro é um livro de "desmatemática" porque, aqui, os personagens da matemática, os números, os sinais, as contas, são tratados como gente, têm sentimentos, sonhos. Até fraquezas e defeitos. Como tu e como eu. É um jogo que eu gosto muito de jogar: imaginar como as coisas seriam se fossem ao contrário. Nem imaginas como o "Reino do Des" é às vezes divertido! Mas, e apesar de este não ser nem, valha-me Deus, querer ser um compêndio de Matemática (agora já se justifica, se calhar, a letra maiúscula), e ser apenas um pequeno livro de versos (alguns com teoremas escondidos), imaginei que, se tu conhecesses melhor dois ou três dos personagens deste livro, talvez a leitura dele pudesse ser um pouco mais interessante. Por isso te venho apresentar o amimigo zero (uma verdadeira nulidade, pensam alguns; o que eles se enganam!), os números negativos, os números imaginários, os números irracionais (raio de nome!), o misteriosíssimo e famosíssimo p. Talvez, quem sabe?, depois de teres conhecido estes, tu queiras conhecer outros. A maior parte das pessoas não calcula (a palavra calcular vem a propósito) a gente curiosa que vive na matemática!" (daqui)

terça-feira, 9 de setembro de 2025

“Meditação” - Poema de Natália Correia

 

 
John George Brown (British citizen and an American painter, 1831–1913),
 'Meditation', 1881.
 


Meditação


A carne é flor ou consequência do seu perfume?
Seja o que for
é intensidade que a flor resume.
A mão é gesto que a ultrapassa. O gesto é além.
Porque a mão toca o horizonte
que o gesto da mão contém.
O homem canta.
E enquanto canta o homem dura.
Porque o seu canto é perceber
que a voz prevalece à criatura. 


Natália Correia
, in "Poesia Completa"
 
 
 
"Poesia Completa" de Natália Correia
Edição/reimpressão: 1999. Páginas: 636.
Editor: Dom Quixote



SINOPSE

A reunião da Poesia Completa de Natália Correia foi preparada e em parte revista pela própria autora, que lhe atribuiu o título O Sol nas Noites e o Luar nos Dias (cf. poema VIII de "Rio de Nuvens", "E tudo se esconde / Nessa hora onde / Por estranha magia / brilha o sol de noite / e o luar de dia."). Colige a reedição de toda a sua obra poética (Rio de Nuvens (1947), Poemas (1955), Dimensão Encontrada (1957), Passaporte (1958), Comunicação (1959), Cântico do País Emerso (1961), O Vinho e a Lira (1966), Mátria (1968), A Mosca Iluminada (1972), O Anjo do Ocidente à Entrada do Ferro (1973), Epístola aos Lamitas (1976), O Dilúvio e a Pomba (1979), O Armistício (1985), Sonetos Românticos (1990) e dá à estampa um volume considerável de inéditos, de que consta quer a poesia escrita entre 1941 e 1947 quer tudo o que foi escrito no intervalo da publicação das suas obras poéticas. 
Na Introdução define o ato poético como uma "recôndita disponibilidade para receber a mercê que [lhe] é dada em palavras de olhar as coisas de uma outra forma, alinhando-as num ritmo que corre para um ponto onde tudo está abrangido", através de uma "linguagem construída na esfera psíquica de fatores transpessoais que atuam como uma força unificadora". Essa totalidade impõe ao poeta uma missão social, tornando-se, então, poesia de combate, numa luta pela justiça definida como moral da vida verdadeira, alheia às leis de "moralismos utilitários" (pp. 30-31), intenso e alquímico ato de "desencantar, em penosa solidão, o engenho de fazer ouvir o sopro da Alma Universal na palavra em que se incuba a transformação da alma da humanidade" (p. 34). (daqui)

sábado, 29 de setembro de 2012

"Meus secretos amigos" - Crónica de Paulo Sant'Ana



John George Brown (British citizen and an American painter, 1831–1913),
'In good hands', 1909


Meus secretos amigos


Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos! Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles… Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências…

A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem.

Essa mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida. Porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles!

Eles não iriam acreditar! Muitos deles estão lendo esta crónica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação dos meus amigos, mas é delicioso que eu saiba e sinta que os adoro, embora não o declare e não os procure.

Às vezes, quando os procuro, noto que eles não têm noção de como me são necessários, de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida.

Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado. Se todos morrerem, eu desabo! Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles e me envergonho porque essa minha prece é, em síntese, dirigida ao meu bem estar. Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.

Por vezes, mergulho em pensamento sobre alguns deles. Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim, compartilhando daquele prazer… Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos e, principalmente, os que só desconfiam ou talvez nunca vão saber que são meus verdadeiros amigos!!!

A gente não faz amigos, reconhece-os! 
 
Paulo Sant'Ana, no livro "O Gênio Idiota" (1992)


John George Brown, 'Autorretrato', 1908

John George Brown (Durham, Inglaterra, 11 de novembro, 1831 – Nova Iorque, EUA, 08 de fevereiro de 1913) foi um pintor retratista  inglês/americano. 
Filho de um advogado pobre, começou a trabalhar aos catorze anos como cortador de vidro,  em Newcastle-on-Tyne, Inglaterra, durante sete anos. John Brown estudava à noite com William Bell Scott na Escola de Design (1849-1852).
De 1852 a 1853 trabalhou na “Glass Works Holyrood”, em Edimburgo, Escócia, estudando à noite na Academia de Curadores, com Robert Scott Lauder.
 Em 1853, Brown passou o verão em Londres, onde pintou alguns retratos antes de emigrar para a América em 24 de setembro, chegando a Nova Iorque em seu vigésimo segundo aniversário. Instalou-se no Brooklyn com o intuito de encontrar trabalho na “Brooklyn Flint Glass Company”, onde ele impressionou um dos proprietários da empresa, William Owen, com sua habilidade. Durante este período, Brown assistiu às aulas gratuitas oferecidas na “Art Graham School” e, posteriormente, estudou com Thomas Seir Cummings na Academia Nacional de Desenho.
Em 1855, Brown casou-se com a filha de William Owen e com o apoio dele, abriu um estúdio como pintor de retratos.
Em 1859, Brown foi um dos membros fundadores da Sociedade de Arte do Brooklyn e, em 1861, membro fundador da Associação de Arte do Brooklyn. Mudou-se para Nova Iorque em 1861.
Brown começou  a expor na Academia Nacional em 1858, uma prática anual (à exceção de 1871) até sua morte. Foi eleito associado da Academia em 1861, membro de pleno direito em 1863, e serviu como seu vice-presidente de 1899 a 1904. Depois de dedicar-se às cenas de género (crianças de rua de Nova York) na década de 1860, ele logo se tornou famoso e rico, com muitas de suas pinturas reproduzidas comercialmente como cromolitografias ou reproduções fotográficas. Estas representações de crianças por Brown e outros artistas foram especialmente populares após a guerra civil, com um público para quem a criança simbolizava a inocência perdida e sua esperança no futuro do país. 
Em 1867 foi eleito um dos membros fundadores da Sociedade Americana de Aquarela e foi seu presidente de 1887 a 1904.
Brown e o negociante de arte, João Snedecor, viajaram para a Europa em 1870, visitando Londres e Paris. 
Morreu de pneumonia em Nova Iorque, em 08 de fevereiro de 1913. (Fonte: Wikipédia)



John George Brown, 'The Foundling', 1907


"Enquanto houver um louco, um poeta e um amante haverá sonho, amor e fantasia. 
E enquanto houver sonho, amor e fantasia, haverá esperança." 

(William Shakespeare)

sexta-feira, 13 de abril de 2012

"Criança" - Poema de Cecília Meireles


 
 
Criança


Cabecinha boa de menino triste, 
de menino triste que sofre sozinho, 
que sozinho sofre, — e resiste, 

Cabecinha boa de menino ausente, 
que de sofrer tanto se fez pensativo, 
e não sabe mais o que sente... 

Cabecinha boa de menino mudo 
que não teve nada, que não pediu nada, 
pelo medo de perder tudo. 

Cabecinha boa de menino santo 
que do alto se inclina sobre a água do mundo 
para mirar seu desencanto. 

Para ver passar numa onda lenta e fria 
a estrela perdida da felicidade 
que soube que não possuiria. 


Cecília Meireles, in 'Viagem'


John George Brown, 'Self-portrait', 1908


John George Brown (Durham, Inglaterra, 11 de novembro, 1831 – Nova Iorque, EUA, 08 de fevereiro de 1913). 
 

Pinturas de John George Brown

John George Brown, 'Sympathy', 1909
 

John George Brown
 

John George Brown, 'A Thrilling Moment', 1880 
 


John George Brown, 'Golden Locks', 1880
 


John George Brown, 'Blackberry picking', 1875
 


John George Brown, 'School Bound', 1873 
 


John George Brown, 'The Two Musicians', 1874 
 


John George Brown, 'Tough Customers', 1881
 

John George Brown
 


John George Brown, 'The Button Hole Posy', c. 1894
 

John George Brown
 


John George Brown, 'Eyeing the Fruit Stand', 1884
 


John George Brown, 'Daisy McComb Holding a Pink Rose', 1888



John George Brown, 'Thus Perish the Memory of Our Love', 1865
 

John George Brown
 


John George Brown, 'A liberated woman', 1895
 


John George Brown, 'Old Memories', c. 1883
 

"Um único homem sem alegria basta para criar numa casa inteira um mau humor contínuo e para a envolver numa nuvem escura: e é um milagre se este homem não está presente! É preciso muito para que a felicidade seja doença tão contagiosa." - Friedrich Nietzsche