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sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

"Sonho de uma tarde de inverno" - Poema de João Guimarães Rosa



Karl Schmidt-Rottluff (1884–1976, German expressionist painter and printmaker;
he was one of the four founders of the artist group Die Brücke), Garden in Winter, 1969.



Sonho de uma tarde de inverno

 
Fiquei, longamente, a ler, no frio
da tarde quieta,
uma crónica do tempo merovíngio,
dos monges da Abadia de Cluny.
E um rádio gritante trouxe pela janela,
todo o banzo e o azougue de um samba sensual:
voo de cantáridas tontas
no hálito de incenso de uma nave,
fenestrada de ogivas e ventanas
e toda colorida de vitrais…
E no vago torpor do meu subsonho,
vi como trabalhava,
extasiado, na penumbra
parda de um meio inverno,
um monge
rendilhador de joias de ouro,
discípulo, talvez, de Santo Elói:
depois de modelar um cimo de coroa,
com Virtudes de auréola
em meio de anjos louros,
e de cinzelar,
na pasta de sol frio do rebordo
de um anel real,
uma rosácea, um gládio e um globo,
deixou errar seus dedos e seus sonhos,
e fez crescer, no jalde de um cibório,
o relevo de uma Vénus
com um Cupido ao solo…

E era tão bela a sua ideia de ouro,
e foi tão casto e cristão o beijo longo
que ele pôs na deusa,
que a ténue poeira flava do seu êxtase
de pronto se esvaiu.

E então, febril,
murmurando, constante, um exorcismo,
santificando traços, disfarçando os nus,
fez depressa da Vénus uma Virgem,
e do pagãozinho alado um menino Jesus.
Depois, sorrindo, o santo joalheiro
rezou, com outro beijo, a sua contrição…

E mil diabinhos crepitaram nas chamas,
rubros, rindo,
porque agora o seu beijo
fora ardente e pagão.
 
 
João Guimarães Rosa, do livro 'Magma'
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, p. 95-96.

quarta-feira, 17 de março de 2021

"O Festim" - Poema de Américo Cortez Pinto


Karl Schmidt-Rottluff, Houses at night, 1912


O Festim

 
Uns atrás de outros, impertinentes,
(Que estranho mundo de fantasmas tão diferentes!)
Ei-los que surgem aos encontrões
No perturbado Mundo Interior...
Uns a puxar por mim aos repelões,
Outros suaves e alicientes
Com falsos gestos de amor...

Uns severos, irados,
Desvairados,
Outros grotescos, histriónicos...
E os mais trágicos de todos – quem diria! –
Os fantasmas irónicos
Da Alegria...

Insinuam-se gentis,
Com doces falas, música nos gestos,
Promessas de oiro, subtis,
E o riso
De quem traz dentro das mãos o Paraíso
E é só pedi-lo que é para nós também...

Ah! Como são amigos! Quem não há de
Abrir tranquilo a porta...
Sentá-los à sua mesa!
Beber o vinho ácido às canecas
E entorná-lo perfumado
Com manchas de rubim sobre as toalhas!...
E olhar as nódoas sobre o linho,
A sorrir,
Sem saber distinguir
Se é sangue ou vinho!

Quebrar as taças e julgar que o ruído
Das lágrimas cortantes das estilhas
São risos claros de cristal...

E coroar a fronte no banquete
Com as coroas de rosas que nos dão,
Sem perceber que as rosas caem, ficam espinhos...
E à saída
Acompanhá-los pelas ruas, a cantar,
E deixar-se arrastar
Indefeso e sozinho,
Como se fosse, ao cabo do caminho,
Ali mesmo o Céu aberto...

E agradecer-lhes iludido
Ao vê-los construir para nosso bem
As fantásticas miragens do Deserto...

E ao acordar, ver-se perdido,
No árido isolamento
Do intérmino areal...

A miragem desfeita como um fumo!...
E para o regresso ao lar,
Um céu sem Sol nem Estrela Polar...
Uma bússola doida!...
E um chão de areia, sem rumo!...

E partir, e sofrer,
E ao cabo, enfim,
Chegar
Exausto, ao lar...
E não ver mais que os restos do festim...

O pão alvo, espezinhado...
A golpear-nos as mãos, taças partidas...
As bilhas entornadas no sobrado...
Cinzas no chão! Lume apagado...
As flores emurchecidas...

O doce leite derramado e agre...
E em vez de mel:
– Favos de cera e fel
E o vinho nos cristais trocado por vinagre!

E através das janelas e dos vidros partidos
Da nossa alma,
Sentir numa agonia,
A sacudir-nos, a risada dos fantasmas
Cruel e fria.

Américo Cortez Pinto
(1896-1979)
In “A Alma e o Deserto”
Portugália Editora

Américo Cortez Pinto (1896-1979), fervoroso nacionalista e espírito religioso, formou-se em Medicina, em Coimbra, e exerceu diversos cargos públicos, incluindo o de deputado, durante o Estado Novo. É autor de numerosos trabalhos de caráter médico-social, de investigação histórica, de intervenção cívica e doutrinária, de que se salientam, entre outros, os seguintes títulos: O Ensino da Língua Portuguesa (1936), O Valor da Vontade na História Nacional (1938), Da Famosa Arte da Imprimissão (1948), A Presença da Virgem na Literatura Portuguesa (1953), «Talent de Bien Faire». A Divisa do Infante e a Criação do Estado da Índia (1955), Raízes Históricas, Humanísticas e Científicas da Unidade do Mundo Português (1965), Diónisos, Poeta e Rei (1982). 
 
Como poeta, distinguiu-se, em 1941, ao receber o prémio Antero de Quental, atribuído ao seu livro A Alma e o Deserto, onde, ao contrário de anteriores publicações, se revela vagamente prossecussor  do movimento modernista. Com efeito, desde o neo-romântico Lágrimas e Sorrisos (1912), repudiado pelo autor, até ao Poema da Tentação – Nova Teoria da Humildade (1922), em que a estética neo-romântica surge associada à ascese cristã, raramente Cortez Pinto se liberta da sua herança finissecular.
O último livro referido foi oferecido a Pessoa, com uma dedicatória, em Junho de 1922. Desconhecendo-se qualquer relação de amizade entre os dois, é provável que o conhecimento se devesse ao conhecido comum, o pintor Lino António, autor da capa do livro de Cortez Pinto, e colaborador do nº 1 de Athena, com cinco quadros. (Daqui)
 
 

Karl Schmidt-Rottluff, Self-portrait with cigar, 1919 


Cigarro

Olho a noite pela
vidraça. Um beijo, que passa,
acende uma estrela. 
 
Guilherme de Almeida,
(Haicai / Haikai)


domingo, 5 de janeiro de 2014

"As palavras pesam" - Poema de Graça Pires


Karl Schmidt-Rottluff, Woman with a bag, 1915 
 


As palavras pesam


As palavras pesam.
Um texto nunca diz a dor das pequenas coisas,
Do quotidiano entrincheirado entre compromissos,
Das tramas afetivas, do exílio anunciado
No andar inquieto das mulheres.

De rosto em rosto, a caligrafia do amor
implorou a memória das palavras encantadas
e, como se houvesse uma linguagem
de atravessar o tempo, acenderam,
sobre os dias, constelações sonoras.
Mas eu, que não adiro aos calendários
nem acredito em vogais prometidas,
eu parti, de punhos febris,
enlaçando nos braços
um futuro marginal, a qualquer lógica.
A posse da noite, onde me quero lua em todas as fases,
leva-me a glosar os medos num novelo de rimas imperfeitas.
A cidade tem pombas que me perseguem sem eu dar por isso.
Tenho um aqueduto modelado nos olhos
e um dilúvio vermelho no desenho do peito.


Graça Pires, 
in Poemas Escolhidos


Karl Schmidt-Rottluff, Two women, 1914


“Você é a flor que eu quero amar e cultivar por toda a minha vida.” 

(Eleanor Roosevelt)


Anna Eleanor Roosevelt (Nova Iorque, 11 de outubro de 1884 — Nova Iorque, 7 de novembro de 1962) foi primeira-dama dos Estados Unidos de 1933 a 1945. 

Apoiou a política do New Deal, criada por seu marido e primo de quinto grau, o presidente Franklin Delano Roosevelt, e tornou-se grande defensora dos direitos humanos. Após a morte do marido, em 1945, Roosevelt continuou a ser uma defensora, porta-voz, ativista internacional para a coalizão do New Deal. Trabalhou para melhorar a situação das mulheres trabalhadoras, embora tenha sido contra a política dos direitos iguais, pois acreditava que ela afetaria negativamente as mulheres. 

Nos anos 1940, Eleanor foi uma das co-fundadoras da França Freedom House e apoiou a criação da Organização das Nações Unidas (ONU). Em 1943, Roosevelt criou a United Nations Association of the United States of America para dar suporte a criação da ONU. Foi diplomata e embaixadora dos Estados Unidos na Organização das Nações Unidas entre 1945 e 1952, por nomeação do presidente Harry Truman. Durante o seu tempo na ONU presidiu a comissão que elaborou e aprovou a Declaração Universal dos Direitos Humanos. O presidente Truman apelidou-a de "Primeira-dama do Mundo" em homenagem a suas conquistas referentes aos direitos humanos.

Uma figura ativa na política durante toda a sua vida, Eleanor Roosevelt presidiu a comissão da inovadora administração de John F. Kennedy que deu início a segunda onda do feminismo, a Comissão Presidencial sobre o Status da Mulher. Seu tio, Theodore Roosevelt, foi duas vezes presidente dos Estados Unidos. 
Eleanor Roosevelt tinha ancestrais neerlandeses.
 
 
  Karl Schmidt-Rottluff, Two girls in a garden, 1914
 
 
"Ninguém ganhou a última guerra nem ninguém ganhará a próxima."
 
(Eleanor Roosevelt)
 
 
Karl Schmidt-Rottluff, Still life, Sanseveria and Jar, 1956
 

Karl Schmidt-Rottluff  (Chemnitz, 1 de dezembro de 1884 — Berlim Ocidental, 10 de agosto de 1976) foi um pintor e gráfico alemão, membro do grupo artístico Die Brücke, considerado um dos mais importantes representantes do expressionismo alemão.