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domingo, 16 de março de 2025

"Veneza" - Poema de Alfred de Musset


Sir Arthur Streeton (Australian landscape painter and a leading member
 of the Heidelberg School, 1867-1943), The Doge's Palace, Venice, 1908.


Veneza


Em Veneza a vermelha,
Nenhum barco aparelha;
Nem pescador, no mar,
Se vê pescar.

Só, sobre o cais sentado,
Vela o leão do Estado,
Que ao horizonte adianta
A brônzea planta.

Ao seu redor, qual bando
De cisnes repousando,
Alinham, numerosas,
Naves airosas.

Dormem na água, que fuma,
E cruzam sob a bruma,
Em leves convulsões,
Os pavilhões.

A Lua, que perpassa,
Desmaia a fronte baça,
De uma nuvem estrelada
Meio velada …

— Como de Santa Cruz
A madre o seu capuz,
Sobre o rosto descai,
Que lho retrai.

E os palácios vetustos,
Os pórticos augustos,
Dos grande as escadas
Ornamentadas,

Mais as ruas, as pontes,
As estátuas e as fontes,
E o golfo, que o vento
Faz turbulento,

São mudos! … Só os guardas,
De longas alabardas,
Vão e vêm nos portais
Dos arsenais.

— Ah! quanta bela, agora,
Moço gentil que adora
Espera na janela
Que venha vê-la …

Outras ao espelho, entanto,
A mascarilha e o manto,
Para o baile a que vão,
Ajeitarão.

No leito perfumado,
O amante idolatrado
Vanina abraça ainda
Dormindo, linda.

Narciso, a louca altiva,
Na gôndola, lasciva,
Aturde-se na orgia
Até ser dia.

Mas quem, na Itália, um pouco,
Oh Céus! não tem de louco?
Quem não dá ao amor
Da vida a flor?

No palácio do doge,
Conte a hora que foge
O relógio cansado,
Em tom magoado …

Deixemo-lo, formosa!
E em tua boca sequiosa
Contemos beijos dados …
Ou perdoados.

Contemos teus encantos
E mais os doces prantos
Das horas de langor
Do nosso amor!


Alfred de Musset
Tradução de Pedro da Silveira, in "Mesa de Amigos"
Angra do Heroísmo, 1986.


 
Mesa de Amigos: versões de poesia
Edição/reimpressão: 04-2002
Editor: Assírio & Alvim
Páginas: 288 


SINOPSE


Pedro da Silveira, açoreano, erudito, poeta, de há muito que tem vindo a traduzir poemas e poetas da sua afinidade eletiva. Juntou há uns anos essas traduções num livro a que chamou "Mesa de Amigos", que foi editado nos Açores. Essa "Mesa", um pouco mais alargada, chega-nos agora de novo, pela mão da Assírio & Alvim. São poetas de várias línguas, tempos e lugares, que os autor "estima" e considera "merecedores de geral estima".

Nesta notável mesa temos então versões (muito boas) dos chineses Fu Hsiuan, Li Tai Po, Tu Fu, dos italianos Leopardi, Bruno Barilli, Saba e Ungaretti, dos franceses Baudelaire, Verlaine, Valéry Larbaud, Jules Laforgue, dos castelhanos Adolfo Bécquer, Ruben Darío, Manuel Machado, dos sul-americanos Pedro Salinas e Cernuda, do catalão Salvador Espriu, dos galegos Rosalía de Castro ou Fermin Bouza Brey, entre outros.

"Numa altura em que talvez se sobrevalorize demasiado ostensivamente o ouro local, há que louvar a humildade com que Pedro da Silveira nos convida a partilhar joias de outras latitudes. Em suma, um livro para aqueles a quem interessa, de facto, a poesia - e não os discursos, modas, estratégias e instituições que dela se pretendem apropriar: ‘Todos estamos sós no coração da terra/ trespassado por um raio de sol;/ e de repente anoitece" (Salvatore Quasimodo, ‘E de repente Anoitece’, pág. 221)." - Manuel de Freitas, Expresso (daqui)
 

Sir Arthur Streeton, The Doge's Palace, Venice, 1908.
 

"Toda vez que eu descrever uma cidade, estou dizendo algo sobre Veneza."

Italo Calvino, em "As Cidades Invisíveis", 1972.

[Jornalista, contista e romancista italiano, Italo Calvino nasceu a 15 de outubro de 1923 em Santiago de Las Vegas, na ilha de Cuba. Ainda criança acompanhou os pais na sua mudança para São Remo, em Itália.
Em 1940, e em consequência da deflagração da Segunda Guerra Mundial, Calvino foi recrutado para a Mocidade Fascista, mas desertou pouco tempo depois, refugiando-se nas montanhas da Ligúria, onde se juntou à Resistência Comunista.
Pôde, no entanto, ingressar no curso de Literatura da Universidade Turim em 1941 mas, e com uma passagem pela Real Universidade de Florença, só conseguiu licenciar-se após a guerra, em 1947. Nesse mesmo ano publicou o seu primeiro romance, com o título Il sentiero dei nidi di ragno (1947). A obra remetia para as suas experiências enquanto ativo da resistência italiana e foi bem acolhida pela crítica, sobretudo devido aos trejeitos que Calvino dava à narrativa.

Em 1949 publicou uma coletânea de contos, também dedicados à problemática de guerra, que haviam já aparecido em publicações periódicas. A colaboração de Calvino com a imprensa havia começado em meados de 1945, no jornal comunista L'Unittá, prosseguindo em títulos como Il Garibaldino, voce della Democracia e La Republica.
Após a publicação de Il visconte dimezzato (1954), o autor abandonou o tema da guerra recente, preferindo o absurdo e o fantástico ao neorrealismo com que havia pautado o seu trabalho. A obra, que inaugurava uma trilogia também composta pelos volumes Il barone rampante (1957) e Il cavaliere inesistente (1959), e que causou fortes polémicas no seio do Partido Comunista Italiano, contava a história de um homem mutilado por uma bala de canhão durante a tomada de Constantinopla.
Calvino procurava assim demonstrar o seu desagrado perante o partido, que abandonou após os acontecimentos da primavera de Praga. Sentiu que o seu esforço literário era mais necessário na imprensa, pelo que se passou a concentrar mais na carreira como jornalista do que como romancista.
Em 1959 viajou pelos Estados Unidos da América, formulando um contraste com a sua visita à União Soviética em 1952. De regresso, começou a editar a revista Il Menabó Di Letteratura, em colaboração com Elio Vittorini. Mantendo sempre um olhar crítico sobre a sociedade, entrelaçada na consciência individual e na inércia dos eventos históricos, publicou Marcovalco (1963), uma coletânea de fábulas em que criticava o modo de vida das cidades, destrutivo e vazio. Marcovalco era apresentado como um homem de família sonhador que, permanecendo na sua cidade durante o mês de agosto, quando todos os outros habitantes partiram para férias, vê o seu descanso ser interrrompido por uma equipa de televisão que o quer entrevistar, precisamente por ter sido o único a renunciar às estâncias balneares.
Em 1972 publicou Le Cittá Invisibli, romance em que o lendário explorador Marco Polo se dedicava a contar histórias de cidades fictícias para o divertimento de Kublai Khan, e que valeu ao autor o conceituado Prémio Felrinelli. A sua obra mais conhecida, Se una notte d'inverno un viaggiatore (Se numa Noite de Inverno um Viajante) apareceu em 1979. Palomar (1983), descrevia as contemplações filosóficas de um homem aparentemente simples.
Italo Calvino faleceu a 19 de setembro de 1985, em Siena, vítima de uma hemorragia cerebral.]
(daqui)
 
 
Sir Arthur Streeton, Evening, Venice, 1908.
 
 
"A gôndola negra, magra, e o modo em que se move, leve, sem qualquer ruído. Há algo estranho, uma beleza de sonho, parte integrante da cidade da ociosidade, do amor e da música."
 

[Romancista e poeta alemão nascido em 1877, na pequena cidade de Calw, na orla da Floresta Negra e no estado de Wüttenberg, e falecido a 9 de agosto de 1962, durante o sono, vítima de uma hemorragia cerebral.
Filho de Johannes Hesse, cidadão russo nascido em Weissenstein, na Estónia e de Marie Gundert, nascida em Talatscheri, na Índia, e ela própria filha de um missionário Pietista perito em Indologia, Hermann Gundert, também editor religioso.
Como os pais depositavam esperanças no facto de Hermann Hesse poder vir a seguir a tradição familiar em teologia, já que eles mesmos haviam servido como missionários na Índia, enviaram-no para o seminário protestante de Maulbronn, em 1891, mas acabou por ser expulso. Passando a uma escola secular, o jovem Hermann tornou a revelar inadaptação, pelo que abandonou os seus estudos.
Hermann Hesse começou depois a trabalhar, primeiro como aprendiz de relojoeiro, como empregado de balcão numa livraria, como mecânico, e depois como livreiro em Tübingen, onde se teria juntado a uma tertúlia literária, "Le Petit Cénacle", que teria, não só grandemente fomentado a voracidade de leitura em Hesse, como também determinado a sua vocação para a escrita. Assim, em 1899, Hermann Hesse publicou os seus primeiros trabalhos, Romantischer Lieder e Eine Stunde Hinter Mitternacht, volumes de poesia de juventude.
Depois da aparição de Peter Camenzind, em 1904, Hesse tornou-se escritor a tempo inteiro. Na obra, refletindo o ideal de Jean-Jacques Rousseau do regresso à Natureza, o protagonista resolve abandonar a grande cidade para viver como São Francisco de Assis. O livro obteve grande aceitação por parte do público.
Em 1911, e durante quatro meses, Hermann Hesse visitou a Índia, que o teria desiludido mas, em contrapartida, constituído uma motivação no estudo das religiões orientais. No ano seguinte, o escritor e a sua família assentaram arraiais na Suíça. Nesse período, não só a sua esposa começou a dar sinais de instabilidade mental, como um dos seus filhos adoeceu gravemente. No romance Rosshalde (1914), o autor explora a questão do casamento ser ou não conveniente para os artistas, fazendo, no fundo, uma introspeção dos seus problemas pessoais.
Durante a Primeira Guerra Mundial, Hesse demonstrou ser desfavorável ao militarismo e ao nacionalismo que se faziam sentir na altura e, da sua residência na Suíça, procurou defender os interesses e a melhoria das condições dos prisioneiros de guerra, o que lhe valeu ser considerado pelos seus compatriotas como traidor.
Finda a guerra, Hesse publicou o seu primeiro grande romance de sucesso, Demian (1919). A obra, de carácter faustiano, refletia o crescente interesse do escritor pela psicanálise de Carl Jung, e foi louvada por Thomas Mann. Assinada nas primeiras edições com o nome do seu narrador, Emil Sinclair, Hesse acabaria por confessar a sua autoria.
Deixando a sua família em 1919, Hermann Hesse mudou-se para o Sul da Suíça, para Montagnola, onde se dedicou à escrita de Siddharta (1922), romance largamente influenciado pelas culturas hindu e chinesa e que, recriando a fase inicial da vida de Buda, nos conta a vida de um filho de um Bramane que se revolta contra os ensinamentos e tradições do seu pai, até poder eventualmente encontrar a iluminação espiritual. A obra, traduzida para a língua inglesa nos anos 50, marcou definitivamente a geração Beat norte-americana.
1919 foi também o ano em que Hesse travou conhecimento com Ruth Wenger, filha da escritora suíça Lisa Wenger e bastante mais nova que o autor. O escritor renunciou à cidadania alemã, em 1923, optando pela suíça. Divorciando-se da sua primeira esposa, Maria Bernoulli, casou com Ruth Wenger em 1924, tendo o casamento durado apenas alguns meses. Dessa experiência teria resultado uma das suas obras mais importantes, Der Steppenwolf (1927). No romance, o protagonista Harry Haller confronta a sua crise de meia-idade com a escolha entre a vida da ação ou da contemplação, numa dualidade que acaba por caracterizar toda a estrutura da obra.
Em 1931 voltou a casar, desta feita com Ninon Doldin, de origem judaica. Com apenas catorze anos, havia enviado, em 1909, uma carta a Hermann Hesse, e desde então a correspondência entre ambos não mais cessou. Conhecendo-se acidentalmente em 1926, foram viver juntos para a Casa Bodmer, estando Ninon separada do pintor B. F. Doldin, e a existência de Hesse ter-se-à tornado mais serena.
Durante o regime Nacional-Socialista, os livros de Hermann Hesse continuaram a ser publicados, tendo sido protegidos por uma circular secreta de Joseph Goebbels em 1937. Quando escreveu para o jornal pró-regime Frankfürter Zeitung, os refugiados judeus em França acusaram-no de apoiar os Nazis. Embora Hesse nunca se tivesse abertamente oposto ao regime Nacional-Socialista, procurou auxiliar os refugiados políticos. Em 1943 foi finalmente publicada a obra Das Glasperlernspiel, na qual Hesse tinha começado a trabalhar em 1931. Tendo enviado o manuscrito, em 1942, para Berlin, foi-lhe recusada a edição e o autor foi colocado na Lista Negra Nacional-Socialista. Não obstante, a obra valer-lhe-ia o prémio Nobel em 1946.
Após a atribuição do famoso galardão, Hesse não publicou mais nenhuma obra de calibre. Entre 1945 e 1962 escreveria cerca de meia centena de poemas e trinta e dois artigos para os jornais suíços.]
(daqui)
 

Sir Arthur Streeton, Canal Scene, Venice, 1926. 
 

"Se eu tivesse que encontrar uma palavra que substituísse 'música', eu só conseguiria pensar em Veneza."
 
Friedrich Nietzsche


[Um dos filósofos mais emblemáticos dos finais do século XIX, nasceu em 1844, em Röcken, e morreu em 1900, atacado pela demência, em Weimar. As suas reflexões caracterizam-se por uma violenta crítica aos valores da cultura ocidental.
Com efeito, para Nietzsche, a decadência do Ocidente começou quando o discurso filosófico, depois de Sócrates, veio afastar a síntese que se realizara na tragédia grega, substituindo a harmonia apolíneo/dionisíaco (representando a ambivalência da essência humana, dividida entre a desmesura passional e a medida racional) por um discurso das aparências, enganador e ilusório, que transforma a realidade autêntica em metáforas ocas.
Esse processo de desvitalização encontrará o apogeu com a afirmação da moral judaico-cristã, «moral de escravos», reflexo de uma maquinação hipócrita de indivíduos débeis, ignóbeis e vis numa tentativa de enfraquecer e dominar pela astúcia os valorosos.
A crítica nietzschiana acaba mesmo por abranger os fundamentos da razão, considerando que o erro e o devaneio estão na base dos processos cognitivos e que a fé na ciência, como qualquer fé em verdades absolutas, não passa de uma quimera.
Não se limitando, porém, à denúncia de um estado de espírito dominado pela submissão a valores ancestrais, impotentes para criar algo de novo e propagando a obediência e a servidão como princípios supremos, ao proclamar a «morte de Deus» e a abolição de qualquer tutela, Nietzsche passa ao anúncio de uma nova era centrada na exaltação da vontade de poder, apanágio do homem verdadeiramente livre, o super-homem, que não conhece outros ditames além dos que ele próprio fixa. No entanto, o super-homem não é unicamente dominado pelo egoísmo, cabendo-lhe dirigir a «massa», anónima e ignorante, para um estádio superior em que os valores vitais, a alegria e a espontaneidade permitam a reafirmação do instinto criador da humanidade.
Pensador paradoxal, associa ao super-homem a consciência do eterno retorno, procurando, talvez, exprimir o aspeto cíclico dos movimentos históricos ou a impossibilidade de, alguma vez, ser atingido um grau supremo de perfeição no devir do Homem.
Expressando-se de forma aforística e mantendo todas as suas afirmações no limiar da inteligibilidade imediata, Nietzsche foi um filósofo ímpar, tão inovador como polémico: ao exaltar, em detrimento da razão, a faculdade da vontade como núcleo da essência humana e verdadeiro motor do devir e colocando-se numa posição de profundo ceticismo face aos fundamentos da ética e da moral, abalou profundamente os pilares do racionalismo, sendo por isso considerado como um dos «filósofos da suspeita» (ao lado de Marx e Freud), na esteira da «crise da razão» que marcou profundamente a filosofia no século XX.

Entre as suas obras são de destacar:

A Origem da Tragédia (1872), Humano, Demasiado Humano (1878), Aurora (1881), A Gaia Ciência (1882), Assim Falou Zaratustra (1883-85), Para além do Bem e do Mal (1886), A Vontade de Poder (1886, editado em 1906), A Genealogia da Moral (1887), Ecce Homo (1888), O Anticristo (1888).]
(daqui)
 

domingo, 2 de junho de 2024

"Raízes" - Poema de Jorge Sousa Braga


William Bliss Baker (American artist, 1859 –1886), Fallen Monarchs, 1886.
Brigham Young University Museum of Art



Raízes


Quem me dera ter raízes,
que me prendessem ao chão.
Que não me deixassem dar
um passo que fosse em vão.

Que me deixassem crescer
silencioso e ereto,
como um pinheiro de riga,
uma faia ou um abeto.

Quem me dera ter raízes,
raízes em vez de pés.
Como o lodão, o aloendro,
o ácer e o aloés.

Sentir a copa vergar,
quando passasse um tufão.
E ficar bem agarrado,
pelas raízes, ao chão.


Jorge de Sousa Braga,
in "Herbário", Assírio & Alvim, 1999.

Grande Prémio Gulbenkian de Literatura para Crianças e Jovens

 


William Bliss Baker
(American artist, 1859 –1886), Hiding in the Haycocks, 1881.
 
 
"A maturidade do homem consiste em ter reencontrado a seriedade que em criança se colocava nos jogos." 

Friedrich Nietzsche
, Werke - volume 2, página 629, C. Hanser, 1956
 
 

domingo, 19 de outubro de 2014

"O mar é longe mas somos nós o vento" - Poema de Pedro Tamen


José Navarro Llorens (pintor espanhol, 1867-1923), llegar a la costa
 


O mar é longe mas somos nós o vento


O mar é longe, mas somos nós o vento; 
e a lembrança que tira, até ser ele, 
é doutro e mesmo, é ar da tua boca 
onde o silêncio pasce e a noite aceita. 
Donde estás, que névoa me perturba 
mais que não ver os olhos da manhã 
com que tu mesma a vês e te convém? 
Cabelos, dedos, sal e a longa pele, 
onde se escondem a tua vida os dá; 
e é com mãos solenes, fugitivas, 
que te recolho viva e me concedo 
a hora em que as ondas se confundem 
e nada é necessário ao pé do mar. 


Pedro Tamen, 
in "Daniel na Cova dos Leões"


José Navarro Llorens, Barcas en la Playa


"Quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar." 

(Friedrich Nietzsche)


José Navarro Llorens, La cala de Granaella, Alicante
 

domingo, 22 de junho de 2014

"Quem não dava a vida por um amor?" - Crónica de Miguel Esteves Cardoso


William Arthur Breakspeare (British painter, 1855 - 1914), The End of the Evening.
Oil on canvas, Private collection.


Quem não dava a vida por um amor? 

 
"O essencial é amar os outros. Pelo amor a uma só pessoa pode amar-se toda a humanidade. Vive-se bem sem trabalhar, sem dormir, sem comer. Passa-se bem sem amigos, sem transportes, sem cafés. É horrível, mas uma pessoa vai andando.
Apresentam-se e arranjam-se sempre alternativas. É fácil.
Mas sem amor e sem amar, o homem deixa-se desproteger e a vida acaba por matar.
Philip Larkin era um poeta pessimista. Disse que a única coisa que ia sobreviver a nós era o amor. O amor. Vive-se sem paixão, sem correspondência, sem resposta. Passa-se sem uma amante, sem uma casa, sem uma cama. É verdade, sim senhores.
Sem um amor não vive ninguém. Pode ser um amor sem razão, sem morada, sem nome sequer. Mas tem de ser um amor. Não tem de ser lindo, impossível, inaugural. Apenas tem de ser verdadeiro.
O amor é um abandono porque abdicamos, de quem vamos atrás. Saímos com ele. Atiramo-nos. Retraímo-nos. Mas não há nada a fazer: deixamo-lo ir. Mais tarde ou mais cedo, passamos para lá do dia a dia, para longe de onde estávamos. Para consolar, mandar vir, tentar perceber, voltar atrás.
O amor é que fica quando o coração está cansado. Quando o pensamento está exausto e os sentidos se deixam adormecer, o amor acorda para se apanhar. O amor é uma coisa que vai contra nós. É uma armadilha. No meio do sono, acorda. No meio do trabalho, lembra-se de se espreguiçar. O amor é uma das nossas almas. É a nossa ligação aos outros. Não se pode exterminar. Quem não dava a vida por um amor? Quem não tem um amor inseguro e incerto, lindo de morrer: de quem queira, até ao fim da vida, cuidar e fugir, fugir e cuidar? 


Miguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume'


William Arthur Breakspeare, The Reluctant Pianist


"Quem ouve música, sente a sua solidão de repente povoada."



William Arthur Breakspeare, A Musical Interlude


"A música é celeste, de natureza divina e de tal beleza que encanta a alma
 e a eleva acima da sua condição." 



William Arthur Breakspeare, If Music be the Food of Love


"Quão pouco é preciso para ser feliz! O som de uma gaita. 
Sem música a vida seria um erro." 





Tchaikovsky

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

"As Pombas" - Poema de Raimundo Correia




As Pombas


Vai-se a primeira pomba despertada…
Vai-se outra mais… mais outra… enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada.

E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada.

Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;

No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem… Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais.


Raimundo Correia


Raimundo Correia

Magistrado, professor, diplomata e poeta brasileiro, Raimundo da Mota Azevedo Correia nasceu a 13 de maio de 1860, na Baía de Mogúncia (Maranhão), a bordo do navio S. Luís, e faleceu a 13 de fevereiro de 1911, em Paris, onde fora tratar da saúde.
A admiração nutrida por António Feliciano de Castilho levou-o desde muito cedo ao cultivo da poesia. Aos dezanove anos publicou Primeiros Sonhos (1879), volume de versos que foi bem acolhido pela crítica. Licenciado em Direito nesse mesmo ano, fundou em S. Paulo, juntamente com alguns colegas, a Revista de Ciências e Letras, um dos primeiros órgãos literários brasileiros interessados em defender e difundir o Realismo. Depois de se formar, foi para o Rio de Janeiro, onde entrou para a magistratura. Ocupou também importantes cargos de caráter administrativo e diplomático.
 Em 1883 deu-se a publicação da importante obra poética Sinfonias, que o consagrou, e, onde se encontra um dos mais conhecidos sonetos da língua portuguesa, “As pombas”. Seguiram-se-lhe os volumes Versos e Versões (1887) e Aleluias (1891). A sua poesia abordava uma temática predominantemente filosófica. Em 1897 tornou-se sócio fundador da Academia Brasileira de Letras.
Mais tarde, deixou-se absorver pela política, embora continuasse, por vezes, a publicar alguns versos de caráter cómico ou satírico em revistas e jornais. Em 1898, quando era representante diplomático em Lisboa, publicou uma antologia dos seus versos com uma introdução de João da Câmara. No ano seguinte, regressou ao Brasil e retomou a atividade de magistrado.

Raimundo Correia ocupa um dos mais altos postos na poesia brasileira. Seu livro de estreia, Primeiros sonhos (1879) insere-se ainda no Romantismo. Já em Sinfonias (1883) assume o que seria definitivo em sua obra, o  Parnasianismo. Segundo os cânones dessa escola, que estabelecem uma estética de rigor formal, ele foi um dos mais perfeitos poetas da língua portuguesa, formando com Alberto de Oliveira e Olavo Bilac a famosa  "Tríade Parnasiana".
Os temas adotados por Raimundo Correia giram em torno da perfeição formal dos objetos. Ele  diferencia-se um pouco dos demais parnasianos porque sua poesia é marcada por um forte pessimismo, chegando até a ser sombria.
 Ao analisar a obra de Raimundo Correia percebe-se que há nela uma evolução. Ele iniciou sua carreira como romântico, depois adotou o parnasianismo e, em alguns poemas aproximou-se da escola simbolista.
Além de poesia, deixou obras de crítica, ensaio e crónicas.





“Se houver amor em sua vida, isso pode compensar muitas coisas que lhe fazem falta. Caso contrário, não importa o quanto tiver, nunca será o suficiente para alcançar a felicidade.”

(Friedrich Nietzsche)
 

sexta-feira, 21 de junho de 2013

A Arte inspirada nas Histórias da Bíblia - Obras de Rogier Van Der Weyden



Rogier van der Weyden
The Appereance of Mary before Augustus, c. 1445 - 1448,
oil on panel, 91 × 40 cm.


"O homem é a corda estendida entre o animal e o além-do-homem: uma corda sobre um abismo; perigosa travessia, perigoso caminhar, perigoso olhar para trás, perigoso tremer e parar. O que é de grande valor no homem é ser uma ponte e não um fim; o que se pode amar no homem é que seja uma passagem e um sucumbir." 

  Friedrich Nietzsche


Rogier Van Der Weyden, St. Ivo, c. 1450, oil on oak panel, 45 x 35 cm,
 National Gallery, London


Rogier van der Weyden, The Annunciationc. 1440, oil on panel.


Rogier van der Weyden, The Nativityc, 1445 - 1448, oil on panel, 91 × 89 cm.


Rogier van der Weyden, The Vision of the Magi, c. 1445 - 1448, oil on panel, 91 × 40 cm.


Rogier van der Weyden, St Luke Drawing the Virgin, 1435, oil and tempera on panel.


Rogier van der Weyden, The Braque Triptych, c. 1452 (right panel).
Detail showing the Magdalene.


Rogier van der Weyden, The Descent from the Cross, c. 1435, oil on oak panel, 220 × 262 cm.
 Museo del Prado, Madrid.


Rogier van der Weyden, Seven Sacraments Altarpiece, 1445.


Rogier van der Weyden, The Last Judgment, 1443-1451, oil on panel, 215 × 560 cm.


Rogier van der Weyden 
Rogier van der Weyden, portrait by Cornelis Cort, 1572


Rogier van der Weyden ou Rogier de Bruxelles, cujo verdadeiro nome é Rogier de la Pasture (Tournai, 1400 — Bruxelas, 18 de junho de 1464), foi um dos mais notáveis e importantes pintores góticos flamengos
Ao ser proclamado pintor oficial da cidade de Bruxelas, adotou o nome de Rogier van der Weyden, que era, notoriamente, um nome flamengo. Rogier trabalhou bastante em Bruxelas, especialmente na corte do Duque da Borgonha. Era um discípulo de Robert Campin. Partiu para Itália em 1450 e viveu em Roma e Ferrara, embora tenha voltado a Bruxelas no final da sua vida. 
Rogier foi bastante aclamado durante sua vida inteira e vários pintores europeus, como Zanetto Bugatto, foram enviados para a oficina de Rogier para aprender com o mestre. Sua obra influenciou vários outros artistas como Hugo van der GoesHans MemlingPetrus ChristusDieric BoutsGerard DavidJoos van Cleef e Frans Floris
Seus quadros são hoje disputados pelos melhores museus e colecionadores de todo o mundo, encontrando-se algumas das suas obras no Museu do Prado, em Madrid e no Museu do Louvre, em Paris.

domingo, 20 de janeiro de 2013

"Adoração" - Poema de Guerra Junqueiro


Frederick Morgan, Marguerites


Adoração 


Eu não te tenho amor simplesmente. A paixão 
Em mim não é amor; filha, é adoração! 
Nem se fala em voz baixa à imagem que se adora. 
Quando da minha noite eu te contemplo, aurora, 
E, estrela da manhã, um beijo teu perpassa 
Em meus lábios, oh! quando essa infinita graça 
do teu piedoso olhar me inunda, nesse instante 
Eu sinto – virgem linda, inefável, radiante, 
Envolta num clarão balsâmico da lua, 
A minh'alma ajoelha, trémula, aos pés da tua! 
Adoro-te!... Não és só graciosa, és bondosa: 
Além de bela és santa; além de estrela és rosa. 
Bendito seja o deus, bendita a Providência 
Que deu o lírio ao monte e à tua alma a inocência, 
O deus que te criou, anjo, para eu te amar, 
E fez do mesmo azul o céu e o teu olhar!...


Guerra Junqueiro
, in 'Poesias Dispersas'


 Frederick Morgan, The garland


"Aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal."

(Friedrich Nietzsche)


 Frederick Morgan, Picking Wild Flowers


 Frederick Morgan, 1927


Frederick Morgan (1847 - 1856), was an English painter of portraits, animals, domestic and country scenes. He became famous for his idyllic genre scenes of childhood.
Morgan was born in London. He was commonly known as Fred Morgan and was the son of John Morgan, a successful genre artist sometimes known as 'Jury Morgan' (after one of his paintings "The Gentlemen of the Jury").
At the age of fourteen he was taken out of school by his father who then tutored him in art. At the age of 16, while still studying with his father, his first picture, "The Rehearsal", was exhibited at the Royal Academy, and, after a hiatus of several years, his paintings were shown there regularly. For a while he worked as a portrait artist for an Aylesbury photographer, - this training proved to be crucial as it "taught him how to observe closely and to give the greatest attention to detail."
Eventually he turned to other subjects for his art, in particular idyllic genre scenes of country life and childhood. For many years, starting in 1874, Thomas Agnew & Sons purchased all the work he produced. Over this period he painted some of his most popular works such as "The Doll’s Tea Party" (1874), "Emigrants' Departure" (1875) and "School Belles" (1877). Most of his painting was done in the village of Shere close to Guildford, a well-known retreat for artists. He also painted in Normandy, including "Midday Rest" (1879) and "An Apple Gathering" (1880).
Although an excellent portrait artist, Morgan had problems in depicting pets and barnyard animals - he enlisted the aid of either Arthur John Elsley or Allen Sealey (1850–1927) when such problems needed resolving.
He is known mostly for his romantic and sentimental paintings of children in the same style as his contemporary Arthur John Elsley. His paintings achieved great popularity in his lifetime and were widely published. He exhibited with the Royal Academy and was a member of the Royal Institute of Oil Painters (ROI).
In 1872 he married another painter, Alice Mary Havers (1850–1890); they had three children. Their eldest son, known as Val Havers, also developed into a painter. Frederick Morgan married twice more, producing two children from the second marriage. Morgan's paintings are exhibited at many art galleries and museums including the Walker Art Gallery in Liverpool and the Russell-Cotes Museum in Bournemouth. "His Turn Next", was used to advertise Pears' Soap and is in the Lady Lever Art.


Frederick Morgan, First Steps


"O amor é a arte de encontrar no rosto do outro o espelho dos nossos sonhos."

Inês Pedrosa, Expresso

sábado, 27 de outubro de 2012

"Timidez" - Poema de Maria Alberta Menéres


 
 Tullia Masinari (Ilustradora italiana, n. 1960), Jogar às escondidas na rua.


Timidez


O bicho-de-conta
Faz de conta, faz
Que é cabeça tonta
Mas lá bem no fundo
Não é mau rapaz.

Se a gente lhe toca,
Logo se disfarça:
Veste-se de bola.
Por mais que se faça
Não se desenrola.

Lá dentro escondendo
Patinhas e rosto
É todo um segredo:
Se eu fosse menino
Comigo brincava
Sem medo, sem medo. 


Maria Alberta Menéres
,
em 'Conversas com Versos', 2005.






A editora Asa publicou com regularidade, a obra completa de Maria Alberta Menéres, quer em prosa, quer em verso, dedicado às crianças. A poetisa, que é figura de destaque da chamada geração de 50, havendo, até, colaborado nas folhas de poesia Távola Redonda, tem composto, como os seus pares Matilde Rosa Araújo, Fernando de Paços, Eugénio de Andrade, Rosa Lobato Faria, Sidónio Muralha, versos destinados ao leitor infantojuvenil. Os temas são extremamente variados, desde os animais, plantas, objetos, sentimentos. São cinquenta e nove poemas cheios de graça, de lirismo e de beleza, a divertirem e a educarem a sensibilidade dos mais novos. Vale a pena citar outro poema escolhido à toa, nestas páginas primorosamente ilustradas por Rui Castro: Intitula-se Romance


"Havia um peixe no ar, 
um papagaio no mar, 
uma lâmpada no olhar, 
um cogumelo a chorar.

- Mãe, em que história seria? 

A princesa na floresta 
bebia orvalho e cantava, 
de sua boca tombando 
o que de sonho tombava. 

- Mãe, em que história eu fugia? 

Doze anões e uma antiga 
branca de neve, quem sabe? 
Havia um gato de botas
onde o meu pé já não cabe. 

- Mãe, em que história aparecia? 

Ah, montanhas de cristal 
onde um cavalo espantava
e um espelho que tudo via 
mil respostas me não dava. 

- Mãe, em que história eu dormia?



Ilustrações de Tullia Masinari
Ilustração de Tullia Masinari


(...) Enquanto a leitura for para nós a iniciadora cujas chaves mágicas nos abrem no fundo de nós próprios a porta das habitações onde não teríamos conseguido penetrar, o papel dela na nossa vida será salutar. (...)

Marcel Proust 


Tullia Masinari - Saltar à corda


“Use a sua luz, mas diminua o seu brilho.” 



Tullia Masinari - Saltar ao eixo


“Grandes realizações são possíveis quando se dá atenção aos pequenos começos.” 

(Lao Zi)


Tullia Masinari - Jogo da cabra cega


“Saber e não fazer, ainda não é saber.” 

(Lao Zi)


Tullia Masinari - Jogo corrida de sacos


“A atividade vence o frio. A quietude vence o calor.” 

(Lao Zi)


Tullia Masinari - Jogar ao berlinde


“Amar não é apoderar-se do outro para completar-se, mas dar-se ao outro para completá-lo.” 

(Lao Zi) 


Tullia Masinari - Jogar a bola
 

"Aquilo que ouço, esqueço; 
aquilo que vejo, lembro, 
aquilo que faço, entendo."

(Lao Zi)


Tullia Masinari Jogo da Bandeira
 

"Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina!"

(Lao Zi)


Tullia Masinari 


"Sempre tive pena de mim por não ter sapatos. 
Um dia, encontrei um homem que não tinha pés." 

(Lao Zi)


Tullia Masinari 
 

"Se estiveres no caminho certo, avança;
 se estiveres no errado, recua."

(Lao Zi)


Tullia Masinari 
 

"Se deres um peixe a um homem faminto, vais alimentá-lo por um dia. 
Se o ensinares a pescar, vais alimentá-lo toda a vida."

(Lao Zi)


Tullia Masinari 
 

"A bondade em palavras cria confiança; 
a bondade em pensamento cria profundidade;
 a bondade em dádiva cria amor."

 (Lao Zi)


Tullia Masinari 
 

"Quem conhece a sua ignorância revela a mais profunda sapiência.
 Quem ignora a sua ignorância vive na mais profunda ilusão."

(Lao Zi)


Tullia Masinari 
 

"O sábio não se exibe e vejam como é notado. 
Renuncia a si mesmo e jamais é esquecido."

 (Lao Zi)


Tullia Masinari  Le dune di Dunhuang - deserto del Gobi Cina
 

"Lança o saber e não terás tristeza." 

(Lao Zi)


Tullia Masinari 
 

"O homem realmente culto não se envergonha de fazer perguntas também aos menos instruídos." 


Lao Zi (também conhecido como Lao-Tzu e Lao-Tze) foi um importante filósofo da China antiga, conhecido como o autor do "Tao Te Ching", a obra basilar da filosofia taoísta.


Tullia Masinari 

"As paixões ensinaram a razão aos homens." 

(William Shakespeare) 


Tullia Masinari 


"Quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar." 

(Friedrich Nietzsche)


Tullia Masinari 


"As «histórias» dos meus livros são desde há muito dadas por manchas como uma pintura." 

(Vergílio Ferreira)



Dueto de Eugénia com Chico Buarque
Retirado do CD "DESCONSTRUÇÃO"