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segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

"Solidão estrelada" - Poema de Alberto de Oliveira

 
Dankvart Dreyer (Danish landscape painter, 1816–1852), Road across Hills, c. 1842.
 

Solidão estrelada


Eu sou da plaga infinita
A solidão estrelada.
Homem, cuja alma se agita
Sempre inquieta e atribulada,

Que tens? que dores consomem
O teu coração que, assim,
Estacas os olhos, homem,
Prendendo-os, atento, em mim?

Invejas-me acaso? ouviste
Que posso, alma desditosa,
Tornar-me feliz, eu, triste!
Eu, solidão misteriosa!

Vem até mim! vem comigo
Estupidamente olhar
Este quadro gasto e antigo
De nuvens, de estrelas, de ar...

Vem compartir o cansaço
Que ab aeterno, sem remédio
Me faz no enfadonho espaço
Bocejar todo o meu tédio.

Como enfara o comprimento
Desta extensão que produz
Os astros no firmamento,
Nos astros a mesma luz!

E hei de até quando estender-me,
Triste, monótona e vasta,
Sem que em mim se agite o verme
Do tempo, que tudo gasta?

Solidão, silêncio enorme,
Eis tudo o que sou. Porém,
Se amas a dor que não dorme,
A dor sem limites, - vem! 


Alberto de Oliveira, Poesias, 2ª série, 1906.
 
 
Dankvart Dreyer, A View of Lake Vejl near Silkeborg, Jutland, 1843.
Statens Museum for Kunst


"É uma deformação da solidão extrema o acabar por nos fazer crer na imaginação que o nosso monólogo íntimo possa ser percebido ao longe sem palavras."

Saint-John Perse
, 'Correspondência'



Dankvart Dreyer, Dolmen on Brandsø, c. 1842, The Hirschsprung Collection


Para compreender, destruí-me


Para compreender, destruí-me. Compreender é esquecer de amar. Nada conheço mais ao mesmo tempo falso e significativo que aquele dito de Leonardo da Vinci, de que se não pode amar ou odiar uma coisa senão depois de compreendê-la.

A solidão desola-me; a companhia oprime-me. A presença de outra pessoa descaminha-me os pensamentos; sonho a sua presença com uma distração especial, que toda a minha atenção analítica não consegue definir. 

 (Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho).
Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1982. - 234. 

quinta-feira, 10 de março de 2016

"Anoitece em inferno a minha casa" - Poema Helga Moreira



Delphin Enjolras (French painter, 1857-1945), La Toilette, s.d.
 

Anoitece em inferno a minha casa


Anoitece em inferno a minha casa.
Fico com este começo de verso
a serenar a exaltação de não dizer nada.
Deixem-me com este sorriso a morrer
por uma sílaba mais real onde um verso
me sossegue
com unhas de lama e sangue,
como garras.
Anoitece em inferno a minha casa.
Fica a certeza de não ter fim o que
de inutilidades se basta,
ou apenas o instante em que,
por um verso, eu fui
à outra parte da casa. 


Helga Moreira,
in "Os Dias Todos Assim", 1996. 



Delphin Enjolras, After Tea, s.d.


À pergunta habitual: ''Por que é que escreve?'',
 a resposta do poeta será sempre a mais curta:
 ''Para viver melhor.''

(Pseudónimo de Alexis Leger)