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quinta-feira, 9 de julho de 2020

"Piscatória" - Poema de Luís de Camões

 

Piscatória

Sereno

Arde por Galateia branca e loura
Sereno, pescador pobre, forçado
d'uma estrela cruel que à míngua moura.
Os outros pescadores têm lançado
no Tejo as redes; ele só fazia
este queixume ao vento descuidado:
Quando virá, formosa Ninfa, o dia
em que te possa dar a conta estreita
desta doudice triste e vã porfia?
Não vês que me foge a alma e que me enjeita,
buscando num só riso da tua boca,
nos teus olhos azuis, mansa colheita?
Se a esse espírito alguma mágoa toca,
se de Amor fica nele uma pegada,
que te vai, Galateia, nesta troca?
Dar-te-ei minha alma; lá ma tens roubada;
não ta demandarei; dá-me por ela
uma só volta de olhos descuidada.
Se muito te parece, e minha estrela
não consentir ventura tão ditosa,
dou-te as asas do Amor perdidas nela.
Que mais te posso dar, Ninfa formosa,
inda que o mar d'aljôfar me cubrira
toda esta praia leda e graciosa?
Amansam ondas, quebra o vento a ira;
minha tormenta triste não sossega;
arde o peito em vão, em vão suspira.
Ao romper d'alva anda a névoa cega
sobre os montes da Arrábida viçosos,
enquanto a eles a luz do sol não chega.
Eu vejo aparecer outros formosos
raios, que a graça e cor ao céu roubaram;
ficam meus olhos cegos mais saudosos.
Quantas vezes as ondas se encresparam
com meus suspiros! Quantas com meu pranto
se pararam com mágoa e me escutaram!
Se na força da dor a voz levanto,
e ao som do remo que a água vai ferindo
por alta lua meu cuidado canto,
os maviosos delfins me estão ouvindo;
a noite sossegada; o mar, calado.
Só, Galateia, foges e vás rindo.
Estranhas, porventura, o mar cercado
da fraca rede, a barca ao vento solta,
e um pobre pescador aqui lançado?
Antes que o sol dê no céu uma volta
se pode melhorar minha ventura,
como acontece aos outros, n'água envolta.
Igual preço não é da formosura
areia de ouro, que o rico Tejo espraia,
mas um amor que para sempre dura.
Vejam teus olhos, bela Ninfa, a praia;
verás teu nome na mimosa areia.
Nunca sobre ele o mar com fúria saia,
que até agora nem vento e ar salteia!
Três dias há que escrito aqui o deixou
Amor, guardando-o a toda a força alheia.
Ele com suas mãos mesmo ajudou
escolher estas conchas que, guardando,
uma e uma para ti só ajuntou.
Um ramo te colhi de coral brando;
antes que o ar lhe desse, parecia
o que eu de tua boca estou cuidando.
Ditoso se o soubesse inda algum dia!


Luís de Camões,
 

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

"Os Lusíadas" - Poema Épico de Luís Vaz de Camões



António Carneiro (Pintor, ilustrador, poeta e professor português, 1872–1930),
Camões lendo "Os Lusíadas" aos Frades de São Domingos, 1927
 

Os Lusíadas

Canto I

1
As armas e os barões assinalados,
Que da ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

2
E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis, que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando;
E aqueles, que por obras valerosas
Se vão da lei da morte libertando;
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

3
Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram:
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.

4
E vós, Tágides minhas, pois criado
Tendes em mim um novo engenho ardente,
Se sempre em verso humilde celebrado
Foi de mim vosso rio alegremente,
Dai-me agora um som alto e sublimado,
Um estilo grandíloquo e corrente,
Porque de vossas águas, Febo ordene
Que não tenham inveja às de Hipocrene.

5
Dai-me uma fúria grande e sonorosa,
E não de agreste avena ou frauta ruda,
Mas de tuba canora e belicosa,
Que o peito acende e a cor ao gesto muda;
Dai-me igual canto aos feitos da famosa
Gente vossa, que a Marte tanto ajuda;
Que se espalhe e se cante no universo,
Se tão sublime preço cabe em verso.

6
E vós, ó bem nascida segurança
Da Lusitana antiga liberdade,
E não menos certíssima esperança
De aumento da pequena Cristandade;
Vós, ó novo temor da Maura lança,
Maravilha fatal da nossa idade,
Dada ao mundo por Deus, que todo o mande,
Para do mundo a Deus dar parte grande;

7
Vós, tenro e novo ramo florescente
De uma árvore de Cristo mais amada
Que nenhuma nascida no Ocidente,
Cesárea ou Cristianíssima chamada;
(Vede-o no vosso escudo, que presente
Vos amostra a vitória já passada,
Na qual vos deu por armas, e deixou
As que Ele para si na Cruz tomou)

8
Vós, poderoso Rei, cujo alto Império
O Sol, logo em nascendo, vê primeiro;
Vê-o também no meio do Hemisfério,
E quando desce o deixa derradeiro;
Vós, que esperamos jugo e vitupério
Do torpe Ismaelita cavaleiro,
Do Turco oriental, e do Gentio,
Que inda bebe o licor do santo rio;

9
Inclinai por um pouco a majestade,
Que nesse tenro gesto vos contemplo,
Que já se mostra qual na inteira idade,
Quando subindo ireis ao eterno templo;
Os olhos da real benignidade
Ponde no chão: vereis um novo exemplo
De amor dos pátrios feitos valerosos,
Em versos divulgado numerosos.

10
Vereis amor da pátria, não movido
De prémio vil, mas alto e quase eterno:
Que não é prémio vil ser conhecido
Por um pregão do ninho meu paterno.
Ouvi: vereis o nome engrandecido
Daqueles de quem sois senhor superno,
E julgareis qual é mais excelente,
Se ser do mundo Rei, se de tal gente.

11
Ouvi, que não vereis com vãs façanhas,
Fantásticas, fingidas, mentirosas,
Louvar os vossos, como nas estranhas
Musas, de engrandecer-se desejosas:
As verdadeiras vossas são tamanhas,
Que excedem as sonhadas, fabulosas;
Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro,
E Orlando, inda que fora verdadeiro,

12
Por estes vos darei um Nuno fero,
Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço,
Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero
A cítara para eles só cobiço.
Pois pelos doze Pares dar-vos quero
Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço;
Dou-vos também aquele ilustre Gama,
Que para si de Eneias toma a fama.

...........

O texto com a ortografia original, publicada em 1572, está disponível em Os Lvsiadas.   
Vasco da Gama, protagonista por excelência d’Os Lusíadas,
 na chegada à Índia, a 20 de Maio de 1498.

 
Os Lusíadas é uma obra de poesia épica do escritor português Luís Vaz de Camões, considerada a "epopeia portuguesa por excelência". Provavelmente concluída em 1556, foi publicada pela primeira vez em 1572 no período literário do classicismo, três anos após o regresso do autor do Oriente.

A obra é composta de dez cantos, 1.102 estrofes e 8.816 versos que são oitavas decassílabas, sujeitas ao esquema rímico fixo AB AB AB CC – oitava rima camoniana. A ação central é a descoberta do caminho marítimo para a Índia por Vasco da Gama, à volta da qual se vão descrevendo outros episódios da história de Portugal, glorificando o povo português. (daqui) 


Ilustração da nau de Vasco da Gama com os deuses nas nuvens


"E sou já do que fui tão diferente
Que, quando por meu nome alguém me chama,
Pasmo, quando conheço
Que ainda comigo mesmo me pareço." 


Luís Vaz de Camões,
em Éclogas
(Almeno e Agrário, Pastores) (daqui)