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sábado, 16 de junho de 2012

"Momento" - Poema de Lídia Jorge


Egon Schiele, Autumn Trees, 1911



Momento 


Cai a chuva no portal, está caindo
entre nós e o mundo, essa cortina
Não a corras, não a rasgues, está caindo
Fina chuva no portal da nossa vida.
Gotas caem separando-se do mundo
Para vivermos em paz a nossa vida.

Cai a chuva no portal, está caindo
Entre nós e o mundo, essa toalha
Ela nos cobre, não a rasgues, está caindo
Chuva fina no portal da nossa casa.
Por um dia todos longe e nós dormindo
Lado a lado, como páginas dum livro.




Galeria de Egon Schiele

Egon Schiele, Self Portrait, 1913


Egon Schiele (Tulln an der Donau, 12 de Junho de 1890 — Viena, 31 de Outubro de 1918) foi um pintor austríaco ligado ao movimento expressionista.


Egon Schiele, A morte e a mulher, 1915 


As imagens intensas e distorcidas de Egon Schiele são inflexíveis na expressão de sentimentos humanos. Profundamente afetado pelas explorações do inconsciente, a obra de Schiele dava forma às suas próprias ansiedades e inseguranças.


Egon Schiele, O abraço, 1917
 

A sua carreira foi breve, e muitas das suas obras contêm sexo explícito, o que levou o artista à prisão por "fazer desenhos imorais". A aguda intensidade nervosa de seu estilo tornou-o um dos mais importantes pintores expressionistas, embora ele nunca tenha se identificado formalmente com o movimento. 
Schiele morreu prematuramente de influenza, no momento em que seu trabalho começava a ser reconhecido. 


Egon Schiele, Four Trees, 1917


 
Egon Schiele, Little Tree (Chesnut Tree at Lake Constance), 1912



Egon Schiele, Sunflowers, 1911



Egon Schiele, Edge of Town (Krumau Town Crescent), 1918
 


Egon Schiele, Village with Mountains, 1907



Egon Schiele, Landscape at Krumau, 1916



Egon Schiele, Windows (Facade of a House), 1914



Egon Schiele, Poldi Lodzinsky, 1910
 


Egon Schiele, Seated Girl, 1911



Egon Schiele, Russian Prisoner of War (Grigori Kladjishuli), 1916



Egon Schiele, Portrait of Arthur Roessler, 1910



Egon Schiele, The Truth Unveiled, 1913



Egon Schiele, Two Girls on a Fringed Blanket, 1911


Egon Schiele, Reclining Woman with Green Stockings, 1917



Egon Schiele, Portrait of the Artist's Wife, Seated, 1918



Egon Schiele, Portrait of Paris von Gütersloh, 1918



Egon Schiele, Self-Portrait as St. Sebastian 
(Poster for Arnot Gallery exhibition), 1914/15



 Maria João e Mário Laginha
I've Grown Accustomed to His Face



"A cidade é um chão de palavras pisadas" - Poema de Ary dos Santos


Egon Schiele, Die kleine Stadt II. View of Krumau an der Moldau, 1912–1913


A Cidade

 
A cidade é um chão de palavras pisadas
a palavra criança a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra distância e a palavra medo.

A cidade é um saco um pulmão que respira
pela palavra água pela palavra brisa.
A cidade é um poro um corpo que transpira
pela palavra sangue pela palavra ira.

A cidade tem praças de palavras abertas
como estátuas mandadas apear.
A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar.

A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
não há rua de sons que a palavra não corra
à procura da sombra de uma luz que não há.


José Carlos Ary dos Santos




José Carlos Ary dos Santos  (Lisboa, 7 de Dezembro de 1937 — Lisboa, 18 de Janeiro de 1984) foi um poeta e declamador português. Proveniente de uma família da alta burguesia, com antepassados aristocratas, era filho do médico Carlos Ary dos Santos (1905-1957) e de Maria Bárbara de Miranda e Castro Pereira da Silva (1899-1950).
Estudou no Colégio de São João de Brito, em Lisboa, onde foi um dos primeiros alunos. Após a morte da mãe, vê publicados pela mão de vários familiares, alguns dos seus poemas. Tinha catorze anos e viria, mais tarde, a rejeitar esse livro. Ary dos Santos revelaria, verdadeiramente, as suas qualidades poéticas em 1954, com dezasseis anos de idade. Várias poesias suas integraram então a Antologia do Prémio Almeida Garrett.
Pela mesma altura, Ary abandona a casa da família. Para seu sustento económico exerce as mais variadas atividades, que passariam pela venda de máquinas para pastilhas elásticas, até ao trabalho numa empresa de publicidade. Não cessa de escrever e, entretanto, dá-se a sua estreia literária efetiva, com a publicação de A Liturgia do Sangue (1963). Em 1969 adere ao Partido Comunista Português, com qual participa ativamente nas sessões de poesia do então intitulado Canto Livre Perseguido.
Através da música chegará ao grande público, concorrendo, por mais que uma vez, ao Festival RTP da Canção, sob pseudónimo, como exigia o regulamento. Classificar-se-ia em primeiro lugar com as canções Desfolhada Portuguesa (1969), com interpretação de Simone de Oliveira, Menina do Alto da Serra (1971), interpretada por Tonicha, Tourada (1973) e Portugal no Coração (1977), interpretações do conjunto Os Amigos.
Após o 25 de Abril, torna-se um ativo dinamizador cultural da esquerda, percorrendo o país de lés a lés. No Verão Quente de 1975, juntamente com militantes da UDP e de outras forças radicais, envolve-se no assalto à Embaixada de Espanha, em Lisboa.
Autor de mais de seiscentos poemas para canções, Ary dos Santos fez no meio muitos amigos. Gravou, ele próprio, textos ou poemas de e com muitos outros autores e intérpretes. Notabilizou-se também como declamador, tendo gravado um duplo álbum contendo O Sermão de Santo António aos Peixes, do Padre António Vieira. À data da sua morte tinha em preparação um livro de poemas intitulado As Palavras das Cantigas, onde era seu propósito reunir os melhores poemas dos últimos quinze anos, e um outro intitulado Estrada da Luz - Rua da Saudade, que pretendia ser uma autobiografia romanceada.
Depois de falecer, a 18 de Janeiro de 1984, o seu nome foi dado a um largo do Bairro de Alfama, descerrando-se uma lápide evocativa na fachada da sua casa, na Rua da Saudade, onde viveu praticamente toda a sua vida. Ainda em 1984 foi lançada a obra VIII Sonetos de Ary dos Santos, com um estudo sobre o autor de Manuel Gusmão e planeamento gráfico de Rogério Ribeiro, no decorrer de uma sessão na Sociedade Portuguesa de Autores, da qual o autor era membro. Em 1988, Fernando Tordo editou o disco O Menino Ary dos Santos, com os poemas escritos por Ary dos Santos na sua infância. Em 2009, Mafalda Arnauth, Susana Félix, Viviane e Luanda Cozetti dão voz ao álbum de tributo Rua da Saudade - canções de Ary dos Santos.
Hoje, o poeta do povo é reconhecido por todos e todos conhecem José Carlos Ary dos Santos, pois a sua obra permanece na memória de todos e, estranhamente, muitos dos seus poemas continuam atualizados. Todos os grandes cantores o interpretaram e ainda hoje surgem boas vozes a cantá-lo na perfeição. Desde Fernando Tordo, Simone de Oliveira, Tonicha, Paulo de Carvalho, Carlos do Carmo, Amália Rodrigues, Maria Armanda, Teresa Silva Carvalho, Vasco Rafael, entre outros, até aos mais recentes como Susana Félix, Viviane, Mário Barradas, Vanessa Silva e Katia Guerreiro. (Fonte: Wikipédia)


Pintura de Egon Schiele


Vida e Obra de Egon Schiele
  
Photograph of Egon Schiele, 1910


Egon Schiele (Tulln an der Donau, 12 de Junho de 1890 — Viena, 31 de Outubro de 1918) foi um pintor austríaco ligado ao movimento expressionista
Nasceu no seio de uma família humilde, sendo que seu pai era um trabalhador do caminhos de ferro. Em 1905, com quinze anos, Schiele perdeu o pai por causa da sífilis. A partir dessa data ficou aos cuidados de um tio materno que reconheceu o seu valor artístico e o apoiou. No ano seguinte ingressou na Akademie der Bildenden Künste, em Viena, onde estudou desenho e pintura, em oposição à vontade de sua mãe que queria vê-lo a seguir os passos do pai. 
Em 1907, Schiele conheceu Gustav Klimt que, interessado no seu trabalho, fez dele o seu "protegido". Ajudou-o comprando os seus trabalhos, apresentando-o a pessoas influentes, arranjando-lhe modelos, entre outras coisas. 
A sua primeira exposição foi em 1908 na Klosterneuburg. Insatisfeito com o carácter conservador da academia, Schiele abandonou os estudos e, juntamente com outros colegas que partilhavam a mesma insatisfação, criou o grupo Neukunstgruppe ("Grupo nova arte"). Liberto do conservadorismo, começou a explorar mais a forma humana e também a sexualidade. 
Em 1911, conheceu Valerie (Wally) Neuzil, a rapariga com dezassete anos com quem começou a viver em Viena usando-a também como modelo para alguns dos seus melhores trabalhos. Para fugirem à vida na cidade mudaram-se para Český Krumlov (Krumau). O seu estilo de vida (que incluia pintar modelos adolescentes da zona) teve um impacto negativo na população. 
Este impacto fez com que se mudassem de novo, desta vez para Neulengbach. Como estavam perto de Viena (cerca de 35 km), o seu estúdio tornou-se num ponto de encontro de crianças deliquentes. Também aqui o seu estilo de vida não era de agrado das outras pessoas. Schiele chegou mesmo a ser preso por ter seduzido uma menor. Quando os polícias o foram prender levaram também vários trabalhos que consideram pornográficos. Schiele foi preso por 21 dias, não por ter seduzido a menor, mas sim por ter alegadamente exposto trabalhos pornográficos num local acessivel a menores. 
Em 1915 Egon deixou Valerie e ficou noivo de Edith Harms, vindo a casar-se no dia 15 de Junho desse ano. Em 1918, Schiele foi convidado a participar na 49º Secessão em Viena. Teve 50 trabalhos aceites na exibição que foram postos na sala principal. Fez também o poster para a exibição, o qual era inspirado na Última Ceia, com o seu retrato no lugar de Cristo. Este acontecimento foi um tremendo sucesso tendo resultado na subida do valor económico dos trabalhos deste artista. Durante o último ano da sua vida, Egon Schiele fez várias outras exposições igualmente com sucesso.
No outono de 1918, Edith, grávida de seis meses, foi uma das mais de vinte milhões vítimas da gripe espanhola, morrendo a 28 de Outubro. Três dias depois da sua morte, Schiele abandona também a sua vida. Durante estes três dias, Egon Schiele fez alguns retratos de Edith, tendo sido estes os seus últimos trabalhos.
Este grande representante do expressionismo austríaco deixou trabalhos onde estavam a representados seres humanos transfigurados por sentimentos fortes implícitos no seu traço, amantes revirados em amontoados de lençóis brancos, diversas mulheres posando para ele e autorretratos provocantes mostrando a sua visão de si (provavelmente), assim como também fez algumas paisagens e residências burguesas, nos quais exibe um estilo cuidadoso e elegante, de traços bordados, com fortes contrastes entre ocres e cores primárias.
Atualmente as suas obras mais importantes encontram-se em museus de Viena e da Suíça assim como em importantes coleções particulares. (Fonte: Wikipédia)


Egon Schiele - Autorretrato, 1912


House with Shingles, 1915






 Wally (1912)


Egon Schiele - Zwei Kleine Mädchen, 1911


Mother and Two Children - 1917
















Casal de mulheres (1915), de Egon Schiele, 
Magyar Szépmüvészeti Múzeum, Budapeste.






Agony - 1912

Tod und Mädchen (Death and the Maiden), 1915










Egon Schiele - The Family - 1918


"Trabalha como se vivesses para sempre. Ama como se fosses morrer hoje." 

(Séneca) 


"Meus olhos que por alguém" - Poema de António Botto


Gustav Klimt, Friso Stoclet - O cumprimento, 1904-1909 (detalhe)
 
 

Meus olhos que por alguém


Meus olhos que por alguém
deram lágrimas sem fim
já não choram por ninguém
- basta que chorem por mim.

Arrependidos e olhando
a vida como ela é,
meus olhos vão conquistando
mais fadiga e menos fé.

Sempre cheios de amargura!
Mas se as coisas são assim,
chorar alguém - que loucura!
- Basta que eu chore por mim.
 
 


Obras de Gustav Klimt

Gustav Klimt, O Chapéu de Plumas Negras


Gustav Klimt, Retrato de  Hermine Gallia, 1904. 
National Gallery, London


Pintura de Gustav Klimt 


Gustav Klimt, Adele Bloch-Bauer I


Gustav Klimt, Mäda Primavesi, 1912
Metropolitan Museum of Art, New York.
 

Pintura de Gustav Klimt
 

Pintura de Gustav Klimt


Gustav Klimt, Retrato de Emilie Flöge, 1902
 

"Qualquer novo conhecimento provoca dissoluções e novas integrações".
 
Hugo von Hofmannsthal, "O Livro dos Amigos" 


Pintura de Gustav Klimt
 
 
"As palavras desintegravam-se na minha boca como cogumelos mofados". 

 Hugo von Hofmannsthal citado em "Texto/contexto: ensaios‎" - Página 264, de Anatol Rosenfeld - publicado por Perspectiva, 1969 - 266 páginas 
 

Gustav Klimt, Expectation


- A História de Amor de Gustav Klimt -

 Emilie FlögeGustav Klimt


Grande percursor da Art Nouveau no século XX, conhecido por quadros dourados, florais e que usavam livremente da sexualidade, Klimt teve sua época mais produtiva entre o final do séuculo XIX e começo do século XX, pintando até 1918 quando morreu de apoplexia.
Mulherengo convicto e aventureiro foi aclamado em Veneza por pintar vários retratos femininos, dentre um deles o de Emilie Flöge.


Emilie Flöge, 1902


Tal dama em questão ficou conhecida por ter sido amante e grande amor de Klimt, tendo dado lenha para dois livros e um filme, a história pouco divulgada gerou um dos quadros mais famosos do pintor ” Retrato de Emilie Flöge” e consequentemente o quadro mais famoso ” O Beijo “.


 The Kiss, 1907–1908 

Emilie foi uma renomada modista veneziana, irmã da mulher do irmão de Klimt, começou a ter um romance com o pintor quando tinha 18 anos, após a morte de Ernest Klimt.
Atuantes na Secessão de Viena, grupo de artistas que variavam entre arquitetos, designs e pintores, tendo assim um relacionamento não só pessoal como profissional.
Conta-se que uma das frases mais marcantes de Klimt foi dita para Emilie antes de sua morte “Todo ano, custe o que custar, em vez de me casar vou dar uma pintura para você”, o que deixa o rumor de que eram realmente amantes.O romance durou até sua morte, tendo Emilie herdado metade dos bens e a outra metade tendo ficado para a família Klimt.
Os últimos anos do casal se passaram na Austria, porém, muitos historiadores acreditam que viviam como amigos, dormiam em camas separadas e mantinham um amor ‘fraternal’. Ambos eram discretos com a vida pessoal, após se mudarem muito se perdeu, os poucos documentos da época foram queimados pelo Governo Nazista. Quase todas as obras de Klimt foram roubadas ou tomadas, só sendo reavidos após anos e outra grande quantia foi destruída. Emilie mesmo após a morte do pintor manteve o ateliê intacto e preservou rascunhos e quadros, muitos nunca mostrados, selados a sete chaves no acervo pessoal da família.
Na época de ouro de Klimt e Flöge ambos abriram juntos uma casa de alta costura onde a grandes da aristocracia veneziana faziam questão de frequentar, com um design único os vestidos seguiam o padrão ‘solto’ da reforma dos vestidos, com estampas florais e adornos fluídos. Feminista assumida, Emilie marcou a época com seus vestidos e protagonizou uma história de amor que muito nos lembra a de Sartre com Beauvoir.
Enquanto vivo conta que podia-se ver Klimt com sua túnica solta pintando paisagens e Emilie ao seu lado, com vestidos coloridos.


Retrato de Gustav Klimt feito por Egon Schiele (1890–1918)



EGON SCHIELE - A FOME E O SEXO

Por Helena Vasconcelos

Egon Schiele, um dos expoentes máximos do expressionismo austríaco, nasceu em Junho de 1890 na estação de combóios de Tulln, onde o seu pai, Adolf, trabalhava ao serviço da Companhia de Caminhos de Ferro Austríacos e morreu em 1918, com apenas 28 anos. Durante a sua curta vida produziu uma obra importantíssima que define e prefigura, como nenhuma outra, a “malaise” de um século violento e trágico.
Na terra natal de Egon Schiele, nas margens do Danúbio, não existia nenhuma escola e, em 1901, o jovem foi enviado primeiro para Krems e depois para Klosterneuburg, nos arredores de Viena para onde toda a família se mudou devido ao estado de saúde de Adolf que morreu em 1905, depois de ter sido oficialmente consideradado louco. Na adolescência, Schiele assumiu o desaparecimento do pai como um trauma, desenvolvendo uma doentia aversão em relação à mãe a quem, à semelhança de Hamlet, culpava por não ter chorado convenientemente o marido e de quem se queixava de falta de afecto. A instabilidade emocional do jovem Egon, predispunha-o para o desenvolvimento das capacidades artísticas que manifestou desde muito cedo, embora se insurgisse contra os que o incentivavam a seguir a carreira de pintor. (“Os meus grosseiros professores foram sempre os meus piores inimigos”, gostava ele de afirmar).
Precoce, arrebatado, absolutamente seguro da sua genialidade, Schiele associava os comboios da sua infância à ideia de evasão, de viagem. Com apenas dezassete anos arrastou a sua adorada irmã Gertie, de treze anos, que lhe despertava um amor incestuoso, até Trieste e, em 1913 deslocou-se a Varsóvia, Krumau, Munique, Villach, Tarvis e Altmunster no lago Traun. A sua inquietação não lhe permitia qualquer tipo de relações estáveis mas a sua entrada para a Academia de Belas-Artes de Viena, contrariando as intenções do seu tio e tutor Leopold, foi determinante para a sua carreira. Passou brilhantemente no exame de admissão, apenas com dezaseis anos e, em 1908, expôs pela primeira vez, em Klosterneuburg.
Por essa altura, Viena, a capital do império austrohúngaro, era um lugar de grande efervescência cultural, a “cidade dos sonhos” de Musil. Mas, a par do fausto dos salões e da sumptuosidade das festas, grassavam a fome, as doenças e a pobreza extrema, criando um clima de catástrofe que culminou na 1ª Guerra Mundial. Nesse ambiente de contrastes, floresceram a arte, a ciência, a filosofia, a literatura, a música, a arquitectura. Foi nessa Viena, em que conviviam Freud, Wittgenstein, Schoenberg, Alban Berg, Anton von Webern, Gustav Mahler, Schnitzler, von Hofmannsthal, Musil, Karl Kraus, Stefan Zweig, Otto Wagner, Adolf Loos, Josef Hoffman, e muitos outros, que Schiele se instalou, aos 17 anos, sob a protecção de Gustav Klimt (1862-1918). Mas, ao contrário de Klimt, mais ligado ao Simbolismo e à chamada Arte Nova, que procurava mostrar principalmente o lado “imperial” da sociedade vienense, com as suas mulheres voluptuosas, plenas de uma sensualidade insolente, entregues a todo o tipo de prazeres, cobertas de ouro e tecidos preciosos, Egon Schiele desenhou e pintou a crueldade de um mundo em adiantado estado de decomposição. 
Principalmente nos seus desenhos é possível descortinar uma análise psicológica austera e violenta que não abrange qualquer condescendência em relação a uma sociedade que ele observava a cavar impiedosamente a sua própria sepultura. (Quem estiver interessado em aprofundar a dicotomia entre a obra de Klimt e a de Schiele – e tomar consciência de duas visões antagónicas da mesma realidade - poderá comparar o tratamento dado em relação a temas idênticos como é o caso do retrato que ambos fizeram de Frederike Maria Beer).
Em 1911, Schiele conheceu Wally Neuzil, uma jovem de dezassete anos que fora modelo de Klimt e, provavelmente, sua amante. Egon pintou e desenhou Wally naquelas que são consideradas algumas das suas melhores obras. Viveram juntos durante algum tempo, mudando-se primeiro para a pequena cidade de Krumau e mais tarde para Neulengbach, em parte para escapar ao ambiente de Viena e também para satisfazer o desejo de evasão de Schiele que sofria de fobias diversas e de mania da perseguição. Mas a forma de vida de ambos, boémia e desregrada – Schiele tinha sempre a casa cheia de crianças e jovens vadios de ambos os sexos, fugidos a maus tratos em casa ou simplesmente com fome - criou problemas em comunidades pequenas e conservadoras e eles foram sucessivamente rechaçados e perseguidos.
Schiele procurou uma verdade profunda e oculta nos olhares emaciados, e por vezes pesadamente maquilhados das mulheres, e nos corpos nus e pré púberes de crianças, revelando assim a experiência do despertar da sensualidade e da procura espiritual. O carácter explicitamente sexual e obsessivo das suas obras, as suas relações eróticas, ambíguas e desregradas, bem como o facto de ter utilizado crianças para posarem para ele, valeram-lhe uma denúncia pública. Foi preso em Abril de 1912 e a polícia apreendeu mais de cem desenhos considerados pornográficos. O processo instaurado incluía o rapto e sedução de uma criança e embora esta última acusação não tenha sido provada o juiz condenou-o por “exibir cenas eróticas num lugar onde havia crianças” e sentenciou-o a três dias de cadeia. Como punição extra, um dos seus desenhos foi queimado na sua presença, pelo próprio magistrado. Durante o tempo que passou na cadeia, Schiele produziu uma enorme quantidade de auto-retratos e colocou-se no papel de vítima injusticada, afirmando sentir-se “purificado” por aquela provação. 
A sua atitude consistentemente narcisista pode ser constatada através das suas múltiplas declarações. Em Março de 1913 escreveu à mãe o seguinte: 
“ em mim estão reunidas todas as mais belas e nobres qualidades... serei o fruto que deixará o legado da eterna vitalidade, mesmo depois da dissolução final. Como deve sentir-se imensamente feliz por ter dado à luz um ser como eu!”
A partir de 1912 as tendências exibicionistas e a jactância de Schiele foram aumentando de intensidade, principalmente depois de ter começado a trabalhar com um importante “marchand”, Hans Goltz , de Munique. Em 1914 conheceu as irmãs Adéle e Edith, pelas quais se sentiu simultaneamente atraído até acabar por se fixar em Edith, com quem se casou em 1915, a dois dias de ser chamado para a “frente” e depois de ter “despedido” sumariamente Wally a quem, no entanto, propôs que passassem férias juntos, no futuro. ( Wally recusou e acabou por morrer de tifo, no cumprimento do dever como enfermeira, durante a Guerra). 
Schiele sobreviveu a esses terríveis anos e a sua popularidade continuou a crescer tendo sido convidado, em 1918, a participar na 49ª edição da Sezession para a qual produziu um “poster” que reproduzia a cena da Ultima Ceia, com ele próprio no papel de Jesus. Mudou-se com Edith para uma casa maior e melhor mas a 19 de Outubro de 1918 Edith, que estava grávida, adoeceu com a gripe espanhola que grassava por toda a Europa. Morreu a 28 de Outubro e Egon teve a mesma sorte, três dias depois.
Schiele foi um artista condenado por denunciar a corrupção de uma sociedade hipócrita e decadente, como Sade e Oscar Wilde. Ele mais não fez do que expressar o horror do ser humano levado ao extremo da sua degradação. Para Schiele a Natureza era tanto mais fascinante quanto mais animada por um declínio irrevogável. Ao contrário de artistas como por exemplo Van Gogh, que pintou os célebres “Girassóis” como força triunfante, solar e vital, Egon preferiu ilustrar a qualidade outonal das plantas em decomposição, no processo de desintegração. Explorou sem complacência a antevisão da morte em tudo, nas belas flores já ressequidas, nos traços de fome, de vício, de devassidão, de doença em corpos ainda jovens, nas visões alucinatórias de cidades imersas em escuridão. Muitos dos corpos masculinos e femininos que desenhou, angulosos, distorcidos e de uma atroz magreza, parecem antecipar os horrores dos campos de concentração. Mas a sua sensualidade demonstra bem a fome do sexo e a ânsia do ser humano de sobreviver a todas as tragédias.

Nota: Egon Schiele deixou uma vasta obra - cerca de 250 pinturas e 2000 desenhos.Uma parte significativa do espólio encontra-se no Egon Schiele Art Center na cidade medieval de Ceský Crumlov na Republica Checa.


  Egon Schiele, Autorretrato
 
 
"Não se pode pretender que alguém conheça tudo, mas sim que, conhecendo alguma coisa, tenha conhecimento de tudo". 

Hugo von Hofmannsthal, "O Livro dos Amigos"

Hugo von Hofmannsthal, pseudónimo de Hugo Laurenz August Hofmann (1 de fevereiro de 1874, em Viena, Áustria; 15 de julho de1929, em Rodaun, Áustria) foi um escritor austríaco.