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domingo, 16 de novembro de 2025

"Quieta" - Poema de Saúl Dias (Pseudónimo de Júlio Maria dos Reis Pereira)

Quieta


Passaste 
subtil 
na tarde quieta.

O ar anil 
ondulou… 
Como uma seta 
uma ave baixou 
da velha torre 
e pousou quieta.

Eu era o esteta 
procurando 
entre fórmulas mil 
o ancoradouro, a meta…

Inúteis tentativas!…

Tudo passou… 
Tudo queimou 
o tempo vil…

Só perdurou 
o ar anil 
da tarde quieta.


Saúl Dias,
in "Obra Poética", Portugália, 1962

(Pseudónimo de Júlio Maria dos Reis Pereira
 

segunda-feira, 12 de setembro de 2022

"Madrugada Camponesa" - Poema de Thiago de Mello


 
Jules Breton (French naturalist painter, 1827-1906), Les amies (Friends), 1873



Madrugada Camponesa



Madrugada camponesa,
faz escuro ainda no chão,
mas é preciso plantar.
A noite já foi mais noite,
a manhã já vai chegar.

Não vale mais a canção
feita de medo e arremedo
para enganar solidão.
Agora vale a verdade
cantada simples e sempre,
agora vale a alegria
que se constrói dia a dia
feita de canto e de pão.

Breve há de ser (sinto no ar)
tempo de trigo maduro.
Vai ser tempo de ceifar.
Já se levantam prodígios,
chuva azul no milharal,
estala em flor o feijão,
um leite novo minando
no meu longe seringal.

Madrugada da esperança
já é quase tempo de amor.
Colho um sol que arde no chão,
lavro a luz dentro da cana
minha alma no seu pendão.

Madrugada camponesa.
Faz escuro (já nem tanto),
vale a pena trabalhar.
Faz escuro, mas eu canto,
porque a manhã vai chegar.


Thiago de Mello,
in 'Faz escuro mas eu canto', 1966 



Jules Breton, Young woman in a field, 1889


Silêncio profundo!
Até o cantar dos grilos
está escondido nas rochas…


Matsuo Bashō
(Haicai / Haikai / Haiku)
Tradução de Casimiro de Brito

 

sábado, 20 de agosto de 2022

"O pão de cada dia" - Poema de Thiago de Mello


(The Blessing of the Wheats in Artois), 1857, Musée d'Orsay
 


O pão de cada dia


Que o pão encontre na boca
o abraço de uma canção
construída no trabalho.
Não a fome fatigada
de um suor que corre em vão.

Que o pão do dia não chegue
sabendo a travo de luta
e a troféu de humilhação.
Que seja a bênção da flor
festivamente colhida
por quem deu ajuda ao chão.

Mais do que flor, seja fruto
que maduro se oferece,
sempre ao alcance da mão.
Da minha e da tua mão.


Editora Global 

  

 
'Faz escuro mas eu canto', livro de poemas de Thiago de Mello publicado em 1965, é sempre lembrado por seu autor como seu livro mais querido. Faz Escuro mas Eu Canto resgata os contornos verdadeiros das coisas e das almas - o amor ferido, as cantigas de roda, o açude, a fome, os sem-terra, entre outros. Em sua obra, Thiago de Mello inspira coragem e esperança de dias melhores.
Com a instalação da ditadura militar no Brasil em 1964, os ventos para Thiago não foram nada favoráveis. Na ocasião em que esteve preso, deparou-se com um de seus versos escritos na cela: “Faz escuro mas eu canto/ Porque a manhã vai chegar”. Era o sinal de que sua luta incessante pelo respeito à vida humana encontrava eco e precisava ser levada adiante.
A presente edição de Faz escuro mas eu canto traz carinhoso depoimento de Pablo Neruda, de quem o poeta se tornaria amigo e com quem compartilharia momentos de alegria e de tensão durante o período em que esteve exilado no Chile. 
Escritos num momento em que o Brasil atravessava tempos sombrios, os poemas do livro são tingidos por um sopro renovador que encanta e acalenta o coração inquieto da humanidade. (Daqui)
 
In: Faz escuro mas eu canto, 1999, Bertrand Brasil, 17ª edição.

Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=189276 © Luso-Poemas
In: Faz escuro mas eu canto, 1999, Bertrand Brasil, 17ª edição.


Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=189276 © Luso-Poemas

segunda-feira, 6 de julho de 2020

"A minha vida é o mar o Abril a rua" - Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen


Max Liebermann, Rapazes na praia, 1898, Nova Pinacoteca, Munique
 


Poema


A minha vida é o mar o Abril a rua
O meu interior é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita

Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará

Não tenho explicações
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento

O quadrado da janela
O brilho verde de Vésper
O arco de oiro de Agosto
O arco de ceifeira sobre o campo
A indecisa mão do pedinte
São minha biografia e tornam-se o meu rosto

Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho
Não me peçam opiniões nem entrevistas

Não me perguntem datas nem moradas
De tudo quanto vejo me acrescento
E a hora da minha morte aflora lentamente
Cada dia preparada 


Jules Breton (1827–1906), Fishermen at Menton, 1878


Quantas vezes as ondas se encresparam
com meus suspiros! Quantas com meu pranto
se pararam com mágoa e me escutaram!

Luís de Camões, Écloga

sábado, 13 de junho de 2020

"Estes sítios!" - Poema de Almeida Garrett


Jules Breton, Landscape, Courrières, France, 1854


Estes sítios!



Olha bem estes sítios queridos,
Vê-os bem neste olhar derradeiro...
Ai!, o negro dos montes erguidos,
Ai!, o verde do triste pinheiro!
Que saudades que deles teremos ...
Que saudade!, ai, amor, que saudade!
Pois não sentes, neste ar que bebemos,
No acre cheiro da agreste ramagem,
Estar-se alma a tragar liberdade
E a crescer de inocência e vigor!
Oh!, aqui, aqui só se engrinalda
Da pureza da rosa selvagem,
E contente aqui só vive Amor.
O ar queimado das salas lhe escalda
De suas asas o níveo candor,
E na frente arrugada lhe cresta
A inocência infantil do pudor.
E oh!, deixar tais delícias como esta!
E trocar este céu de ventura
Pelo inferno da escrava cidade!
Vender alma e razão à impostura,
Ir saudar a mentira em sua corte,
Ajoelhar em seu trono à vaidade,
Ter de rir nas angústias da morte,
Chamar vida ao terror da verdade...
Ai!, não, não... nossa vida acabou,
Nossa vida aqui toda ficou.
Diz-lhe adeus neste olhar derradeiro,
Dize à sombra dos montes erguidos,
Dize-o ao verde do triste pinheiro,
Dize-o a todos os sítios queridos
Desta ruda, feroz soledade,
Paraíso onde livres vivemos...
Oh!, saudades que dele teremos,
Que saudade!, ai, amor, que saudade!


Almeida Garrett,
in 'Folhas Caídas'


Jules Breton, The Departure for the Fields


"A palavra empolga, o exemplo ensina."


Joseph Joubert


Jules Breton, Washerwoman in Brittany, 1865


"O bom senso é saber o que se deve saber; o espírito é saber o que se deve pensar."

 
Jules Breton, A La Fontaine (At The Fountain), 1892


"É-me difícil deixar Paris porque vou-me separar dos meus amigos; e também me é difícil deixar o campo porque assim vou-me separar de mim mesmo."

Joseph Joubert,
in Pensées

Joseph Joubert foi um escritor e moralista francês nascido a 2 de maio de 1754, em Montignac-le-Comte, e falecido a 4 de maio de 1824, em Villeneuve-le-Roi. 
Estudou em Toulouse e exerceu o cargo de docente durante algum tempo, até que decidiu mudar-se para Paris.
Em Paris, conheceu Louis de Fontanes, de quem se tornou amigo inseparável, e Diderot, do qual se tornou secretário. 
Após cerca de dois anos em Paris, conheceu a mulher que iria servir-lhe de inspiração para se dedicar inteiramente à escrita, Mme. de Beaumont. Passado pouco tempo da morte desta, em 1803, Joubert desistiu da escrita e, a convite de Joseph de Bonald, passou a exercer o cargo de inspetor geral da Educação, que ocupou até à sua morte. (Daqui)
 
 

segunda-feira, 8 de junho de 2020

"Cantiga" - Poema de Bernardim Ribeiro



Jules Breton, Paysanne au Repos, 1873


Cantiga 


Não sou casado, senhora,
que ainda não dei a mão,
não casei o coração.

Antes que vos conhecesse,
sem errar contra vós nada,
uma só mão fiz casada,
sem que mais nisso metesse.
Dou-lhe que ela se perdesse!
solteiros e vossos são
os olhos e o coração.

Dizem que o bom casamento
se há de fazer de vontade.
Eu, a vós, a liberdade
vos dei, e o pensamento.
Nisto só me achei contento:
que, se a outrem dei a mão,
dei a vós o coração.

Como, senhora, vos vi,
sem palavras de presente
na alma vos recebi,
onde estareis para sempre,
não de palavra somente;
nem fiz mais que dar a mão,
guardando-vos o coração.

Casei-me com meu cuidado
e com vosso desejar.
Senhora, não sou casado,
não mo queirais acuitar!
que servir-vos e amar
me nasceu do coração
que tendes em vossa mão.

O casar não fez mudança
em meu antigo cuidado,
nem me negou a esperança
do galardão esperado.
Não me engeiteis por casado,
que, se a outra dei a mão,
a vós dei o coração.


Bernardim Ribeiro
Antologia Poesia de Amor,
organizada por José Régio e Alberto de Serpa


Jules Breton, The Song of the Lark, Oil on canvas, 1884


Felicidade


Os olhos do amado
Esqueceram-se nos teus,
Perdidos em sonho.

Helena Kolody
(Haicai)



Bernardim Ribeiro, marble sculpture by António Alberto Nunes, 1891
Museu de Évora, Portugal

 

Pouco se sabe com exatidão sobre a vida de Bernardim Ribeiro, poeta e novelista português. Colaborou no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, pertenceu à roda dos poetas palacianos como Sá de Miranda, Garcia de Resende e Gil Vicente. Esteve algum tempo em Itália, onde tomou contacto com as inovações literárias. 

Não se conseguiu ainda provar que este poeta Bernardim Ribeiro e um provável seu homónimo que frequentou, entre 1507 e 1511, a Universidade de Lisboa, e que em 1524 foi nomeado escrivão da câmara, fossem a mesma pessoa. Pela leitura da écloga Basto, de Sá de Miranda e escrita antes de 1544, verificamos que este autor se refere ao seu "bom Ribeiro amigo" como já falecido.

Considerando especulativas todas as referências sobre as datas e locais de nascimento, período de vida e morte de Bernardim Ribeiro, algumas alusões autobiográficas à "aldeia que chamam Torrão" e a um "monte" podem levar-nos a considerar que o autor era oriundo do Alto Alentejo, Vila do Torrão.

A sua obra resume-se a doze composições, insertas no Cancioneiro Geral, quatro éclogas, a sextina Ontem pôs-se o Sol e a novela Menina e Moça.

António José Saraiva e Óscar Lopes afirmam em História da Literatura Portuguesa: "Nesta parte versificada da obra de Bernardim Ribeiro - tanto as líricas do Cancioneiro Geral, como as Éclogas - encontramos alguns temas e lugares-comuns característicos daquele Cancioneiro.

Bernardim coisifica a Esperança, o Cuidado, a Mudança, o Tempo, o próprio eu convertido em objeto, ou mim. Combina-os, opõe-nos num jogo de extrema subtileza e de denso significado. A emoção como que se desentranha do sujeito, se objetifica em relação a ele, num desdobramento múltiplo da personalidade, que fica como que assistindo a esse jogo das coisas no qual se converte. O Eu contempla o Mim, o Cuidado, a Esperança, a Mudança que ele próprio foi ou está sendo. Na finura com que se exprime uma tal alienação psíquica, há uma dialética precursora da de Fernando Pessoa. (...) Outro aspeto que salta à vista nestas composições é um certo apego narcísico à dor, ou talvez melhor, uma vontade de viver a dor até ao fim, de a transcender, explorando-a".

Sob o título Trovas de dous pastores, foi feita, em 1536, a primeira impressão de uma écloga (a de Silvestre e Amador). Em 1554, na oficina do hebreu emigrado Abraão Usque, em Ferrara, são editadas as suas obras. Mais tarde, em 1557, conheceu-se uma nova edição, em Évora, da Menina e Moça, a qual terá sido continuada por outro autor que lhe deu nova redação e acrescentou novos capítulos.

Segundo o investigador Teixeira Rego, não é de recusar liminarmente a hipótese de que Bernardim Ribeiro fosse de origem hebraica. Na verdade, e ainda segundo o referido investigador, o estilo de queixume e lamentoso, mesmo algo bíblico, que encontramos nos primeiros capítulos da Menina e Moça, alguns termos utilizados pelo autor na obra referida, nomeadamente "transmatação" ou "transmigração" e algumas alusões a perseguições e cisões do povo hebraico, implícitas nas falas de uma personagem, podem ser indicadores positivos e atestantes desta hipótese.

 Por outro lado, e de acordo com a afirmação de Hélder Macedo, os textos benardinianos encerram "uma meditação mística pessimista... em torno do amor humano e da saudade". Analisando o seu conteúdo, podemos considerar que Menina e Moça tem um fundo autobiográfico e é, em certa medida, um "roman à clef", definições sugeridas pela recorrência de anagramas (palavras ou frases formadas com a transposição das letras de outras. Exemplo: "Natércia" é anagrama de "Caterina"), tal como Binmarder é de Bernardim, Aónia de Joana, Avalor de Álvaro, Arima de Maria e Donanfer de Fernando. (Daqui)


quarta-feira, 3 de julho de 2019

"Esperanças de um vão contentamento" - Poema de Marquesa de Alorna


Jules Breton (1827-1906), Young Women Going to a Procession, 1890 
 
 

Esperanças de um vão contentamento


Esperanças de um vão contentamento,
por meu mal tantos anos conservadas,
é tempo de perder-vos, já que ousadas
abusastes de um longo sofrimento.

Fugi; cá ficará meu pensamento
meditando nas horas malogradas,
e das tristes, presentes e passadas,
farei para as futuras argumento.

Já não me iludirá um doce engano,
que trocarei ligeiras fantasias
em pesadas razões do desengano.

E tu, sacra Virtude, que anuncias,
a quem te logra, o gosto soberano,
vem dominar o resto dos meus dias.


Marquesa de Alorna
(Leonor de Almeida Portugal),
in 'Antologia Poética'


Jules Breton (1827-1906), Le pardon de Kergoat en Quéménéven, 1891


"A fé é a mais elevada paixão de todos os homens."


(Søren Kierkegaard)

segunda-feira, 1 de julho de 2019

"Maio de minha Mãe" - Poema de Vitorino Nemésio


Jules Breton, La fête du grand père, 1864



Maio de minha Mãe


 O primeiro de Maio de minha Mãe
Não era social, mas de favas e giestas.
Uma cadeira de pau, flor dos dedos do Avô
— Polimento, esquadria, engrade, olhá-la ao longe —
Dava assento a Florália, o meu primeiro amor.

Já não se usa poesia descritiva,
Mas como hei de falar da Maromba de Maio
Ou, se era macho, do litro de vinho na sua mão?
O primeiro de Maio nas Ilhas, morno como uma rosa,
Algodoado de cúmulos, lento no mar e rapioqueiro
Como Baco em Camões,
Límpido de azeviche
E, afinal de contas, do ponto de vista proletário,
Mais de mãos na algibeira do que Lenine em Zurich.
(Porque foi por esta época: eu é que não sabia!)

A minha Maromba tinha barriga de palha como as massas
E a foice roçadoira da erva das cabras do Ribeiro
Que se pegou, esquecida, no banco do martelo de meu Avô
Cujas quedas iguais, gravíficas, profundas

Muito prego em cunhal deixaram,
Muita madeira emalhetaram,
Muita estrela atraíram ao bico da foice do Ribeiro
Nas noites de luar em que roçava erva às cabras.
Favas de Maio do meu tempo!
Havia poder popular
Nas mãos de minha mãe, que as descascava como flores
E flores eram de si, na flórea abada
Como se já guardassem flor de laranjeira e açaflor
Nas suas intenções de Maio 1918, para as depor
(Nem pensada sequer) na fronte à minha amada. 


Sapateia Açoriana, Andamento Holandês e Outros Poemas, 1938


domingo, 30 de junho de 2019

"Procissão" - Poema de António Lopes Ribeiro


 

Procissão


Tocam os sinos da torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.

Mesmo na frente, marchando a compasso,
De fardas novas, vem o solidó.
Quando o regente lhe acena com o braço,
Logo o trombone faz popó, popó.

Olha os bombeiros, tão bem alinhados!
Que se houver fogo vai tudo num fole.
Trazem ao ombro brilhantes machados,
E os capacetes rebrilham ao sol.

Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.

Olha os irmãos da nossa confraria!
Muito solenes nas opas vermelhas!
Ninguém supôs que nesta aldeia havia
Tantos bigodes e tais sobrancelhas!

Ai, que bonitos que vão os anjinhos!
Com que cuidado os vestiram em casa!
Um deles leva a coroa de espinhos.
E o mais pequeno perdeu uma asa!

Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Vai passando a procissão.

Pelas janelas, as mães e as filhas,
As colchas ricas, formando troféu.
E os lindos rostos, por trás das mantilhas,
Parecem anjos que vieram do Céu!

Com o calor, o Prior aflito.
E o povo ajoelha ao passar o andor.
Não há na aldeia nada mais bonito
Que estes passeios de Nosso Senhor!

Tocam os sinos na torre da igreja,
Há rosmaninho e alecrim pelo chão.
Na nossa aldeia que Deus a proteja!
Já passou a procissão.



João Villaret - "A Procissão", de António Lopes Ribeiro (RTP)
 


"Se a poesia não surgir tão naturalmente como as folhas de uma árvore, é melhor que não surja mesmo."



António Lopes Ribeiro (Daqui)

António Lopes Ribeiro, cineasta português, nasceu a 16 de abril de 1908, em Lisboa, e faleceu em abril de 1995. Estreou-se na crítica cinematográfica em 1925.
Com Chianca de Garcia, criou a revista Imagem, e mais tarde fundou e dirigiu Kino, bem como as duas séries de Animatógrafo.
Nas suas peças jornalísticas, mostrou-se desde muito cedo defensor do cinema sonoro.
Na realização, Lopes Ribeiro estreou-se em 1928 com o documentário Bailando ao Sol.
Grande parte da sua carreira, aliás, ao nível da curta-metragem, seria preenchida com produções de natureza documental, nas quais Lopes Ribeiro se tornaria uma espécie de cineasta do regime.
Mesmo em produções de outra natureza, como A Revolução de maio (1937) e Feitiço do Império (1940), a marca ideológica do Estado Novo permanece evidente. 
Em 1941, fundou as Produções António Lopes Ribeiro, que marcaram uma nova época no cinema português, na medida em que criaram condições consistentes para uma produção cinematográfica regular.
Assim, pôde Lopes Ribeiro rodar filmes dos mais conseguidos das décadas de 40 e 50 em Portugal, como a comédia O Pai Tirano (1941), protagonizada por Vasco Santana e Ribeirinho, Amor de Perdição (1943), com António Vilar e inspirado no romance homónimo de Camilo Castelo Branco, Frei Luís de Sousa (1950), uma adaptação do drama de Almeida Garrett protagonizada por Raul de Carvalho, João Villaret e Barreto Poeira, e O Primo Basílio (1959), inspirado na obra de Eça de Queiroz. 
As Produções A.L.R. estiveram ainda por trás da realização de películas bem conhecidas, como sejam Aniki-Bobó (1942), de Manoel de Oliveira, O Pátio das Cantigas (1942) e Camões (1946). 
Lopes Ribeiro foi também membro de diversos júris de festivais de cinema.
Entre 1961 e 1974, foi o apresentador, na RTP, do programa Museu de Cinema.
O último título que rodou foi a curta-metragem documental Dia de Portugal na Expo'70 (1970). 
Paralelamente à sua carreira de cineasta, foi empresário teatral (fundou em 1944, juntamente com o seu irmão Ribeirinho, a companhia Os Comediantes de Lisboa), poeta (compôs em 1956 a letra do famoso poema Procissão, declamado por João Villaret) e tradutor (em 1957, traduziu a peça Três Rapazes e Uma Rapariga, de Roger Ferdinand, protagonizada por Vasco Santana, Henrique Santana, João Perry e Raul Solnado).
Em 1984, surpreendeu o público português, quando surgiu como ator, interpretando um padre liberal na telenovela Chuva na Areia (1984), ao lado de Virgílio Teixeira, Mariana Rey Monteiro, Armando Cortez, José Viana, Carlos Wallenstein e Rogério Paulo. (daqui)


João Villaret  (Daqui)

João Villaret, ator e declamador de excecional talento nasceu a 10 de maio de 1913, em Lisboa, e faleceu a 21 de janeiro de 1961, na mesma cidade.
Depois de ter terminado o Liceu, dedicou-se ao teatro, tendo estado ligado à revitalização do teatro nacional.
Gradualmente, ganhou fama de declamador pelo que causou algum escândalo quando decidiu, em 1941, enveredar pelo teatro de revista, provando em êxitos sucessivos que era possível conciliar o género dramático e o de revista.
A mais popular de todas terá sido 'Tá Bem Ou Não 'Tá? (1947), onde popularizou o célebre Fado Falado, da autoria de Aníbal Nazaré e Nélson de Barros, que mais não era do que um recitativo sobre melodia de fado onde a letra em vez de ser cantada era declamada.
Este género de poesia ganhou enorme popularidade, especialmente depois de A Vida É Um Corridinho (1952) ou o famoso A Procissão (1956), da autoria de António Lopes Ribeiro, que viria, anos mais tarde a popularizar num seu programa televisivo.
Aliás, a poesia, especialmente a de Cesário Verde, era uma das suas grandes paixões, tendo ficado famosas as suas tertúlias no Café Brasileira do Rossio.
De entre as suas peças mais célebres, destacam-se A Recompensa (1937), de Ramada Curto, A Madrinha de Charley (1938), de Brandon Thomas, Leonor Teles (1939), Melodias de Lisboa (1955), da sua autoria, Não Faças Ondas (1956) e Esta Noite Choveu Prata (1959).
Das suas interpretações cinematográficas, destacam-se a sua personificação de D.João VI em Bocage (1936), um papel secundário, mas mordaz de mudo, em O Pai Tirano (1941), de Bobo, em Inês de Castro (1944), de D. João III, em Camões (1946) e aquela que terá sido a sua melhor interpretação de sempre em cinema, a de Telmo Pais, em Frei Luís de Sousa (1950).
O seu último papel foi o de Sebastião, em O Primo Basílio (1959). 
Doença prolongada obrigou-o a retirar-se dos palcos em 1960, tendo falecido no ano seguinte.
A sua morte causou manifestações de grande pesar em Lisboa, de tal forma que, durante muitos anos, os lisboetas celebraram o aniversário da sua morte com um recital de poemas no Cinema S. Jorge, onde a sua voz se ouvia num palco vazio iluminado apenas por um foco de luz.
Em sua homenagem, Raul Solnado fundou, em 1965, o Teatro Villaret. (daqui)


quarta-feira, 26 de junho de 2019

"Mãe, os meninos andam distraídos" - Poema de Maria do Rosário Pedreira


Jules Breton, Femme avec une bougie fine, 1873


Mãe, os meninos andam distraídos


Mãe, os meninos andam distraídos junto
ao rio e tu não queres saber de os perder.
Sentaste-te a pensar nesse homem que
apareceu e a desfolhar os malmequeres
da tua bata nova — e não viste que te
largaram a mão nem para onde fugiram
com a pressa do vento. Mãe, os meninos

saíram da tua beira para a beira do rio
e tu não queres saber de os chamar. Eles
estendem agora os braços pequeninos
para o sol que brilha sobre as águas
como um punhado de moedas que nunca

hão de ter — mas tu hoje só conheces
um nome nos teus lábios e nem sequer te
lembras que esse nome não é o que puseste
a nenhum deles. Mãe, os meninos

são tão pequenos e já vão tão longe que
a luz pode cegá-los para sempre. Andam
perdidos no rio há tanto tempo que será
tarde de mais quando gritarem por ti —
porque a ideia do amor é hoje muito maior
do que a voz deles. Mãe, se tu quiseres, eu

posso tomar conta dos meninos, sento-me
com eles na margem a desenhar o sol e
havemos de fazer horas para o teu sonho:
depois de tanta dor e tanto luto, eu não
vou deixar que percas os teus meninos
nem pedir-te que sejas viúva para sempre. 


Maria do Rosário Pedreira,
in 'Antologia Poética'


domingo, 23 de junho de 2019

"Profundamente" - Poema de Manuel Bandeira



Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegrias e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.

No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam errantes

Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?

- Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente.

Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?

- Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.


Manuel Bandeira,
“Estrela da Vida Inteira”