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domingo, 3 de setembro de 2023

"A agonia do castanheiro"- Poema de Guerra Junqueiro


Robert Bevan (British painter, draughtsman and lithographer, 1865–1925),
'The Chestnut Tree', 1916, Ashmolean Museum (Oxford, United Kingdom).


A agonia do castanheiro
(Fragmento)


Ao bisavô gigante
Ao grande castanheiro ancestral da floresta,
Vai chegar, vai chegar, o derradeiro instante!
Três séculos viveu, e um minuto lhe resta
De agonia!
O tronco inanimado e os braços cadavéricos
Já não sabem se é noite ou se alvorece o dia!..
Já não vêem da luz os êxtases quiméricos.
Já não ouvem do Imenso a vaga sinfonia!
É cega, é surda, é muda a árvore que outrora
Quis, titânica, erguer-se aos astros imortais
Já desfeita, a raiz profunda, não devora,
Já o oiro vibrante e elétrico da aurora
Não lhe acorda a nudez dos braços espectrais!
Mas da velha raiz, defunta e carcomida,
No extremo nódulo da vida,
Uma célula existe, a última e a primeira,
Onde a alma, a tremer d'assombro, espavorida,
Anseia no estertor da crise derradeira.
É o átomo divino, a misteriosa essência,
Donde o corpo brotou com atlético ardor,
E, que extinta essa forma, essa breve aparência,
Volve ao abismo da existência,
Eternamente criador.
Oh instante supremo!... oh angústia! ... oh tortura!...
Oh vertigens de sonho!... oh noite! ... oh podridão!
Todo o infinito opaco à volta lhe murmura…
E entre névoas de dor, de terror, de loucura,
Ergue-se do passado a umbrática visão!

Memórias vagas:

Foi semente,
Embrião de monstro, alma latente
Na terra negra a germinar,
E, aspirando num sonho obscuro, vagamente,
Ao infinito, à vida, à luz vermelha, ao ar!...
Oh êxtase do ser!... frémito d'alva!... quando,
A radícula ingénua e débil mergulhando
No húmus tenebroso e surdo e criador,
Abriu à luz, recém-nascida, palpitando,
Duas folhinhas unitrémulas, sem cor!...
Vida!... deslumbramento!
Sonho fluido!... mistério!... esplendor! esplendor!

1894
  
Guerra Junqueiro
(1850-1923), in "Poesias dispersas",
Porto, Livraria Chardron, de Lélo & irmão, L.da, 1920.

 

Robert Bevan, Landscape in the Blackdown Hills, Devon, 1917.
 
 
"Em tudo o que alvorece há um sorriso de esperança."
 
Guerra Junqueiro, in "Poesias dispersas‎" - Página 21
 Publicado por Livraria Chardron, de Lélo & irmão, L.da, 1920
 
 

sábado, 10 de março de 2012

"A Fermosura desta fresca Serra" - Soneto de Luís de Camões



A Fermosura desta fresca Serra


A fermosura desta fresca serra
E a sombra dos verdes castanheiros,
O manso caminhar destes ribeiros,
Donde toda a tristeza se desterra;

O rouco som do mar, a estranha terra,
O esconder do Sol pelos outeiros,
O recolher dos gados derradeiros,
Das nuvens pelo ar a branda guerra;

Enfim, tudo o que a rara natureza
Com tanta variedade nos of’rece,
Me está, se não te vejo, magoando.

Sem ti, tudo me enoja e me aborrece;
Sem ti, perpetuamente estou passando,
Nas mores alegrias, mor tristeza.




Ouriço de castanha
 

O castanheiro


Castanheiro, castanheira, castanheiro-bravo, castanheira-portuguesa (no Brasil), castinheiro ou castiro (na Galiza) (Castanea sativa) é uma árvore de grande porte, muito abundante no interior norte e centro de Portugal, cujo fruto (ouriço) contém a castanha, que formou, juntamente com o trigo, cevada e centeio, a base da alimentação em Portugal até ao século XVII. No sul é rara, apenas aparecendo em áreas muito elevadas como a Serra de São Mamede (Marvão).

O castanheiro produz também madeira de excelente qualidade, o castanho, muito usada no passado na construção em Portugal, nomeadamente na região norte do país. É ainda hoje muito utilizada em mobília e decoração interior. Desde tempos remotos que é conhecida na Península Ibérica.

Alberto Sampaio, referindo-se à alimentação do camponês nortenho na Idade Média, diz: «Os frutos, sobretudo as castanhas, encontravam-se num dia ou noutro na mesa do lavrador». As castanhas menores e tocadas pelos bichos serviam de ração para porcos. A partir da Idade Média, a introdução do pinheiro-bravo (Pinus pinaster) foi um dos grandes responsáveis pelo recuo desta espécie, bem como do carvalho. Mais tarde, a introdução do milho e da batata fizeram a castanha perder a importância que tinha na alimentação da população.

Hoje, a castanha está intimamente ligada às comemorações de São Martinho e ao Magusto, sendo consumida durante o outono, normalmente assada ou cozida. Apesar de a planta se encontrar em declínio, devido à concorrência de outras espécies florestais, à doença da tinta e ao abandono dos campos, o seu fruto ainda é uma exportação agrícola portuguesa importante (aproximadamente 4% da produção mundial). (daqui)


Castanheiro com frutos


Ramos de castanheiro com frutos


Ouriço de castanha


Castanhas


Castanhas assadas, o elemento central do magusto.


Magusto


Magusto é uma festa popular, cujas formas de celebração divergem um pouco consoante as tradições regionais. Grupos de amigos e famílias juntam-se à volta de uma fogueira onde se assam castanhas ou bolotas para comer, bebe-se a jeropiga, água-pé ou vinho novo, fazem-se brincadeiras, as pessoas enfarruscam-se com as cinzas, cantam-se cantigas. O magusto realiza-se em datas festivas: no dia de São Simão, no dia de Todos-os-Santos ou no dia São Martinho. Inúmeras celebrações ocorrem não só por Portugal inteiro mas também na Galiza (onde se chama magosto, em galego) e nas Astúrias
Na Aldeia Viçosa o "Magusto da Velha" é uma tradição local. 

Leite de Vasconcelos considerava o magusto como o vestígio de um antigo sacrifício em honra dos mortos e refere que em Barqueiros era tradição preparar, à meia-noite, uma mesa com castanhas para os mortos da família irem comer; ninguém mais tocava nas castanhas porque se dizia que estavam “babadas dos defuntos”

A celebração do magusto está associada a uma lenda, a qual dizia que um soldado romano de nome Martinho de Tours (mais tarde conhecido como São Martinho), ao passar a cavalo por um mendigo quase nu, como não tinha nada para lhe dar, cortou a sua capa ao meio com a sua espada; estava um dia chuvoso e diz-se que, neste preciso momento, parou de chover, derivando daí a expressão: "Verão de São Martinho"(daqui)


São Martinho de Tours no Mosteiro de Tibães, Braga, Portugal.


"Para conhecermos os amigos é necessário passar pelo sucesso e pela desgraça.
No sucesso, verificamos a quantidade e, na desgraça, a qualidade." 


Confúcio
[Pensador, professor e filósofo chinês, 551 a.C. – 479 a.C.]